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Gabinete de Guerra, Rádio Observador, programa em que falamos dos conflitos em curso, com destaque sempre para a Ucrânia e Médio Oriente. Há novidades sobre estes dois conflitos. Vamos conversar nos próximos minutos com Jorge Rodrigues, é coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Boa tarde. Muito obrigado por se juntar a nós aqui na Rádio Observador. Jorge Rodrigues, hoje foi noticiada esta posição da União Europeia: não tem capacidade de resposta em termos de infraestrutura. É um alerta de um comissário europeu, que surgiu durante esta manhã e fala sobre essa capacidade europeia para responder a ataques. Foi dito que se os tanques da NATO fossem necessários para dar resposta a uma invasão, possivelmente de tropas russas, ficariam presos em túneis, levariam ao colapso de pontes e ficariam presos em protocolos de fronteira. É uma descrição preocupante, feita pelo comissário europeu para os transportes, Apostolos Tzitzikostas.

Boa tarde, Miguel. Isto é uma verdade lapalar. Realmente há algum tipo de problemas que a União Europeia, que a Europa até diria de uma maneira mais alargada, tem na sua capacidade de resposta e, portanto, não era preciso vir o comissário Apostolos Tzitzikostas alertar. É um facto, é uma verdade. A Europa esteve bastante distraída com a sua paz perpétua kantiana e a verdade é que deixou a segurança um pouco para trás. O que ele vem agora referir é a concretização da prioridade de investimentos na parte dos 3,5 a mais 1,5% da NATO e a concretização/adaptação dos planos de projeção de forças militares. Portanto, os planos já existem. Também não vamos referir que estamos completamente parados. Os militares obviamente já têm isto perfeitamente identificado e os movimentos logísticos já são efetivados em alguns exercícios, carros de combate são transportados, inclusivamente aqui, a partir de Portugal, para o centro da Europa e até para a Europa de Leste, onde se realiza algum tipo de exercício e isso é regularmente treinado. Agora, o que precisamos? Precisamos de ser mais efetivos, de reduzir tempos, de aumentar a capacidade, de mecanizar procedimentos, e nomeadamente agilizar o do passar de fronteiras, etc., que ainda tem algumas particularidades que não permitem uma efetividade imediata destes movimentos. O reposicionamento de forças e de meios logísticos também de alguma forma permite aumentar a capacidade e reforço de meios. Portanto, conforme o aumento do nível de risco, obviamente também haverá uma deslocalização de forças. Mas para concluir, a Europa tem de facto de ser mais efetiva no reforço, operacionalização, interoperabilidade das suas forças, mas também assegurar o logística e a proteção para um combate efetivo. Só assim realmente poderá assegurar a dissuasão em um eventual ataque. Portanto, de alguma forma, pede-se realismo e parece-me que é isso que o comissário Tzitzikostas está neste momento a alertar.

É de facto um alerta que foi deixado hoje e que aponta para a necessidade de se investir nas infraestruturas a nível europeu. Deixa até um valor. É preciso investir 17 mil milhões de euros na renovação de infraestruturas para ajustar esta capacidade das infraestruturas a nível europeu para responder a situações de ataque. Vamos seguir com uma reação do Kremlin, diz que tomou nota do novo prazo dado por Donald Trump para o fim da guerra da Ucrânia. Donald Trump, na verdade, deu prazo para uma resposta russa. Um prazo que tinha 50 dias foi reduzido para 12, perante aquilo que Trump descreveu como uma irritação com a posição da Rússia em nada fazer para chegar a um final deste conflito. Como é que vê esta reação? Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, diz que a Rússia tomou nota das declarações de Donald Trump.

Aqui há dois grandes vetores de análise. Eu até começaria por, em primeiro lugar, ainda não é oficial esta posição do Trump, que ele deu esta referência, e diria que mais tarde iremos saber se é para efetivar ou apenas mais uma jogada negocial de Donald Trump. A verdade é que Donald Trump tem percebido que realmente está a ser jogado, os 50 dias que iriam permitir a ofensiva de verão por parte de Moscovo não iriam servir os interesses. Ainda não atingiu nenhuns objetivos nos conflitos, a paz em 24 horas não está a concretizar. Aliás, o Wall Street Journal achou a referir, já falamos disso anteriormente, em que o rei vai nu e de alguma forma Trump tem percebido isso. Esta posição do Lavrov tenta demonstrar despreocupação, a expressão é perfeitamente evidente disso, e Medvedev utiliza uma que esta ameaça foi um passo para a guerra. Portanto, nada de novo das duas posições que têm sido consecutivas e acabam por demonstrar os dois vetores que Moscovo pretende jogar. É sempre uma posição muito pragmática e preparada de Putin, desde Munique 2007 e, portanto, verdadeiramente não sinto que nada tenha mudado. Há aqui alguns pontos que eu julgo que poderemos salientar e relevar nesta análise. Um primeiro ponto é a difícil operacionalização das tarifas secundárias. Isto porque naturalmente abrangeriam a Rússia, mas também A China, com quem os Estados Unidos procuram chegar agora a uma posição de negociação e, portanto, não quer que isso venha a ser colocado em causa. A Índia, que os Estados Unidos pretendem manter como um aliado relativamente próximo na região da Ásia-Pacífico, e vários países europeus com quem a Rússia ainda mantém algumas trocas comerciais dentro da área da energia e não só, nomeadamente, e saliento, o Reino Unido, Alemanha ou Holanda. Portanto, não será imediato, e a Rússia sabe disso. Depois, um segundo ponto é que na situação de terreno, a iniciativa e algum sucesso moderado estão da parte das tropas russas. Há um incrível custo de recursos humanos, com vários ataques que só vimos isso até à Primeira Grande Guerra, mas a verdade é que tem tido. E depois o uso da guerra de comunicação e pressão sobre a sociedade civil. Portanto, a situação em si favorece um pouco a Rússia neste momento. Há, de facto, ainda um apoio internacional em que a Rússia não está isolada, nomeadamente os BRICS. A China tem reforçado esse apoio mútuo e que não poderá deixar a Rússia perder, mas embora também nenhum destes atores venha a empenhar-se decisivamente no apoio da Rússia. E por fim, que o Putin sabe que o tempo é seu aliado. Deixa uma cenoura de disponibilidade para negociar aqui, outra ali, vai permitir num encontro, e agora o último que se fala é realmente em Pequim, em setembro, que permitiria resolver todos os problemas do mundo. Portanto, Putin está preparado, mas vai manter os seus objetivos primários, que é assegurar a resposta às causas profundas do conflito.

Hoje a Embaixada do Reino Unido na Ucrânia quis condenar os ataques russos à região de Zaporizhzhia e a Kamianske, uma localidade perto de Dnipro. Morte de 20 civis nestes ataques. Zelensky condenou também fortemente estes ataques levados a cabo pela Rússia nas últimas horas. Mas a Embaixada do Reino Unido na Ucrânia diz que a Rússia está a aterrorizar os civis ucranianos, que ontem à noite as bombas atingiram uma prisão, uma maternidade ficou danificada, algumas pessoas acabaram por morrer e escreve também que o Kremlin não leva a paz a sério e que o Reino Unido vai continuar a aumentar a pressão. É uma posição deixada aqui pela Embaixada do Reino Unido na Ucrânia, é certo. Sabemos que Donald Trump tem feito esta pressão, sabemos que a União Europeia aprovou um novo pacote de sanções muito recentemente, há semanas. O Reino Unido também a manter este apoio à Ucrânia. Entramos numa fase decisiva. Sabemos que vamos muitas vezes falando nesta questão de fases decisivas, mas este prazo de Donald Trump e esta pressão que alguns países vão fazendo também sobre o Kremlin pode resultar em alguma coisa concreta num curto prazo?

A única arma que verdadeiramente o Ocidente, se é que o Ocidente ainda existe como conceito, poderá ter neste contexto é realmente manter uma pressão forte e sem brechas. Não será fácil. Aqui uma primeira reação a ataques a civis, o que não é desculpável, porque neste caso concreto, noutros restará dúvidas, porque poderia haver algo de interesse para o Kremlin em determinados ataques, mesmo que as vítimas tenham sido civis. Neste caso, e pela informação que nos chega, não é justificável de todo. E daí a reação extrapolada da embaixada britânica e a reação do Reino Unido tão intensa. Mas representa também a Europa numa tentativa de autonomia estratégica, mais que propriamente a União Europeia, a Europa como um todo, unida ou à procura de união no sentido de reagir. Como foram as sanções, como algumas ações concretas que a Europa tem tentado concretizar e que dentro da sua, entre aspas, "fraqueza", acaba por ter um significado efetivo. E uma coisa que conseguiu diretamente é que Trump não pode considerar que a guerra termina só com a decisão dos Estados Unidos. E isso será muito importante, porque a Europa continuará a apoiar e terá impedido em alguns momentos já Trump de ter assumido que não tinha prioridade estratégica para a região da Ucrânia e que se poderia concentrar noutros pontos do planeta. Isso será uma efetivação da capacidade estratégica da União Europeia. Mas a União Europeia não é forte e procura algum tipo de entendimento e há o risco de conflito direto com a Rússia, nomeadamente, como disse Donald Tusk, o primeiro-ministro polaco, muito recentemente em 2027, mas já outros vieram a referir para 2030, existe essa probabilidade e que, portanto, de alguma forma, o Reino Unido quer aqui também sinalizar. É a única forma de efetivar um aumento de pressão e de eventualmente conseguir atingir alguns resultados perante um Putin que está muito convicto de atingir as tais causas profundas e resposta a essas causas.

Vamos falar aqui do conflito no Médio Oriente também, e até de posições que têm sido tomadas nas últimas horas. Está a decorrer nas Nações Unidas essa conferência franco-saudita. Ainda na última hora, o ministro português de Negócios Estrangeiros reiterou que Portugal apoia a solução de dois Estados para o conflito entre Israel e a Palestina. A França aponta que vai reconhecer o Estado da Palestina no próximo mês de setembro. O Reino Unido convoca uma reunião de emergência, tem sido noticiado que deve ser discutido o mesmo, reconhecer o Estado da Palestina de forma formal. O que muda com isto? Esta tomada de posições da França já conhecida, o Reino Unido que se prepara, o que muda efetivamente com isto?

Muda bastante. A concretizar-se o reconhecimento por parte da França, é o primeiro do G7 e de alguma forma tem um impacto efetivo no processo. Já teríamos visto a Espanha, a Suécia, a Irlanda, a Eslovénia, só pra falar dos países da União Europeia, mas no total são 144 países que já reconheceram O Estado palestiniano e a verdade é que Macron tem sido pressionado internamente. Mas vamos por partes. Estamos perante uma situação crítica, não há a mínima dúvida, é um momento crítico, é um momento em que realmente é preciso encontrar algum tipo de solução. O que está aqui em causa será esta solução neste preciso momento. O grupo E3, que é a França, o Reino Unido e a Alemanha, tem sido bastante ativo recentemente na procura do fim da catástrofe humanitária, tem criado pressão sobre Telavive e sobre outros actores, é uma verdade. Deu resultado também por pressão conjunta com Trump e que realmente colocaram Telavive numa necessidade de mudar um pouco a sua ação no terreno. A França vai enviar ajuda humanitária, portanto há aqui um conjunto de envolventes que enquadram todo este processo. Mas apesar de reconhecer que já se expôs bastante para uma solução nesta região do Médio Oriente, este reconhecimento tem dois riscos que eu tenho que identificar como preocupantes. O primeiro que poderá surgir como uma recompensa ao ataque de 7 de outubro. Estar nesta sequência vem dar razão à ação do Hamas e poderá ser aproveitado e irá motivar novas ações semelhantes, colocando em causa a segurança efetiva de Israel. É muito perigoso fazer esta ligação direta e a verdade é que não há aqui um momento de descontinuidade que impeça exatamente que venha a ser atribuída essa ligação. Estou certo que os grupos do eixo da resistência irão incluir e irão fazer algum tipo de guerra de comunicação que irá justificar isso mesmo, o que obviamente irá motivar um desenvolvimento da mesma estratégia. O segundo ponto, e para terminar, é a possibilidade de não ser efetivo. O reconhecimento deve vir na sequência de um processo sólido que permita a concretização. Deve vir na sequência de toda uma construção de condições para que realmente no dia seguinte haja, de facto, uma evolução. Mas aqui temos dúvidas. Que território, que administração, que soberania? Há demasiadas questões que ainda não estão cabalmente respondidas, que ainda não foram devidamente pensadas e que efetivamente poderão apenas criar mais entropia, mais pó na resolução da questão, o que poderá dar origem a que nada se concretize no imediato. Em suma, a solução dos dois Estados, apesar de todas as dificuldades, parece ser a melhor solução. Ainda não identifiquei outra que possa ter melhores condições, mas tem que ter todas as estruturas, todos os passos concretos para se conseguir efetivar, com o risco de obviamente não chegarmos a lado nenhum e continuarmos com o mesmo tipo de convulsões, muito motivadas por questões diretas e locais, mas também regionais e naturalmente dentro da grande competição global.

Jorge Rodrigues, muito obrigado por ter estado conosco nesta edição do Gabinete de Guerra. Estivemos a detalhar a situação nestes dois conflitos. Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Muito obrigado por ter estado aqui na Rádio Observador.

Obrigado, eu Miguel.