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Gabinete de Guerra, Rádio Observador. Neste programa fazemos o ponto de situação dos conflitos na Ucrânia e também no Médio Oriente. Hoje recebemos o especialista em Relações Internacionais, Miguel Baumgartner. E vamos começar com a situação entre a Rússia e a Ucrânia, principalmente porque há esta notícia que nos chega da Rússia. Miguel Baumgartner, muito boa tarde. O ministro dos Transportes russo foi demitido esta manhã e foi encontrado horas depois morto. O comitê de investigação russo aponta para um caso de suicídio, diz que esta é a principal teoria, mas que vai investigar. Como é que vê esta situação? De facto, já sabemos que há altas patentes russas que de tempos a tempos vão sendo encontradas mortas, muitas vezes caindo de janelas de alguns edifícios, mas neste caso temos um ministro demitido de manhã e encontrado morto ao início da tarde.

Olá Miguel e obrigado pelo vosso convite. Efetivamente, são coisas curiosas que acontecem na Rússia, mas também é verdade que nós não nos podemos esquecer de que Vladimir Putin tem uma escola que ele adquiriu na altura da Alemanha, da República Democrática Alemã, quando esteve a estagiar na Stasi e, portanto, o que nós temos visto e temos assistido, aquilo que acontece muitas vezes na Rússia, era muito o que acontecia no tempo do antigo Império Soviético, nomeadamente, era uma política comum daquilo que a Stasi fazia na Alemanha, que eram efetivamente os opositores do regime, tinham uma quantidade de acidentes e por vezes cometiam suicídio quando não se sentiam confortáveis. E portanto, isto parece duas coisas. Acima de tudo, isto manda uma mensagem para o interior do país. Não é tanto uma mensagem para o exterior, até porque não teria grande efeito, mas é uma mensagem para o interior. É uma mensagem de que Vladimir Putin não está disposto absolutamente a ceder um milímetro a qualquer tipo que seja de reivindicação, opinião diferente ou uma tentativa de reformar o regime. Há uns meses atrás havia alguns boatos ou até se falava um pouco de que poderia haver a possibilidade de uma certa ala mais cosmopolita, digamos assim, que poderia de alguma forma fazer frente, nomeadamente a partir do momento em que se chegou na guerra da Ucrânia a um certo impasse, quer impasse militar, quer impasse negocial. Mas isso não parece que vá acontecer e parece que Putin tem o jogo controlado. E isto é efetivamente uma forma, partindo do princípio que isto é efetivamente o regime a mandar essa mensagem, portanto, estamos a fazer essa análise, é mandar uma mensagem de que Putin não está disposto, nem vai permitir qualquer tipo de veleidade a qualquer opositor ou qualquer pessoa que possa de alguma forma dar uma informação diferente.

Sendo que Peskov, o porta-voz do Kremlin, desmente qualquer tipo de perda de confiança neste ministro. Diz que Vladimir Putin considera extremamente importante esta pasta e que é preciso ter alguém que consegue cumprir as tarefas e as funções e que isso não estava a acontecer. Pelo menos essa é a posição oficial do Kremlin perante este incidente. Vamos seguir aqui com outros aspectos deste conflito, também do impacto que vai tendo este conflito na restante Europa, porque a Polónia tem vindo a pedir um controle de fronteiras, para alargar o controle de fronteiras, algo que na Europa caiu de certa forma em desuso também com a criação do espaço Schengen. A Polónia está muito preocupada com isto, pede o retorno do controle de fronteiras e aponta principalmente para uma imigração irregular por causa da Rússia e da Bielorrússia. De facto, estas questões levantadas pela Polónia podem levar a Europa a apertar as regras de circulação?

É um retrocesso enorme para aquilo que é o projeto europeu. Repare que efetivamente a Europa tem este propósito que era da livre circulação de pessoas e bens, e portanto, era um pouco isso que a Europa advogava e advogava sempre. E agora veja-se que esta situação da Polónia é efetivamente um retrocesso, é um retrocesso ao acordo Schengen. Mas não é novo. Nós já tivemos a Áustria a fazer a mesma coisa, nós já tivemos a Hungria a fazer igual, a Eslováquia, a própria Alemanha durante algum tempo fez também. O que é que há efetivamente noção por parte da Europa e de alguns Estados europeus? É que houve efetivamente um descontrole. Isto não é um facto direto a uma nacionalidade ou outra, mas é efetivamente ter-se noção de que não houve um controle efetivo por parte desses países no controle de entrada da imigração. Mas é também uma resposta no sentido de que os Estados querem ter um pouco mais de controle em termos de segurança no seu próprio país. E como estão dependentes deste acordo, quer o acordo Schengen, mas também o próprio fundamento que nos baseia na União Europeia, porque veja-se que há países que pertencem à União Europeia, mas depois não pertencem ao acordo Schengen. Era o caso, por exemplo, quer da Dinamarca, quer mesmo do Reino Unido, quando o Reino Unido pertencia à União Europeia, que não estão imbuídos deste espírito de Schengen, mas de alguma forma há esta livre circulação. E, portanto, a ideia, e nomeadamente a Polónia, que a Polónia é o país quase estanque entre aquilo que é a guerra da Ucrânia e o restante da Europa, portanto, quer fazer essa limitação e quer fazer esse controle. Da mesma forma que tomou uma decisão de chegar quase aos 4,7% em termos de investimento militar, muito além daquilo que a Europa está disposta a chegar, apesar da imposição dos 5% por parte do Donald Trump, mas no sentido de inclusive colocar estes 4,7 na sua própria Constituição. É porque tem a certeza, até por uma questão histórica, nós não nos podemos esquecer como a Polónia foi invadida, quer na Segunda Guerra Mundial, quer depois controlada Pela União Soviética e tem esta necessidade histórica e cultural de se defender. E tem uma coisa que me parece que falta a outros líderes europeus: tem consciência de que Vladimir Putin não vai ceder a nada em nenhuma das negociações e que tem estas linhas vermelhas das quais não vai ceder. É melhor pra Europa manter a guerra na frente ucraniana do que deixá-la chegar à frente da Polônia. Uma Polônia reforçada, quer em termos de segurança, limitando as suas fronteiras, quer também em termos militares, reforçando-se nessa capacidade de dissuasão, é efetivamente algo importante.

Apesar disso, há hoje uma entrevista interessante do ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia ao jornal húngaro "Magyar Nemzet", em que fala sobre esta questão da guerra poder escalar pra lá da Ucrânia. Diz esse ministro dos Negócios Estrangeiros russo que quem fala em planos da Rússia pra atacar a Europa deve saber mais do que os próprios russos. Diz que é um mito essa ameaça russa e diz que serve para tentar desviar a atenção dos vários problemas da Europa. Está também Lavrov aqui a tentar criar essa teoria do mito da possibilidade da Rússia avançar pra outros territórios, como tem sido dito desde o início deste conflito na Ucrânia?

Eu acho que isso é a propaganda, e a propaganda naquela ideia de passar um pouco aquilo que é sempre o espírito russo, que é dar a ideia de que são umas vítimas e que estão a proteger e que tudo o que fizeram foi simplesmente defender a Rússia. Agora, há aqui pontos importantes que não sendo escalada de guerra, não sendo intervenção, há pontos importantes que nos têm que deixar preocupados, que são: primeiro, a nova posição daquilo que é a Polônia com a nova presidência. Nós vamos ter um presidente que é muito mais eurocético e muito mais pró-russo e que tem grandes questões e grandes interrogações sobre o apoio à Ucrânia. Temos a Hungria e temos a Eslováquia, portanto, temos Orbán e temos Fico, que são efetivamente contra este apoio à Ucrânia e são a favor de uma abertura de negociação à Rússia, nomeadamente com o levantamento de algumas sanções, e continuam a fazer negócios com a Rússia. Mas também temos depois, cá embaixo, quer na Bulgária, quer na Romênia, dois focos de comunidades russófilas e que continuam a ter uma sensação de pertença àquilo que era o grande Pacto de Varsóvia e a grande União Soviética. E vamos ter daqui a muito pouco tempo eleições legislativas na Romênia. E a Romênia em termos constitucionais é muito parecida com Portugal, ou seja, o presidente não governa. O presidente que há cerca de um mês atrás foi eleito é pró-europeu, mas não governa e quem governa é o governo através da Assembleia da República. E aí as sondagens não são nada positivas pra Europa. São partidos de extrema-direita, radicais, muito pró-russos e completamente contra o apoio à Ucrânia. Dizendo isto pra quê? Dizendo que nós não precisamos de ter focos de guerra alastrados, porque não acredito que venhamos a ter, mas teremos focos de distúrbio político e econômico dentro da União Europeia que vão, efetivamente, se não forem contidos, se não forem combatidos por parte da União Europeia, trazer essa instabilidade. Fazendo com o quê? Fazendo com que os 27 não tenham uma voz forte comum, fazendo com que os 27 não sejam capazes de impor sanções à Rússia que realmente pudessem servir de garrote à economia russa, que os obrigassem a negociar de uma forma diferente e depois, politicamente muito enfraquecidos. E depois, eu vou utilizar esta expressão para os nossos ouvintes entenderem lá em casa, à mesa dos adultos da política não se conseguem sentar, porque não conseguem ter uma voz forte em uníssono.

