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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o espaço onde analisamos os principais focos de tensão na geopolítica mundial. Eu sou o Martim Madeira e hoje contamos com a análise do ex-professor de História da Academia Militar, António José Telo. Muito boa noite. Obrigado por ter aceitado o nosso convite.

Boa noite para si e para quem nos ouve.

Queria começar pelo Médio Oriente. Irão e Omã chegaram a um acordo para a reabertura do Estreito de Ormuz, ainda que os moldes não sejam muito bem conhecidos. Apenas sabemos, em termos económicos, de uma proposta iraniana de uma taxa entre os 5% e os 7% do valor da carga para quem passar no estreito. Omã depois até baixou essa taxa para os 3% da mercadoria, que considerou que seria mais justo. Entretanto, hoje a Guarda Revolucionária Iraniana garante que chegaram a acordo sobre outra parte das negociações do estreito, neste caso, a criação de um corredor para as embarcações em Ormuz. Por agora, existe um corredor temporário que passa inteiramente pelo lado iraniano, mas nos próximos dois meses será substituído por um novo, a passar pelos dois países. Antes desta guerra, tínhamos um estreito que era de livre trânsito e depois estas águas internacionais ficaram agora reféns de Irão e Omã. Os Estados Unidos aplicaram sanções económicas numa tentativa de asfixiar a economia iraniana e de abrirem o estreito, que Trump diz estar completamente aberto. Parece-lhe que esta pressão económica por parte dos Estados Unidos vai resultar e é a melhor opção, tendo em conta que, por exemplo, o Irão já disse que esperava estas sanções económicas e que tem planos para aguentar economicamente durante dois anos?

Vamos por partes. Estas negociações entre o Irão e Omã são para estabelecer vias e rotas de passagem do Estreito de Ormuz, mas não são para abrir o Estreito de Ormuz, porque para abrir o Estreito de Ormuz é preciso uma coisa fundamental: que o bloqueio naval americano pare. E o bloqueio naval americano não se aplica só ao Estreito de Ormuz. No caso do Irão, a sua ação aplica-se só ao Estreito de Ormuz, mas o bloqueio naval americano é mais amplo, porque se aplica a todos os portos iranianos, ou seja, mesmo aqueles que dão para o Índico fora do Estreito de Ormuz. Sem isso desaparecer, o Irão não aceitará abrir o Estreito de Ormuz. Esta negociação com Omã não é para abrir o estreito, é para se o estreito for aberto, quais serão as rotas dos navios. E como é evidente, o Irão está a tentar que os navios passem na sua zona, onde mais facilmente podem ser interceptados, sobretudo com os fracos meios que neste momento ainda estão ao seu dispor. Isso é um primeiro ponto que é importante. A única maneira de abrir o Estreito de Ormuz é por um entendimento entre o Irão e os Estados Unidos, porque quem está a fazer o bloqueio naval ao Irão são os Estados Unidos, não é Omã, nem é qualquer outro país para além dos Estados Unidos. Em segundo lugar, os Estados Unidos já estabeleceram uma política de médio prazo, que eu já tentei aqui explicar várias vezes, no Rádio Observador, nomeadamente, que consiste em arranjar uma solução de compromisso por enquanto, essa solução de compromisso, eventualmente até permitindo uma abertura do Estreito de Ormuz, mas obviamente em condições aceitáveis pelos Estados Unidos, duvido que os Estados Unidos aceitem que o Irão cobre uma taxa de passagem, seja ela 3% ou 10%. 3% ou 10% de um superpetroleiro carregado de petróleo é uma quantia absolutamente fabulosa, são muitos milhões. Uma pessoa pode dizer: "3% não é muito". É uma quantia fabulosa.

E o Irão até ameaçou que os navios norte-americanos poderiam pagar uma multa de até 20%. Portanto, foi uma ameaça que o Irão fez.

Ameaças é fácil fazer, é ar quente. Costuma-se dizer que o ar quente enche os balões. Aliás, nós vimos também que as ameaças americanas, a maior parte delas são ar quente, que depois raramente se concretizam. Bom, de qualquer modo, só uma negociação entre os Estados Unidos e o Irão permitirá abrir o Estreito de Ormuz. Os Estados Unidos, neste momento, apostam num compasso de espera, ou seja, sabendo ou tendo perdido a confiança no Irão, aliás, do mesmo modo que o Irão perdeu a confiança nos Estados Unidos, mas tendo perdido a confiança na boa palavra do Irão, é estabelecer um entendimento parcial que sem operações militares ativas, permita passar algumas semanas ou meses até se chegar, eventualmente, ao final deste ano, sem dúvida ao pós-período eleitoral, e que depois os Estados Unidos também já deram sinais e o próprio presidente Trump, que normalmente fala e diz mais coisas do que aquelas que devia dizer, já disse publicamente que se está a preparar um plano que é diferente do passado, um plano de ações militares para vergar o Irão. Neste momento, no entanto, estas sanções económicas que os Estados Unidos estão a lançar são diferentes das outras, porque pela primeira vez os Estados Unidos dizem que há sanções secundárias. Sanções secundárias é uma alteração drástica das regras do jogo, porque sanções secundárias é dizer: são sancionados, para além do Irão, os países que comprarem produtos ao Irão. Ora bem, é um grande problema, por quê? Quem são os três principais parceiros comerciais do Irão? Eram os Emirados Árabes Unidos, durante 2025 ainda eram, 26 já não. Era a Turquia e a China. Ora, todos esses países são muito sensíveis para os Estados Unidos. Os Emirados Árabes Unidos são um dos seus principais apoios no Golfo Pérsico. A Turquia é um dos grandes poderes militares do Médio Oriente e é um país da NATO E a China é a China. É o segundo poder económico do mundo. Como tal, fazer sanções económicas a esses países, não estou a ver os Estados Unidos a entrarem aí, a não ser que queiram de repente desencadear uma guerra económica global, coisa que não me parece que seja o caso.

