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Está aberto o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Hoje conversamos com o Major-General João Vieira Borges. Eu sou o Miguel Cordeiro. Vamos começar pelo conflito entre Ucrânia e Rússia. Major-General João Vieira Borges, muito boa tarde. Vamos falar do envio de mísseis iranianos para a Rússia. A União Europeia condena veementemente esse envio, diz que é uma ameaça direta à segurança europeia. O que muda com estes mísseis iranianos agora a serviço da Rússia?
Muito boa tarde. O que é que mudou? Não é o que é que muda. Efetivamente, já mudou. E mudou o posicionamento dos aliados, neste caso dos Estados Unidos e do Reino Unido, e em geral do mundo ocidental, tendo em conta que esse apoio com mísseis balísticos à Rússia, para além daquilo que já era o apoio da Coreia do Norte, mas de outra dimensão e fundamentalmente com munições da artilharia, faz com que haja a reação da parte do Ocidente no sentido de apoiar também a Ucrânia com mísseis de longo alcance, no sentido de destruir esse tipo de mísseis, para além dos outros de longo alcance que a Rússia dispõe. Só assim a Ucrânia pode fazer combate em profundidade, porque sem combate em profundidade, ainda por cima sem qualquer superioridade aérea, a Ucrânia estava numa situação muito delicada. Este tem sido o argumento utilizado por Blinken como resposta ou como razão da resposta para o uso de mísseis de longo alcance da parte da Ucrânia.
É, de facto, um dos temas em destaque esta semana, esta questão dos mísseis de longo alcance para a Ucrânia e a possibilidade que isso tem também para as forças ucranianas de responder à Rússia. Enquanto o conflito avança no terreno, hoje foi anunciado por Volodymyr Zelensky o regresso de 49 presos de guerra à Ucrânia. É importante também para este esforço de guerra e para aquilo que é a motivação das forças ucranianas, saber que continuam esforços para conseguir recuperar presos de guerra retidos na Rússia.
Sim, é importantíssimo. Os prisioneiros de guerra para a Ucrânia, sobretudo porque a Rússia tem mais prisioneiros de guerra do que tem a Ucrânia, prisioneiros de guerra russos, era tão importante que foi um dos objetivos da própria operação militar especial de Kursk, porque logo nos primeiros dias fizeram prisioneiros mais de 500 militares russos.
Para poder servir de moeda de troca.
Porque efetivamente, nos nossos indicadores, havia mais de 3 mil prisioneiros ucranianos nas prisões russas, e a Ucrânia, para troca, já não tinha muitos militares russos. E essa operação atingiu esse objetivo e, portanto, é uma demonstração de que foi importante a operação, não só nesse sentido. O grande objetivo, como disse Zelensky, era criar uma zona tampão, da mesma maneira que a Rússia queria criar no interior do território ucraniano a zona tampão, para proteção dos bombardeamentos às cidades e, por outro lado, uma demonstração de poder, para ganhar poder negocial. E por outro lado, também em termos de negociação, torna-se muito importante aquela conquista na região de Kursk. Não é bem uma conquista, é uma operação militar especial para garantir território, não para ocupar território como faz a Rússia na Ucrânia.
Falemos também um pouco do Médio Oriente, até porque há declarações do líder do Hamas. Sinwar promete lutar até que a ocupação seja derrotada, uma frase que vamos ouvindo desde o início deste conflito ou desta fase do conflito. Acontece este tipo de declarações ao mesmo tempo que vamos falando, e falámos isso ao longo desta semana também aqui no Gabinete de Guerra, intenções de cessar-fogo. Frases destas não levam a um cenário de cessar-fogo nas proximidades.
Estas palavras do líder do Hamas foram importantes porque é só a segunda vez que ele tem uma intervenção e curiosamente depois da "tomada de posse", entre aspas, como líder do Hamas. A primeira para elogiar uma líder que tinha tomado posse e agora foi para dizer que obviamente-- eu julgo que a declaração no seu conjunto visa referir, sobretudo, é uma linguagem cuidada, o estabelecimento de um novo Estado independente, totalmente soberano e tendo Jerusalém como a sua capital. Ponto. Ele não disse que não aceitava o Estado de Israel, portanto, teve uma linguagem cuidada. Em simultâneo, isto é importante, o Hamas negociou esta semana. E negociou com o Egito e com o Qatar, negociação essa que foi pública, no sentido de ir ao encontro daquilo que, e eles dizem isso em todos os sites árabes, no sentido de ir ao encontro daquilo que foi a proposta original de Biden, que foi a Conselho de Segurança das Nações Unidas, e que não aceitam outras condições, designadamente aquelas situações que têm sido impostas por Netanyahu no que respeita ao corredor de Filadélfia. Portanto, isto não foi por acaso. Também serviu para agradecer o Hezbollah pela sua intervenção, mas, por outro lado, a mensagem deu a perceber que estava coerente com as negociações de cessar-fogo, em que, pelos vistos, eles continuam É claro que eles também não dizem uma coisa que o próprio Qatar e o Egito vão dizendo: é que também relativamente à troca de prisioneiros, o Hamas impõe troca de prisioneiros das mulheres, crianças, homens e idosos pelos piores terroristas do Hamas, que são aqueles que têm penas perpétuas. O que dificulta todo o processo de negociação. Mas isso o Hamas nunca diz também. Portanto, temos que ver a situação dos dois lados.
E continuamos a falar do panorama diplomático, porque a Al Jazeera está a divulgar excertos de uma entrevista a António Guterres, o líder da ONU, e já esta tarde divulgou um excerto em que Guterres diz: "O Conselho de Segurança da ONU tem falhado sistematicamente na capacidade de pôr fim aos conflitos". E fala de vários conflitos, não só Gaza, mas também fala aqui do Sudão, fala da Ucrânia. Como é que vê esta frase de Guterres? Está claro a sinalizar aquilo que temos comentado ao longo de todos os últimos meses, mas o líder da ONU a confessar e assumir que existe este falhanço do Conselho de Segurança das Nações Unidas é algo de destacar também.
É de destacar, e ele tem a coragem de o dizer, apesar de ser secretário-geral, mas a organização é das Nações Unidas, não é do António Guterres. E, portanto, ele está a criticar abertamente aquilo que é o Conselho de Segurança e os membros do Conselho de Segurança que têm direito de veto, designadamente, neste caso, a Rússia e a China, e noutros conflitos que nós sabemos, o direito de veto exercido pelos Estados Unidos, o que não permite depois resoluções. Uma coisa são as resoluções da Assembleia Geral, porque não são vinculativas. Estas que são vinculativas, independentemente desses cinco, depois temos mais 10 membros não permanentes, só são vinculativas a partir do momento em que são aprovadas sem haver qualquer veto. Mesmo que haja abstenção, e tem havido situações em que há abstenção de um ou de outro país, isso não invalida que a resolução seja aprovada. O problema é o direito de veto. Isso tem impossibilitado. Ele diz isto também num processo que está em curso de reforma das Nações Unidas, que implica quer maior representatividade, para além daquela que já estava da Segunda Guerra Mundial, que é aquilo que representa o Conselho de Segurança, quer não só em peso específico em termos de habitantes, mas sobretudo em peso específico nas várias regiões do globo, quer depois em mecanismos que facilitem a execução das próprias resoluções que deverão ser aprovadas doutra maneira. Isto é algo que vem de longe. Nós, no âmbito das relações internacionais, trabalhamos muito isso. Há grupos de trabalho específicos a pensar no assunto, mas é preciso pensar que depois quem tem dinheiro, quem dá dinheiro para as Nações Unidas, obviamente quer ter poder. E aí não é só os Estados Unidos, a Rússia e a China. São certamente outras grandes potências que depois acham que dando dinheiro, têm que ter em troca poder. E poder é veto. Infelizmente, é este o nosso mundo real que vamos vivendo.
Major-General João Vieira Borges, muito obrigado por ter estado conosco aqui na Rádio Observador. Está feita mais uma edição de Gabinete de Guerra.