Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Nos próximos minutos escutamos o historiador Bruno Cardoso Reis. E vamos começar com uma reunião importante. Hoje, o secretário-geral da NATO reuniu-se com o chanceler alemão e no fim houve uma conferência de imprensa com algumas palavras fortes. Diz Mark Rutte, o líder da NATO: "Temos de ser muito claros sobre a ameaça. Nós somos o próximo alvo da Rússia", sendo "nós", neste caso, os membros da NATO. Bruno Cardoso Reis, que leitura fazes destas declarações do líder da NATO?

Boa tarde a todos. Faz parte desta estratégia do Mark Rutte tentar assustar para mobilizar. A outra estratégia é bajular, nesse caso Donald Trump, também para tentar mantê-lo alinhado com a NATO. Mas quer uma, quer outra estratégia não parecem ser muito bem-sucedidas. É evidente que para países como Portugal, a ameaça russa é uma ameaça bastante distante, é sobretudo uma ameaça mais tipo híbrido. Eu acho sempre que não se deve desvalorizar isso, e que é um risco para países como Portugal ou Irlanda, por exemplo, ainda recentemente serem uma espécie de elo mais fraco, sobretudo nessas dimensões. Mas a ideia de uma invasão em grande escala de toda a Europa pela Rússia realmente não é uma coisa que seja muito crível e, portanto, é normal que sejam os Estados que estão mais próximos da ameaça, que se sentem mais diretamente ameaçados, que se mobilizem mais, que mobilizem mais recursos, onde há mais apoio também da opinião pública para isso. É verdade que é perfeitamente plausível que se realmente a guerra parar na Ucrânia, que a Rússia a seguir escolha um outro alvo, provavelmente mais fácil. Eu diria, entre os alvos mais evidentes estão países que não fazem parte nem da NATO nem da União Europeia, como a própria Ucrânia, países como a Moldávia, como a Geórgia, por exemplo, eventualmente o Cazaquistão, onde também há uma população russa bastante grande na zona de fronteira. Mas é verdade que não é de excluir, por exemplo, a questão dos bálticos, que em termos militares são muito difíceis de defender e, portanto, sobretudo se houver dúvidas. Portanto, qual é o ponto-chave com que Mark Rutte não quer lidar e a que não quer chegar? O ponto aqui é que se os Estados Unidos, como tudo indica, estão com vontade de retirar as suas tropas da Europa, ou seja, se retiram aquilo que é a verdadeira garantia de segurança norte-americana na Europa, realmente, por exemplo, sobretudo os países bálticos ficam realmente em risco. E aí não há muita coisa que se possa fazer para substituir a presença dos Estados Unidos, que significava que, na prática, mesmo uma invasão, vamos dizer, bem-sucedida, resultaria num conflito direto entre os Estados Unidos e a Rússia, que seria extremamente arriscado, provavelmente fatal para a Rússia e para todos nós. Mas enfim, não valia muito a pena pensar nesses termos. Contra países europeus, mesmo que haja uma ampla coligação de países europeus, a questão já não é exatamente igual. E portanto, sim, é verdade que é possível que alguns países da NATO estejam realmente em risco e não é preciso, se calhar, esperar cinco anos. Se a Rússia conseguir retirar todas estas tropas que tem mobilizadas pra Ucrânia e de repente ficar com as mãos livres pra as usar onde entender, realmente pode utilizá-las nalguns destes países até muito mais pequenos e mais vulneráveis do que a Ucrânia.

Falar aqui de Vladimir Putin, nem tanto com esta questão do conflito na Ucrânia, mas porque Vladimir Putin, foi hoje noticiado pela agência russa TASS, falou ao telefone com Maduro e quis garantir apoio russo ao governo venezuelano. Isso está na Agência TASS, de acordo com essa agência, está escrito: "Putin expressou solidariedade com o povo venezuelano e reafirmou o apoio pelas políticas desse governo". Como é que podemos avaliar este posicionamento de Putin? Já seria algo de esperar, mas acontecer numa altura em que se discute a paz na Ucrânia, em que os Estados Unidos procuram também chegar a um entendimento com as duas partes do conflito e em que os Estados Unidos têm também um conflito aberto nesta altura com a Venezuela.

Não seria uma manobra muito inteligente, a não ser que, e parece-me bastante provável que seja o caso, que seja, por um lado, retórica vazia, portanto, que daqui não resulte nada, realmente, em termos práticos. Portanto, no fundo, aqui uma espécie de aceitação tácita pela Rússia de uma esfera de influência norte-americana no que os Estados Unidos chamam o hemisfério ocidental, ou seja, basicamente as Américas, e, em contrapartida, uma esfera de influência russa, enfim, pelo menos numa parte da Europa. E, portanto, acho que será sobretudo retórica, declarações vazias e até não me espantaria que, em privado, os russos, estes múltiplos contactos entre próximos de Donald Trump e próximos de Putin, que nós ficámos a conhecer nas últimas semanas, que informalmente e sigilosamente estivessem a passar a mensagem "não liguem a isto, porque isto é só retórica, não vai acontecer nada". E, portanto, não há razão para isso afetar o apoio norte-americano às exigências russas no caso da Ucrânia.

Muito bem. Entretanto, no conflito em Gaza, primeiro o Hamas diz que é inaceitável o desarmamento total do grupo, diz que isso é retirar a alma aos palestinianos. Um dos principais líderes do Hamas disse na quarta-feira que a ideia de desarmar por completo o grupo palestiniano, disse isto ontem, incluída no plano de paz de Donald Trump pra Gaza, é inaceitável, mas admitiu a possibilidade de armazenamento ou congelamento de armas do grupo. Isto pode ser uma questão que dificulte um avançar do fim das hostilidades na região de Gaza?

Sim, foi desde o início um dos pontos que eu destaquei como sendo dos mais complicados, porque por um lado o Hamas tem receio que sem armas, não só os israelitas, mas outros palestinianos tratem de acertar contas com o movimento, que tem governado de uma forma brutal, sanguinária, com execuções sumárias, ainda há poucas semanas, de rivais palestinianos, etc. Depois estes grupos terroristas, isso está bem estudado, no fundo a questão da luta armada torna-se ela própria um elemento da identidade dessas pessoas, desses grupos. É a prova última do seu comprometimento total com a causa e portanto eu acho que estas declarações são muito reveladoras disso, essa ideia da resistência, está no próprio nome do Hamas, Movimento de Resistência Islâmica, de que sem isso ficaria sem alma. Portanto, esta ideia realmente que é algo que é fundamental para a sua identidade. Não será o mais habitual numa teologia convencional, esta ideia da ligação entre armas e alma, mas acho que é reveladora realmente deste tipo de dinâmica que se verifica nos grupos terroristas, de terem muita dificuldade em conseguir pensar numa existência para além da luta armada. E depois há esta realidade também da presença militar israelita e, portanto, o receio de que Israel possa usar essa ausência de armas para também acertar suas contas com o grupo. Agora vamos ver exatamente o que se quer dizer com isto, com congelamento. Quer dizer, isso significaria depositar, entregando a localização a esta entidade que foi criada, este Board of Peace. Estas tropas internacionais poderiam controlar esses locais ou era uma espécie de "vamos confiar no Hamas" e o Hamas diz que enterrou ou que armazenou e fica assim. Isso já me parece mais difícil de aceitar, nomeadamente por Israel. Em todo o caso, Israel pode sempre usar isto como pretexto, se não quiser avançar com o processo. Portanto, aí também dependerá muito da posição dos Estados Unidos, o que é que os Estados Unidos acham aqui aceitável ou não. Mesmo em relação à questão das tropas, também nessas declarações aparecia esta ideia de que poderia realmente ser uma boa ideia se ficassem nas fronteiras, como no Líbano, entre o Líbano e Israel. Ora, a ideia não é essa, é que sejam forças que estejam por toda a Faixa de Gaza, pelo menos até conseguirem treinar e haver forças de segurança palestinianas, que não sejam as do Hamas, em princípio. Mas tudo isso são questões cruciais para os dois lados e também para o futuro do processo, que continuam em aberto e que também resultam de um plano de paz que, sendo muito ambicioso, de facto, em muitos aspetos era bastante vago. Em muitos aspetos cruciais era bastante vago. Isso muitas vezes é crucial para se avançar nas negociações. Mas depois o problema é que cria problemas na implementação e às vezes é por aí que depois estes processos acabam por descarrilar novamente.

Sendo que Donald Trump, entretanto, está a ser noticiado pela Agência Reuters que Donald Trump se prepara para nomear um general norte-americano para liderar a Força Internacional em Gaza. Isto já seria de esperar ou haveria outro espaço para ter outro tipo de figura à frente desta força?

No passado, não seria o mais expectável, porque os Estados Unidos, se nós formos ver as estatísticas, são dos países que menos contribuem para forças das Nações Unidas. E isso tem como razão de ser, embora sejam dos que mais contribuem financeiramente. Isso faz parte de um padrão geral, que é de um modo geral, são muito mais os países do sul, países como a Índia ou Bangladesh, o Paquistão, que contribuem com tropas para as missões de paz das Nações Unidas e são mais os países do norte, mais ricos, que contribuem com dinheiro, com financiamento. Mas sobretudo no caso dos Estados Unidos, também se aplicou na altura na União Soviética, agora na Rússia, na China um pouco menos, isso tem mudado, a China alterou um pouco aí o padrão, mas por regra, as grandes potências realmente não faziam parte destas forças, até porque muitas vezes eram potências também de alguma forma envolvidas nos conflitos, porque apoiavam um ou outro lado, e portanto, a ideia era ter tropas um pouquinho mais neutras à partida. Isto, de facto, nesse aspecto é uma mudança, mas parece-me corresponder aqui a uma procura pelos Estados Unidos de ter o principal protagonismo, a liderança neste processo. Vamos ver se isso também se traduz na questão das tropas, porque pode ser simplesmente querer mandar, mas que outros mandem tropas. A mim parece-me especialmente complicado, por exemplo, no contexto atual, que haja um grande empenhamento de tropas europeias neste contexto. Acho que isso não deve acontecer. Os europeus não têm tropas para dispensar para este género de coisas, têm de se defender a si próprios e ao seu continente, além de que não têm nenhuma razão para colaborar com os Estados Unidos, que deixaram claro que têm aqui uma postura hostil em relação à Europa. Portanto, os norte-americanos que têm agora tantos e bons amigos, por exemplo, no Médio Oriente, que vão falar com eles e arranjem aí tropas e dinheiro para financiar estes projetos.

Está feito o gabinete de guerra. Muito obrigado, Bruno Cardoso Reis.

Obrigado.