Já o fizeram com a China em 2017 e de acordo com muitos analistas, foi uma das maiores derrotas de Donald Trump.

Sim, já foi feito, nomeadamente a China ameaçou com as terras raras e com outros fatos. Portanto, o que os Estados Unidos estão a fazer, obviamente, é como sempre, oralmente a pôr um cenário, que é o cenário máximo, e depois a negociar. E sem dúvida, vão deixar passar, mediante acordo, não só navios para a China, mas também navios para a Índia, por exemplo, que é outro dos grandes parceiros comerciais do Irão, enfim, não tão grande como estes três. Portanto, é uma maneira de passar o tempo, permitindo que sem recorrer a operações militares ativas, mas justificando porque é que não se recorre a operações militares ativas. Aliás, os Estados Unidos disseram que desistiram das operações militares ativas, permitam que estas semanas passem, garantindo a opinião pública americana, tentando manter uma situação económica relativamente calma, a qual será completada com uns, permita-me a expressão, mas uns rebuçados que serão dados antes das eleições, conseguindo aguentar assim estas eleições que têm importância para a administração Trump, e depois deixando no final do ano, então passando a um outro tipo de ação ou a prioridade de uma outra vertente em termos do conflito com o Irão, eventualmente passando por uma intervenção militar em termos diferentes, e o presidente Trump já foi adiantando alguma coisa do que poderão ser esses termos diferentes. Mas termos diferentes não só diretamente militares, mas também políticos e diplomáticos, ou seja, com diferente envolvimento dos países do Golfo, de Israel. É difícil envolver ativamente os países do Médio Oriente, nomeadamente os do Golfo e Israel ao mesmo tempo, mas, sobretudo também, e os Estados Unidos irão fazer pressão envolvendo os aliados da NATO, até porque a NATO aprovou na sua última cimeira e aprovou por unanimidade, a Turquia também votou a favor, que o estreito de Ormuz tem que ser aberto e que o Irão não pode ter armas nucleares. Isto foi uma aprovação da última cimeira da NATO.

E acha que, por exemplo, tendo em conta essa aprovação, que a Europa se deva juntar a essas sanções económicas norte-americanas?

A Europa tem que encarar as coisas numa visão geral. Isso tem a ver com uma outra questão, que é justamente a Rússia. Não sei se quero entrar na guerra da Ucrânia, mas a posição é não esquecer que as coisas estão interligadas.

Sim, claro.

A Europa também tem que perceber uma coisa: só tem um aliado no mundo, em termos globais. Só tem um aliado no mundo, são os Estados Unidos. Em termos globais, quem é que é o outro aliado potencial da Europa? A Rússia, a China? Quem?

Pois. Não.

Obviamente, deve manter e mantém boas relações com países como a Índia, como Japão, etc. Mas aliado para uma crise, para responder a uma crise, são os Estados Unidos. Se a Europa é ameaçada diretamente pela Rússia, ou se países europeus importantes, como o Reino Unido, por exemplo, recebem uma ameaça direta da Rússia, que ainda por cima parte diretamente da boca do presidente Putin, a quem é que ela vai recorrer? À China? É bom que mantenha negociações com a China, mas só pode recorrer aos Estados Unidos. E no Médio Oriente, e do ponto de vista económico, do ponto de vista financeiro, do ponto de vista político, sem dúvida, os Estados Unidos estão envolvidos, mas é um interesse fundamentalmente da Europa. Grande parte do comércio do Médio Oriente é mantido com a Europa, não com os Estados Unidos. O petróleo que passa por Ormuz não tem um interesse vital para os Estados Unidos, mas para a Europa tem. Já agora, permita-me referir a situação na Ucrânia. Neste momento, do mesmo modo que os Estados Unidos estão a preparar, e é já muito evidente, uma manobra de médio prazo com o Irão, a Rússia está a preparar uma manobra de médio prazo na Ucrânia. A Rússia está com muita vontade de aproveitar a situação para resolver a guerra da Ucrânia. Quais são as duas grandes vantagens que a Rússia tem neste momento? Os Estados Unidos estão empenhados no Irão e a Europa está especialmente frágil. Com várias eleições, a próxima é francesa. Com várias eleições importantes nos países europeus, particularmente dividida, com uma confusão como raras vezes se viu ou como há muito tempo não se via na União Europeia, onde praticamente a única coisa que une a Europa é que entendeu, e entendeu muito bem, na minha opinião, que tem de apoiar a Ucrânia, porque se não apoiar a Ucrânia, ela está a seguir na fila. E como tal, neste momento, a Rússia está a preparar, de facto, uma manobra multifacetada também para tentar resolver a guerra da Ucrânia, aproveitando a fragilidade da Europa e aproveitando o empenhamento dos Estados Unidos no Irão, com especial força. A China está toda contente a abanar as mãos e a dizer: "Excelente, vamos tirar vantagens de ambos os lados, vamos manter negociações com todos e favorecer o que é a nossa estratégia de fundo". Desculpe, ia a dizer?

