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Está reunido o primeiro Gabinete de Guerra desta semana, na tarde em direto, neste dia 138 do conflito na Ucrânia. Contamos hoje com o major General Rodolfo Bacelar Begonha, numa altura em que a pausa operacional anunciada pela Rússia não se está, afinal, a verificar. Estamos apostos para essa análise, aqui também em estúdio, com a Judite França e a Vanessa Cruz.

Os bombardeamentos continuam e, do lado ucraniano, as autoridades estão a reunir um exército de 1 milhão de pessoas para recuperar os territórios ocupados pela Rússia no sul do país. Ao que parece, Ivanivka, na região de Kherson, precisamente no sul, já foi entretanto recuperada pela Ucrânia. Bem-vindo ao Gabinete de Guerra, major-general Rodolfo Bacelar Begonha. Que importância é que tem esta reconquista para o curso da guerra? E também esse exército que está a ser formado tem capacidade para ser bem-sucedido?

Muito boa tarde. Eu penso que continuamos a não saber bem que tipo de guerra vamos ter, porque o objetivo da propaganda russa é não informar do que se vai passar, onde é que quer ir, quais são os seus objetivos. Quer dizer, é na sequência da guerra que vão tomando decisões. Portanto, eu não sei se querem Kherson para ficar, em princípio, sim, ou se querem continuar, e para onde. Essa é que é a estratégia. Kherson é importante para aquilo que se pensa que a Rússia quer fazer e é natural que a Ucrânia também tenha a sua contra estratégia, sabendo mais ou menos o que é que se vai passar, monta o seu sistema para se defender daquilo que pensa que vai existir. Isso é só para dizer que, na realidade, o número de pessoas e o número de objetivos é fundamental para se preparar objetivos a atingir por parte da Rússia. É evidente que há uma grande diferença se a Rússia tem a fronteira imediatamente em cima dos acontecimentos e os outros não têm, e não têm aviação suficiente. É evidente que a diferença, a artilharia não tem suficiente, destrói as cidades todas e tem como técnica normal destruir as populações por onde vão entrar, independentemente se estão lá pessoas ou não, avise ou não avise, e continua. Estamos nessa situação. Eu não sei quais são os objetivos finais, só sei aquilo que tenho em frente, e mesmo assim com dificuldade de saber, porque tanto um lado como outro, é evidente, na guerra não querem dizer onde é que estão as suas posições, o que torna mais difícil a quem está de fora falar. Eu sei que com um certo cuidado estou a falar, mas estou com os elementos concretos que tenho à frente.

E não sabendo nós qual é que é a estratégia real de Vladimir Putin, como é que podemos interpretar esse aviso da pausa operacional na guerra e, ao mesmo tempo, a ameaça que ficou a pairar no ar nos últimos dias de que a operação a sério ainda não começou?

Nós pensamos, eu estou a pensar, evidentemente, como se fosse independentemente, com as regras que qualquer país tem. O que é que será pior para a Ucrânia? É evidente que é aquilo mais ou menos anunciado, que um dos objetivos seria não deixar acesso ao mar, não deixar nenhum porto, isto é, tornar a Ucrânia um país interno e não com acesso ao mar, o que é horrível para qualquer país do mundo. Estamos nesta situação, parece que é esse o objetivo mais ou menos final, ou médio. É natural que a Ucrânia queira defender essas posições futuras e impedir a Rússia de atingir essas posições futuras. E a Rússia está, com certeza, a tomar posições para bombardear, que é a sua técnica habitual, com todos os meios que tiver à sua disposição para depois poder ocupar. Daí estarmos à espera, infelizmente, uma guerra a continuar, a morrer uma quantidade de pessoas estupidamente, do meu ponto de vista. Claro que é o meu ponto de vista, é uma guerra estúpida, que não tem justificação nenhuma, nem tem sido dada essa justificação. A Rússia pode ter as justificações que entender se explicar, mas não se explicou e os chamados ocidentais, que são os perigosos inimigos, também não se percebe porque esses inimigos, no meu ponto de vista, não querem ocupar a Rússia, nem querem invadir a Rússia, nem ficar na Rússia, é evidente. É um estudo histórico, social, etc., que leva a Rússia a definir o seu inimigo e a fazer a sua invasão contra todas as regras internacionais, como se sabe. São aspetos positivos. Agora, deve haver justificações? Talvez. No sistema de propaganda russa não estão explicadas as posições de todo o mundo. Por isso as pessoas estão em algumas posições, outras têm posições económicas. Essas posições económicas dá para ter alguma defesa relativamente aos prejuízos que possam existir. Inclusive a Alemanha, por exemplo, está atrapalhada para saber se fica com gás ou se fica sem gás. São situações difíceis para qualquer país e estamos assim nesta posição difícil, a ver morrer pessoas. Tanto faz serem russos como não russos, eles não querem saber disso para nada. Objetivamente, não querem saber objetivamente. Pode ser que haja outras. É evidente que morrer pela pátria é ótimo, mas é preciso haver uma explicação para todos entendermos. Caso contrário, sabemos uma coisa: a Rússia tem objetivos a atingir e quer ficar com território terrestre e marítimo. Isso sabemos, mas é pouco Para saber e falar sobre o conjunto da operação.

