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É tempo de, na Rádio Observador, falarmos dos conflitos em curso, dos pontos quentes de conflito pelo globo. Eu sou o Miguel Cordeiro e nesta edição do Gabinete de Guerra vou conversar com o Major-General João Vieira Borges. Boa tarde, Major-General. Vamos começar com uma missão da NATO que vai acontecer nos próximos dias no Ártico. Chama-se Missão Sentinela do Ártico e vai acontecer numa tentativa de amenizar a tensão entre a Europa e os Estados Unidos da América em relação à Gronelândia. Isto é detalhado pela agência Reuters. O que se procura com uma missão destas? Para que serve, para além de amenizar estas tensões, tem também uma componente prática importante para os países da NATO que vão estar envolvidos?

Boa tarde, muito obrigado pelo convite. Esta missão tem, efetivamente, como objectivo exactamente atenuar esse tipo de relações, mas é uma demonstração de poder de uma série de países, no sentido de mostrar presença naquela região, que é importante não só para os Estados Unidos, mas é importante também para não só a Dinamarca, mas uma série de países que fazendo parte da NATO, no conjunto mostrar exatamente essa capacidade. Porque é uma capacidade muito específica, num território muito específico. A realização de exercícios conjuntos já se fazia, de conjuntos passamos a combinados, que é entre várias nações, com os vários ramos, as cinco componentes dos teatros de operações hoje em dia, portanto, terra, mar e ar, mas também ciberespaço, e ali têm particular importância ou relevância exactamente estas duas últimas, ou pelo menos a última, a parte espacial também, não só tropas no terreno. Portanto, eu acho que é dada maior publicidade a algo que também já teve lugar, mas com menos capacidade, mas sobretudo para mostrar aos Estados Unidos que estamos unidos em torno da Dinamarca, estamos unidos em defesa da Gronelândia, face a potenciais ameaças, designadamente da Rússia e da China, como dizia Trump, e estamos preparados operacionalmente para fazer face a essas ameaças. No fundo, é isto.

Entretanto, também marcaram a atualidade hoje confrontos entre manifestantes e polícia na Austrália. Isto acontece porque o presidente israelita, Isaac Herzog, iniciou hoje uma visita oficial de quatro dias à Austrália. O objetivo desta visita é acompanhar a comunidade judaica no processo de luto e expressar solidariedade depois do ataque que aconteceu em 14 de dezembro, na praia de Bondi, nos arredores de Sydney. Esse atentado que aconteceu em dezembro leva a esta visita do presidente israelita, mas isto está a levar também a muitos protestos na Austrália. Como é que vê, Major-General, esta situação e este clima de tensão na Austrália?

Eu vejo através dos olhos dos órgãos de comunicação social, de um lado e do outro. Sinceramente, a partir dos jornais israelitas, uma preocupação exatamente com essa reação, uma certa incompreensão face àquilo que aconteceu. Portanto, devia haver da parte da Austrália, e do povo australiano, uma certa compreensão relativamente a esta visita, independentemente do posicionamento de Israel relativamente a Gaza e agora, nos últimos dias, em particular, relativamente a Maias e Jordânia. Mas, por outro lado, da parte dos jornais da Austrália, também preocupação, porque não estavam à espera deste tipo de movimentações, mas por outro lado, também a compreensão relativamente a um presidente de um país que tem a ver com uma mortandade, com um ataque perfeitamente indescritível. Portanto, são os extremos que infelizmente vamos vendo nos países democráticos, mas tem essa virtude. É nas democracias que nós permitimos que haja todo o tipo de manifestações, todo o tipo de opiniões, é a liberdade de opinião, a liberdade de expressão. Tem vantagens e tem inconvenientes, mas eu prefiro viver em democracia.

Ainda por falar de Israel, hoje há acusações no "Times of Israel", o líder da oposição de Netanyahu acusa o atual primeiro-ministro de falsificar protocolos de segurança sobre o dia 7 de Outubro. Lapid acusa Netanyahu de falsificar esses protocolos sobre o dia 7 de Outubro de 2023, dizendo que se está a tentar descartar das responsabilidades. Como é que vê esta tensão? Isto é natural que com o avançar do tempo e com o aproximar-se também do próximo ato eleitoral, que comecem a surgir estas acusações. Hoje, Benny Gantz também considerou que Netanyahu está a tentar reescrever a história ao tentar também desviar a culpa pelo 7 de Outubro. Como é que vê este caso e se de fato isto pode vir a ser um problema para Netanyahu, esta chuva de críticas que começa em Israel?

