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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise de António José Telo, antigo professor na Academia Militar. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. E começamos pelo Médio Oriente. Donald Trump voltou atrás, uma vez mais, e contradizendo o que anunciou ontem, hoje diz que afinal os Estados Unidos não vão aplicar taxas de 20% a toda a carga que atravessa o Estreito de Ormuz. Estas constantes contradições do presidente norte-americano não lhe tiram cada vez mais a credibilidade, tanto para os cidadãos, para os civis, mas também perante outros Estados?

Boa noite. Eu acho que tiram a credibilidade para os crédulos, porque desde o primeiro momento, e já lá vão muitos meses, já nos devíamos ter habituado a isso, que o presidente Trump segue sempre o mesmo tipo de tática nestas negociações, que é à partida avançar com as hipóteses mais radicais, em certa medida para, numa expressão muito portuguesa, mandar o barro à parede, para ver se o barro fica na parede ou se escorre, e depois a partir daí negociar. Ele aplica um princípio muito simples, que é um princípio que qualquer grande poder que tenha intenções de manter o seu lugar durante algum tempo aplica, que é o princípio de que a guerra tem que ser rentável, ou seja, a guerra tem que ser financiada, porque caso contrário, não tem sustentabilidade no médio e no longo prazo. E isso é especialmente evidente no caso do Médio Oriente, onde todo o dispositivo criado pelos Estados Unidos é muito caro. Como tal, ele de alguma maneira se tem que traduzir em termos dos rendimentos que provêm do Médio Oriente. No entanto, tudo indica que estes 20% que foram indicados pelo presidente Trump para serem cobrados não eram para ser levados muito a sério, como a maior parte das coisas que ele diz, mas eram meramente para dar a abertura àquilo que foi feito a seguir e que está a ser feito agora, que são os acordos comerciais com os países do Médio Oriente. Quais são? Não sabemos. Obviamente, são confidenciais. O segredo é a alma do negócio, como se costuma dizer, mas acredito firmemente que serão bastante favoráveis aos Estados Unidos. Repare, qualquer um dos parceiros do Médio Oriente o que procura fazer é isso. Quer Israel, quer o Irão, não fazem outra coisa senão preocupar-se em como financiar uma guerra que para eles é uma guerra de longo prazo, não é uma guerra de curto prazo. E mais, para eles é uma guerra existencial. Portanto, é normal que os Estados Unidos se preocupem com isso, até porque neste momento têm outras prioridades. Outras prioridades que já vêm de trás, nomeadamente no Pacífico, e algumas outras prioridades mais recentes, nomeadamente na nova política para a Europa e na nova política para a Rússia. Portanto, é normal que não queiram que a sua passagem pelo Médio Oriente, nesta nova fase, se torne um encargo financeiro significativo. Se isto for feito, estou convencido que no essencial será feito. Isto tudo significa que esta política de erosão do poder iraniano pode ser mantida. O Irão está, de facto, muito enfraquecido. Os Estados Unidos têm uma arma mortal para o Irão, desde que seja aplicada com continuidade há algum tempo, que não é o ataque à sua costa ou às suas posições, mas que é o bloqueio naval. O bloqueio naval aos portos iranianos é, de facto, mortal para aquele regime. E aquele regime não o pode aguentar durante muito tempo. É muito pior do que as fracas vantagens que poderá obter com o bloqueio do Estreito de Ormuz. Portanto, esta dinâmica está muito clara na mente do presidente Trump, e só tenho pena que os responsáveis de alguns poderes significativos não entendam esta realidade básica, que não podemos esperar manter uma guerra de médio e longo prazo, se não temos meio para a sustentar, nomeadamente financeiramente. Até porque cada vez mais as operações militares, acontece como acontece com a medicina hoje em dia, é muito mais caro que no passado. Hoje em dia os custos da medicina multiplicaram-se por cinco ou por 10, e o custo das operações militares multiplicou-se por 10 ou por 100. Portanto, têm que ser financiados, sob pena de mandar à ruína os grandes impérios. Aliás, diga-se, a teoria da queda dos grandes poderes, teoria que é normalmente aceita, é que justamente eles caem financeiramente, ou seja, caem porque entram em bancarrota. Pelo menos esta administração americana tem consciência disso e procura evitar que isso aconteça. É pena que outras pessoas não tenham essa mesma consciência.

Entretanto, Donald Trump explicou que voltou atrás relativamente às taxas de 20%, porque chegou a acordos de investimento com variados países do Golfo e diz mesmo que diferentes reis e emires lhe ligaram para deixar cair a ameaça. O que é que aconteceu aqui? Pode considerar-se que isto foi uma espécie de tentativa de suborno por parte dos países do Golfo?

