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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Olhamos para os principais conflitos a marcar a atualidade. Hoje com o major-general João Vieira Borges. Bem-vindo.
Muito boa tarde.
Boa tarde. Começamos com Donald Trump, que está de visita à Escócia, e de lá têm vindo muitas decisões, várias declarações sobre diferentes conflitos. Hoje de manhã esteve com Keir Starmer, o primeiro-ministro britânico, e Trump voltou a dizer que está muito desapontado com Vladimir Putin. Não está a ser possível chegar a um acordo para acabar com a guerra na Ucrânia. Garante também que vai reduzir o prazo para impor sanções à Rússia. Estava em 50 dias, passa agora, e estou a citar Trump, para entre 10 a 12 dias, a contar a partir de hoje. Senhor General, acredita que as sanções vão mesmo avançar ou é um blefe de Donald Trump para forçar Putin a agir?
Eu não diria que é um blefe, faz parte da sua estratégia, faz parte do seu ADN, alterar constantemente aquilo que diz e aquilo que faz. E, portanto, cria instabilidade, cria insegurança, pede sempre mais do que aquilo que depois vem a obter, mas é sempre uma vitória, sobretudo nas alturas em que tem processos individuais, que é o caso, muito complexos. Tal como os países que têm problemas internos usam problemas externos para os resolver, ele também usa muito esse tipo de linguagem. Aproveitou esta oportunidade para, não só relativamente à questão da Ucrânia, mas relativamente a Gaza, fazer um conjunto de declarações em que contradiz aquilo que diz mediantes. Portanto, isso faz parte. Agora, que é importante, sobretudo para a Ucrânia, deu para ver facilmente a reação dos órgãos de comunicação social ucranianos e dos dirigentes ucranianos. Não há dúvida absolutamente nenhuma que é importante para a Europa, também não há dúvidas. Que também vem, na prática, dizer novamente que está decepcionado com o presidente Putin. Isto é uma reação àquilo que ele tem vindo a ter mais informações do que nós, certamente, relativamente àquilo que têm estado a fazer as forças militares da Rússia, porque depois daquilo que ele disse dos 50 dias, os ataques pioraram, como nós sabemos. Foram ataques que foram ainda mais mortíferos, que foram mais contra aquilo que até era a grande preocupação do presidente Trump, que era ataques a infraestruturas civis e às populações. E daí, talvez, esta reação, porque ele tem informações que efetivamente devem ainda ser mais complicadas do que aquelas que nós temos relativamente à situação da Ucrânia.
E precisamente nessa linha, esta atitude mais agressiva dos Estados Unidos, que impacto é que podia ter nos esforços de guerra da Rússia e na economia russa?
Eu julgo que em termos de economia russa não terá o impacto que leva à tomada de posição. A questão das sanções para $3 bilhões, não é isso que vai certamente incomodar Putin. O que vai incomodar é a postura. O que vai incomodar é atrás de Trump haver, obviamente, uma Europa e um mundo ocidental que pressiona ainda mais Putin para um acordo de paz. Atrás destas declarações, vem aquilo que já declarou Lavrov há pouco, que é as condições. Parece que respondeu a Trump as condições, ou seja, nenhuma expansão da NATO, nenhuma Ucrânia na NATO, o reconhecimento das realidades no terreno. Portanto, o costume, na prática, Lavrov vem dizer o que sempre disseram desde o primeiro dia. As condições são as mesmas e obviamente que a situação é desfavorável em termos de terreno, em termos de teatro de operações, e é isso que estão a usar, mas alguém tem que ceder. De qualquer maneira, é positiva esta pressão de Trump, é realista, e obviamente que a Rússia já respondeu através de Lavrov, vai ter que responder. E portanto, o processo, em vez de estar parado 50 dias, vai estar parado 30 e tal dias, no fundo. O que é positivo para a paz, isso é que é importante para todos nós.
E além de Lavrov, falou também Dmitry Peskov, em nome do Kremlin, diz que não está fora de questão o encontro entre Trump e Putin a realizar-se na China em setembro. Senhor General, eu pergunto se isto é viável ou se é mais um encontro que se fala mais no ar e não chega a acontecer, e se estas sanções dos Estados Unidos, a avançarem, tornavam mais ou menos provável esta reunião.
Não, as sanções, como eu disse, não vão ter influência. Aliás, porque nós temos mais sanções na Europa e os próprios aliados, a começar no Reino Unido, temos mais sanções do que tem a Rússia. Não são as sanções. Agora, a linguagem, sim, aquilo que acabou de dizer é muito importante, porque é isso que vai definir a paz na região, ou seja, um encontro entre Trump e Putin. Independentemente de poder ser negativo para a Ucrânia, de Trump poder assumir numa cimeira a dois ou a três, veremos, sendo na China, poderá ser a três, poder assumir uma postura que vá ao encontro da paz, ultrapassando aquilo que são as condições impostas ou pelo menos defendidas pela Ucrânia, pôr em causa a Ucrânia, pôr em causa a Europa. Independentemente disso, nós sabemos que isso é positivo para o Kremlin. Eles sabem, se tiver Trump Junto de Putin, Trump vai tomar posições contrárias àquilo que são as intenções da União Europeia no sentido da paz.
E acredita que aconteça?
E vão pressionar nesse sentido.
Mas acredita que aconteça este encontro em setembro?
Poderá acontecer, sendo pressionado no sentido de alguma cedência para trás da parte do Kremlin. Vai ter que haver alguma. E sendo uma cimeira, eu estou aqui a ver datas, em setembro, também tem a ver com a vitória da China sobre o Japão. Eu não sei se vai coincidir com cerimónias na China, se vai ter lugar depois. Há aqui uma agenda que nós temos que confirmar, porque eu ao dizer isso, disse-o com intenção. Peskov quando diz qualquer coisa, nós já sabemos que está confirmadíssimo. E portanto, já há certamente negociações. Já há negociações para haver esse encontro. Nós vimos na terceira ronda que houve pressão da parte da Ucrânia no sentido de haver essa reunião, porque toda a gente já percebeu que não é uma reunião entre Putin e Zelensky que vai resolver o conflito. Nem Putin vai aceitar uma reunião. Putin só aceita uma reunião com Trump ou com Xi Jinping, ponto. E aí é que vai resolver a paz, ponto. Não há dúvidas nenhumas e portanto, digamos que é positivo nesse sentido, quer dizer que já devem ter começado a negociar com a administração Trump ou com alguém da administração Trump, e que pode vir a acontecer. Eu acho que isso é provável de acontecer. Sendo na China, isto tem uma dimensão que é aquela que eu venho referindo desde o início. Digamos que este é um conflito que vai marcar a geopolítica dos próximos anos e, portanto, a resolução deste conflito, se for levada ao nível mais elevado que é o caso, digamos que está ao nível de outras que já tivemos na Europa e no mundo, que mudam toda a arquitetura de segurança e defesa. E é isso que certamente Putin quer e é isso que, porventura, Trump não se importará.
A ver se essa confirmação desta reunião chega ao longo das próximas semanas. Olhamos também para o conflito no Médio Oriente, ainda com Donald Trump esta manhã na Escócia disse que é possível chegar finalmente a um acordo de cessar-fogo. Trump parece ter esta opinião sobre os vários conflitos que vão marcando a atualidade. Senhor general, eu pergunto-lhe se as hipóteses deste cessar-fogo são reais, se os sinais que vão chegando dos dois lados apontam para isso, ou se é mais uma manifestação de vontade por parte do presidente norte-americano.
É certamente uma manifestação de vontade, é certamente uma preocupação, até porque ele também fez declarações relativamente à fome. Não dá para fingir, ele disse qualquer coisa assim na tradução, eu há pouco estava a ver. "Existe fome de verdade", aquelas frases típicas de Trump, que às vezes até são difíceis de traduzir. Mas não é só vontade. As negociações tiveram numa fase avançada, há uma semana e tal estavam numa fase muito avançada e segundo disse Trump, e ele para dizer isto também deve ter recebido informações de algum lado, foi o Irão que levou a que o Hamas não recuasse nalgumas áreas, não sei quais são, porque o acordo estava quase. E portanto, houve um afastamento, quer de Israel, quer dos Estados Unidos, das negociações, como nós sabemos, quando as coisas já estavam num nível em que se estava a discutir exatamente quem é que seriam os 10 prisioneiros libertados e quantos prisioneiros seriam libertados da parte de Israel. Há aqui algum fundo de verdade. E há um interesse muito grande dos Estados Unidos em que haja paz, sobretudo depois daquilo que se tem estado a passar ultimamente, que em nada beneficia o prestígio de Israel e de todos aqueles que estão associados a Israel, designadamente e em particular os Estados Unidos. Ninguém quer ser conivente com esta tragédia, ninguém quer ser conivente com aquilo que pode ser inclusivamente a vir ser considerado um genocídio. E portanto, daí Trump se defender com estas frases dele de que existe fome, que afinal a culpa toda é do Hamas. Isto é um conflito diferente. Nós estamos a tratar de um conflito entre um Estado soberano e um grupo terrorista. É muito complicado, muito mais complicado de gerir do que propriamente um conflito entre dois Estados, como foi hoje a resolução, e bem, do conflito também noutro continente, designadamente entre a Tailândia e o Mianmar.
Falava na questão da fome, era precisamente esse assunto que eu queria abordar, porque neste momento em cima da mesa já não estão apenas bombardeamentos, está também a subnutrição. O próprio Donald Trump, como dizia neste encontro na Escócia, pareceu desmentir Benjamin Netanyahu. Netanyahu garante que não há fome em Gaza. Trump diz que pelo que se vê nas televisões, não é bem isso que parece. Hoje temos também um alerta da Organização Mundial da Saúde para níveis alarmantes de subnutrição no enclave. Estamos a chegar a um ponto de não retorno, a uma catástrofe humanitária e que resposta é que deve dar a comunidade internacional?
Estamos a chegar aos dois pontos que acabou de referir. A resposta é já, não é para ontem, é já. Aquilo que fez a Espanha, que vai lançar, se não me engano, 12 toneladas de alimentos já esta semana. Aquilo que fizeram já a Jordânia e os Emirados Árabes Unidos, não sei quantas toneladas, mas que já foram lançadas essas, é a resposta que deve ter a comunidade internacional. Disso não há dúvidas, porque a situação, como disse Trump, e ele tem mais informações do que nós, é muito crítica Independente das ações que Israel tenha de maior abertura às organizações internacionais ou de alguns períodos de paz mais de âmbito tático, que permitam depois esses agentes poderem distribuir a alimentação, que era uma das imposições, dado que obviamente já havia alimentos no território de Gaza, mas o problema era a distribuição e cada vez que pegavam as viaturas eram mortos os membros das organizações internacionais e portanto esta situação já vai favorecer. Mas a par desta situação, obviamente que certamente estará a negociação de um cessar-fogo, porque só com um cessar-fogo depois há condições para a distribuição de toda a ajuda humanitária. Porque mesmo com estas pausas táticas, como eles dizem, não é possível. A situação é deveras crítica e todos reconhecem isso. E portanto, não é uma imagem de propaganda, é a realidade a que Israel não pode fugir.
Entretanto, acontece hoje em Nova York uma conferência internacional para discutir a solução dos dois Estados no conflito Israel-Palestino. Portugal faz-se representar pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, mas os Estados Unidos e Israel não marcam presença. Assim sendo, pode sair daqui alguma conclusão, alguma decisão, não digo relevante, mas decisiva para esta guerra?
Sim, é sempre importante. Independentemente da participação ou não de Israel e dos Estados Unidos, como vimos na semana passada, em outras reuniões e há duas semanas na Colômbia, elas são sempre importantes. E são de tal maneira importantes que leva a que alguns países, inclusivamente europeus, depois tenham posturas diferenciadas relativamente a outros países dentro da própria União Europeia, o caso da Espanha, do reconhecimento do Estado da Palestina, ou o caso de outros países, que é o caso da França também na semana passada. Essa é uma pressão que tem como consequências o futuro da governança naquela região. Depois daquilo que foi acordado no Knesset, no Parlamento israelita, de que a Cisjordânia seria ocupada, que na prática está ocupada, mas tem uma dimensão política ainda mais forte, que há regiões que ainda estão sob administração da autoridade palestiniana, obviamente estas respostas também em termos políticos são importantíssimas para o futuro. E o futuro tem que ser sustentado, não é haver cessar-fogo, estarmos 60 dias outra vez em suspense e depois voltarmos ao mesmo. Portanto, eu acho que é importante todo este tipo de reuniões, de conferências, de debates, com a intervenção ou não dos Estados Unidos, porque quer se queira, quer não, depois há uma pressão, tal como agora há pressão da comunidade internacional relativamente à questão humanitária, induz Israel a tomar medidas. Não foi só isso. Eu acho que Israel não é muito pressionado pela comunidade internacional, é sobretudo pela realidade. E também tem essa consciência do que estava a passar. Mas neste caso, em termos da dimensão política, eu acho que são muito importantes e podem ter consequências de negociações, de soluções, de aproximação dos países árabes com a União Europeia para uma solução sustentada e que os Estados Unidos depois sejam arrastados para uma solução desse tipo, mais realista e mais consequente.
Veremos o que sai desta conferência internacional que dura até amanhã em Nova Iorque. Ficamos por aqui, major-general João Vieira Borges, muito obrigado por ter estado conosco.
Muito obrigado, Leo. Muito boa tarde.