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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra, o programa na Rádio Observador em que analisamos as principais questões geopolíticas no globo. Hoje contamos com a análise do major-general João Vieira e Borges, a quem agradeço ter aceitado este nosso convite. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. E vamos começar com um tema de há poucos minutos, até porque a Associated Press diz que os Estados Unidos e Irão podem estar perto de regressar à mesa das negociações. O que é preciso, no seu entender, João Vieira e Borges, ser feito para que seja dado esse passo em frente?
Muito boa tarde. Muito obrigado pelo convite. Eu estava aqui em serviço noutras tarefas e folgo muito com essa informação. Aliás, eu escrevo todos os dias muita coisa e tinha escrito exatamente uma espécie de resposta à sua questão. Ou seja, na minha perspectiva, três noites sem ataques, das duas, uma: ou era falta de munições da parte dos Estados Unidos, o que também era um sinal muito negativo da parte da maior potência militar do mundo, e que se falou nisso, mas que seria um sinal muito negativo, ou estava a ser desenvolvida uma ação diplomática forte. E aquilo que encontrei também foi que, efetivamente, havia intenção de ambas as partes em que houvesse negociações de paz, pois a solução militar não era uma solução. Já as duas partes têm consciência de que não é solução, independentemente do Irão ter dito ontem que efetivamente ele é que dizia quando é que ia haver a paz, é que se via o fim da guerra. Pronto, mas isso faz parte do jogo das palavras, quer de Trump, quer dos vários interlocutores do Irão, no sentido de, independentemente do acordo que vir a ser atingido, que há de ser, quer se queira, quer não, assumirem o estandarte da vitória. Faz parte de um processo depois de uma guerra como esta, mas entendemos sempre que são todos perdedores quando estamos em guerra, não há vencedores. Nessa perspectiva, estava à espera exatamente de uma solução. Não vai ser fácil. A comunidade internacional não é só a China. A comunidade internacional está a pressionar no sentido de haver uma solução, até porque o conflito estava a se estender para a Arábia Saudita, para o Iêmen, para o Iraque esta manhã já. É bom que haja um ponto-final, independentemente de haver um memorando de desentendimentos base, de trabalho, que para o Irão é importante. Mas mais importante que o memorando de entendimento, depois desta má experiência, é haver um acordo. Eu não sei que caminho vai conduzir esta boa notícia, mas era importante que houvesse mais um acordo, provavelmente um memorando que chute pra frente ou que empurre com a barriga as grandes questões, que foi o que aconteceu com o outro. E quando isso acontece, que é empurrar os grandes problemas, obviamente que não é solução.
Major-general, gostaria também de abordar consigo uma questão que envolve o Irão e a Ucrânia, até porque a Ucrânia classificou as mais recentes declarações vindas de Teerão como injustificadas e sem fundamento, acusa o regime iraniano de ser um cúmplice direto da agressão russa. O que é que nos diz esta troca de palavras entre Irão e Ucrânia, que são dois países que têm o seu próprio conflito em mãos?
O que nos diz é que esta guerra, obviamente, tem repercussões regionais, mas tem repercussões globais. E neste caso em concreto, tem a ver com o bombardeamento de um navio, que obviamente o Irão teve um morto e alguns feridos. Foi um bombardeamento da parte da Ucrânia, o que teve uma reação, mas a reação, quando nós estamos a falar da Rússia, obviamente que a Rússia tem apoiado implicitamente, na perspectiva de Zelensky, também explicitamente o próprio Irão, designadamente naquilo que tem a ver com a identificação de alvos no combate ao próprio Estados Unidos e aos países do Golfo. Isto é uma mensagem que Zelensky transmitiu ontem, uma mensagem muito perigosa, porque não houve resposta da parte dos Estados Unidos, mas se fosse verdade, e não havendo qualquer observação da parte de Trump, punha o José Rodrigues dos Santos e o seu livro na linha da frente. Ou seja, todas aquelas relações entre Trump e a Rússia, ao longo da sua vida, viriam ao de cima de novo. É matéria demasiado sensível. Há uma tentativa natural de Zelensky de aproveitar icum tais tu, em que o Irão é inimigo figadal dos Estados Unidos, para obter apoio da parte dos Estados Unidos e se introduzir entropias que prejudicam o Irão, como foi este caso, e associando à própria Rússia, obviamente que tem benefício. Esperemos que não tenham sido mais do que factos com algumas intenções do que propriamente toda uma história mais complicada. Zelensky foi duas grandes mensagens, como nós sabemos. Uma foi essa e outra com a reação quer do Irão, a Rússia não vimos tanto, mas depois atacou também a Rússia no que concerne àquela questão dos 30 mil soldados pra Coreia do Norte e os lançadores de mísseis balísticos. Portanto, deixemos assentar um bocadinho esta. Não tendo havido respostas, percebia-se que estava em processo de negociação da parte de Trump Amanhã teremos então resposta certamente quando ele receber quer Zelensky, quer Netanyahu. Veremos amanhã, porque estarmos sem todos os indicadores a fazer comentários não é fácil.