Efetivamente, tem relação direta com o processo eleitoral. Tem relação também, quer se queira quer não, com a própria fase em que estamos em Gaza. Portanto, a partir do momento em que deixa de haver uma guerra de grande intensidade, apesar de haver ainda alguma mortandade, obviamente que vêm ao de cima essas questões e é preciso, para os israelitas em geral, e em particular para a oposição, terem esclarecidas Várias situações e se corresponde à verdade, realmente são situações muito graves. Agora, Netanyahu já passou por situações tão ou mais graves do que esta, como nós sabemos, e imediatamente antes da guerra ou da reação àquilo que foi a destruição do 7 de outubro. E, portanto, também é preciso esclarecer, efetivamente, o 7 de outubro. O 7 de outubro na região mudou muita coisa, não só em Israel, não só na relação de Israel com os seus adversários na região, a começar no Irã e a acabar, como nós sabemos, no Líbano e na própria Síria. É muito importante que seja tudo esclarecido. E, portanto, a oposição aproveita estes momentos. Apesar de também hoje, como sabe, houve questões em Israel relativamente à soberania israelita na Cisjordânia, que também desviou algumas atenções, mas que tem a ver também com o posicionamento deste governo, em especial dos extremistas que fazem parte do governo de Netanyahu, relativamente à expansão dos poderes na Cisjordânia ocupada, que levou à reação quer da União Europeia, quer de uma série de países, se não me engano, oito países muçulmanos.

Entretanto, falando agora do conflito na Ucrânia, há uma frase atribuída ao ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia que diz que só Donald Trump tem o poder para acabar com a guerra. Esta frase foi dita ontem numa entrevista à agência Reuters. Reconhece que só Donald Trump tem esse poder para conseguir que seja alcançado um acordo. Nós sabemos que as últimas semanas têm sido de negociações tripartidas entre Estados Unidos da América, Ucrânia e Rússia. Procura-se chegar a um entendimento que possa levar a um cessar-fogo e depois desse cessar-fogo, tentar alcançar um acordo de paz. Isto tem vindo a ser adiado a pormenores, a pequenos detalhes que estão por limar para se chegar a esse cessar-fogo. Terá de ser Donald Trump a fazer esse último forcing para garantir esse acordo, como diz o ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia?

Infelizmente, é verdade. Infelizmente, só Donald Trump tem essa capacidade para acabar a guerra, obviamente, que depende só da Rússia, ponto. Mas para acabar a guerra no prazo imposto agora por Trump, eu não sei se às duas partes, foi só imposto a uma das partes. A pressão, pelos vistos, é maior sobre a Ucrânia do que sobre a Rússia. Para acabar a guerra, se não me engano, em junho, por isso que houve declarações de Zelensky. De maneira que só mesmo Trump, porque é a paz pela força. Tem capacidade, não só pela força, mas perante uma outra potência como a Rússia, tem também capacidade de influência, tem certamente contrapartidas, tem certamente questões geopolíticas num jogo que vem desde o início do ano passado ou há cerca de um ano, que nós nunca temos todos os dados. Mas isso é verdade. Por outro lado, é uma mensagem que passa alguma responsabilidade também para os Estados Unidos neste processo, desde que seja uma responsabilidade que leva a uma paz o mais justa possível, que justa nunca será, é sempre positivo. E portanto, é essa a linguagem do Ministério dos Negócios Estrangeiros, é também pressionar as duas partes, mas em particular, neste caso, os Estados Unidos. Mas uma pressão com uma linguagem que Trump gosta, é a linguagem de elogio em simultâneo, de demonstração de poder dos Estados Unidos.

