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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Esta noite vamos analisar os principais focos de conflito com o coronel José do Carmo. Muito bem-vindo e muito boa noite. Obrigada por ter aceitado o nosso convite. Hoje começamos pela Ucrânia. Putin disponibilizou-se para um novo cessar-fogo, dura apenas um dia, 9 de maio, é o dia em que se celebra a vitória sobre a Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Falou com Donald Trump sobre isso e Zelensky ficou aparentemente fora de qualquer decisão. Pergunto, senhor coronel, o que é que as duas partes ganham com o cessar-fogo de apenas 24 horas, em particular a Rússia, e por que a Ucrânia não é tida nem achada numa proposta como esta?
Esta proposta tem a ver com o dia da vitória, em que a Rússia celebra a sua vitória na Segunda Guerra Mundial. Normalmente celebra com paradas militares de grande esplendor, com vitórias pesadas e armamento poderoso. Normalmente em Moscovo, também há às vezes um pequeno fait divers em Leningrado, isso é em São Petersburgo. E portanto, a Rússia não quer, porque neste momento a Ucrânia tem uma capacidade já bastante desenvolvida de perturbar com drones a estas profundidades no território russo, e tem estado a fazer o seu trabalho. E é evidente que a Rússia não quer, nem para a imagem interna, nem para a imagem externa, que as suas cerimónias sagradas, digamos assim, sejam perturbadas pela Ucrânia. Portanto, o interesse da Rússia é esse, é fazer uma cerimónia sem ter ali a voar nos céus de Moscovo, na Praça Vermelha ou de São Petersburgo, uma ameaça de um país inimigo que supostamente já devia estar dominado há uns anos.
Sim, não vai contar com os habituais tanques, aquele equipamento militar pesado, uma vez que Kiev também está a desenvolver mísseis e drones de longo alcance. Mas coronel, de acordo com isso que está a dizer, isto também é um sinal de que a Ucrânia ainda está em jogo nesta guerra e que também consegue intimidar o inimigo?
A Ucrânia neste momento está mais em jogo do que estava, porque as capacidades de ataque em profundidade que a Ucrânia tem neste momento, basicamente equivalem às da Rússia. Em algumas partes superam, noutras partes estão um bocado atrás, como nas glide bombs. Mas sim, neste momento a Ucrânia consegue bombardear vastas zonas do território russo em profundidade, quase 2000 km de profundidade, numa frente extensa, e a Rússia não tem, como tem as suas defesas aéreas bastante em estresse, porque tem que cobrir muitas áreas e está a perder meios. Obviamente que a Rússia não tem capacidade de fazer isto, e então uma trégua de um dia para a cerimónia seria interessante. Entretanto, Putin foi falar com Trump, como ele tem uma relação especial, de amizade, digamos assim, pessoal. E para Trump fazer a sua priminha junto de Zelensky, não sei se irá fazer ou não, acho que a Ucrânia já pediu pormenores sobre esse possível cessar-fogo e o que a Ucrânia tem a ganhar com isto. Qualquer cessar-fogo é bom, qualquer trégua é boa para ambas as partes. Para a Ucrânia também é bom, porque é um dia também que não é bombardeada. Agora, não é tão bom como para a Rússia. Isto é também uma operação de propaganda interna e externa da Rússia.
Mas a Ucrânia tem algum interesse? Pois é, isso que ia dizer o senhor coronel.
O interesse da Ucrânia é simplesmente também não ser bombardeada um dia, portanto, no fundo, é não haver estruturas ucranianas que sejam nesse dia também bombardeadas, e cidades, e pessoas mortas. O interesse é esse. Não há nenhum interesse estratégico para a Ucrânia, a não ser como gesto de boa vontade, se isto pudesse criar uma boa vontade ou pudesse ser explorado como gesto de boa vontade pela Ucrânia para que outras negociações mais profundas e mais persistentes fossem levadas a cabo, sim, e podia ser um caminho. Agora, o interesse neste momento é essencialmente da Rússia para festejar a sua vitória. Neste momento, já esperaria poder festejar outra coisa, mas está neste momento na situação em que tem que pedir aos Estados Unidos para conseguir uma trégua também.
Relativamente ao conflito iraniano, a administração norte-americana está agora à procura de uma autorização do Congresso para a guerra no Irão. De acordo com a resolução dos poderes de guerra de 1973, o presidente norte-americano tem 60 dias para utilizar força militar sem a aprovação do Congresso. Depois desse período, exatamente, acaba amanhã. O que é que podemos esperar que saia aqui do Congresso norte-americano, senhor Coronel?
Esta campanha não vai parar. Há muitos caminhos que podem ser seguidos por esta administração. Um deles é, por exemplo, argumentar que para o cessar-fogo parou esses dias, parou esse tempo. Agora é uma questão de direito, direito interno americano, e há várias avenidas nas quais esta administração pode prosseguir.
Quais são as opções do Donald Trump?
Eu não as conheço todas, não sou especialista em Direito. Eu sei, por exemplo, que podem argumentar que os dias em que estão parados do cessar-fogo não são dias que contem para isso. Depois também se pode pedir mais um tempo, há ali mais um tempo que supostamente seria para fazer o downgrading das forças e que são mais 30 dias. Isso são as coisas que eu sei um bocado a olho de pássaro agora, eu não sou advogado. Mas sei também que a ação não vai parar, ou seja, há muitas maneiras de dar a volta aos textos e encontrar nos textos a claridade suficiente para levar a cabo os objetivos. De maneira que vai continuar, não vai parar. Há também a hipótese de Trump ser julgado, ou seja, é uma das hipóteses, podia ser levado a julgamento por causa disto. Mas enfim, são tantas as hipóteses. Na prática, eu penso que o que vai acontecer é que os Estados Unidos vão continuar a campanha e vão até argumentar que o bloqueio não é necessariamente uma guerra e, portanto, acho que por aí não será de esperar grande coisa.
