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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o espaço em que analisamos os principais focos da tensão geopolítica e na edição desta noite contamos com a análise de Ana Cavalieri, especialista em Relações Internacionais. Boa noite, obrigado por aceitar o nosso convite.
Muito obrigada, boa noite.
Vamos começar pelo que nos afeta, ou pelo menos o que está mais perto de nós, como os americanos dizem, closest to home ou mais perto de casa, da guerra na Ucrânia. Falamos obviamente de um acordo que aconteceu neste sábado entre Donald Trump e Vladimir Putin. O presidente norte-americano anunciou que Putin concordou em libertar, de forma imediata, 300 mil toneladas de petróleo pro mercado americano e global, seguidas por 500 mil toneladas em novembro e mais um milhão que virá depois. Já houve várias críticas, cito, por exemplo, a crítica do antigo vice-presidente de Trump no primeiro mandato, Mike Pence, que escreve na rede social X que "em vez de aplicar as sanções severas pelas quais Lindsey Graham lutou até ao último suspiro, o presidente Trump anunciou que os Estados Unidos vão levantar as sanções sobre a energia russa, alimentando assim a máquina de guerra de Putin". É o que escreve Mike Pence na rede social X, como alusão ao senador Lindsey Graham, que faleceu em Kiev ainda este ano e que era um dos republicanos que mais lutava pela Ucrânia. Entretanto, Donald Trump veio defender esta tomada decisão, escreve na Truth Social que esta decisão é uma decisão tomada pelo bem dos norte-americanos e é America first, ou seja, América primeiro. Ana, pergunto-lhe, com quem concorda mais? Acha que libertar o petróleo russo é uma decisão, de fato, estratégica e benéfica pros norte-americanos, ou acha que Trump está apenas a agir de uma forma desesperada pra tentar ao máximo baixar os preços, tendo em conta as eleições intercalares que estão aqui à porta?
Sim, eu acho que há pouca eficácia nesta medida, porque é uma quantia relativamente pequena relativamente às necessidades, que até são diárias. Por exemplo, aquilo que são as 300 mil toneladas, eu penso que nem pra 24 horas daquilo que seriam as necessidades americanas, é suficiente. E então aquilo que seria talvez o objetivo, que era a tempo das eleições promover uma redução de preços ou pelo menos manter os preços a um nível que ainda não aumente mais, eu penso que isso não irá ter muitas consequências. Decididamente, aquilo vai ser libertado depois em novembro, em dezembro. Eu penso que isto é uma pressão para, de alguma forma, passar a mensagem de que a guerra na Ucrânia e aquilo que são os ataques a longo alcance nas refinarias russas são a grande motivação, a grande razão para os preços de diesel subirem e tentar tirar um pouco o foco daquilo que se passa no Estreito de Ormuz. Mas eu penso que isso não terá muito sucesso, porque os americanos, acima de tudo, respondem àquilo que é o preço que vão continuar a pagar nos combustíveis. E também há as restrições ou os constrangimentos que nós sabemos que os russos têm a exportar ou a refinar aquilo que é este gasóleo. Nós sabemos que, nomeadamente, as proibições de exportações russas dos últimos meses foi acompanhada com importação de produtos refinados, nomeadamente o gasóleo, e nomeadamente da Coreia do Sul. Ou seja, também há dúvida que exista a logística necessária pra conseguir finalizar ou executar isto que supostamente foi acordado. Atenção, é verdade que não só a crise no Estreito de Ormuz, nomeadamente aquilo que tem sido não só o petróleo em bruto a não conseguir passar aos níveis que provavelmente estariam antes da guerra, mas também aquilo que ainda é alguma capacidade de refinação dos países do Golfo, que naturalmente depois não podem fazer escoar o produto refinado, ou seja, o gasóleo. É também verdade que as duas grandes potências da refinação de gasóleo, que é a China e os Estados Unidos, estão já completamente com as suas infraestruturas sobrelotadas, ou seja, a capacidade está no limite. E é verdade que a Rússia seria a terceira grande potência na refinação e que, naturalmente, os ataques que a Ucrânia faz à Rússia impactam, a nível global, aquilo que será o preço especificamente do petróleo. Mas o Estreito de Ormuz condicionou e provavelmente foi o grande espoletar desta crise de preço. Eu penso que os americanos, continuando a sofrer aquilo que é o preço elevado do gasóleo, naturalmente, o preço que eles estão a pagar no gasóleo é muito abaixo do que nós pagamos em Portugal, mas os americanos têm muita sensibilidade aos preços do gasóleo e muito pouca tolerância àquilo que são preços elevados. Mas eu penso que o eleitorado americano ainda vai continuar, naturalmente, a perceber que independentemente se é do Médio Oriente a primordial razão dos preços do gasóleo estarem elevados ou aquilo que é a Rússia e Ucrânia, eles vão, como ponto de princípio, responsabilizar a administração atual.