Repare, desde o primeiro momento que um objetivo central destas operações é preparar a futura arquitetura, vou dizer, de segurança e defesa, mas na realidade é mais do que isso, é segurança, defesa econômica e financeira do Médio Oriente E nisso, os Estados Unidos tinham uma boa posição à partida, que não estava estando em Israel. Israel é um peso financeiro para os Estados Unidos, não é uma vantagem financeira para os Estados Unidos, mas estava em todos os outros estados do Médio Oriente, obviamente, com a exceção do Irão. E o que os Estados Unidos têm feito é tentar consolidar, quer no campo da defesa e segurança, quer no campo económico e financeiro, essa relação, para terem certeza de que são eles que vão, no essencial, construir a nova arquitetura de defesa do Médio Oriente. Prepare quais são as alternativas. Não há muitas. E é bom que os europeus se lembrem disso, porque infelizmente os europeus, muitos deles pelo menos, perderam a capacidade de pensar a realidade com alguma seriedade e com uma visão de médio prazo. Quais são as alternativas a esta arquitetura baseada nos Estados Unidos? Primeira alternativa: uma arquitetura de defesa baseada na China. Em primeiro lugar, a China ainda não quer avançar para essa fase. A sua grande estratégia, e a China tem uma grande estratégia há décadas, ainda não é o momento. E como ainda não é o momento, não o pretende fazer. Obviamente, pretende manter algumas posições no Médio Oriente por acordo com os Estados Unidos, como está a acontecer, aliás, neste momento, mas não quer de modo nenhum ainda assumir um papel fundamental em termos de uma arquitetura de defesa e segurança, que é também económica e financeira do Médio Oriente. Talvez mais tarde, quando tiver um poder relativo diferente. Por enquanto, ainda não quer dar esse passo. Qual era a outra alternativa? Era uma arquitetura de defesa e segurança baseada no Irão. Ali seria o caos. Seria o caos da vitória dos fundamentalistas xiitas, que seria um desastre tremendo para os países do Médio Oriente, muitos deles preferiam uma luta de morte e uma luta pela sobrevivência até ao fim do que aceitarem isso, a começar na Arábia Saudita e continuando praticamente todos os outros, e que seria um caos, sobretudo para a Europa. A Europa não só todas as suas posições seriam perdidas no Médio Oriente, mas a seguir aquilo que se está a passar agora com o Líbano, o Irão iria fazer no sul da Europa. Ou seja, iria minar o sul da Europa, tal como está a fazer com o Líbano, como fez com o Líbano, como fez parcialmente com a Síria, como fez em Gaza, etc. Iria minar com infiltrações dos seus proxies. Portanto, uma arquitetura de defesa do Irão que vingue no Médio Oriente é uma catástrofe sem nome para a Europa e não só. É uma catástrofe sem nome para os povos do Médio Oriente e para a maioria dos estados que entendem isso. Portanto, a única alternativa realista que interessa à Europa, é a Europa juntar-se aos Estados Unidos na construção de uma arquitetura de defesa e segurança para o Médio Oriente, que inclua a esmagadora maioria dos países árabes e islâmicos da zona, arquitetura de defesa e segurança que necessariamente tem que ser construída à volta dos Estados Unidos. A Europa não tem poder, nem força, nem pensamento, nem autonomia para ser ela o centro dessa arquitetura de defesa e segurança. E se alguém pensa o contrário, é porque de fato não percebe nada do que é a realidade do poder. Portanto, a Europa a única coisa que pode fazer é isso e deve combater abertamente uma arquitetura de defesa e segurança alternativa, nomeadamente uma que se baseie no Irão, que seria um caos tremendo. É a pior coisa possível. E como tal, tem que apoiar os Estados Unidos aqui, como aliás isso já se viu nesta cimeira da NATO, em que foi incluído pela primeira vez oficialmente pela NATO, torcendo o braço a muitos países europeus que diziam o contrário antes. Foram incluídos dois objetivos: o Irão não pode ter armamento nuclear e o Estreito de Ormuz tem que permanecer aberto à navegação. Isto é incluído como um objetivo da NATO, diretamente da NATO como um todo, ou seja, todos os seus parceiros aceitaram isto por unanimidade. Portanto, isto é uma alteração significativa. A Europa demorou algum tempo, mas está a perceber e possivelmente terá que se empenhar de uma maneira diferente neste conflito do Médio Oriente, porque se qualquer outra arquitetura de segurança e defesa, que não aquela protagonizada e proposta pelos Estados Unidos, for adiante, a Europa é a grande vítima. A Europa vai se transformar no novo Líbano e vai sofrer consequências terríveis a seguir.

