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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Bruno Cardoso Reis, Putin já está em Pequim, vai encontrar-se com Xi Jinping para tratar do conflito em Israel ou para reforçar o que lhe interessa, ou seja, o apoio de Pequim que lhe permita manter a guerra na Ucrânia?

Não me parece que Putin esteja muito interessado em resolver o conflito no Médio Oriente. Acho que as declarações da Rússia têm sido de um extremo cinismo e hipocrisia, mesmo para aquilo que já nos vamos habituando na política internacional. Um país que está a invadir outro, que está a cometer todo tipo de crimes de guerra, de repente aparece como o grande pacificador e o defensor dos civis no contexto de um conflito armado. Acho que ninguém dá muita credibilidade às posições que a Rússia tem assumido. Parece-me evidente que não, que Putin não vai a Pequim propriamente para discutir a paz no Médio Oriente. Obviamente vai discutir a guerra na Ucrânia e vai procurar extrair concessões, apoios, reforçar esta parceria estratégica com a China. A visita em si é importante, é um sinal de que a Rússia não está isolada. Na verdade, sabemos que está relativamente isolada. Esta é apenas a segunda viagem de Putin desde a questão do mandato do Tribunal Penal Internacional. Putin tem objetivamente dificuldade em deslocar-se até países onde os governos têm mostrado alguma compreensão com as posições da Rússia, como por exemplo a África do Sul ou até em certos aspectos o Brasil do Lula. Mas obviamente essa questão não se coloca na China. A China não subscreve, não é parte do Tribunal Penal Internacional. Um dos interesses convergentes entre a China e a Rússia é realmente tornar o mundo mais seguro para todo o tipo de autocracias e ditaduras. Há aqui interesses económicos convergentes, há uma longuíssima fronteira de mais de 2000 km. Há realmente muitos aspetos a explorar. Sabemos, por exemplo, que Putin gostaria de ver o reforço do investimento chinês na Rússia para compensar a saída do investimento ocidental. Gostaria de ver o reforço também das infraestruturas energéticas, por exemplo, gasodutos. Aí a China tem-se mostrado bastante prudente, bastante mais reservada do que seria certamente o desejo da Rússia. Há aí muitos aspetos concretos a tratar. Há a questão também da Ásia Central, onde a China tem estado a assumir uma influência crescente, aproveitando também esta perda de peso e a dificuldade da Rússia manter uma presença tão ativa por causa do enorme custo da invasão da Ucrânia. Tudo isso são aspetos que certamente serão discutidos. Mas acho que em termos diplomáticos, a visita em si já é um grande objetivo, ou seja, o facto de Putin ir a Pequim já é um grande objetivo nesta linha de permitir à propaganda russa dizer que a Rússia continua a ser uma grande potência, continua a ter amigos entre outras grandes potências e não está realmente isolada a nível global.

Entretanto, Bruno, o ministro das Finanças da Rússia diz que vão gastar perto de 600 milhões de euros num novo projeto para fabricar drones. Normalmente vêm da China, mas querem drones com o rótulo "made in Russia". É essencial hoje cada uma das partes ter a sua própria produção de material de guerra. A Ucrânia está a fazer o mesmo, isto tem a ver com o receio de faltar apoio mais tarde.

Sim, não é por acaso que mesmo países, por exemplo, como os Estados Unidos, com economias muito abertas, mesmo países europeus, mesmo na União Europeia, por exemplo, há uma exceção expressa nas regras que eram extremamente liberais e favoráveis ao mercado livre para as indústrias de defesa. Há esta ideia de que é muito importante que os Estados tenham alguma capacidade de se defender a si próprios, e isso inclui ter alguma capacidade de produção de armamento própria, não estarem completamente dependentes de importações de outros países. E vemos como isso é realmente importante. Quando é assim, de repente pode haver necessidade de um determinado sistema de armamento e ele não está disponível ou porque não é produzido em quantidade, ou porque o país que o produz não o quer vender. Isso é realmente muito importante para a autonomia estratégica dos países. No caso da Rússia, acho que isso reflete sobretudo e também porque a Rússia já tem uma enorme indústria de armamento, é até dos poucos setores, a par do da energia e da extração de minério, que está bastante desenvolvido na economia russa. Mas de facto a Rússia não investiu muito nesta questão dos drones, ao contrário de outros atores, por exemplo, os próprios Estados Unidos, países como a Turquia, como o Irão, com drones mais baratos, menos sofisticados, mas como se tem percebido, igualmente muito eficazes, sobretudo nesta relação entre custo e eficácia militar. Parece-me que isso corresponde a essa revisão de prioridades da Rússia. A Rússia, de facto, neste conflito revelou não ter capacidades suficientes a esse nível e até por isso teve de recorrer àqueles acordos com o Irão. Parece-me que esta decisão, no fundo, deixa isso claro, que a Rússia percebeu que era assim e que precisava de alterar isso.

O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador. Vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã e tem uma nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Maria João Simões.