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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões. A análise hoje é do Francisco Proença Garcia, militar, investigador e professor catedrático na Universidade Católica. Bom dia, Francisco. Bem-vindo.

Bom dia, Maria João.

Bom dia. Começamos pelo braço de ferro entre Irão e Estados Unidos. Francisco, na sua análise, quem é que tem realmente o trunfo neste momento? Washington, que exibe o poder do bloqueio no Estreito de Ormuz, ou Teerão, que prova que consegue paralisar a economia mundial levando os Estados Unidos ao limite?

Maria João, parece-me que é a segunda hipótese. Estamos todos a perder. Estamos todos a perder, sobretudo a economia internacional, mas estamos a ganhar numa coisa. Pelo menos tem havido naquela região, não falo no Líbano, mas tem havido naquela região o respeito pela destruição das infraestruturas e pelas mortes. Já não é mau. Mas quem está, de facto, em vantagem neste momento, vejo Donald Trump, diz que não sabe com quem negociar, diz que volta a bombardear. Está a exercer pressão, sobretudo porque vai para Beijing amanhã.

Amanhã.

Justamente, 14 e 15. O que é que ele até agora trouxe, além da destruição e do aumento do preço e de exercer pressão para resolver um problema que não consegue resolver e pede aos aliados para o ajudarem. De maneira que tudo indica que esta guerra, que não devia ter começado, está com dificuldade em encontrar-se uma solução, porque Teerão tem história, tem conhecimento, descobriu agora que pode manipular através do Estreito de Ormuz e até quer a soberania. Nesse propósito, até quer a soberania sobre aquele espaço, que é um espaço internacional, onde as rotas marítimas devem cruzar livremente. De maneira que, neste momento, penso que está com vantagem e todos a perdermos.

Trump admitiu que a trégua está por um fio, diz que está nos cuidados intensivos, sendo ele um presidente que prometeu acabar com as guerras, mas que agora parece dependente da vontade de Teerão para reabrir o estreito. Como é que ele gere esta dependência sem parecer fraco perante o eleitorado nas eleições intercalares?

Essa é a pergunta do milhão de dólares, não é?

Imagino que sim.

Ele vai ter que encontrar uma solução, junto do seu eleitorado ele vai dizer que os outros não estão a ser respeitados os acordos, têm as armas nucleares, que ele está a fazer tudo para fazer a pressão e obter o resultado de uma forma vantajosa para a comunidade internacional e, sobretudo, para os Estados Unidos. Aliás, ele não precisa do Estreito de Ormuz, diz ele, de maneira que está a fazer um favor à comunidade internacional. Não sei qual vai ser a narrativa. Por outro lado, também se pode, na sua imprevisibilidade, depois da visita a Pequim, pode decidir bombardear novamente e voltar a forçar o Irão a ter outra disponibilidade para negociar. É muito difícil saber o que se passa na cabeça dele. A previsibilidade das suas decisões é muito difícil, mas ele vai ter que encontrar uma saída para o seu problema interno, por causa das suas eleições, e as pressões da comunidade internacional estão a ser tremendas. De maneira que ele tem que encontrar uma saída e pode ser que essa saída seja encontrada agora na visita a Beijing. Vamos ver.

Mas, Francisco, o fato de Trump chegar a Pequim com o conflito em Ormuz por resolver e os mercados neste estresse, dá a Xi Jinping uma carta branca para exigir concessões noutras áreas como Taiwan ou tecnologia, em troca de pressionar Teerão?