Vamos falar aqui do outro conflito, a questão no Médio Oriente, principalmente na Faixa de Gaza, até porque hoje há uma reunião importante em Washington, Trump e Netanyahu a discutir o cessar-fogo, esse entendimento para cessar-fogo que já terá sido aceito até pelo Hamas e que Israel também está inclinado a aceitar. É, de facto, um encontro importante que pode levar a esse cessar-fogo tão desejado na Faixa de Gaza?

Eu espero que sim. Eu espero que seja efetivamente um cessar-fogo que seja aceito por ambas as partes e que seja efetivado, acima de tudo, para permitir que haja a abertura quer dos corredores humanitários, quer efetivamente deste completamente inaceitável que tem sido este ataque por parte de Israel à Palestina, porque chegou a um momento em que militarmente não é mais justificável. Creio que Donald Trump tem aqui uma posição importante e creio que hoje a ida de Netanyahu possa efetivamente trazer-nos essa boa notícia. Agora, a ida de Netanyahu não é só sobre a questão da Palestina, sendo que a questão da Palestina é essencial para a paz do Médio Oriente, mas é acima de tudo também duas coisas: Netanyahu tem um poder extraordinário sobre os Estados Unidos e tem uma capacidade de manter sempre os Estados Unidos próximos da posição de Israel e como apoiantes de Israel, mas ao mesmo tempo Donald Trump tem que dar um cartão amarelo a Netanyahu dizendo duas coisas: dizendo que os Estados Unidos precisam, por uma questão de negócios e por uma questão daquilo que são os interesses econômicos no Golfo, nomeadamente através das monarquias do Golfo, que precisam de estabilidade naquela região Em segundo lugar, dizer a Israel que não pode mais ter essa capacidade de confrontação, nomeadamente com o Irão, sem ter o beneplácito por parte dos Estados Unidos. Veja-se que o ataque que os Estados Unidos desferem contra o Irão, que dizem que era pra dizimar todo o projeto nuclear iraniano, não foi mais do que uma ação para parar de vez aquele ataque, quase como se fosse um ponto final para que Israel pudesse baixar esse conflito, para que se pudesse baixar um pouco a poeira, para que se encontrasse um denominador comum. Para Donald Trump, o que ele quer, nomeadamente naquela região, é manter essa capacidade negocial de fazer os negócios para os Estados Unidos. É uma questão econômica. Relembre-se, Miguel, aquilo que há cerca de um mês nós tivemos a visita de Donald Trump, quer aos Emirados Árabes Unidos, quer à Arábia Saudita, com aqueles grandes negócios e a assinatura daqueles contratos bilionários. É esse o interesse americano no Golfo. Israel aproveita-se desse interesse para manter o apoio militar que precisa por parte dos Estados Unidos, a possibilidade de alargar os Acordos de Abraão, que é a grande vitória do primeiro governo de Donald Trump, permitindo efetivamente descalar a situação militar. Mas permite-me fazer esta análise, eu estou com a ideia de que até o final do verão, nós veremos novamente o ataque americano e o ataque israelita. Poderá ser muito cirúrgico, mas teremos novamente um ataque ao Irão para enfraquecer um pouco mais o regime e para dar mais uma amostra de que efetivamente os americanos não vão permitir nenhuma veleidade, porque querem manter paz naquela parte do globo, não querem o preço do crude aumentado e portanto, protegendo o Israel, protegem também os seus interesses econômicos.

Miguel Baumgartner, especialista em Relações Internacionais, muito obrigado por ter estado esta tarde aqui na Rádio Rafa.

É um gosto.