Precisamente, é um dos temas também a marcar a atualidade mundial no campo da geopolítica, bem como o encontro de Volodymyr Zelensky com o novo líder do governo britânico, já está até no Reino Unido, o Volodymyr Zelensky. O que é que seria uma boa reunião para Volodymyr Zelensky?
Uma boa reunião relativamente a amanhã ou hoje, já?
Já hoje.
Com o Reino Unido.
Já hoje com o Reino Unido.
Com o Reino Unido hoje é a continuidade da política britânica relativamente ao apoio deliberado à Ucrânia. Dentro dos países europeus, e não sendo um país da União Europeia e sendo um país da NATO, é daqueles países, senão o país, que mais tem apoiado a Ucrânia, não só naquilo que é a disponibilização de meios, designadamente sistemas de armas e equipamento, mas também numa linguagem ou numa narrativa mesmo, que já não é só linguagem, de oposição clara a Putin e ao Kremlin. Ou seja, é o país que independentemente dos dois partidos já terem estado no poder, dos dois principais, porque agora vem aí outro, não é? Vamos ver. Dos dois principais partidos terem estado sempre ao lado. Agora é um trabalhista com uma posição diferente. Este primeiro-ministro é um homem que relativamente à política externa no que concerne a Gaza e à Cisjordânia, e na relação com Netanyahu, não tem a mesma postura. É uma postura muito mais crítica relativamente a Israel, mas relativamente ao Reino Unido, daquilo que eu já vi, continua a ter essa mesma postura de grande apoio e é isso que ele quer. No fundo, pelo menos que seja uma continuidade em termos de linha estratégica de apoio à Ucrânia.
Major-General, temos ainda um minuto e meio para abordar um último tema neste gabinete de guerra. Vladimir Putin diz que Volodymyr Zelensky estará a preparar uma nova mobilização de até 500 mil pessoas após as eleições para a Duma. Há capacidade para tal na Rússia? Isso não pode gerar muita contestação ao regime de Vladimir Putin? Temos um minuto e meio até ao fim do programa.
Ele sabe que vai gerar contestação. Aquilo que está aqui em termos de dados, mais ou menos, é que neste momento eu tinha aqui os dados de 221 mil militares convocados este ano para as forças russas, só que as perdas foram superiores a esse número pela primeira vez. Ou seja, são cerca de 225,5 mil feridos e mortos, o que faz com que haja necessidade de reforço de recrutamento e também de reforço de recrutamento externo, designadamente à Coreia do Norte. Por isso é que Zelensky falou dos 30 mil soldados. Não são os primeiros, já lá tiveram 14 mil. Agora, o problema de Putin ao fim de quatro anos e meio, e quando a guerra já chegou ao interior da Rússia, já não é uma operação militar especial pra maioria do povo russo, é que ir convocar jovens em Moscovo ou São Petersburgo ou outras grandes cidades já vai ter repercussões diferentes do que tinha antes, porque sabem que vão morrer. Quando começam a chegar indicadores de que a tropa que vai pro teatro de operações e que é mandada pra frente, e quando não obedece prontamente é morta com um tiro na testa, essas histórias vão se contando pela Rússia. E, portanto, independentemente da censura, independentemente de uma narrativa histórica que influencia mais os mais velhos ligados à União Soviética do que os mais jovens que já desertaram, grande parte deles pra outros países, vai ter repercussões políticas. Por isso também é tempo de chegar, também pra ele, é tempo de chegar a uma paz. E por isso vai ser importante esta conversa amanhã com Zelensky e Trump, no sentido de se encontrar uma solução, claramente que a equipe que está a apoiar Trump deve ter uma solução já negociada em parte, diferente daquela que teve na última vez. Esperemos que caminhemos nesse sentido, porque realmente não vai ser fácil também para Putin.
Muito obrigado, Major-General João Vieira Borges, pela análise neste Gabinete de Guerra, que fica como sempre disponível em podcast.