Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas que estão a marcar o globo. Hoje contamos com a análise do investigador de história militar Pedro Nascimento, a quem agradeço ter aceitado este nosso convite. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Vamos começar por falar sobre a situação no Médio Oriente. O Irão diz que retomar a diplomacia com os Estados Unidos é possível, mas avisa Teerão que a pressão não funciona. Pedro Nascimento, em que moldes é que pode voltar a diplomacia depois destas declarações por parte do regime de Teerão?

Boa tarde, José Rafael, e boa tarde a todos os ouvintes. Eu diria que estamos aqui perante uma formulação cuidadosamente construída para permitir que haja uma negociação futura, porque o Irão não quer admitir que será uma eventual pressão americana que o pode obrigar a regressar à mesa. Ou seja, há aqui uma dimensão doméstica que é importante nós percebermos. Temos cerca de seis meses de uma guerra entre Estados Unidos e Irão, com as suas peculiaridades, e qualquer compromisso que possa parecer uma capitulação perante os americanos pode ser politicamente muito difícil de vender dentro do regime. A liderança iraniana precisa de dizer basicamente: "Nós resistimos e são os americanos que têm que reconhecer que não nos podem obrigar a capitular". E isto acontece do lado americano também, porque Trump precisa de poder dizer que é a sua pressão militar e económica que obriga o Irão a voltar à mesa. Portanto, o que eu acho que é importante nós apontarmos aqui neste campo é que, curiosamente, pode existir um espaço substantivo para negociar antes de existir um espaço político para se admitir que se está a negociar.

Isso diz-nos o quê, Pedro Nascimento?

Desde logo, eu diria que é aqui que, por exemplo, outros países se podem tornar especialmente relevantes, como o Qatar e Omã, porque podem transportar propostas entre os dois lados sem que os Estados Unidos e o Irão tenham imediatamente que assumir esta negociação formal, porque isto tem muito mais relevância do que aquilo que pode parecer. Porque quando nós estamos aqui a discutir "ah, porque os Estados Unidos não querem admitir ou o Irão não quer admitir", é importante percebermos que isto terá muitas implicações políticas para um lado e para o outro. E por isso mesmo, é aquilo que eu digo, há um espaço substantivo para negociar antes de existir um espaço político para se admitir que se está a negociar. E como disse, leva-nos à especial relevância que tomam as ações de outros países, porque neste momento nós sabemos que há esforços diplomáticos sobre as condições para tentar normalizar esta navegação nos Estreitos de Ormuz.

E é precisamente esse o tópico onde eu gostaria de incidir agora. Os Estados Unidos dizem que o bloqueio naval vai enfraquecer ainda mais a economia do Irão. Este enfraquecimento, Pedro Nascimento, é ao ponto de vergar o Irão?

Não será propriamente fácil, mas nós agora temos aqui um elemento que eu diria com mais importância desta nova estratégia, que são as sanções secundárias. Porque nós estamos aqui a falar deste bloqueio naval, mas o ataque à economia do Irão vai com esta nova estratégia. Na prática, o que é que se passa? Os Estados Unidos impõem limitações ou proibições às empresas americanas de fazer negócios diretamente com o Irão, mas procuram também agora obrigar outros países terceiros a escolher entre manter as relações económicas com o Irão ou a preservar um acesso ao mercado americano. Portanto, esta questão transcende a questão física da coisa. Quando os Estados Unidos estão a falar do bloqueio naval, vai enfraquecer ainda mais a economia do Irão. É natural, os Estados Unidos estão a bloquear os estreitos, estão a bloquear os portos iranianos, mas esta questão de enfraquecer a economia é com esta nova vertente. É isto que os Estados Unidos estão à procura. De uma forma muito superficial, estas sanções a que eu estou a fazer referência são sanções que podem ter um efeito potencialmente poderoso, porque vejamos isto: um banco asiático ou europeu pode não ir de encontro a estas estratégias americanas, mas dificilmente vai arriscar perder um acesso a um sistema financeiro americano para poder operar no Irão. Ou seja, esta capacidade de transformar a centralidade do dólar numa arma geopolítica é agora aquilo que os Estados Unidos estão a explorar. E bem. Não estou a dizer que é bem feito, estou a dizer que é inteligente da parte dos Estados Unidos estar a tentar procurar outros caminhos, percebendo que não conseguiu vergar o Irão até este momento. E a administração Trump quer alargar ainda mais esta pressão e procura convencer os outros países a reduzir ou a limitar as suas relações económicas com o Irão.

Entretanto, continuamos ainda no Médio Oriente. Um último tema sobre este ponto de conflito geopolítico. O Irão diz que a pressão económica dos Estados Unidos é terrorismo de Estado e pede que os países não implementem sanções. Há aqui algum receio por parte de Teerão que os restantes países se juntem e compliquem ainda mais a situação para o lado iraniano, até porque, por exemplo, aqui é importante ter em conta a importância da China, um dos maiores parceiros iranianos no comércio.

Verdade, José Rafael, mas até na sequência precisamente daquilo que eu vinha dizendo. É que há aqui um problema muito grande para o Irão É que mesmo os países que rejeitam politicamente esta estratégia podem acabar por vergar-se a estas sanções por uma simples questão de interesse económico. Agora, a grande questão é saber se essa pressão produzirá o resultado que Trump pretende, porque as sanções podem levar o regime iraniano a negociar, mas também podem produzir o efeito contrário, que é reforçar a percepção de que qualquer concessão feita neste momento pode ser interpretada como uma capitulação perante os Estados Unidos, como eu comecei por dizer. E esse equilíbrio Trump vai tentar explorar, ou seja, conseguir que a pressão económica seja suficientemente forte para alterar o cálculo do Irão, mas não tão forte que torne politicamente impossível qualquer compromisso, porque depois temos essa questão também que o José Rafael apontou. Estas sanções, nós estamos a falar de países como, por exemplo, a China e a Turquia. Isto tudo é muito volátil para nós não nos perdermos num exercício de adivinhação. Mas digamos que podemos ter aqui uma faca de dois gumes precisamente por estes denominadores que estão aqui apontados.

Vamos seguir em frente, falar também da situação na Ucrânia. Continuam de parte a parte ataques ucranianos, também ataques russos. A Ucrânia tem atacado sobretudo refinarias na Rússia. Moscovo mantém os alvos em infraestruturas portuárias ucranianas. O que é que nos dizem estas últimas levas de ataques sobre a situação que se vive neste conflito?

Neste ponto, é verdade, a Ucrânia tem insistido neste tipo de ataques e a lógica eu diria que é relativamente simples: a energia continua a ser uma das principais fontes de receita da Rússia e, para além disso, a energia é também essencial para a própria máquina de guerra. Ou seja, ao atacar as refinarias, está-se a atacar a produção, estão a aumentar-se os custos económicos e com isto a Ucrânia tenta obrigar a Rússia a dispersar as suas defesas aéreas. Porque um sistema que está a ser utilizado para proteger uma refinaria no interior da Rússia é um sistema que não pode ser utilizado noutro ponto qualquer do território ou na frente de combate. E a Rússia procura fazer algo semelhante do lado ucraniano, porque os últimos ataques também voltaram a atingir os portos e instalações elétricas, energia, tudo mais relacionado com os centros logísticos ucranianos, e agora com particular atenção à região de Odessa, porque os portos são especialmente importantes para a Ucrânia, porque além de permitir gerar receitas e manter uma ligação económica com o exterior também sabemos que são centros de armazenamento. Portanto, há uma assimetria que nós também não podemos descurar aqui, é que a Rússia tem muito mais território, tem uma economia muito maior e uma maior capacidade para absorver todos estes danos, mas isso também significa que tem uma enorme quantidade de infraestrutura crítica para defender. Por isso a Ucrânia não precisa destruir todo o setor energético russo, basta provocar perturbações suficientes, como tem provocado, e isto aumenta continuamente o custo económico da guerra.

Ou seja, mais do que atacar, a Ucrânia pretende que a Rússia diminua a forma e a quantidade de vezes que ataca.

E tem tido sucesso nesse ponto. É muito importante. Naturalmente, agora não temos aqui, mas seria muito interessante no futuro, até num programa, explorar a questão militar do terreno e explicar mesmo essas nuances, porque a geografia deste conflito hoje é muito maior do que a própria frente. E isto tem uma influência brutal no andamento deste conflito. Porque uma refinaria que está a centenas de quilómetros de combate ou um porto no Mar Negro fazem tanto parte desta guerra como uma trincheira no Donbass. Esta guerra alterou a natureza dos combates e acho que no futuro será estudado daqui a muitos anos na história militar, porque nós temos aqui uma alteração do status quo e do modus operandi de guerra que é muito interessante do ponto de vista teórico, claro, de ser estudado.

Temos ainda um último tema relacionado com a monarquia, a morte do rei da Noruega. Harold morreu hoje, vai ser sucedido pelo filho, como é, aliás, natural nas monarquias. Pedro Nascimento, que ponto de situação é que podemos fazer das monarquias europeias atuais? Que papel é que a monarquia tem na Europa e no mundo nesta altura? Temos três minutos até o final do programa.

O rei norueguês eu diria que deixa aqui uma herança particularmente difícil de igualar, porque ele conseguiu manter uma enorme popularidade e, sobretudo, conseguiu apresentar a monarquia norueguesa como instituição próxima de uma sociedade que é, paradoxalmente, uma das mais igualitárias e modernas da Europa. E também mesmo aqueles mais distraídos certamente lembrar-se-ão do enorme papel simbólico que teve naqueles momentos de trauma nacional da Noruega, sobretudo depois dos atentados de julho de 2011. Portanto, o novo rei herda uma instituição forte, mas também com alguns problemas, porque a família real norueguesa tem estado sujeita a um escrutínio mediático muito considerável, nomeadamente em torno da nova rainha e do seu filho, Marius Borg. E o desafio do novo rei eu creio que será preservar o capital de confiança que foi acumulado pelo seu antecessor numa sociedade em que a monarquia, como qualquer outra instituição, precisa de justificar a sua relevância. E talvez seja precisamente este o paradoxo que explica a longevidade das monarquias escandinavas, porque elas têm sobrevivido não porque conservam o poder político, mas porque aceitam implicitamente perdê-lo. Porque o rei praticamente não governa, não representa uma maioria partidária, não tem essa influência, mas representa continuidade, representa identidade e unidade nacional. Portanto, eu diria que Harold terá pouco poder para decidir o destino político da Noruega, mas tem que continuar este legado de representação dos noruegueses e é provavelmente essa distinção entre o poder e a representação que eu aponto como o melhor motivo do sucesso destas monarquias escandinavas.

E é nesta nota que terminamos o Gabinete de Guerra de hoje. Fica disponível já daqui a pouco em podcast. Resta-me apenas agradecer ao Pedro Nascimento, é investigador de história militar, esteve hoje na análise das principais questões geopolíticas do mundo. Pedro Nascimento, um grande abraço e até uma próxima oportunidade.

Muito obrigado.