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Este é o Gabinete Guerra das Manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões. A análise é do tenente-general Marco Serronha. Bom dia, bem-vindo. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Olá, bom dia.

Bom dia. Depois do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, lançar o Dia D econômico para paralisar Teerão, o secretário da Guerra, Pete Hegseth, veio dizer que não descartam a hipótese de atacar militarmente o Irão. Tenente-general, acredita no sucesso desta combinação de asfixia financeira com a ameaça de força militar? Teerão já disse que será mais uma tentativa fracassada.

Olá, bom dia mais uma vez.

Bom dia.

Eu julgo que sim. Vejamos, a constatação que houve nos primeiros seis meses de guerra foi que o instrumento militar, em termos da estratégia global dos Estados Unidos para a questão do Irão, não chegou, naturalmente. E a partir de determinada altura, que os Estados Unidos enveredaram por menos ênfase na estratégia militar direta e mais ênfase na parte econômica, nomeadamente através do bloqueio que foi feito pelos Estados Unidos ao Estreito de Ormuz, com vista a degradar as capacidades de exportação, essencialmente de gás e petróleo do Irão, mas também o acesso do Irão a bens de consumo vários que passavam pelo estreito através de navios. E, portanto, a constatação que foi feita é que este instrumento estratégico do bloqueio não era suficiente, por um lado, porque permitia que através do Mar Cáspio e através do Paquistão continuasse a haver algum grau de comércio, nomeadamente o acesso a matérias que ajudem a indústria militar iraniana, naturalmente. Evidente que a exportação do petróleo tem que ser feita pelo Golfo, não há outra hipótese. Isto chegou à conclusão que isso, além de não ser suficiente, prejudicava um pouco também a imagem dos Estados Unidos, que estavam a colaborar num bloqueio econômico e num fecho do Estreito de Ormuz, que de algum modo tinha aquelas oscilações que fomos vendo no preço do petróleo.

No impacto global, claro.

Exatamente, e o impacto global. E, portanto, tendo em consideração que o problema não estando resolvido sob o ponto de vista de uma vitória estratégica, eu já não digo em regime total dos Estados Unidos, mas numa versão minimalista que isso não estava a ser conseguido, os Estados Unidos naturalmente alteraram a ponderação dos seus elementos estratégicos e puseram um ênfase neste momento muito grande na parte econômica, com a ideia e a convicção, naturalmente. Estas questões do bloqueio econômico nunca sabemos quanto tempo demoram até produzir os seus efeitos, naturalmente. Mas tendo em consideração, e é um dado adquirido, que a capacidade econômica do Irão e financeira está degradadíssima, e em qualquer altura pode de algum modo fazer colapsar, se não o regime, pelo menos a capacidade do Estado de conter o incômodo das suas populações, e não só, e dos seus sistemas, nomeadamente o seu sistema militar e da Guarda Revolucionária, decidiu optar por este esquema de sanções multidimensionais, por assim dizer, além das sanções diretas que o Irão já estava sujeito, sancionar os parceiros do Irão que façam com ele, que continuem fazendo negócios, serem sancionados de forma secundária, através de ações diretas dos Estados Unidos sobre provavelmente tarifas e outros tipos de sanções. Além disso, sob o ponto de vista já da estratégia e da política interna dos Estados Unidos, todos começamos a ter a noção, a partir de determinada altura, que os Estados Unidos não queriam enveredar por operações militares diretas mais ativas, mais robustas, antes das eleições de novembro. E, portanto, o modelo é este, embora sob o ponto de vista estratégico tenha uma lógica estratégica que devia ter sido feita desde o início. Ou seja, já se percebe hoje que o instrumento militar não é o suficiente muitas vezes pra ganhar uma guerra. Portanto, é preciso instrumentos de outra natureza, de política, diplomática e econômica, naturalmente.

E tardaram a chegar, essas?

Tardaram a chegar porque os Estados Unidos partiram pra esta guerra com uma estratégia mal desenhada, naturalmente. Muito ênfase no componente militar, que não funcionou por razões várias, essencialmente pela capacidade de resistência do Irão e mais do que isso, por uma má avaliação do potencial estratégico do Irão, sob o ponto de vista dos equipamentos militares que tinha e da sua capacidade de produzi-los. E, portanto, agora há esta força numa vertente econômica, que é mais benigna pro comércio internacional, por um lado. Por um lado é, nomeadamente a questão do petróleo. Evidente, irá sair o petróleo do Golfo. Agora vamos ver, e muito provavelmente o Irão não vai abdicar do seu controle do Estreito de Ormuz, mas isso é um problema que provavelmente é esse problema que dá origem a que Pete Hegseth, em linha com o que disse o presidente Donald Trump alguns dias atrás, que a opção militar está sempre em cima da mesa e não vai ser descurada. Ou seja, os Estados Unidos não vão desmobilizar de forma volumosa o seu potencial militar presente no Golfo Pérsico. E, portanto, vamos ter agora uma fase de estratégia econômica mais dura perante, essencialmente, os aliados do Irão, que é esses que vão essencialmente sofrer, que vai afetar o Irão e a sua capacidade. E vamos ver até que ponto isso traz turbulência dentro do Irão, relativamente aos protestos da população, porque a situação está muito complicada, como sabemos. Mas isto não descarta, aliás, é uma convicção que eu tenho, e não sou só eu, que a seguir às eleições, a opção militar virá aparecer na mesa com muito mais força.

Entretanto, a comunicação social iraniana noticiou uma recompensa milionária pela morte de Barron Trump, o filho mais novo de Trump. Tenente General, esta linguagem extrema mostra o desespero do regime ou revela que já não existe qualquer margem pra acordos?

Eu acho que revela as duas coisas, de algum modo. E mais do que isso, o Irão sempre-

É a linguagem, não é, Gil?

A linguagem é uma estratégia de natureza psicológica que é colocada. Disse isso e disse mais, que iria exercer represálias ou ataques sobre os países que alinham com os Estados Unidos neste bloqueio sancionatório ao Irão. Há uma coisa que temos que ter em atenção sempre que o Irão fala em determinadas coisas. O Irão, quando fala em determinadas coisas, mais cedo ou mais tarde vai executá-las. Isso não tenho dúvida. Ou vai tentar executá-las. O terrorismo é um dos instrumentos que o Irão utilizou ao longo dos últimos 40 e tal anos de regime, sob o ponto de vista da sua estratégia, seja sob o ponto de vista externo, de criar conflitos e criar problemas em determinados sítios. Essa é uma questão que não se pode descartar. Agora, a estratégia psicológica de criar algum terror, no caso do Donald Trump, é uma estratégia psicológica essencialmente sobre os Estados Unidos. Agora, sobre outros países, não podemos descartar e eu acho que a ameaça terrorista não deve ser descartada e deve ser tida em consideração nas avaliações de natureza de informações e de segurança que são feitas, essencialmente nos países que vão mais diretamente alinhar com os Estados Unidos, meramente os países ocidentais, europeus e os países democráticos de um modo geral. Mas isso vai ter que ser tido em consideração.

Sobre a Ucrânia, esta segunda-feira assinalaram-se os 35 anos de independência. Kiev recebeu a visita de vários líderes europeus. Não houve ninguém da administração Trump. Houve também reunião da Coligação da Boa Vontade. General, houve vários anúncios de ajuda à Ucrânia. O que foi, para si, mais relevante e que venha a ter maior impacto na guerra com a Rússia?

Vejamos, eu acho que há ali coisas bastante importantes. Uma delas que é aquele acordo que foi feito entre o Reino Unido e a Ucrânia, não só sobre a cedência de tecnologia para os mísseis Storm Shadow, que são mísseis de cruzeiro, que a Ucrânia já tem vindo a utilizar, mas que estava muito dependente da capacidade de produção do Reino Unido e da França, porque a França produz um míssil igual, que é o SCALP, que tem outro nome, mas que tem a mesma tecnologia, que estavam muito dependentes dessa capacidade de produção. Sabendo nós que a Ucrânia, quando tem acesso às tecnologias, facilmente monta e põe em andamento sistemas de produção, de uma escala muito superior àquilo que os países europeus conseguem fazer, julgo que vai ter essa importância. E outra questão, e esta muito mais interessante para o Reino Unido, mas que é importante, julgo eu, de ver esta dinâmica, é que o Reino Unido vai ser o único país, até agora, que tem acesso à base de dados de inteligência artificial sobre os resultados e as lições aprendidas no campo de batalha da guerra da Ucrânia. Isso é importantíssimo. Mais nenhum país tem acesso a essa informação, que será fundamental para construir os modelos de decisão autónoma, e não só, e de operação autónoma, para a guerra do futuro. Portanto, o Reino Unido, com esta relação, consegue se posicionar, sob o ponto de vista de acesso à informação, que é privilegiadíssima. Depois, há uma coisa que é importante, que os europeus se comprometeram, que é fazer pressão junto de Donald Trump para a Ucrânia ter acesso a uma parte dos mísseis Patriot, que existem no estoque americano. Não sabemos se isso vai ser fácil ou não.

Sim.

Exato. Não sabemos se vai ser fácil, mas pode ser que haja pelo menos um sinal de ser dado alguns mísseis Patriot nesta fase para a Ucrânia. Depois, houve outros acordos bilaterais e multilaterais. E a Ursula von der Leyen disse que iriam ser desbloqueados mais 7 mil milhões de euros para ajuda militar à Ucrânia.

Tenente-general Marcos Rojo, muito obrigada pela sua análise. Boa semana.

Obrigado.

Muito obrigada, bom dia.

Bom dia, obrigado.