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Temos conosco Pedro Nascimento, investigador de História Militar, para mais um Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Boa tarde, Pedro Nascimento, bem-vindo. Num dia naturalmente marcado pelas eleições norte-americanas e pela vitória de Donald Trump. É uma vitória que acaba por ser surpreendente?

Boa tarde, Luís. Permita-me agradecer à Rádio Observador mais uma vez o convite. Sinceramente, acaba por não ser surpreendente, não só pelo fato de nos últimos dias toda a comunicação social nos ter levado a perceber que estávamos na iminência da vitória de qualquer candidato, mas também por percebermos que o eleitorado dos Estados Unidos é muito peculiar e não obstante tudo aquilo que se passou, sem querer entrar em detalhe, nos últimos oito anos, acabamos por não poder reagir com grande surpresa a esta vitória de Donald Trump.

Sabemos que Donald Trump teve um primeiro mandato que teve alguns momentos conturbados, mas foi também num contexto diferente daquele que vivemos hoje, com duas principais guerras que têm tido grande destaque e das quais falamos aqui também diariamente, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia e a guerra no Médio Oriente. Este segundo mandato de Donald Trump será um Trump 2.0 ou podemos esperar um Trump idêntico na gestão destas questões àquilo que aconteceu no primeiro mandato?

Luís, esta vitória de Donald Trump, à parte de todas as considerações que nós poderíamos fazer sobre aquilo que levou a esta conquista, sobre o zeitgeist, ou seja, este clima cultural que se tem vindo a desenvolver nos Estados Unidos e que acaba por ser importado pelo resto do mundo, e que traz estas implicações diretas, traz precisamente isso: uma mudança de paradigma clara em relação aos conflitos mundiais. Nem todos os líderes precisam de estar na linha da frente para decidir o destino de uma guerra. Em muitos casos, como neste, é o apoio, o armamento, a estratégia de quem está fora do conflito direto, que verdadeiramente sustenta ou encerra as batalhas à distância. E trocar o líder de uma nação poderosa como os Estados Unidos, que financia e apoia o conflito da Ucrânia e também do Médio Oriente, pode, e na minha ótica vai alterar claramente o rumo da guerra de forma drástica.

Até porque essa questão pode ter estado também na base desta vitória de Donald Trump, ou seja, pode ter sido também o eleitorado a dizer que não quer uma administração tão envolvida e com tanto investimento em conflitos.

É verdade, sem dúvida. Agora, nós temos que perceber que com esta eleição de Donald Trump, nós temos certamente um novo líder no cenário internacional, que mesmo sem as tropas no solo, como eu estava a dizer, terá o poder de mudar esta balança entre as partes no conflito. E isto deve remeter-nos para o essencial. Por um lado, será que a retirada do apoio à Ucrânia, que é aquilo que Trump preconiza, significará uma oportunidade de paz e a que custo? E por outro, será que a intensificação de uma ajuda previsível a Israel poderá escalar esse conflito para níveis nunca antes vistos? É muito por aqui que o caminho se vai trilhando. E a história está repleta de exemplos de líderes cujas decisões acabaram por influenciar de forma profunda guerras que não eram propriamente deles. E ainda assim marcaram para sempre esse rumo das nações que estavam envolvidas. Basta vermos, por exemplo, o exemplo de Franklin Roosevelt em 1939, 1940, antes de os Estados Unidos entrarem diretamente na Segunda Guerra Mundial, ou mesmo de Stalin durante as guerras da Coreia e do Vietname. Os Estados Unidos têm uma tradição, não obstante terem estado, por exemplo, nas duas principais guerras mundiais e terem contribuído decisivamente para as suas vitórias, digamos, têm uma tradição isolacionista. E Trump era um defensor, e é um defensor desse isolacionismo. Agora vamos tentar perceber qual será o preço a pagar.

Já houve algumas reações, nomeadamente por parte, e falando agora especificamente no conflito entre a Rússia e a Ucrânia, já houve reações de Moscovo a dizer que para já não está previsto que Vladimir Putin felicite Trump, que a Rússia não é um país amigo. Que os Estados Unidos, aliás, não são um país amigo da Rússia. Como é que, Pedro Nascimento, será ou poderemos antever a relação da próxima administração Trump, nomeadamente com Vladimir Putin?