Depois desta madrugada os Estados Unidos terem atacado pela terceira noite consecutiva o Irão, Donald Trump hoje veio dizer que os ataques dos últimos meses mandaram o Irão de volta à Idade da Pedra. Isto é verdade?

Isso são as frases que nós já estamos habituados do presidente Trump.

Sim, claro.

Perfeitamente insensatas, contrárias a tudo o que seja diplomacia e que seja bom senso, mas o presidente Trump já nos habituou a isto. Não devemos estranhar isto. Agora, repare uma coisa, eu estou convicto de que quer o Irão, quer os Estados Unidos, querem no essencial manter o protocolo de entendimento. E que se alguém o rompeu, foi o Irão, os radicais da Guarda Revolucionária do Irão, naquele período mais quente dos funerais do falecido Aiatolha, em que o mito do sacrifício dos xiitas e dos radicais xiitas estava bem forte e que então resolveram atacar três navios Que passavam o Estreito de Ormuz do lado ocidental, do lado de Omã. Portanto, foram eles que quebraram este protocolo, mas mais tarde ou mais cedo, eu estou convencido que vão voltar a algum tipo de entendimento com base no protocolo e que vai de novo restabelecer um cessar-fogo nessa base.

O que eu lhe perguntava mais concretamente era se a capacidade militar do Irão está de facto debilitada depois destes ataques.

A capacidade militar do Irão está muito debilitada. Sobretudo aquilo que são as capacidades militares mais convencionais. O Irão, neste momento, a sua capacidade militar baseia-se fundamentalmente, para não dizer exclusivamente, nos mísseis balísticos e nos drones. Os drones menos, porque são quase todos interceptados. O que nós verificamos é que eles são lançados cada vez menos. Por exemplo, os úteis praticamente já não lançam e que cada vez mais são interceptados. Ou seja, aquela situação que aqui há uns meses vigorava, que cerca de 7% a 8% dos mísseis lançados pelo Irão atingiam os alvos, agora já não é assim. Agora é 1%, 2% que atingem alvos. E alvos que estão melhor defendidos, como tal, as capacidades do Irão estão em queda. E mais do que isso, a preocupação justamente do bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos é que eles não sejam restabelecidos. Portanto, sim, o Irão está mais fraco. Não só está mais fraco, mas está com problemas internos e uma gravíssima crise económica, e é normal que de alguma maneira vá procurar um retorno ao entendimento. Agora, será um entendimento estável e duradouro? Não é. Porque quer um lado, quer outro, a única coisa que vê neste entendimento, inclusive no retomar do cessar-fogo, é um período para recuperar forças e voltar a operações numa fase, numa base melhor e já com um equipamento mais moderno, sobretudo para o Irão, e já com outras capacidades. Portanto, o Irão vai querer voltar atrás e voltar ao protocolo de entendimento e ao cessar-fogo. Agora, isto vai demorar algum tempo. E os Estados Unidos seguem a única política que é possível nestas circunstâncias, que é castigar duramente para fazer compreender os radicais que com este caminho não vão ter acito nenhum que não o desastre. Como tal, mais vale darem alguma importância à política dos moderados. O Irão está extremamente dividido neste momento, é muito difícil dizer, pelo menos para quem está de fora, quem são os moderados e quem são os radicais e quem é que tem força, até porque isto deve variar muito de uma região para outra do Irão. E tudo indica, nomeadamente, que estes ataques a navios que foram lançados, não pelo governo central do Irão, mas sim pela região do Estreito de Ormuz e pela organização da Guarda Revolucionária Islâmica no Estreito de Ormuz. Como sabe, uma das medidas no Irão, antes mesmo de começar esta guerra, foi descentralizar a decisão e das suas 14 províncias, cada uma tem praticamente uma estrutura autónoma baseada na Guarda Revolucionária, ou seja, nos radicais xiitas, fundamentalistas xiitas, que reside com grande autonomia. Pelos vistos, houve uns quantos que decidiram que a melhor coisa que tinham a fazer era começar a mandar mísseis contra os petroleiros que passavam do lado de Omã e do lado dos Emirados.

Temos de terminar. Se quiser só concluir.

Muito bem. Muito obrigado e continuação de bom trabalho.

Muito obrigada, António José Telo, antigo professor na Academia Militar. O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã.