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Está no ar o Gabinete Guerra das manhãs 360, hoje com a análise de Jorge Rodrigues, oficial das Forças Armadas e coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Bom dia, bem-vindo.
Bom dia, Maria João.
Bom dia. Começamos pelo Médio Oriente, depois do Egito dizer que tem estado a trabalhar com Donald Trump para um cessar-fogo em Gaza e ter apresentado ontem o plano às autoridades israelitas. Netanyahu diz que tem feito muitas coisas, estou a citar, para chegar a um acordo com o Hamas, mas que o grupo palestiniano insiste no fim absoluto da guerra. Jorge, o que a futura administração de Trump pode fazer em relação a isso, sobretudo quando ainda existem reféns por libertar?
Ora bem, pode fazer muita coisa. Uma entrada de um novo ator traz sempre algo de novo, mas a verdade é que, de alguma forma, já temos visto aqui uma certa evolução, parece até uma competição de administrações nos dois teatros, seja aqui em Gaza, seja na Ucrânia. Não é propriamente normal, mas de alguma forma Biden sente alguma liberdade de ação. Um pouco surpreendente, é certo, mas a verdade é que consegue ser eficaz neste final de mandato. O apoio do Egito também não é despiciendo, de alguma forma, também ele um pouco surpreendente, até porque Al-Sisi está muito ligado a Trump. O Egito sempre esteve, mas a verdade é que há aqui uma relação muito próxima entre os dois e relembro até o caso dos 10 milhões de dólares que Al-Sisi fez chegar à campanha de Trump em 2016, na campanha do primeiro mandato. Portanto, surge aqui um pouco estranho que realmente tenha este empenho agora nesta fase, ainda com Biden. Mas a verdade é que o cessar-fogo, apesar de ser uma conquista, pode ser efémero, pode ser inclusivamente para reorganização, para pausa operacional, uma pausa política, um novo passo. Qualquer coisa pode estragar, provocações vai haver muitas, depende do implemento operacional que venha a ser feito e até erros no terreno a nível tático, um comandante tático que possa cometer algum tipo de erro. O Netanyahu já falou inclusivamente numa guerra intensa em caso de violação, para deixar bem claro qual seria a resposta em caso de surgir qualquer tipo de ação por parte do Hezbollah ou outro elemento do Líbano. De qualquer maneira, Trump terá sempre aqui uma certa margem. O acordo de paz no Líbano é de certo modo aceito pela coligação israelita, porque verdadeiramente não contraria nada de essencial para o que têm definido para a região, portanto de alguma forma não contraria a linha da estratégia que têm definida, mas em Gaza já não será assim. O Hamas não terá nada a perder e Trump terá definitivamente o regresso aos Acordos de Abraham algo complicados. Por outro lado, Netanyahu, se quer o apoio de Trump, terá que resolver rapidamente o conflito. Trump já definiu bem a sua prioridade, a sua administração é bem clara na paz pela força para resolver os vários conflitos. A administração toda, e até o embaixador nomeado para Israel, é toda dirigida pró Israel, mas a verdade é que, até por características pessoais, quer uma resolução rápida e as guerras não se acabam num dia. De qualquer maneira, a redefinição do Médio Oriente que Trump pretende vai bater um bocadinho na realidade do terreno. Havendo margem, e respondendo agora finalmente à pergunta, havendo margem, terá sempre um longo caminho pela frente e não será tão fácil como ele pretende transmitir.
Entretanto, o líder dos houthis, alinhados com o Irão, pede ao Iémen e ao Iraque que aumentem a escalada contra Israel depois do cessar-fogo com o Hezbollah. Jorge Rodrigues, não há nada nem ninguém que consiga parar os houthis?
Os houthis estão exatamente na melhor posição, entre aspas, naturalmente. Estão um pouco mais protegidos, têm alguma liberdade de ação para liderar esta resistência, têm a capacidade efetiva de internacionalizar o conflito, dada a sua capacidade de intervenção em áreas importantes, como os estreitos pontos da região, como o Golfo de Bab-el-Mandeb, etc. Portanto, consegue de facto infligir. Por outro lado, a tentativa de evitar a escalada horizontal e vertical, mais uma vez falo sempre nisso, na região, acaba por lhes assegurar que as respostas são sempre de alguma forma limitadas. O eixo de resistência tem que manter uma pressão, de alguma forma, para conseguir manter algum tipo de intervenção regional. O Irão irá continuar a enviar armas, ainda há pouco tempo foram detetadas mais umas quantas na direção do West Bank. O enviar armas e conselheiros será sempre essa a linha e o eixo de resistência procurará sempre ter uma certa pressão, até inclusivamente para as negociações e, por outro lado, para evitar que dentro daquela linha de ataque israelita, bater por fases, o Irão nuclear, entre aspas, mais uma vez, não venha a ser o destino seguinte dessa fase de conflito. Portanto, há aqui uma tentativa de compensar este condicionamento pela força das armas que foi conseguido junto do Hezbollah, um dos mais fortes elementos, e portanto vai tentar com os vários Hezbollah do Iraque e da Síria, todos grupos que nada têm diretamente a ver com o Hezbollah do Líbano, mas com a denominação semelhante, e portanto com esses vários Hezbollah desenvolver algum tipo de ações concretas. O conflito está alargado em vários territórios, nomeadamente na Síria, com os ataques rebeldes contra Damasco, etc. Vamos esperar alguma Algumas ações, de facto, nos próximos tempos.
