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Gabinete de Guerra da Rádio Observador, segunda edição do dia. É nosso convidado o coronel Carlos Mendes Dias, a quem agradeço a disponibilidade. Boa tarde, bem-vindo. Senhor Coronel, começava talvez pelo aviso do porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, diz que as operações militares da Rússia se vão manter, apesar das negociações trilaterais agendadas para o próximo mês de novembro entre Moscovo, Kiev e Washington. É normal que assim seja, que as operações decorram, apesar desta aparente vontade, se é que há uma vontade genuína de partir para a mesa das negociações?
Sim, quer de um lado, quer de outro. Do ponto de vista teórico, mais prático, isso é verdade. É verdade por duas ou três razões que justificam. A primeira é, no início, se de fato se confirmar, na prática, a realização dessas negociações, nos centrarmos em posição de alguma superioridade, de algum domínio em determinado aspecto, para que a nossa palavra seja mais pesada que a palavra do outro. Em segundo lugar, porque nas condições do terreno, a lógica da violência militar não se pode parar de imediato, na justa medida que do ponto de vista tático estão certamente ações a decorrer, pese embora esta segunda razão não seja a mais importante, porque se não parar agora, parava daqui a dois ou três dias depois da conquista ou não de determinada finalidade. A terceira questão é mostrar aos pares, isto é, aos apoiantes, a quem apoia, quer um lado, quer outro, que de fato o esforço, a todos os títulos, não é só da violência militar, mas é também na questão psicológica, na questão económica, etc, estão a ser feitos quer de um lado, quer de outro, e, portanto, o antagonismo mantém-se e a luta que justifica apoio de um lado e apoio do outro também se mantém. As três razões essenciais, do meu ponto de vista, são essas, mas destacava, por motivos quase de senso comum, a primeira, isto é, sentar-me em posição de alguma superioridade sobre o outro lado.
Há uma grande
Por isso, é que muitas vezes os picos da violência aumentam em determinado aspecto, depois baixam, depois aumentam, depois baixam. Mesmo, às vezes, durante as negociações, repare, mesmo quando estamos sentados, às vezes há interrupções, saímos da sala para perguntar quem é responsável, o que se passou no terreno, o que não se passou, etc, para nos tornarmos a sentar outra vez. Isto se passa normalmente e não significa que ao mesmo tempo que não estejamos a fazer mal uns aos outros utilizando uma munição, também não estejamos a tentar resolver a questão que leva ao disparo da munição.
O senhor Coronel entende que há condições para chegar, nesta altura, a uma solução negociada? Este é o contexto ideal para se chegar a essa solução negociada?
Ultrapassando as questões relacionadas com as eleições norte-americanas, aproveitando também a questão do Olesky, que não se transpõe diretamente. Julgo que terá pouco a ver com um acordo de paz a larga escala, mas que pode potenciar, eu já referi várias vezes isso, a realização de mais coisas locais. Eu julgo que as condições, tenho muita dificuldade em ver se há melhores agora, se há melhores depois, porque depende do que nós consideramos melhores condições. Nós dizemos melhores condições, mas não é as nossas melhores condições. São as melhores condições dos antagonistas. Até parece que nós fazemos a guerra, nós, e esquecemos os antagonistas. Nas condições dos antagonistas, eu julgo que algo que se afigura, que pude apurar até com alguma brevidade, que até esta altura, não quer dizer que lá no 4 de novembro e tais coisas não se alteram, continuam aquelas exigências do costume. Por exemplo, para não falar sempre do mesmo, da cedência territorial, etc. Falo, por exemplo, na limitação das Forças Armadas ucranianas, em que mantém-se, obviamente, a liberdade de ação que a Ucrânia pretende e mantém-se o condicionamento do outro lado. A questão NATO, a questão das garantias de segurança, não só para a Ucrânia, mas para a Rússia. Deste ponto de vista, mantém-se praticamente tudo igual. O que é que pode levar a um espoletar das coisas, a um rompimento desta questão? É uma circunstância mais frágil, não só no terreno, mas também na vida internacional, de um dos antagonistas. E sabemos que a Ucrânia, quer do ponto de vista da mobilização ou não, é mais frágil, depende mais dos outros, e a Federação Russa não fraquejou ou não fraqueja como se extrapolava há dois ou três anos, pese embora vá aumentando as suas dificuldades. E já agora dizer que há um sinal muito importante, se não se importa. Já hoje de manhã, o senhor presidente ucraniano enviou para o Parlamento ucraniano os dois projetos de leis destinados à extensão da lei marcial e da mobilização geral, que acabavam agora no final de outubro, e a serem aprovados, tudo indica que sim, vão vigorar até 29 de janeiro do próximo ano.
Revelador que não está otimista quanto à eventualidade do sucesso das negociações.
Sim, não estou muito otimista. Vamos lá ver No acabar da guerra, porque depois o otimismo está com os antagonistas. Agora, dizer também o seguinte: aquela ideia que surgiu há duas ou três semanas, patrocinada pelo presidente norte-americano e já há muito tempo pelo presidente da Federação Russa, etc., das eleições, de com este líder já não dá, tem que ser outro líder, etc., Zelensky seria um obstáculo. Repare como isso está associado ao comportamento, à atitude de Zelensky. Agora, por quê? Porque a lei marcial proíbe terminantemente, é o seu artigo 19º, a realização de qualquer tipologia de eleições. E, portanto, ao haver essa extensão, significa que, ab initio, isso é uma ideia que fica exatamente mesmo nesses planos e não é uma ideia que esteja, pelo menos na cabeça do senhor presidente ucraniano, e se for aprovado pelo Parlamento, que é o representante do povo, também não estará.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que veio hoje queixar-se que os Estados Unidos estão a atrasar a entrega de mísseis de defesa Patriot que já foram pagos. Donald Trump, os Estados Unidos forçarem uma solução negociada, forçarem a Ucrânia, não diria a vergar-se, mas pelo menos abandonar o esforço de guerra?
Vamos pôr isso de forma mais objetiva. E o que me parece mais importante é que, de facto, há o que julgo saber, e posso estar errado, há limitações norte-americanas no sentido de não enviar esses mísseis. E por quê? Porque em cerca de sete meses, na guerra com o Irão, por exemplo, os norte-americanos gastaram cerca de 1800 mísseis, estamos a falar do PAC 3, do míssil para o sistema Patriot. Ora bem, isso significou anos de entradas de mísseis Patriot no estoque norte-americano. Em sete meses gastou-se um estoque de nove anos, mais ou menos. E, portanto, sim, o que significa que nesta altura, esse estoque, a confiar nos números, que são mais ou menos de domínio público, existiram esse estoque já muito menos do que se gastaram nestes sete meses da guerra com o Irão. E, portanto, significa que os norte-americanos, mesmo que fosse intencional, mas julgo não ser, estão, de facto, a ficar secos de mísseis PAC 3.
Portanto, não há uma má vontade por parte dos Estados Unidos.
Repare, é muito difícil nós entrarmos no cérebro do outro e aplicarmos essas expressões. Se ele tem má vontade, se não tem má vontade. Quer dizer, o que se passa, do meu ponto de vista, é isto, é uma falta de possibilidade e que se está a esgotar. E é por isso que se tem feito pressão, por exemplo, junto da Grécia, junto da Espanha, para enviar mísseis Patriot. Não são PAC 3, mas PAC 2 para a Ucrânia. Quer um, quer outro, são os países que têm mais no quadro europeu, também se recusaram devido a necessidades próprias. E repare que nós não fazemos juízo de valor da má vontade no que estes dois países respeitam. Também não deixa de ser uma curiosidade. Agora, certo é que os norte-americanos colocaram restrições. Do meu ponto de vista, é sustentada nesta razão. Mesmo se houvesse a má vontade, ela vai encontrar aqui um respaldo que é esta evidência. E depois, repare que no programa NATO, no tal programa Pearl, da lista dos requisitos, os norte-americanos até aprovaram, embora isso seja pago pelos países europeus, dois pacotes de 500 milhões de dólares. Simplesmente, certo, europeus a pagarem, mas não há, eu vou chamar em linguagem simples para as pessoas perceberem, vazão na produção. E depois o governo ainda aprovou, o governo norte-americano, porque de má vontade estamos a falar, um pacote de ajuda à Ucrânia de 2.68 mil milhões de euros, que também ainda não está em prática, porque tem que ser arranjado no âmbito de pagamento com fundos europeus desse material aos Estados Unidos. E vamos ao âmago da questão. E por que os norte-americanos antes, enfim, até doavam, agora exigem pagar? Porque os norte-americanos, desde há muitos anos a esta parte, nunca estão numa situação tão difícil economicamente como estão hoje. E os norte-americanos também não são uma entidade abstrata, também são pessoas, também pagam impostos, também têm os seus problemas internos. Repare a dívida que já ultrapassou os 100%. Antes isso não se passava. Mas voltando à sua pergunta inicial, não sei se má vontade, se não, eu quero crer que não, pelo menos pelos apoios, é de facto também dificuldade própria por estarem dois teatros de operações em simultâneo, um a apoiar e outro diretamente envolvido.
Sr. Cornél, vamos então falar desse outro palco de conflito internacional, o Médio Oriente. Para hoje está agendada uma reunião dos países do Pacto de Meca, que vão reunir-se com o Irão. Integram este pacto a Arábia Saudita, a Turquia e o Paquistão. Alguma expectativa em torno daquilo que poderá sair deste encontro, da capacidade destes países de influenciarem a forma como o Irão está a conduzir este conflito?
Eu julgo que o que o Irão irá procurar é a diminuição, do ponto de vista da componente militar de defesa, do papel dos norte-americanos naquela região do Médio Oriente. Já com esse pacto, e repare que estão no pacto aliados importantes norte-americanos, a Arábia Saudita, por exemplo, o Paquistão é sim e não, é conforme. A Turquia, que é talvez dos países mais importantes da NATO, porque é verdadeiramente aquele ator que guarda o flanco sul da NATO, não somos nós. E é isso que julgo eu que o Irão procurará, não é uma lógica de influência do género "olha, digam lá para não fazer isto". Não, o que está a procurar é, e estou a tentar fazer um exercício de me colocar no lado iraniano e pensar, e pensar é fragilizar a capacidade norte-americana de estar naquele espaço, de estar diretamente. E se quiser fazer isso, se calhar apostaria na consolidação de uma organização de segurança regional que não integrasse os norte-americanos e que no futuro a eles fosse mais imune do que é agora. Aliás, eu julgo que a iniciativa até é do responsável militar do Paquistão, que quando esteve em Teerão sugeriu a ideia de fazer uma reunião, não com este racional, mas com o racional de estabilização, de verdadeiramente não envolver a própria organização naquele espaço. Aliás, a organização foi concebida para aquele espaço, mas de facto não quer atuar. Repare bem que é uma organização que tem a tecnologia nuclear paquistanesa, e por isso é que lá está o Paquistão, a tecnologia na Turquia, as pessoas na Arábia Saudita. E sabem que o Médio Oriente perdeu um bocadinho de prioridade para os norte-americanos, a partir do momento que eles passaram a ser produtores e não meros consumidores das grandes riquezas, ou das principais riquezas que saem do Médio Oriente. Não são todas, mas algumas, nomeadamente o petróleo. Ora bem, a ideia norte-americana de não intervir, pelo menos que nós saibamos, na constituição do pacto, é simples: é porque lá estão aliados. Aliados que toda a vida foram perdedores daquela área, mas que serviram, antes da queda da União Soviética, para conter a União Soviética naquela área. Porque a Arábia Saudita, Paquistão, Egito e outros foram todos perdedores daquela área e que depois se soltam um pouco. Na justa medida em que a contenda à União Soviética também deixou de ser uma contenda, porque a União Soviética deixou de existir como tal, por conseguinte, também perde aí um bocadinho de escora. O que acontece é que, penso eu, o Irão irá tentar explorar que aqueles aliados norte-americanos que acordaram em fazer uma organização de segurança, que tinha como principal objetivo garantir a segurança com base nos ataques dos hutis, eram a principal ameaça, ele começar a minar, e começar a minar não pela sua inexistência futura, mas pelo contrário, pela sua existência mais robusta e que, deste ponto de vista, se liberta um pouco da influência norte-americana. Só para acabar, sabe qual é o principal problema? É que às tantas temos países que pertencem a certas organizações, que elas chocam entre elas e depois o país em si é conforme o vento, repare na Turquia. A Turquia é NATO e é daquela organização.
E também desta organização. Afirmamos o que sai desta reunião do pacto DMEC, reunião com as autoridades iranianas agendada para esta segunda-feira. Agradeço ao coronel Carlos Mendes Dias a presença neste Gabinete de Guerra, segunda edição do dia de Gabinete de Guerra em foco, conflito no Médio Oriente e também no Leste da Europa.