Eu não tenho grandes dúvidas de que com Trump haverá uma forte possibilidade de redução do apoio americano e que poderá forçar a Ucrânia a considerar negociações com a Rússia. Aliás, Trump tem vindo constantemente a criticar o gasto excessivo do apoio militar à Ucrânia e vai certamente pressionar a Europa para assumir uma parcela maior dessa responsabilidade. E esse afastamento dos Estados Unidos vai trazer um impacto direto nessa capacidade de resistência da Ucrânia e potencialmente irá enfraquecer a sua posição contra a Rússia. Isto trará muitas consequências, desde logo esta redução ou redefinição do apoio militar e financeiro, menos apoio direto dos Estados Unidos e imposição de condições à Ucrânia, como por exemplo compromissos para futuras negociações ou eventuais cessar-fogo, ao invés de um apoio incondicional como vinha a acontecer. Depois haverá certamente uma maior pressão para chegar à paz Em condições de um modelo de paz ao estilo Trump. Trump parece defender um tipo de paz fria, onde as hostilidades acabam por diminuir, mas o conflito vai permanecer num estado lá. Esse cenário poderá lembrar outros conflitos onde os lados mantêm posições em disputa, sem uma resolução completa, como aconteceu, por exemplo, na Coreia, mas a Rússia poderá essencialmente manter esses ganhos territoriais enquanto a Ucrânia ficará impedida de retomar um controle total da sua soberania. Parece-me por demais evidente que isto é um dos pontos que poderá estar em cima da mesa. E depois temos um impacto que poderemos dizer, um equilíbrio de poder dentro da própria Europa. Trump já demonstrou um enorme ceticismo em relação à NATO e vai certamente pressionar os aliados europeus para assumirem a responsabilidade do apoio à Ucrânia.

Precisamente, era sobre a NATO também que queria falar consigo, Pedro Nascimento, porque sabemos que as posições de Donald Trump relativamente ao investimento em defesa por parte dos Estados Unidos e por parte dos países da Europa tem sido um ponto de divergência e tem sido um ponto que tem gerado sempre alguma polêmica a própria relação dos Estados Unidos com a NATO e também com a Europa. Como é que ficará também essa relação nesta próxima administração Trump? Fará Donald Trump esse esforço para de fato não exigir à Europa mais investimento na defesa?

Eu penso que, a longo prazo, e isto é algo que eu já tenho vindo a dizer, eu acho que no meio de todo o caos há um dispositivo que se pode verificar aqui no meio, que é precisamente a questão relacionada com a segurança e defesa europeia. Uma pressão que pode resultar numa maior autossuficiência militar. Ou seja, com Trump a reduzir o apoio à Ucrânia, exigindo que a Europa assuma essas responsabilidades, acho que os países europeus, vendo-se mesmo forçados a isso, poderão aumentar rapidamente os seus orçamentos da defesa. E isso incluiria essencialmente um fortalecimento militar, especialmente nos países do Leste Europeu, como tem vindo a acontecer aliás com a Polônia, a Romênia, os Estados Bálticos, que veem a Rússia como uma ameaça direta. E por outro lado, também poderá fortalecer uma cooperação militar intra-europeia. Ou seja, a União Europeia, que historicamente depende da NATO e também dos Estados Unidos, pode intensificar iniciativas de defesa próprias. No aumento do investimento nesta defesa coletiva europeia pode-se fortalecer a União Europeia.

E por outro lado, enfraquecer a NATO.

Por outro lado, isto pode trazer claramente divisões na NATO, porque esta pressão de Trump em relação à Europa para que estes assumam o esforço do apoio pode regular decisões na NATO, porque nós temos países como a Polônia e esses Estados balticos como eu estava a referir, que são fortemente pró-Ucrânia, podem insistir nesta continuação do apoio, enquanto outros membros, como por exemplo a Hungria e mesmo a Itália, podem resistir a uma maior contribuição, seja por motivos financeiros ou por ceticismo sobre o conflito.

Olhando também para o conflito no Médio Oriente, Pedro Nascimento, como é que também podemos olhar para o posicionamento da próxima administração Trump, tendo em conta que, e o Hamas relembrou isso mesmo, que a promessa de Trump de acabar com a guerra do Médio Oriente numa questão de horas, sabemos que não será assim, porque as coisas não acontecem exatamente assim, mas também que posicionamento terá Donald Trump perante essa promessa que no fundo acabou também por fazer?

