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Começa agora mais um Gabinete de Guerra. Eu sou a Maria João Simões e hoje a análise é feita pelo Francisco Pereira Coutinho, especialista em Direito Internacional. Bom dia, Francisco. Muito obrigada por teres aceitado o convite para estares conosco a esta hora.

Bom dia, Maria João.

Bom dia, Francisco. É inevitável falarmos dos Estados Unidos. Donald Trump já está em Milwaukee para a convenção republicana e a grande pergunta é de que forma irá usar o atentado na campanha daqui para frente. Joe Biden diz que as eleições se vencem com votos e não com balas.

Pois, essa é que é a grande questão. A campanha eleitoral norte-americana está, neste momento, numa situação absolutamente caótica. Já estava, porque passamos a semana passada a discutir a possibilidade de substituição do candidato democrata, o presidente Joe Biden, e estivemos muito atentos, inclusive, a uma conferência de imprensa com jornalistas. Esse era o ponto em que estávamos na semana passada e tivemos este atentado, que é algo muito singular na história americana desde 1968, desde o atentado que vitimou Robert F. Kennedy, que nenhum candidato com hipótese de ganhar as eleições tinha sido objeto de atentado. E foi Trump, e ele sobreviveu. E agora a questão que se vai colocar é aquela que me colocou agora, que é como é que ele vai utilizar este atentado. Em teoria, o seu instinto, e vimos isto nas palavras que ele disse, mal foi alvejado: "Lutem, lutem". A ideia seria continuar a polarizar a sociedade americana, instigando os seus apoiantes a mais episódios, inclusive, de violência política, porque em 2001 ele saiu do poder depois do ataque ao Capitólio. Agora a questão que se coloca é que ele já estava à frente nas sondagens, é claramente o favorito e, portanto, é possível, e já vimos alguns sinais disso da sua campanha, que procure moderar um pouco o discurso e não extremá-lo, justamente porque está à frente na campanha. Tem um adversário, que é o presidente Biden, fraco, decrépito, grande convulsão no Partido Democrata e, portanto, aumentar ainda mais a temperatura, extremar ainda mais a situação para uma situação ainda mais problemática nos Estados Unidos, talvez não seja do seu interesse. É possível que este atentado não seja explorado como seria se ele estivesse, por exemplo, atrás nas sondagens. Ele poderá querer, eventualmente, centrar um pouco o discurso e não extremá-lo, pelo menos é essa a minha esperança, porque senão entramos em caminhos muito perigosos, mesmo nos Estados Unidos, porque estamos a falar, de fato, de uma sociedade muito polarizada e este atentado é político. Aparentemente, isto terá sido feito por razões políticas e, como eu referi, não é muito comum que isto aconteça em relação a candidatos presidenciais ou mesmo a presidentes nos Estados Unidos. É uma situação, neste momento, muito difícil nos Estados Unidos e, ainda por cima, coincide com o início da convenção republicana, em que ele vai ser nomeado candidato dos republicanos. Aguarda-se com alguma expectativa qual vai ser a reação de Trump, se vai seguir os seus instintos e procurar polarizar ainda mais a situação ou se, pelo contrário, tenderá a ter uma postura mais de Estado, estadista, como ele já foi inclusive presidente, moderando um pouco o discurso.

Francisco, o fato do atirador ter conseguido colocar-se num telhado, várias pessoas terem alertado apontando para ele e ainda assim ter conseguido disparar, tem levantado várias dúvidas sobre possíveis falhas de segurança ou outras. Parecem-lhe teorias da conspiração ou há razões para dúvidas?

Não me parece que haja qualquer tipo de razão para entrar nas teorias da conspiração. Aquilo que aparentemente terá passado é que o atirador estava fora do perímetro de segurança coberto pelos serviços secretos e portanto aquilo era responsabilidade das autoridades locais e, neste caso concreto, imagino autoridades até estaduais e terá sido aí a falha que aconteceu. Ontem ouvimos o presidente Biden, que fez questão de discursar à nação dizendo que iria haver um inquérito rigoroso à atuação dos serviços de segurança, os serviços secretos. E vimos, aliás, que eles atuaram, o atirador foi imediatamente neutralizado. Passados poucos segundos, vimos Trump rodeado por agentes dos serviços secretos poucos segundos depois de ter sido alvejado, mas ainda assim, esta é uma situação que simplesmente não podia ocorrer, tendo em conta a circunstância de estarmos a falar de Donald Trump e de alguém que foi um antigo presidente, que tem proteção e que pode ser objeto de atentados, como aliás foi no fim de semana. É mais uma razão para que tudo isso seja investigado e a proteção dos candidatos seja reforçada, designadamente o próprio Robert Kennedy, o filho do candidato que foi morto em 68, vai ter proteção. E ele, neste momento, é um terceiro candidato, mas ele tem cerca de 10%, neste momento, nas sondagens, portanto, vai ter também proteção e é algo que é mesmo necessário ser feito nos Estados Unidos para evitarmos situações como esta.

Ainda sobre tentativas de assassinato, o líder dos serviços secretos militares ucranianos diz que o presidente russo já sobreviveu a várias tentativas falhadas e que estando Putin no poder há mais de 20 anos, os russos têm medo de o perder, comparando o que sentiriam ao que aconteceu depois da morte de Stalin, que não saberiam como continuar a viver. Francisco Pereira Coutinho, como é que devemos interpretar as palavras de Budanov?

Os russos viveriam seguramente sem Putin, apesar de Putin de facto ser um líder popular. Nós tivemos eleições recentemente na Federação Russa, é claro que o resultado foi produto de uma campanha eleitoral muito condicionada. Mas ainda assim, é difícil não dizer que Putin tem bastante respaldo popular. Agora, há muita gente na Rússia que não o aprecia e esses atentados são o resultado justamente disso. Ele sai muito pouco do Kremlin. Durante a pandemia não saía mesmo, todos nos lembramos das reuniões que tinha com mesas enormes, a segurança à sua volta é enorme, é obcecado com isso e portanto essa é a razão pela qual outro tipo de atentados também não ocorrem, porque ele também não se expõe nunca aos próprios russos. Mas não me parece que os russos não sobreviveriam sem ele, sobreviveram sem Stalin, rapidamente viraram essa página da sua história com o Krushchev e seguramente fariam o mesmo com Vladimir Putin.

Entretanto, a Rússia diz que a Europa pode estar na mira depois dos Estados Unidos anunciarem que vão instalar novos mísseis na Alemanha a partir de 2026, com alcance mais longo do que os sistemas atualmente instalados. Francisco, mais uma ameaça, à semelhança do nuclear, ou é a Rússia à procura de argumentos para um possível futuro ataque à Europa?

É mais uma ameaça retórica, muito semelhante àquelas que têm feito sempre que ameaçam usar armas nucleares, sempre que os países ocidentais, especialmente os europeus, aumentam o apoio à Ucrânia. Eu lembro sempre as declarações de Putin em fevereiro de 22, quando ordena o ataque em larga escala à Ucrânia, em que diz que se o Ocidente apoiasse a Ucrânia, viria consequências nunca vistas. Estamos aqui à espera, já há dois anos e meio, dessas tais consequências nunca vistas. Isto é, aliás, uma retórica que nos lembra muito aquilo que se passava durante a Guerra Fria e parece ser por aí que caminhamos com este tipo de discurso, que procura, no fundo, dissuadir a outra parte de aumentar o seu esforço bélico. E é assim que deve ser interpretado, não mais do que isso.

No Médio Oriente, as negociações de cessar-fogo entre o Hamas e Israel foram interrompidas depois de três dias de intensas conversas entre as duas partes. Francisco, o Egito culpa Israel por não ter sido possível chegar a um acordo. Que mais detalhes se sabem?

Nós tivemos uma tentativa de assassinato seletivo do líder militar do Hamas em Gaza.

O Hamada If.

Daí resultaram algumas notícias contraditórias de que até o Hamas teria abandonado as negociações. Agora, em relação a Israel, a discussão já se arrasta há muitas semanas, senão são mesmo meses, especialmente desde que Biden insistiu numa proposta que ele, aliás, referiu na semana passada, que teria sido aceite em termos gerais, quer pelo Hamas, quer por Israel. Uma proposta de cessar-fogo em três fases, mas cujos detalhes em relação a cada uma das fases, aparentemente não foi possível alcançar qualquer tipo de consenso entre as partes. Houve aqui um arrastar da situação, até pelo próprio Netanyahu, que aparentemente não está, de facto, muito interessado em apressar um acordo de cessar-fogo e todos os sinais indicam, e este ataque que terá causado, segundo o Hamas, 90 mortes e centenas de feridos em Gaza, ainda por cima em Al Mawasi, que é uma zona humanitária onde está refugiada a maior parte da população palestina. Portanto, este ataque é um sinal, e também uma ofensiva que tiveram sobre a própria cidade de Gaza, são sinais muito claros de que pretendem continuar a aumentar a pressão militar para forçar o Hamas a flexibilizar as condições que aparentemente também terá colocado ao plano Biden. Essa é a situação e parece que Israel estaria mais interessada ainda em forçar a operação militar do que propriamente em aceitar um cessar-fogo nas condições que estavam a ser negociadas.

Entretanto, uma sondagem de um canal de notícias israelita mostra que cerca de 72% considera que Netanyahu deve apresentar a demissão, 44% diz que o deve fazer imediatamente, os outros 28 acreditam que deve fazê-lo só depois de terminar a guerra contra o Hamas. Francisco Pereira Coutinho, acredita que Netanyahu sai pelo próprio pé e não acontecendo, parece-lhe inevitável a demissão, seja durante ou depois do conflito em Gaza?

Não e não, porque claramente ele não quererá sair pelo seu próprio pé.

Tem dado provas disso, não é?

Completamente. Aliás, é algo que me surpreende bastante, tendo em consideração os ataques de 7 de outubro. Se estivéssemos a ter esta discussão em outubro do ano passado, dir-se-ia que chegando a julho, seguramente Netanyahu não seria o primeiro-ministro de Israel, mas não há nenhum sinal de que esteja interessado em convocar eleições. Aliás, o perpetuar do conflito, pelo contrário, parece estar muito influenciado também pela circunstância de ele saber que a situação de guerra é a desculpa para justamente não pedir uma clarificação política. Essa sondagem, o que mostra, por outro lado, é uma enorme divisão. Há bocado falámos da divisão social americana, em Israel passa-se exatamente o mesmo, porque ainda assim ele mantém uma base de apoio, possivelmente já não será uma base de apoio maioritária, e por isso é que se recusa a convocar eleições, porque muito possivelmente perderia para o seu rival Benny Gantz, que entretanto saiu do gabinete de guerra onde esteve durante vários meses. Ele não quererá arriscar eleições neste momento, mas ainda assim mantém uma base de apoio relativamente significativa, que são pessoas que entendem que a operação militar deve continuar e um cessar-fogo é inaceitável e é isso que acaba por legitimar a sua permanência em funções. Isso é algo que me parece que neste momento está um pouquinho cristalizado. Estas sondagens não têm oscilado assim tanto desde outubro. E isso é que depois permite que esta situação se vá perpetuando no tempo.

Francisco Pereira Coutinho, muito obrigada pela sua análise. Um bom dia, Francisco.

Bom dia, obrigado.

Obrigada.