E a falar exatamente desse lado da Rússia, de que a Rússia está a aproveitar Para planear algum tipo de medida, de próximo passo nesta guerra ucraniana. E vamos falar mesmo da Guerra da Ucrânia, o professor já tinha tocado nesse ponto. Queria falar desta visita do diretor da CIA a Moscovo, uma visita que não foi anunciada publicamente, que tem gerado altas preocupações, acima de tudo, altas questões em todo o mundo. Uma reportagem do "Wall Street Journal" diz que John Ratcliffe foi à capital russa dizer que os Estados Unidos têm conhecimentos dos planos da Rússia para atacar um país da NATO na região báltica, pelo menos em 2029. Isto mostra uma posição de força por parte dos Estados Unidos. No entanto, temos visto Donald Trump a não valorizar muito esta história e esta possibilidade de que a Rússia possa atacar um país da NATO, apesar da maior agência de inteligência do Estado norte-americano ter essas indicações. Pergunto-lhe se esta viagem em secretismo mostra que o presidente afinal mudou a posição que tinha sobre o conflito ucraniano ou se simplesmente Trump não quer saber e deixa esta situação da Rússia a cargo da CIA.

Deixe-me responder-lhe de uma maneira inicialmente indireta, mas depois direta. A questão é esta: eu não sei o que se passou nas conversações de Moscovo entre o dirigente máximo da CIA e os dirigentes máximos equivalentes da Rússia. E do mesmo modo que eu não sei, todos os que falam sobre o assunto, raríssimos devem saber. Portanto, tudo que podemos fazer é uma interpretação dos sinais e para isso temos que ver os sinais no seu conjunto, ou seja, as intenções que a Rússia mostra no seu conjunto. E embora os serviços de inteligência europeus e americanos há muito digam que até 2030 a Rússia pretende atacar um país da NATO, há uma ameaça mais curta, no mais curto prazo. E essa ameaça é, de facto, o que tudo indica que é a manobra que a Rússia está a preparar para tentar resolver a guerra na Ucrânia nos próximos meses. Não é até 2029, mas é nos próximos meses. Eventualmente, tal como os Estados Unidos estão a preparar uma manobra que irá até começos do ano que vem, a da Rússia também não deve ter um calendário muito diferente. Portanto, há aqui uma intensificação que passa também, pelo que é conhecido, pelo que volta e meia vem a público, de que são conhecidos planos para ações diretamente da Rússia em termos dos países bálticos. E também do que é conhecido, que volta e meia a Rússia intensifica suas relações com a Coreia do Norte e eventualmente está a pensar trazer para empunhar na guerra da Ucrânia 50 mil norte-coreanos e outras fontes, inclusive, falam em 150 mil norte-coreanos. Portanto, há aqui muitos sinais dos quais a viagem do responsável da CIA a Moscovo é simplesmente um deles. Já agora recordo que a viagem anterior foi feita pouco antes da invasão da Rússia e da Ucrânia, numa tentativa de impedir essa invasão.

Exato, em 2021.

No último momento para tentar impedir essa invasão. Não conseguiram.

Sim.

Portanto, está agora a haver uma outra viagem que de facto é muito anormal. Quer dizer, o dirigente máximo da CIA meter-se num avião e ir a Moscovo discutir, aparentemente, com ministros e com dirigentes máximos também de serviços equivalentes, é uma coisa muito anormal, que só se pode justificar numa situação de crise extrema ou de prévia crise extrema. A impressão que dá, se quer que lhe diga, é que nós estamos nas vésperas de uma nova crise dos mísseis de Cuba do nosso tempo. Com uma diferença e é uma diferença muito importante: é que na crise dos mísseis de Cuba, tínhamos dois lados, claramente, a URSS e os Estados Unidos, e do lado dos Estados Unidos tínhamos um presidente Kennedy. Hoje não temos presidente Kennedy, não é só do lado dos Estados Unidos, é também do lado da Europa, não temos nada que se pareça com o presidente Kennedy.

Veremos o que é que acontece. A ver se isto não se torna numa crise dos mísseis de Cuba, um momento de alta tensão na grande altura da Guerra Fria. Chegamos ao final do nosso tempo. Fica por aqui o "Gabinete de Guerra" hoje com a análise do ex-professor de História da Academia Militar António José Telmo. Obrigado pela sua contribuição.

Obrigado, boa tarde.

"Gabinete de Guerra" está de regresso amanhã e fica disponível em podcast.