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Está aberto o gabinete de guerra da Rádio Observador. Eu sou o Miguel Cordar. Nos próximos minutos vamos falar com Francisco Pereira Coutinho, especialista em Direito Internacional. Detalhamos o que se passa no conflito da Ucrânia e também a situação no Médio Oriente. Francisco Pereira Coutinho, muito boa tarde. Obrigado por estar conosco na Rádio Observador. Vamos começar com o conflito na Ucrânia, até porque hoje há a informação de que Donald Trump decidiu voltar atrás e, afinal, vai voltar a enviar armamento para Kiev. O Pentágono já confirmou isto. O que leva Trump a mudar de opinião e também que impacto é que tem esta questão de tomar uma decisão, voltar atrás, tomar outra vez essa decisão, voltar novamente atrás. A Ucrânia não fica com dias fáceis perante este impasse norte-americano.

Muito boa tarde, Miguel. Sim, é muito difícil para a Ucrânia gerir a sua defesa, ainda por cima é uma defesa existencial. A Ucrânia luta pela sua sobrevivência e sabe que precisa muito do apoio militar dos seus aliados, especialmente da principal potência militar mundial que são os Estados Unidos. Agora, nós já sabíamos, pelo menos há um ano, desde a campanha das presidenciais, que a vida da Ucrânia seria muito difícil com a administração Donald Trump. Aliás, ele foi muito claro durante a campanha, especialmente num debate com Kamala Harris, em que lhe perguntam: "Quer que a Ucrânia ganhe?" E ele não foi capaz de responder. E, portanto, já se sabia que a Ucrânia iria ter tempos muito difíceis com esta administração e está a confirmar-se isso mesmo. Tivemos na semana passada uma decisão de interromper a ajuda militar, na sequência de um pedido do próprio Trump, que no fundo pedia para se perceber como é que estavam os estoques de armamento americano. E isso foi interpretado como querendo dizer que não haveria mais armas para a Ucrânia, pelo menos num futuro próximo. Entretanto, Trump mudou de ideias e aparentemente a ajuda militar vai continuar a chegar à Ucrânia. Importa também dizer duas coisas. Em primeiro lugar, que Trump não aprovou nenhum novo pacote de ajuda militar à Ucrânia. Ainda estamos a viver com os pacotes de ajuda militar que foram decididos por Joe Biden, mesmo até ao final da sua presidência. E um outro aspecto que é muito importante é o seguinte: a ajuda militar que tinha sido prometida por Biden à Ucrânia vai se estender nos próximos anos, a não ser que exista uma decisão de interromper o envio dessa ajuda. E os ucranianos sabem disso. E, portanto, não estão à espera de novos pacotes de ajuda militar, mas estão à espera que pelo menos aquilo que foi prometido possa chegar à Ucrânia. E isso é muito importante, porque o apoio europeu que tem vindo a robustecer, portanto a Europa está a substituir-se aos Estados Unidos, não consegue substituí-los completamente, especialmente no domínio, que é o domínio da defesa antiaérea, defesa contra os mísseis russos que atacam a Ucrânia constantemente. Trump falou com Putin, não ficou muito satisfeito da conversa que teve com Putin e a resposta foi esta, que vai voltar a enviar armamento para a Ucrânia, que estava neste momento, esse envio de armamento suspenso. Mas como referi, isto já aconteceu no passado, principalmente a seguir àquela tarde fatídica na Sala Oval, os americanos suspenderam não apenas o armamento, mas também a partilha de informações e isso teve consequências terríveis na frente de batalha.

Entretanto, do lado russo, foi hoje detalhado pelo primeiro-ministro russo que o país triplicou a produção de drones. Sabemos que hoje em dia esta é uma parte importante dos conflitos, a questão dos drones. Aliás, o sucesso das últimas grandes operações da Ucrânia em território russo foram precisamente com drones. Não sabemos ao certo se essas declarações russas se confirmam ou se são apenas propaganda, mas é de fato algo que tanto um lado do conflito como o outro têm demonstrado particular importância, o investimento nesta questão dos drones.

Completamente. E é muito interessante perceber como a guerra mudou. Se estivéssemos a ter esta conversa há três anos, não estaríamos a discutir praticamente a questão dos drones. Estaríamos a discutir os tanques, os mísseis, mas os ucranianos primeiro, e agora os russos crescentemente utilizam drones. No momento inicial, os russos viveram da tecnologia iraniana, dos Shahed, mas entretanto, muito rapidamente começaram a desenvolver a sua própria tecnologia. E, por exemplo, foram eles que introduziram no campo de batalha os drones de fibra ótica, que são drones muito mais eficazes porque não são interceptados por parte dos ucranianos, e isso é algo que acabou por ter consequência no campo de batalha. Mas a Ucrânia, neste momento, também está a produzir milhões de drones. Agora, essa notícia eu estimo que até seja verdadeira, na verdade, porque a máquina de guerra russa tem sido muito eficiente. A Rússia transformou completamente a sua economia numa economia de guerra, produz um número de munições absolutamente impressionante e crescentemente, um número muito grande de drones que tornam a frente de batalha, especialmente a retaguarda ucraniana neste momento, muito complicado o abastecimento das tropas ucranianas, porque os drones russos têm sido cada vez mais eficazes. Mas também os drones ucranianos. Aliás, o avanço russo tem sido em larga medida contido nos últimos tempos, estamos a falar no último ano, muito provavelmente por causa dos drones ucranianos, que também têm sido profundamente eficazes para repelir os avanços russos.

Falemos então da questão do Médio Oriente. Houve a reunião entre Donald Trump e Netanyahu, reunião em Washington para discutir essencialmente um cessar-fogo em Gaza, que possa começar num período de 60 dias Foi dito que há um acordo sobre 80 ou 90% desse cessar-fogo para a região de Gaza. Há reuniões a decorrer também no Qatar, em Doha. Estamos mesmo perante uma situação de cessar-fogo, algo que não vemos já desde outubro de 2023 para esta região?

Não, eu diria que vamos ter uma replica do cessar-fogo que tivemos em janeiro. Aliás, este será o terceiro cessar-fogo que vamos ter neste conflito em Gaza desde outubro de 23. Tivemos um primeiro que permitiu a libertação de vários reféns, um segundo no dia anterior à tomada de posse de Donald Trump em janeiro e agora novamente um novo cessar-fogo, muito parecido com aqueles que tivemos até agora. E a dúvida que temos neste momento é saber se será mesmo o último cessar-fogo, que o Hamas vai libertar metade dos reféns, mas ficará com metade dos reféns que estão vivos neste momento, serão cerca de 20. Não é certo que este sequer seja o último cessar-fogo, tudo depende de a guerra terminar definitivamente. E para que isso aconteça, era preciso que Israel apresentasse um plano para o futuro de Gaza. Donald Trump voltou a falar na ideia da Riviera do Médio Oriente, a expulsar a população palestiniana, mas também não parece dar grandes sinais que está muito interessado em forçar os israelitas a tomarem uma posição firme sobre aquilo que pretendem fazer em Gaza, porque estamos a falar de um cessar-fogo de 60 dias. Isto implicará que ainda durante o verão ele cessará e aquilo que as partes como convencionaram em janeiro é que anunciariam uma segunda fase. Esta foi a discussão que nós tivemos em janeiro.

Nunca chegou a avançar.

Nunca chegou a avançar. E a expectativa agora é que vamos repetir novamente aquilo que já observamos em janeiro, a não ser que exista aqui algum avanço que até agora não vimos da parte do governo de Israel nenhum tipo de sinais de que isso possa vir a acontecer. É evidente que tivemos o conflito no Irão, as eleições em Israel estão-se a aproximar. Netanyahu não avançou para uma segunda fase em janeiro porque estava muito pressionado pelos membros da extrema-direita messiânica no seu governo, que fariam cair o governo. Vamos ver se nesta fase a situação se repete ou se, pelo contrário, ele não se importará de avançar para eleições, mesmo caindo o governo, porque é muito provável que caia se avançar para um fim do conflito em Gaza.

Sendo que há esta novidade, tem sido noticiado ao longo do dia de hoje, Netanyahu diz que está perto de encontrar vários países dispostos a receber palestinianos que queiram sair. Isto foi dito já depois dessa reunião com o presidente dos Estados Unidos. O presidente dos Estados Unidos, entretanto, acabou por confirmar este cenário. Seria, de facto, uma mudança de paradigma, a possibilidade de deixar sair vários palestinianos que estão, podemos dizer, praticamente retidos no território de Gaza, com Israel a controlar essas fronteiras. Como é que poderia acontecer isto e também se vê esta medida como importante para uma nova fase de um cessar-fogo, de entendimento para a região?

Esse tipo de declarações de Benjamin Netanyahu são profundamente irresponsáveis e problemáticas, porque há uma boa parte do seu governo que quer, de facto, expulsar a população palestiniana. Agora, isso significaria uma limpeza étnica. É claro que eles falam de uma imigração voluntária. Qual é o problema, observando para Gaza? Israel está a fazer tudo o que está ao seu alcance para forçar os palestinianos a sair, tornando as condições de vida em Gaza absolutamente insuportáveis. E eu referia há bocado que Donald Trump teve, aliás, numa das visitas de Netanyahu a Washington, aquela ideia da Riviera do Médio Oriente, que implicaria a população palestiniana sair de Gaza enquanto se reconstruía a Faixa de Gaza para um grande projeto imobiliário. Já nessa altura, Israel disse que estava em negociações com vários Estados para receber a população palestiniana que quisesse sair. Falou-se, por exemplo, da Indonésia, falou-se da Líbia. Agora, isto é profundamente irresponsável, porque evidentemente aquele território é um território do futuro Estado palestiniano e é para viverem lá os palestinianos. É evidente que as pessoas que pudessem sair, seria importante que o pudessem fazer, até porque Gaza é uma prisão, e é uma prisão desde 2005, porque a saída de Gaza sempre foi muitíssimo condicionada, não é apenas desde outubro de 2023. Mas devemos interpretar essas palavras de Netanyahu com imensa preocupação, justamente porque temos aqui este histórico e ele não é particularmente simpático para Netanyahu, no sentido em que ele quando diz isso, di-lo com essa reserva mental de provavelmente quer que as pessoas saiam justamente porque isso lhe resolveria um problema que ele tem neste momento em mãos, que é a circunstância de viverem ali dois milhões de pessoas em condições absolutamente deploráveis.

Para fechar, Netanyahu confirma que Israel indica Donald Trump para o Prêmio Nobel da Paz. Isto é algo que já tem sido discutido ao longo das últimas semanas. Como é que vê este posicionamento ou utilização de um prêmio para apontar para esta situação de negociações e daquilo que tem sido também o trabalho diplomático nos diferentes conflitos?

É muito interessante que agora os líderes políticos que se reúnem com Donald Trump em Washington trazem todos eles alguma surpresa para Donald Trump. O chanceler alemão levou o certificado de nascimento do pai ou do avô Trump, já não me recordo. O primeiro-ministro britânico, um convite do rei inglês, do rei britânico. E neste caso concreto, Netanyahu enviou uma carta para o Comitê Nobel propondo Donald Trump para Prêmio Nobel da Paz. É este o contexto dessa carta de Netanyahu. Todos os líderes políticos esforçam-se por tentar apagar o ego do Donald Trump. Já sabemos que ele é um grande narcisista, um egocêntrico, e esse tipo de medidas têm esse propósito específico, não são para ser levadas muito a sério. É verdade que o Donald Trump tem falado bastante sobre isso, sobre a possibilidade de ganhar um Prêmio Nobel. Também é preciso não esquecer que ele, em 20 de janeiro, faz um discurso em que diz: "Eu sou o presidente americano que vai acabar com todas as guerras". Ele sabe que Obama ganhou um Prêmio Nobel e portanto também quer, e por todas essas razões, isto foi uma ideia de Netanyahu, que foi obviamente muito bem recebida por Donald Trump. Agora, eu não creio que seja algo que devemos levar muito a sério nesta fase, pelo menos.

Francisco Pereira Coutinho, muito obrigado por ter estado conosco aqui esta tarde na Rádio Observador.