Sim, tendo em conta também que o preço do petróleo nos Estados Unidos ronda os $6 por galão, apesar de ser bastante pouco comparado aqui com a Europa, de fato, é uma grande preocupação.
Só que a comparação é metade. Ou seja, eles para encher o tanque de gasóleo pagam metade do que nós pagamos aqui em Portugal.
Cerca de R$1 e qualquer coisa por litro.
Isso tem a ver, naturalmente, com a estrutura fiscal que existe cá. Mas depois existem problemas de fundo, que, por exemplo, alguns senadores teriam a elencar, que é naturalmente o fato de, com alguma publicidade, Donald Trump ter assinado aquela lei bipartidária, que tem sido liderada por Lindsey Graham, que era um senador republicano, que possibilitava passar sanções secundárias a compradores de produtos petrolíferos russos. Mas o problema de fundo existe sempre. O Trump tem quase nenhuma leverage, ou seja, capacidade de pressão do lado russo, porque passar sanções secundárias à China e à Índia seria um descalabro econômico com ramificações ainda piores pra economia americana. Por isso ele não poderá fazer isso. Então aquilo que é a ansiedade que ele tem em ter um breakthrough, ou seja, uma novidade diplomática para apresentar, só pode recair com a pressão que ele pode fazer com o parceiro que ele tem mais controle, que é a Ucrânia. Só que, naturalmente, existe nos Estados Unidos um amplo apoio, até bipartidário, à Ucrânia e uma grande aversão àquilo que são as ambições russas. E atenção, não esquecer que a apresentação deste deal, desta suposta novidade de haver o levantamento de algumas sanções dos Estados Unidos relativamente à Rússia, foi acompanhado quando a delegação ucraniana, liderada por Umerov Em Miami, a reunir-se com Jared Kushner e Steve Witkoff, e nós sabemos que provavelmente aquilo que é a relação, onde há bastantes conflitos de interesses em que Jared Kushner tem e Steve Witkoff tem com Dmitri F, que é o grande advisor de Putin, com grandes ligações com os Estados Unidos, provavelmente põe também aqui uma certa nuvem de potencial corrupção, onde interesses econômicos da família Trump ou dos grandes aliados de Trump estão a pensar que, estreitando relações econômicas, nomeadamente na área de prolífera, na área dos combustíveis fósseis, pode beneficiar economicamente alguns interesses privados de pessoas próximas de Trump. E isso, em termos de aparência, para alguém cujo partido está a participar em eleições daqui a pouco tempo, pode ser bastante negativo.
Sim, também tendo em conta a questão do oligarca russo que tecnicamente ou admitidamente pagou o casamento de Donald Trump Jr. Portanto, para além dessa mesma notícia, que também pode trazer alguma negatividade. Perguntando-lhe também ainda sobre esta publicação, porque Trump aponta os dedos à Europa, dizer que a União Europeia gastou US$ 250 mil milhões ou cerca de € 224 mil milhões em energia russa. E de facto, a Europa gastou mesmo esse valor desde o início do conflito em fevereiro de 2022, no período de cerca de quatro anos e qualquer coisa. Portanto, também é importante indicar esses quatro anos e qualquer coisa, porque a maneira como Trump diz parece que é anual, mas é de quatro anos e qualquer coisa, é um valor geral. Esta é uma boa justificação para validar esta ação de Trump?
Existe aqui, naturalmente, um problema, pelo menos na nossa autoridade moral. Mas atenção, a Europa tinha uma dependência relativamente às fontes de gás natural e de petróleo que vinha da Rússia, coisa que os Estados Unidos não têm. Então aquilo tem sido o nosso longo caminho para tentarmos distanciar desta dependência e conseguir arranjar outras formas de conseguir abastecer-nos daquilo que é o gás natural e o petróleo que nós precisamos para as nossas vidas, nas nossas sociedades europeias continuarem a funcionar. Não no caso específico de Portugal, nós temos outras fontes, mas estamos a falar mais da Europa Central e de alguns países da Europa de Leste. Mas isso é verdade, isso é a consequência de uma péssima gestão da nossa estratégia energética nas últimas duas décadas. E nós pagamos a consequência de estarmos a financiar o esforço de guerra russo, mesmo estando nós, nos últimos anos, a ter uma estratégia de tentar ficarmos mais independentes. Mas há aqui outro dado que normalmente é escondido e que as pessoas também, penso eu, precisam de lembrar. Nós agora, os produtos refinados, nós importamos muito agora da Índia, mas a Índia compra da Rússia e então, provavelmente, aquilo que são os números, por exemplo, relativamente a 2026, que não são compatibilizados nas nossas fontes como sendo petróleo ou produtos refinados vindos da Rússia, porque aparece lá Índia, mas a Índia exporta porque importa da Rússia. Então nós indiretamente continuamos também a financiar o esforço de guerra russo contra a Ucrânia, porque naturalmente estamos a dar à Índia e a Índia anda a comprar e a importar já na expectativa que vai vender à Europa. E isso é a tragédia de nós termos tido uma estratégia energética que, naturalmente, levou a uma dependência e levou a nós não podermos ser credíveis quando depois, naturalmente, outros parceiros, por razões de interesse nacional, como aquilo que o Trump alega, fazem também algo que possa beneficiar os cofres russos. Mas está aqui uma diferença, é que nós estamos mesmo em dependência. Era uma questão de sobrevivência daquilo que é o normal funcionamento das nossas economias europeias e aquilo que seriam as consequências de segunda e terceira ordem, em nós adotarmos uma posição de princípio de não comprarmos nada vindo da Rússia naquilo que são as nossas necessidades energéticas, teriam consequências terríveis para a economia global. Os Estados Unidos é diferente, esta medida que Trump anunciou, ou este livre de sanções, tem pouca eficácia naquilo que será o propósito de mover preços. Penso também que é algo específico para tentar ainda conseguir ter um melhor resultado nas eleições intercalares. Então há aqui um mecanismo político que não parece nobre, comparado com aquilo que a Europa faz de comprar porque precisa mesmo dessas fontes energéticas. Então eu penso que é diferente. Mas naturalmente é verdade no sentido que nós europeus temos muita responsabilidade daquilo que tem sido uma política energética absolutamente nefasta que nós adotámos nas últimas décadas.
Peço-lhe para responder mais rapidamente a esta questão da Ucrânia, para depois passarmos para o Médio Oriente. Ainda nesta guerra da Ucrânia, a Ucrânia está a acusar a Rússia de ter atacado infraestruturas energéticas, apesar da trégua anunciada por Donald Trump. Zelensky diz mesmo que esta é a resposta de Putin a Trump, portanto, que Putin vai desrespeitar o líder norte-americano e parece que está a dar um entender de que, tendo em conta o acordo que fizeram, que o Putin pode estar a aproveitar de Trump. O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, veio agora dizer também que Zelensky não merece uma trégua porque aproveitaria para se rearmar. Portanto, também dá esta sensação de que o próprio Zelensky também se estaria a aproveitar de Donald Trump. A minha pergunta é quem é que se está a aproveitar de quem, se concorda com Zelensky, se concorda com Lavrov, se concorda com os dois, muito rapidamente só para fecharmos a Ucrânia.
Eu concordo 100% com Zelensky. Primeiro, eu penso que o anúncio de Trump foi algo que muitas vezes ele faz, que é tentar tornar público algo que ainda não é acordado, para ver se anunciando publicamente, faz pressão às partes para aceitar e então o anúncio promete tornar realidade algo que ele quer. Trump funciona muitas vezes assim. O entendimento que Trump não explicitou sobre o que esta trégua energética significa, porque aquilo que tem sido a interpretação russa, supostamente é: "Ok, a Ucrânia não ataca as nossas refinarias e nós não atacamos as refinarias ucranianas". Só que há uma grande diferença, a Ucrânia não tem refinarias, então este é um acordo absolutamente estúpido da perspectiva ucraniana. A Ucrânia tem uma refinaria em Kharkiv que já foi atacada dezenas de vezes e que não está em funcionamento. Então isto seria um cessar-fogo que não tem nenhum compromisso por parte da Rússia, porque a Rússia o que está a atacar são centrais elétricas, bombas de gasolina e postos de combustível. Aliás, eu nem devo calcular aquilo que deve ser a frustração do Zelensky, do governo ucraniano e, nomeadamente, a equipa de negociação da Ucrânia ao ver estes desenvolvimentos, que naturalmente só fazem transparecer que aquilo que é a posição americana é tentar pressionar o país que eles conseguem ou que acham que conseguem pressionar, que é a Ucrânia, a partir do momento em que percebem que não têm nenhuma capacidade de mobilizar aquilo que seriam as forças de pressão contra a Rússia, que seria a China e a Índia, mas principalmente a China. Então Trump, querendo desesperadamente uma solução diplomática, sente que a Ucrânia é a única que poderá dar essa solução diplomática, cedendo naquilo que são os pedidos, as reivindicações russas, e isso naturalmente não poderá acontecer na perspectiva ucraniana.
Queria agora passar para a guerra no Médio Oriente e também peço que seja rápida nesta resposta. Temos cerca de dois minutinhos para acabar o programa. Os houthis atacaram hoje o aeroporto de Riad, na Arábia Saudita. Riad está a ficar sem mísseis de defesa. Os houthis lançaram uma ameaça aos Estados Unidos de que se atacasse o Iémen, a resposta seria rápida e dolorosa. Temos aqui uma situação complicada em mãos. Já tínhamos uma nova frente aberta, desta dos houthis, agora esta mesma frente está a fazer ameaças. Se bem que é uma frente que sempre esteve on and off no Médio Oriente, mas que agora volta a aparecer com mais força e está agora a fazer ameaças. Eu pergunto o que é que devem os Estados Unidos fazer, se Trump deve manter uma postura não intervencionista em relação aos houthis, isto também por causa das eleições intercalares. Relembro, houve um debate, o debate de ontem do estado de Nova Jersey, em que o republicano Justin Murphy disse mesmo que se aconselhasse Trump, diria: "Acabar já com a guerra". Portanto, uma postura diferente por parte de um candidato republicano, de que Trump teria que acabar mesmo com a guerra. O que é que Trump deve fazer, se deve mesmo não intervir e se tem que acabar já rapidamente?
É fácil dizer "acabar imediatamente a guerra", expressando a máxima força de poder que os Estados Unidos conseguem, mas os Estados Unidos estão muito constrangidos com aquilo que, primeiro, são os custos que aceitam sofrer com o escalar de guerra. O Trump claramente não quer perder vidas de soldados e membros das Forças Armadas neste conflito, com essa grande bitola de todas as ações militares não poderem sofrer baixas americanas. Até agora há 21, nomeadamente as últimas notícias foi que o Pentágono até tinha omitido dois soldados ou duas vidas que faleceram neste conflito, o que dá logo a sensação de que isto é um custo político que Donald Trump não quer sofrer, a partir do momento em que esse custo político, que é muito para lá das famílias, naturalmente, as pessoas que podem morrer, é bastante nobre, mas isso condiciona muito o tipo de estratégia militar que se pode implementar. E aquilo que é a estratégia militar que se pode implementar para fazer pressão, quer no Irão, quer nos houthis, é muito difícil, porque é no fundo empunhar ataques aéreos sucessivos, sendo certo que aquilo que são as armas de resposta assimétrica, tanto do Irão como dos houthis, nomeadamente drone, são muito difíceis de ter uma defesa antiaérea que chegue a todo lado. O grande problema é que Trump sabe que se escalar no Irão, provavelmente o Irão ainda tem drones e mísseis suficientes para atacar centrais de salinação e infraestruturas energéticas, o que faria com que aquela zona do Golfe ficasse bastante hesitante relativamente àquilo que são as necessidades de água e de energia para sustentar a população no Golfe. E também o mesmo relativamente àquilo que é a falta de intercetores que a Arábia Saudita sofre, o que significa que o problema fundamental, que não só a Ucrânia sofre, mas o Irão, o Iémen e a Arábia Saudita, a tentar combater não só a Rússia, mas os proxies terroristas iranianos. Não esquecer que a Rússia e o Irão cooperam intimamente naquilo que é a partilha de drones e esta tecnologia. O grande problema é que são muito baratos produzir drones. Os sistemas de defesa antiaérea que neste momento estão desenhados são bastante caros, bastante complexos de produzir. Há uma cadeia de abastecimento e de produção extensa, o que significa que pode haver sempre constrangimentos de alguns componentes para conseguir criar e produzir em massa estes intercetores, as baterias, as plataformas de lançamento e os sistemas também digitais, porque são sistemas altamente complexos. E aquilo que acontece é que, por exemplo, a Arábia Saudita está mal preparadas relativamente em termos de qualificações humanas, de liderança e de comando e controle, mas também com intercetores. Os Estados Unidos não têm suficientes para conseguir alimentar aquilo que precisam para defender não só os seus porta-aviões, os seus navios, mas também as suas bases no Médio Oriente, ou seja, não conseguem chegar a tudo. O que é interessante é que o aliado mais competente que a Arábia Saudita poderá ter neste conflito no Médio Oriente, para além dos Estados Unidos, é um aliado com quem oficialmente eles não têm relações diplomáticas, que é Israel.
Para concluir, Ana, por favor.
Pronto, concluo com isso.
Exato. Uma situação difícil e também sabemos dessa relação entre Irão e Rússia, tendo em conta também que hoje foi anunciado que, pelo menos pela agência TASS russa, que o Irão e a Rússia fizeram um acordo em termos de frotas marítimas. Chegamos ao final do nosso tempo. Um obrigado à Ana Cavaleiro, especialista em relações internacionais, por ter feito esta análise. Agradeço-lhe imenso pela análise e pela participação aqui no Gabinete de Guerra. Obrigado.