Senhor Major-General, já que falou da questão do gás e da Alemanha, sabemos que as torneiras vão estar fechadas pelo menos durante 10 dias, com os trabalhos de manutenção que começaram hoje no Nord Stream 1. A Alemanha teme que mesmo depois disso, o corte venha para ficar. É expectável que a Rússia pondere fazê-lo, apesar de precisar de dinheiro para continuar a financiar a ofensiva?

A propaganda russa tem muitas notícias que são falsas e já nos habituou a isso. Eu não aceito. Há quem aceite, quem desvalorize, eu não aceito. Acho que é mau para a Rússia ter este projeto e essa posição. Não sabemos se são 10 dias ou não, em princípio são 10 dias, mas não sabemos se são ou se não, se altera no meio. É evidente que isso depende do conhecimento do negócio do gás e do petróleo e das suas implicações, que isso, evidentemente, a Rússia tem estado de certeza a estudar. E se for favorável à Rússia, avançará. Se não for favorável, terá que pensar. E isso é o que acontece, com certeza, não faço ideia, mas internamente na Rússia há muita gente que, face aos prejuízos que estão a existir para a Rússia, independentemente dos grandes prejuízos que vão estar para a Europa, em que nós vamos pagar um preço difícil, isso é um facto, a Rússia vai decidir se esses prejuízos para ela, nesta altura, são convenientes ou não. Esperemos que compreenda a posição, é só esperar.

Major-General Bacelar Boganha, também olhando aqui ainda para o terreno e para a possível entrada da Bielorrússia na guerra, é pelo menos isso que diz ao observador um representante da Ucrânia em Estrasburgo. Há essa preocupação. A expressão que ele utilizou foi mesmo: "Podemos não ter tropas suficientes". Isto parece aqui ganhar algum contorno de realidade?

Sob o ponto de vista de elementos, os elementos que temos é que a Rússia tem necessidade de recrutamento, está a fazê-lo, está a pagar uma porcentagem relativamente grande. Portanto, a Rússia tem necessidade de pessoas. Se estiver numa situação muito difícil, é evidente que pode ser que obrigue o outro país a entrar. Se eu estivesse nesse país, não queria entrar. E há muitos bielorrussos, com certeza, que não querem entrar na guerra, mas terão que entrar se realmente a Rússia forçar essa situação. Poderão entrar. Neste momento, deverão reservar-se até haver uma situação em que isso ceda. Como não há objetivamente essa situação, temos que esperar mais tempo para ver se haverá ou não haverá possibilidade da Ucrânia parar o avanço da Rússia. Se esse avanço for travado substancialmente, poderá ser que a Rússia peça mais reforços. A Ucrânia sabe isso, está a contar com isso. Se puder defender-se, vamos ver.

Senhor Major-General, só mesmo para terminar, que o nosso tempo está quase a chegar ao fim. Há uma sondagem que foi publicada ontem, que diz que 49% dos empresários com negócios na Ucrânia acreditam que a guerra termina no inverno. Acha isto possível ou é só pensamento positivo?

Não, possível há, porque os avanços russos não são muito fortes, não são rápidos, são normalmente lentos. Se há defesa, tem sempre vantagem em termos de locais no terreno. Tem defesa quando tem meios para se defender, quando não tem, é quem tiver a artilharia mais forte, quem tiver a aviação, etc, tem muito mais força. Por isso é que não posso saber quais são os meios que possam ser utilizados, mas se são a ser bastantes, vão ser bastantes. E portanto, é natural que se for uma guerra mais lenta, aliás, isso foi a própria NATO que avisou, o presidente ou os chefes, se quiserem, da NATO, na altura, que avisou que tínhamos que estar preparados, que a guerra podia demorar muito tempo. Foi claro nessa posição. Admitiu que houvesse dificuldades da Rússia grandes e, face a essa dificuldade, que o avanço fosse mais lento. E portanto, sendo assim, é natural que vá até o fim do ano, infelizmente para todos. Na minha opinião, para todos.

E é com pessimismo que terminamos este Gabinete de Guerra. Agradeço-lhe, Major-General Rodolfo Bacelar Bogonha, que estivemos aqui.

Obrigado, eu é que tenho a agradecer.

Muito obrigada. Estivemos aqui a olhar para estes desenvolvimentos no terreno e ficamos com esta ideia de que ninguém sabe aquilo que vai na cabeça de Vladimir Putin e qual é que é o rumo que esta guerra vai tomar. Mas há aqui também esta ameaça de que a Bielorrússia poderá vir a entrar no conflito se a Rússia assim o forçar.