Falemos ainda da Venezuela, porque há uma denúncia feita por Maria Corina Machado. A oposição venezuelana denuncia o sequestro de um dos líderes que foi libertado muito recentemente. Juan Pablo Guanipa foi sequestrado em Caracas. É descrito por Maria Corina Machado que foi sequestrado por homens fortemente armados pouco depois de ser libertado da prisão e que isso aconteceu este domingo. Não lhe ia pedir um comentário concreto sobre este incidente, mas sim sobre a situação que se vive ainda na Venezuela, em que temos, depois de toda a intervenção norte-americana no início deste ano de 2026, já vamos com mais de um mês e uma situação por resolver na liderança e em toda a manutenção de segurança do país. Já seria de esperar que este assunto estivesse resolvido. Está a Venezuela à beira de ficar num standby muito permanente de desgoverno?

Sim, eu vejo um processo evolutivo no sentido positivo, apesar de tudo. Ou seja, a libertação dos prisioneiros, com exceções como esta, de situações que acontecem e que é bom que sejam identificadas pela oposição. Digamos que a aceitação das questões petrolíferas, ou parte delas, que no fundo eram imposições de Trump, leva-nos a pensar que é certamente um regime diferente do regime Maduro. E portanto, isso já é positivo, independentemente das alusões que vão fazendo, e isso obviamente faz parte de um processo de transição, relativamente à importância de libertação de Maduro e da sua esposa. Agora, como nós dissemos da operação de extração de Maduro, os Estados Unidos executaram bem a operação, o problema é o depois. E esse depois é muito difícil, mesmo socialistas americanos mais próximos da administração têm dificuldades em saber o futuro. Agora, eu sei é uma coisa, é que efetivamente há uma repercussão direta num outro país que é estratégico para os Estados Unidos, que é Cuba. E Cuba está, neste momento, mais estrangulado Do que propriamente a própria Venezuela, que é curioso. Portanto, temos falado pouco de Cuba, mas Cuba neste momento tinha uma grande relação com a Venezuela, designadamente no que respeita a uma grande dependência do petróleo e, neste momento, tendo sido fechada essa torneira, está a viver momentos dificílimos, com o turismo abaixo de valores que nunca teve e com dificuldade, inclusivamente, em abastecer os próprios hotéis naquelas zonas de turismo, com problemas gravíssimos a nível interno. Já leva a interpretações de que tudo aquilo que se passou na Venezuela também tinha, como Marco Rubio é um grande defensor de um controle maior de Cuba, que era de uma maneira indireta também de chegar a Cuba. Não podemos separar a situação da Venezuela da situação de Cuba pelo que temos visto neste último mês.

Mas temos problemas para Cuba nos próximos tempos. É natural que esse embargo, já de várias décadas, piore agora com a situação na Venezuela, porque Cuba procurava ter algum crescimento também, não só com base no turismo, mas com base nessas relações que vai fazendo com outros países. O que se pode esperar, efetivamente, para Cuba nos próximos meses?

De Cuba, o que estamos a ver é uma situação politicamente interna muito difícil e isso pode levar a duas saídas: uma saída que é típica deste tipo de regimes, que é o usar e abusar da ameaça externa, neste caso, os Estados Unidos, para fazer mais limpezas. Já não sei se é possível fazer mais limpezas políticas, afastar todos os opositores ao regime, tentar o apoio da China, tentar mais apoio da Rússia ou de outros regimes deste tipo. E uma segunda via que seria um posicionamento diferente em termos sociais, haver algumas manifestações de descontentamento, e isso pressionar a alteração do regime com o apoio indireto dos Estados Unidos, eventualmente de outras potências. São duas vias que eu vejo aproximar-se nos próximos tempos. Espero que seja a segunda e uma segunda sem a reação que houve do regime do Irão, mas sim uma reação mais pacífica relativamente a esse descontentamento da população. Mas que é muito difícil em regimes tão fechados e em regimes com umas narrativas que têm sempre como pressuposto o inimigo, neste caso, os Estados Unidos. É muito difícil a mudança de mentalidades, muito embora aqui haja uma ligação de uma parte da comunidade cubana aos Estados Unidos e a outros países na região, tendo em conta o nível elevadíssimo de imigração a determinada altura do povo cubano.

Major-General João Vieira Borges, muito obrigado por mais uma participação no nosso "Gabinete de Guerra".