Sendo que o presidente norte-americanoJá começa, de alguma forma, a ser alvo de chacota do Irão. O Irão tem feito até piadas com as ameaças de Donald Trump. Está aqui a perder a autoridade o presidente norte-americano com estas contradições, com ameaças, com planos que depois não vão para frente, com estratégias que mudam dia sim, dia não. Qual é a leitura que faz?
Isso é uma jogada do Irão. O Irão faz a sua guerra psicológica e da mesma maneira que os Estados Unidos ridicularizam as lideranças iranianas, eles fazem o mesmo. Isso faz parte da guerra, essa guerra das imagens que hoje em dia se joga muito na opinião pública, porque é tudo visto ao instante e joga-se tudo nas redes sociais e nas televisões. Sim, é evidente que Trump, enquanto não conseguir impor o seu diktat naquela região, o tempo, cada dia que passa, está a falhar objetivos que podia ter alcançado facilmente se tivesse sucesso na decapitação do regime e levasse à negociação. Neste momento, os Estados Unidos não vão vencer esta guerra militarmente no sentido de entrar pelo Irão adentro e tomar Teerão. Isso nunca irá acontecer, nunca esteve previsto. O conflito que os Estados Unidos querem resolver é sempre pela negociação, ou seja, no sentido de colocar o Irão numa situação tal que tenha que negociar. Foi isto que sempre tentaram fazer, não conseguiram à primeira. O Irão aguentou, com grandes perdas, com muito prejuízo, mas o regime não caiu, não foi a negociações para claudicar. E portanto, agora resta aos Estados Unidos a opção óbvia, que é manter o bloqueio e virar golpes, se possível, se necessário, que façam ajoelhar o Irão. É a única hipótese que os Estados Unidos têm e acho que estão a caminho disso. Esta questão do bloqueio tem muito mais implicações do que se pensa. O Irão vai ter algumas dificuldades em conseguir passar para além de duas, três semanas em relação a este bloqueio.
Donald Trump já se incompatibilizou com Espanha, agora está a incompatibilizar-se com a Alemanha, até porque o chanceler alemão disse também que os Estados Unidos têm sido ridicularizados pelo Irão e desaprova a forma como os Estados Unidos se têm posicionado nas negociações e até António Costa já disse que os norte-americanos deixaram de ser um parceiro confiável. A Europa precisa ter uma nova arquitetura de defesa, é o que defende o líder do Conselho Europeu. Que leitura faz desta tomada de posição dos líderes da Europa que estão a ficar sem paciência para Donald Trump?
Em relação a Espanha, é exatamente o contrário. A Espanha é que se incompatibilizou com os Estados Unidos, e já há muito tempo. O governo espanhol é um governo francamente antissemita e qualquer guerra que envolva Israel é uma guerra na qual este governo espanhol se posiciona do lado contrário e muitas vezes até tomando partido. Chegou a haver ideia, não sei se foi verdade, mas chegou a haver fotos, talvez montadas, não sei, de mísseis do Irão com agradecimentos a Sanchez, que tomou uma ação activa contra os Estados Unidos, no sentido de proibir a passagem de meios militares, que não foi apenas uma neutralidade ou um deixar andar, foi uma ação claramente ostensiva no sentido de prejudicar o esforço de guerra americano, o que não é boa ideia. O caso alemão é diferente. A Alemanha manteve uma certa prudência. Agora o Merz disse algumas coisas que provavelmente já deseja não ter dito. E Costa não tem qualquer relevância na ordem das coisas. Merz tem. A Alemanha começa a ter uma certa voz em termos militares, é o país da Europa que está neste momento a fazer a sua cavalgada para se equipar de uma forma forte em relação à Rússia, sabe que o inimigo está ali e para a Alemanha conviria, de facto, que se resolvesse o problema da Ucrânia, que é o problema que está ali mais à mão, é o problema que de facto afeta a Alemanha e é o caso da Rússia, que está ali muito perto e que a Rússia é um inimigo que a Alemanha tem que conter e a Alemanha acha que, de facto, esse é que é o problema principal com que a Europa se defronta neste momento, é a ameaça russa. Este esforço americano no Irão está a prejudicar de alguma forma esta guerra, porque, no fundo, a Rússia está a conseguir algum petróleo mais barato, quer dizer, está a vender mais caro, portanto, está a conseguir mais meios e, por outro lado, há um certo armamento que está a ser restringido em termos de fornecimento mesmo à Ucrânia, não diretamente dos Estados Unidos, mas por compras que a Europa faz e entrega à Ucrânia. E neste momento está a ser racionado, porque os gastos no Irão têm sido grandes, os Estados Unidos estão com grandes problemas de stocks, têm que repô-los. E portanto, sim, esta guerra no Irão, embora seja necessária, porque de facto ninguém pode deixar que o Irão se dote de armas nucleares e que faça chantagem naquela região, mas para a Alemanha o efeito imediato é justamente este, é petróleo muito caro, petróleo pouco disponível e a Rússia ali ao lado.
Senhor Coronel José do Carmo, muito obrigada por ter estado conosco no Gabinete de Guerra nesta noite. Desejo um bom resto de semana. Até à próxima.