Pequim, neste momento, tem uma grande vantagem. Vamos ver como é que eles jogam. Eles são muito pacientes. Nós somos muito mais imediatistas. Eles jogam a longo prazo. Mas eles têm estado a aprender desde a guerra da Ucrânia, como é que os Estados Unidos reagem, como é que têm que fazer as suas operações militares, como é que estão os seus stocks, como é que está a sua tecnologia. E certamente vão entrar, quer dizer, porque eles precisam, de facto, daquela rota marítima aberta por causa do fluxo de energia para toda a Ásia. E a Ásia, além de ser consumidor dos bens chineses, também produz para a economia chinesa. De maneira que vai fazer pressão. Depois a moeda de troca é moeda de troca. Eles têm muitas coisas para pedir. Começa tudo por T, quer dizer, começa algumas tarifas que o Trump impôs, a guerra das tarifas. Talvez comece por aí. E depois da guerra das tarifas, como é que resolve o problema de Teerão? Está a ver, são já dois Ts. Depois, Maria João falou uma coisa que é muito importante, que é a tecnologia. Quem tem as big techs, ou seja, as grandes empresas de inteligência artificial e de tecnologia avançada, cutting edge, mais da ruptura, são os Estados Unidos e os chineses. E estão os dois a ver quem é que vai definir os padrões para o futuro. Quer dizer, porque só eles é que estão nessa competição. Nós estamos uma liga abaixo, digamos assim. De maneira que eles estão a ver quem é que vai definir os padrões. Quem definir o padrão, define o futuro. E essa competição está a ser muito vincada entre eles. De maneira que também irão discutir tecnologia, depois da transferência dos chips, os semicondutores. Mas depois há outra coisa que é extremamente importante, que são as terras raras. Quando foi das tarifas, o Trump teve alguns problemas. O problema das terras raras, eles podem comprar no Chile, até podem comprar o lítio em Portugal, que temos uma grande reserva, apesar de não estar explorada pelos problemas ambientais que sempre se levantam, mas temos na Austrália, eles podem comprar as terras raras. O problema da dependência em relação à China é a capacidade de refinação dessas terras raras, que eles refinam entre 70% a 80%. A capacidade está instalada neles. De maneira que a dependência de Donald Trump é extrema nessa área. De maneira que entre terras raras, entre o problema de Teerão, entre o problema da tecnologia e o das tarifas, está a ver, são uma quantidade de Ts que temos aqui para resolver. Eu penso que Beijing vai ser cauteloso na aproximação. Ah, e faltava-me Taiwan.

Depois eu falei Taiwan também.

Depois a Maria João falou, eu já me estava a esquecer. Veja, o cinismo da comunidade internacional, nós reconhecemos desde 69 que só há uma China, que é a China continental. Mas depois temos o problema de Taiwan. E como é que resolve Taiwan? Não existe, para já, a solução. Sabemos nós que os chineses dizem que aquilo faz parte integrante e no seu conceito de defesa, aquilo é a unificação do território, como foi com Macau.

Exatamente.

De maneira que Taiwan vai cair a seu tempoPode ser qualquer coisa do gênero. Não reconhecem que eles podem ser independentes. Ouvir uma afirmação dessas é um estrondo, mas ao mesmo tempo, eu se fosse de Taiwan e Trump me dissesse uma coisa dessas agora, eu suspendia a compra de armas, que eles estão a fazer, que é uma coisa colossal, são uns bilhões de dólares. De maneira que é muito complexa a situação e penso que o Donald Trump vai fragilizado para esta negociação. Já adiou uma vez.

Agora não tem como adiar. E tanta coisa para resolver.

Não tem como adiar. Vamos estar expectantes. E depois mesmo o resultado que ele vai transmitir, com certeza, para a sua comunidade, é um grande resultado, um grande sucesso. Pusemos um sítio com as tarifas. Mas depois vamos ver no concreto, uma coisa é o discurso, outra é a prática política e o resultante dessa prática. Temos que aguardar para ver.

Verdade. Esta terça-feira há uma nova reunião internacional coordenada pela França e pelo Reino Unido sobre a segurança no Estreito de Ormuz, mas o Irão já avisou que qualquer presença militar francesa ou britânica vai ser alvo de uma resposta imediata. Francisco, acredita que a Guarda Revolucionária ataque navios europeus para provar que só Teerão manda no Estreito ou é bluff diplomático para travar esta nova coligação?

Resta saber onde é que está a capacidade militar desses dois países, apesar de terem porta-aviões. Se os norte-americanos, que são a maior potência militar, põem 1,5 trilhões na defesa, não conseguem resolver a situação do ponto de vista militar, não vão ser os europeus, as pressões podem ser muitas. Veja, a Guarda Revolucionária atacou os vizinhos todos ali ao lado, atacou as bases norte-americanas. De maneira que se lá for um europeu, penso que não vão pensar duas vezes, é um alvo para abater. E vai ser como se diz na Gíria: "Pior a emenda que o remendo". A posição inglesa e francesa são muito interessantes, mas já ouvimos isso há quanto tempo? Há um mês que andamos com isto. E no concreto, está a haver é apenas conversa. No concreto, nas ações pragmáticas, pode haver negociações de bastidores, mas o resultado prático disso ainda não aconteceu. E Donald Trump, além da diplomacia, tem a vertente militar e também não conseguiu resolver o problema. Esperemos que os chineses nos ajudem a resolver esse problema.

Nunca pensou dizer isso, provavelmente, não é, Francisco?

Nunca pensei dizer isso, mas isto é um jogo de longa duração e as diversas peças estão a se movimentar. E nós temos que ser pragmáticos. Aquilo que interessa, sobretudo nas relações internacionais, são os interesses, e os interesses dos diversos países estão em causa. Estão em causa os interesses de toda a União Europeia, está em causa a economia de toda a Ásia e está em causa a afirmação do poder norte-americano e, de maneira como estão todos os interesses conjugados, pode ser que se encontre uma solução. Penso eu que vai ser encontrada uma solução, mais tarde ou mais cedo. Quanto mais cedo, melhor para todos nós.

Entretanto, a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, admite falar com Moscovo. Francisco Proença Garcia, tendo em conta a proximidade entre Putin e o Irão, com a retoma dos voos e o apoio russo explícito a Teerão, é possível desenhar uma nova arquitetura de segurança na Europa enquanto a Rússia usa a crise de Ormuz para desgastar os Estados Unidos e manter o petróleo caro?

A arquitetura de segurança da Europa está a ser redefinida com a ajuda do senhor Putin. Veja, alterou-se substancialmente quando a Finlândia e a Suécia, dois países da União Europeia e dois países que eram neutros, entraram para a NATO. Isso foi logo uma alteração substantiva. E depois o não estar a ganhar a guerra na Ucrânia, vai nos dar uma ideia daquilo que vamos ter para o futuro na ordem da segurança europeia. Claro que isto depois são jogadas táticas, esta jogada tática de apoio ao Irão, bem, o Irão também apoia a Rússia, fornece-lhes mísseis, fornece-lhes os drones, de maneira que esse apoio vai funcionando, mas são jogadas táticas, porque ele para já está a beneficiar muito do aumento do preço do petróleo. E a sua economia está bastante debilitada e agora leva um balão de oxigênio. A arquitetura de segurança da Europa define-se também com o Médio Oriente, mas é sobretudo com o problema da Ucrânia. E esse problema foi criado pelo senhor Putin, veio trazer maior coesão à Europa e um acréscimo das capacidades militares da NATO ao abrir esses dois países que eu acabo de referir, a Finlândia e a Suécia. De maneira que essa nova arquitetura que está em construção vai ter que contar também com a Ucrânia. Isso o presidente Putin talvez não queira, mas vai ter que contar com a Ucrânia e vai levar algum tempo a estar definido, porque enquanto não encontrarmos a paz. Veja, agora falou-se no Schroeder ser um mediador. Bem, temos que encontrar alguém com quem Putin fale e que a Europa consiga falar. Se encontrarmos esse intermediário, já uma vez que ele não quer os Estados Unidos, se encontrarmos esse interlocutor, vamos num bom caminho, mas vai levar tempo. E agora aproxima-se o verão, para as operações militares se intensificarem um pouquinho mais. Vamos ver como é que isso-- infelizmente, não temos solução à vista.

Francisco Proença Garcia, é sempre um gosto contar consigo e com a sua análise. Boa semana, muito obrigada. Obrigada, bom dia.

Obrigado.