É difícil lançarmo-nos em exercícios de adivinhação, mas o passado dá-nos algumas pistas sobre aquilo que o futuro nos pode trazer. Se nós olhando para o passado, temos, por exemplo, no tempo de Donald Trump, no seu primeiro mandato, sua decisão de transferir a embaixada americana em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, foi uma ação profundamente simbólica e controversa, porque ao fazê-lo, Trump reconheceu Jerusalém como capital de Israel e algo que outras administrações evitavam completamente para não inflamar as tensões na região. E para Israel, isso foi um marco de apoio dos Estados Unidos, que acabou por reforçar a legitimidade da sua reivindicação sobre a cidade. Mas, no entanto, essa medida afastou ainda mais a possibilidade de negociações de paz e contribuiu também para aumentar as tensões no Médio Oriente. E além disso, foi a administração Trump que abandonou o acordo nuclear do Irão, que tinha sido negociado com o objetivo de limitar esse programa nuclear iraniano, em troca da suspensão de sanções. Só que pra Trump esse acordo era claramente mau e não oferecia garantias suficientes pra conter as ambições nucleares do Irão, nem as suas atividades na região. E sem querer estar aqui a entrar no mérito da questão, mas fazendo uma análise puramente objetiva, ao sair desse acordo e ao impor novamente as sanções, os Estados Unidos aumentaram a pressão econômica sobre o Irão e também intensificaram essa instabilidade regional, visto que o Irão respondeu com o retorno do enriquecimento de urânio. E além disso, sabemos que tudo que se tem passado no Médio Oriente também advém daí. E essas duas decisões ilustram claramente a política de controle adotada por Donald Trump no Médio Oriente. Foi uma abordagem que reforçou alianças como a de Israel, mas que ao mesmo tempo afastou os Estados Unidos de uma posição de mediador. Ampliou a divisão do Irão e dos seus aliados na região, claramente. E assim, nessa esteira, eu creio que os Estados Unidos passarão a apoiar sem grandes obstáculos Israel e Trump Poderá perfeitamente haver aqui uma oportunidade de esmagar aquele que é um dos seus principais rivais.

Ou seja, Benjamin Netanyahu, quando reagiu a esta vitória e falou num grande regresso à Casa Branca, pode o primeiro-ministro israelita ficar na expectativa de ter um apoio reforçado por parte dos Estados Unidos no Médio Oriente?

Eu creio que sim, ainda que entenda que não terá a mesma influência se fizermos a comparação com a Ucrânia. Claro que os caminhos são diferentes, porque grosso modo, se vimos na Ucrânia é tirar o tapete à Ucrânia, e em relação ao Médio Oriente, é apoiar ainda mais Israel. Mas se os Estados Unidos simplesmente estivessem no seu canto e não tivessem qualquer influência quer na Ucrânia, quer em Israel, mesmo assim a diferença seria muito mais visível na Ucrânia, porque Israel já tem uma capacidade completamente diferente da Ucrânia para fazer a sua guerra.

Ou seja, tendo em conta isso que nos diz e tendo em conta também a forma como Netanyahu festejou, também não podemos esquecer que tem existido por parte dos Estados Unidos nesta última administração Biden, algumas reservas na forma como Israel tem atuado em todo este conflito. Israel pode acreditar que poderá haver uma atuação diferente por parte da Casa Branca e dos Estados Unidos daqui para frente?

Creio que sim, até porque ao longo da campanha, Donald Trump quis sempre fazer da comunidade judaica uma das suas bandeiras. Porque sabemos que há uma grande influência da comunidade judaica nos Estados Unidos. Veio novamente à baila a questão do antissemitismo para discussão com tudo aquilo que se tem passado no Médio Oriente e Trump sempre foi um defensor incondicional, independentemente do mérito que estará por trás das suas convicções, dessa comunidade judaica e, portanto, agora Netanyahu terá uma porta aberta que não tinha antes com Biden. Parece-me por demais evidente.

Olhando também, Pedro Nascimento, para as relações entre a Europa ou a União Europeia, melhor dizendo, e os Estados Unidos. Enfim, tivemos várias reações naturais e reações de felicitação naturais por parte dos vários países como França, como a Alemanha também, mas sempre também com essa ideia de que é preciso manter uma relação transatlântica entre os dois blocos. Poderá também haver alguma preocupação por parte das capitais europeias relativamente a essa futura relação?

Definitivamente, Luís, e ainda bem que fazes essa pergunta, porque eu acho que há aqui dois aspetos que são muito importantes que nós devemos ter em conta, que é desde logo o impacto económico e energético que isto poderá ter, porque uma vitória de Trump trará possivelmente uma flexibilização das sanções contra a Rússia. E isso pode ter uma grande influência na política energética europeia. Embora a Europa tenha feito alguns avanços para reduzir a sua dependência da energia russa. Um provável relaxamento dessas sanções poderá tornar o petróleo e o gás russos mais disponíveis e até economicamente mais atraentes, o que pode levar alguns países europeus a reconsiderarem algumas restrições. E isso colocaria, naturalmente, em risco a unidade europeia sobre sanções e vai dificultar os esforços para manter uma política de independência energética. E depois também o impacto no comércio e também na inflação, porque se Trump reduz o apoio à Ucrânia e as sanções à Rússia forem mitigadas, a economia europeia pode ser diretamente afetada. Por um lado, a estabilidade nos preços da energia podem ajudar a controlar a inflação, o que seria positivo, por outro, uma postura menos firme contra a Rússia pode comprometer a segurança na região e pode causar uma instabilidade de longo prazo e afetar os investidores e o clima económico ligado.

Pedro Nascimento, muito obrigado por ter estado neste Gabinete de Guerra. Pedro Nascimento, investigador de História Militar, que esteve conosco. O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã.