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Professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School e que se volta a juntar a nós na análise de alguns temas que marcam a atualidade internacional. Professor, boa tarde, bem-vindo mais uma vez. Começamos com Donald Trump, que olha para a televisão, discursa a esta hora no âmbito da visita do rei Carlos III. É um tema que sugere para esta nossa conversa, mas comecemos pelas negociações ou ausência delas, negociações de paz, tendo em vista o conflito no Médio Oriente com o Irão. Trump não está contente com a última proposta iraniana e o Irão está a tentar retirar alguns assuntos da mesa de negociações, desde logo o programa nuclear. Qual é a estratégia do Irão nesta fase do conflito?
Boa tarde, Miguel. Utilizando expressões que Trump adora, neste caso, nós estamos agora numa fase de tentar perceber quem tem as cartas, quem realmente tem a capacidade de influenciar a negociação. Na teoria dos jogos, diz-se que estamos numa fase de "chicken game", quem será o último a piscar ou como James Dean no famoso filme, o último a desviar-se com o carro. É o que estamos neste momento a assistir e embora haja negociações num plano diplomático, ao que sabemos, as equipes têm mantido o contacto, a verdade é que no plano comunicacional, que é algo novo e que afeta muitas negociações, temos os posts e os tweets como o novo normal, que acabam por influenciar todo este ambiente. Em boa verdade, o Irão alterou as prioridades, percebeu que tem maior resistência à dor e que pode pressionar Trump, em especial no fator tempo, e por isso desenvolveu aqui uma estratégia que eu acho particularmente curiosa, ou seja, rejeita negociações diretas com os Estados Unidos, o que demonstra uma certa posição de força e ao mesmo tempo um desafio em relação ao superpoderoso Trump. Por outro lado, não se afasta das negociações e apresenta um plano utilizável, um plano com alguma referência para o Paquistão, em que demonstra respeito pelo mediador Paquistão, mas também pela China, o seu patrocinador, está a ganhar tempo, nitidamente, e sabe que o tempo pressiona Trump e que acaba por melhorar a sua posição negocial na mesa de negociações. Paralelamente, desenvolve outras duas grandes ações, que é ativar outros canais, nomeadamente na relação com Oman, que basicamente diz que o estreito é nosso, vamos aproveitar a situação. Desenvolve alguns contactos com a Arábia Saudita para tentar pacificar um pouco as relações e desenvolveu uma visita ao seu parceiro estratégico, ao seu aliado estratégico, Rússia, que pode ajudar bastante nesta situação, inclusivamente uma solução para urânio, uma solução um pouco mais nos termos iranianos e nem tanto do que Donald Trump pretende. Por outro lado, tem Ormuz fechado e procura pressionar através disso a Europa e tem algum controle sobre o choque económico que isso possa desenvolver. Naturalmente, os Estados Unidos também o fecharam e poderemos abordar isso a seguir. E há aqui uma divisão, e esse é o último ponto. Há aqui algo particular que na semana passada falámos como uma cisão interna, a primeira cisão, mas que eventualmente poderá estar a ser usada para benefício próprio. Isto por quê? Porque cria aqui uma "buffer" negocial e permite criar uma situação de escolha, uma certa pressão em que diz a Donald Trump: "Se não quiser negociar conosco, os moderados, Galibaf e Aragchi, o ministro dos Negócios Estrangeiros, bem-entendido, vai ter que negociar com os radicais, com a guarda islâmica e com o Vaidi". Cria um certo nível de pressão que naturalmente Donald Trump não estava preparado.
E do lado norte-americano, precisamente, qual a estratégia de Donald Trump? Ele tem sido acusado precisamente de não ter nenhuma estratégia para a resolução deste conflito. Tem uma estratégia nesta fase?
A partir do momento em que não atingiu os seus objetivos, como a vitória rápida e decisiva, que seria definitivamente o seu objetivo, teve que passar para um plano B. A nível militar, disse que se prepara para uma modalidade de ação mais provável, mas tem que se acautelar a mais perigosa, o que não parece ter sido o facto neste caso concreto. No entanto, obviamente, há uma capacidade de pressão por parte dos norte-americanos, nunca poderemos dizer que o Irão está a ganhar o conflito. Há aqui um retrocesso e uma incapacidade norte-americana de se impor nesta fase. A pressão do tempo é evidente. Não há dúvida nenhuma que esse fator está a colocar algumas dificuldades a Donald Trump. Mas, por outro lado, e como Rubio deixou bem claro, em que o estreito está a ser usado como uma arma nuclear econômica e se eles tivessem a arma nuclear, o que poderia ser feito, demonstra bem que as linhas vermelhas estão ali, que Donald Trump não vai abdicar delas. Há aqui um objetivo, por outro lado, de bloquear Ormuz, como demonstração de poder, dizendo "somos nós que mandamos e somos nós que decidimos". Há um envolvimento estratégico no sentido de criar pressão, seja através do Mar Cáspio, seja no Índico, retirar dividendos econômicos, retirar a capacidade de rentabilizar as exportações, criando aqui uma situação de mandato de zero exportações, o que afeta naturalmente o comércio e a energia dos iranianos, em que nesse aspeto é também criada a pressão sobre a ilha de Kharg, sobre a capacidade energética, a incapacidade de escoar as reservas deDe Khashoggi, o que virá obrigar uma situação muito complexa de disrupção no sistema, que seja pelas perdas de reservas, ou seja mesmo pelo queimar ou algum outro sistema que possa permitir aguentar mais uns tempos sem ter que parar todo o sistema, porque parando, naturalmente as reservas podem solidificar e o gás poderá impedir o uso do sistema futuro. Por fim, permite-lhe uma reorganização, que é muito importante e não tem sido muito falado. Mais forças, novos meios. Em boa verdade, perdeu quase 50% dos interceptores neste combate com Patriot e THAAD em relação aos ataques Shahed, portanto foi obrigado a mudar uma estratégia. Há aqui um investimento particularmente forte em meios contradrones, ou seja, 45 mil milhões é o que temos ouvido falar de interceptores capazes de fazer a substituição de meios bem mais caros como Patriot e THAAD. Para terminar, ambos perceberam que a paz é o melhor caminho, não há dúvida, mas o cenário de regresso a operações militares permanece em aberto e mesmo que não se siga num patamar de equilíbrio puro, esse equilíbrio poderá vir a ser alcançado através de um frozen conflict, mesmo que com algum tipo de acordo que venha a servir os mínimos das duas partes.
Senhor professor, voltemos o nosso olhar para o Líbano. Senhor professor, desafie-nos com esta pergunta: que cessar-fogo é este em que tudo continua a acontecer no terreno?
O Líbano, de alguma forma, perdeu prioridade. O Irão já não liga o processo por completo. Ele no início estava ligado diretamente, a proposta do Paquistão incluía o Líbano, e agora intencionalmente foi deixado de lado. Intencionalmente, parece-nos que será também com o objetivo de ganhar tempo, ou seja, de incluir isso numa segunda fase, o que permitirá que o Irão vá negociando faseadamente, de modo a alongar todo este processo. No terreno, nós vemos que o Hezbollah ataca, porque não tem de seguir o acordo que não assinou, segundo os próprios. Fala em novas táticas, em homens-bomba, recuperando os anos 70 e 80 do século passado. Mas em boa verdade, os ataques continuam de parte a parte. Israel tenta no vale de Bekaa, que já não atacava há três semanas, como agora a evacuação de mais 10 aldeias. Mas apesar de ainda não ter atingido os objetivos maximalistas, a verdade é que Israel também não pode acelerar neste facto, mesmo considerando que há um problema efetivo de segurança e uma ameaça do Hezbollah que não irá conseguir o desarmamento ou desmantelamento a curto prazo, o Irão irá permitir e não se irá desligar de todo este objetivo do eixo de resistência. Não sendo um cenário muito positivo, uma coisa é certa, pelo menos não há conflito totalmente aberto e permanecem os canais de negociação, pelo menos entre Israel e o Líbano, perfeitamente abertos. Vamos ver se teremos boas notícias a curto prazo e muito dependerá, naturalmente, da evolução do conflito no Irão.
Senhor professor, notícia desta tarde, os Emirados Árabes Unidos decidiram abandonar a OPEP, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo. Isto é um dano colateral ou bem mais do que isso?
Eu diria que é bem mais do que isso. Há muitos problemas, de facto. Já havia entre os Emirados e em especial a Arábia Saudita, em vários domínios. Ainda muito recentemente, os Emirados retiraram verbas do Paquistão, foram substituídos pela Arábia Saudita. Há aqui umas movimentações entre os dois, uma competição regional bastante relevante. Mas isto também é o resultado de um mundo multipolar. Há alguma desordem enquanto se volta a reorganizar, enquanto as placas se ajustam. E há, de facto, o que os Emirados chamam um realinhamento estratégico.
O que é que isto significa em concreto, senhor professor? O que é que isto significa em concreto, essa expressão?
Significa que há aqui uma reorientação para a soberania, ou seja, para não se deixar afetar exclusivamente por interesses regionais, mais do que parte, inclusivamente setoriais. E há aqui uma aproximação de atores, nomeadamente também dos Estados Unidos, o que lhe permite ter outra capacidade estratégica. Por um lado, autonomia, é certo, por outro, uma capacidade extraordinária de rentabilizar as infraestruturas que tem, desenvolver o crescimento energético e assegurar um ponto muito importante que nunca é falado, uma transição energética segura, porque verdadeiramente aqui os países do Golfo estão muito expostos, países produtores de petróleo estão muito expostos à transição energética, por isso têm que começar a dar passos nesse sentido. Os Emirados e a Arábia Saudita são dos que mais evoluídos estão, contrariando a exposição e o impacto desse risco e é uma das prioridades. Por outro, naturalmente, há aqui até um certo ressentimento pela forma como não foi protegido pelos países do Golfo nos ataques que sofreu às infraestruturas energéticas. Nós podemos é esperar alguma instabilidade e volatilidade no mercado, mas tudo se acabará por ajustar no futuro. Seja como for, será sempre uma weaponização da arma energética e naturalmente a individualização de interesse, mas isso é muito resultado do novo ambiente e da nova ordem que se aproxima com a multipolaridade e sem ter propriamente um regulador internacional.
Senhor professor, último tema, o tema que está retratado nas imagens que nos chegam através das televisões. Olho ali para a varanda da Casa Branca e vejo o rei Carlos III ao lado Donald Trump, ladeados por Camilla Parker Bowles e por Melania Trump. Está de visita aos Estados Unidos o rei Carlos III. Por que agora e o que podemos esperar desta visita?
Essa imagem que eu não estou a ver, mas que eu consigo imaginar, isto é mesmo uma massagem ao ego do Donald Trump. Ele adora estas mordomias reais e não é despicienda a forma como ele próprio chegou a apresentar aquela imagem de Donald Trump com uma coroa. É uma imagem que ele adoraria, com certeza. Tem muito significado. Repare que não só a última visita de um monarca, foi Isabel II em 2007, como a última vez que um monarca inglês falou no Congresso foi em 1991, na sequência das tensões no Golfo. Tem muita importância. É óbvio que esta visita se enquadra nos 250 anos de independência, mas também se enquadra num momento de relações particularmente tensas entre Donald Trump e Starmer. O fato de apoio do Reino Unido à operação Epic Fury foi notório, foi muito para além do que poderíamos considerar como normal na relação bilateral. Não que se esperasse um apoio à missão em si, mas nós estamos a falar da interdição da utilização de algumas infraestruturas e isso, sim, pode ser visto como algo particularmente fora do normal relacionamento, para pôr isto de uma forma simples, entre dois Estados aliados e com uma relação especial, conforme ambos gostam de enfatizar. Isso já resultou na falta de apoio de Donald Trump à pretensão do Reino Unido em manter as Maldivas, favorecendo um pouco a posição da Argentina, e eu julgo que nas entrelinhas pode ser lido que a eventualidade dos norte-americanos colocarem uma base na região. Isso é muito significativo, vista a importância que é dada ao Antártico, nomeadamente na sequência também da importância que é dada ao Ártico e, portanto, de alguma forma, isso sinaliza ações estratégicas futuras. É relevante, é muito importante perceber o impacto real desta visita, mas em boa verdade, acreditamos que os problemas vão persistir, nomeadamente enquanto a resolução da questão iraniana e o problema da NATO estiverem em cima da mesa. E, portanto, mais do que propriamente um sucesso evidente pelo bom relacionamento entre Carlos III e Trump, nós podemos esperar que resulte temporariamente, mas a curto prazo voltarão as tensões entre as duas capitais.
A perspectiva do professor Jorge Rodrigues sobre esta visita oficial de quatro dias do Rei Carlos III aos Estados Unidos. Professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School, que nos ajudou hoje a analisar e interpretar alguns dos factos mais recentes relacionados com a atualidade internacional. Professor, muito obrigado e até breve.