Do Médio Oriente para a guerra na Ucrânia, o Centro de Investigação da Bielorrússia revelou que, na primavera de 2022, dezenas de prisioneiros de guerra e civis ucranianos terão sido mantidos numa câmara de tortura na Bielorrússia por tropas russas. Jorge, o que pode a comunidade internacional fazer em relação a isto? E Lukashenko sai outra vez impune?
Ora bem, isto são demasiados casos de tortura comprovados. Realmente, aliás, um triste aniversário dos 75 anos das Convenções de Genebra de 1949. Uma altura tal a incapacidade demonstrada pela comunidade internacional. Nós sabemos que as guerras não são propriamente uma festa, um momento de convívio, portanto, já se espera que haja algum tipo de ações lamentáveis, mas a ética parece estar cada vez a evoluir num sentido mais negativo, quando de alguma forma se procura, através da legislação, encontrar um enquadramento que permita o bom tratamento ou um tratamento minimamente humano. A verdade é que depois, na prática, isso não acontece. São fatores psicológicos particularmente importantes e que nós já vimos noutras latitudes, inclusivamente envolvendo países bem mais responsáveis, e que Lukashenko estará sempre ligado de forma indélével a Putin. O seu destino será sempre semelhante. Sabe disso e não pode voltar para trás, portanto acaba por se expor a deixar acontecer um conjunto de ações no seu território, como foi a mobilização do armamento nuclear logo em 2022, e que portanto tem também algumas, seja forças de reserva, seja zonas de treino, ou seja estes lamentáveis campos de tortura, passo aqui o exagero, mas que a verdade acabam por o ligar definitivamente a tudo que venha a surgir do conflito.
Na Ucrânia e com temperaturas a rondar os zero graus, o sector da energia foi mais uma vez alvo de um ataque massivo por parte da Rússia, o que segundo a Amnistia Internacional constitui crime de guerra. O Ministério da Energia diz que pelo menos um milhão de pessoas ficou sem luz. Jorge Rodrigues, Putin vai destruir o mais que poder até à tomada de posse de Donald Trump.
É a linha que está a seguir. Putin tem identificado alguns momentos de pressão. Nem todos têm resultado, mas ele tem consciência e nisso há realmente uma estratégia muito eficaz de admissão das percepções em que ele aposta muito, pressionar a população, seja a população ocidental, seja a população ucraniana, que passará agora um momento em que a moral não é elevada e obviamente passar frio, e as temperaturas na Ucrânia descem bastante, passar frio nesta fase é muito complexo. Isso será sempre uma das vias prioritárias. Os avanços no terreno, apesar de existirem, não são tão eficazes como gostaria. Tem pouco tempo para conseguir pressionar. Sabe que com Trump haverá aqui uma alteração que poderá não ser tão favorável como inicialmente se referiu, dada a competição natural entre a Rússia e os Estados Unidos, e que portanto tem que ganhar posição para as negociações. E vai desenvolvê-la através de ataques complexos, desenvolver a guerra híbrida, dimensões no terreno, novas armas, armas mais vistosas, contra infraestruturas, contra instalações governamentais e outras, sabotagens da dimensão cyber e volto, e forte aposta na guerra da comunicação. Será sempre esta linha que vai desenvolver e que vai tentar agora fazer um forcing, seja a custos.
Em França, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros não respondeu se o país prenderia Putin caso este se deslocasse a solo francês. Depois acrescentou que não há imunidade para todos os que cometeram crimes, mas que este é um assunto complexo e que divide, inclusive, vários membros do Estatuto de Roma, que regula o funcionamento do Tribunal Penal Internacional. Jorge, como interpretar estas declarações que acabam por tirar força e importância à decisão do TPI? Quem se fica a rir é Putin.
É de facto muito complexo, Inês. É daqueles assuntos que realmente nós temos alguma dificuldade em compreender, mas depois o mundo real, o pragmatismo acaba por nos conduzir nesta direção. Mais uma vez relembro que comemoram 75 anos das Convenções de Genebra e a verdade é que continua a faltar aqui um regulador no sistema político internacional. Há uma incapacidade de impor a decisão dos diversos órgãos, como no caso concreto do TPI. Vários países não são membros, logo à partida, há novos atores pós-Westfalia, quero isto dizer, não Estados, portanto, novos atores que realmente não são logo abrangidos diretamente, o que tira eficácia e âmbito, tira inclusivamente a capacidade de ser motivador para um processo legal efetivo. Acabamos por estar perante uma justiça/política, em que a política, por muito cruel que isto surja, acaba por tomar a liderança da execução efetiva do que venha a ser decidido. Mas não é novidade, em boa verdade, já desde a Segunda Grande Guerra. Em Nuremberga, quem esteve sentado foram os derrotados. Portanto, normalmente ou são os derrotados ou são os fracos que são julgados. Repara, nos Balcãs já sentimos esse problema. E de alguma forma não será fácil de resolver para futuro, inclusivamente poderá fazer parte das negociações, eventualmente não do acordo escrito, mas de algo que é negociado fora dos holofotes e que determinará, obviamente, uma resolução pós-conflito para estas diversas entidades, atribuindo algum tipo de imunidade.
Jorge Rodrigues, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra. Bom fim de semana para si, Jorge.
Bom fim de semana, Inês. Até breve.
Obrigada.