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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Major-General Isidro Morais Pereira, a Rússia usou parte significativa do estoque de mísseis de longo alcance acumulado nos ataques recentes. O ponto de situação é feito pelo Reino Unido. Está a Rússia a perder armamento importante? Pode ter repercussões no terreno nas próximas semanas?
Poder, pode, mas tanto quanto eu consegui apurar, a Rússia ainda não esgotou esse estoque de mísseis que tem vindo a acumular nos últimos meses, porque nós, se bem nos recordamos, há meses a esta parte que a Rússia não utilizava de forma significativa os seus mísseis. Ia utilizando um ou outro míssil de cruzeiro Kalibr, lançado quer por submarinos, quer por navios de superfície do Mar Negro, mas de resto raramente estaria a utilizar mísseis. Utilizava preferencialmente drones fabricados no Irão da classe Shahed 131, 136. Penso que a Rússia ainda terá, não direi uma quantidade muito significativa de mísseis, mas ainda tem alguma capacidade para continuar a efetuar ataques como aqueles a que temos vindo a assistir. Ataques como o da última noite, significativos. Mas de qualquer maneira, não há estoques ilimitados. Eu penso que a Rússia, neste momento, está a aproveitar uma janela de oportunidade que se lhe deparou face à não aprovação do pacote de 61 bilhões de dólares nos Estados Unidos da América, que continua ainda por ser aprovado. E é natural que haja um hiato entre o fornecimento, porque estes 61 mil milhões de dólares ou bilhões de dólares, como queiramos, traduziam-se fundamentalmente em apoio em munições e armamento. Não é exatamente a mesma coisa que os 50 mil milhões da União Europeia, que são fundamentalmente verbas para fazer funcionar a economia e o aparato de Estado da Ucrânia. A Rússia poderá estar a aproveitar, a saturar a capacidade das defesas antiaéreas da Ucrânia, por forma a obrigá-la a utilizar todos os recursos em termos de mísseis, em termos de armamento antiaéreo que tem em estoque, aproveitando esta fragilidade para poder levar a cabo ataques com eficácia sobre as infraestruturas. Neste momento, não apenas como no ano passado. No ano passado, o objeto dos ataques por mísseis e drones que a Rússia levava a cabo praticamente todos os dias ou todas as semanas, que era um ciclo mais semanal do que propriamente diário, tinham por objetivo fundamentalmente destruir tudo aquilo que estava relacionado com o fornecimento de energia elétrica às populações, centros de transformação e centros de produção de energia. Neste momento, tudo indica que a Rússia tem feito um esforço de pesquisa, de informações para localizar todas as indústrias que neste momento começam a produzir na Ucrânia com alguma eficácia e ligadas ao renascer de um complexo militar industrial ucraniano. E parece-me que têm sido também esses os objetivos preferenciais dos ataques por mísseis da Rússia, para além de uma parte significativa dos ataques serem ataques indiscriminados à população, por forma a continuar aquela filosofia de ataques indiretos à população, por forma a fazer vergar a sua vontade de continuar a apoiar o esforço de guerra ucraniano e obrigá-los a sucumbir. Parece-me que é este o padrão a que iremos assistir ainda nos próximos dias, porque, na minha leitura, a Rússia ainda está longe de esgotar as reservas de mísseis que veio acumulando ao longo dos últimos meses.
Major-General Isidro Morais Pereira, e é neste contexto que a União Europeia anuncia sanções contra o maior produtor de diamantes russo. Isto vai mesmo privar Moscovo de uma importante fonte de receitas ou é mais uma daquelas medidas quase simbólicas?
Não me parece que seja uma medida completamente simbólica, mas também não tem a eficácia que nós poderíamos avançar que possa ter. Nós sabemos que as sanções económicas são sanções cujo efeito prático se faz sentir a médio e a longo prazo, e esta é mais uma delas. No fundo, é tentar drenar a economia russa de recursos, tentar fazê-la secar, por forma a que ela não tenha capacidade para continuar a apoiar o esforço de guerra da Federação Russa nesta guerra contra a Ucrânia. Muito mais eficaz do que esta medida poderá ser aprovar, por exemplo, o uso de ativos russos congelados para ajudar a Ucrânia. Nós sabemos que está em curso uma iniciativa, quer por parte dos Estados Unidos da América, quer também na Europa, por forma a adequar as legislações dos países que compõem a União Europeia e nos Estados Unidos, para que os ativos russos congelados, aquilo que temos em informação é que andam por volta dos 300 a 350 mil milhões de euros, possam ser confiscados e essas vultuosas verbas possam ser utilizadas no apoio militar e financeiro à Ucrânia. Esta medida faz parte do 12° pacote de sanções da União Europeia à Federação Russa, como nós sabemos. É evidente que no médio prazo e no longo prazo vai ter os seus efeitos, vai produzir os seus efeitos, mas no curto prazo não me parece que possa ter o efeito que teria, por exemplo, a aprovação dos ativos russos congelados para ajudar a Ucrânia, no sentido de os confiscar.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã, tem nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.