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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360 esta quinta-feira com análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno, bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia. Obrigado.
Olá, Bruno. Bom dia. Comecemos pela Venezuela, Bruno. Podemos dizer que existe uma estratégia dos Estados Unidos por detrás desta enorme concentração de meios aeronavais junto à costa venezuelana. O que Donald Trump quer?
Essa é realmente a grande questão e grande dúvida. Parece haver aqui uma estratégia, não só de Donald Trump, mas de outros setores na administração, de, por um lado, se concentrarem mais nas Américas, no resto da América, na América Latina, um pouco naquela linha que foi tradicional nos Estados Unidos durante, basicamente, até a Segunda Guerra Mundial, em que os Estados Unidos eram uma potência hegemônica, sobretudo nessa região, e só depois é que passaram a ter ambições mais globais. Isso está presente, por exemplo, no próprio Projeto 2025 da Heritage Foundation, que aparece um pouco como o programa da administração. Alguém como Marco Rubio, que é o responsável máximo da diplomacia, o ministro dos Negócios Estrangeiros, o secretário de Estado na terminologia americana, também tem historicamente esse interesse, com particular foco na questão da Venezuela e da mudança de regime na Venezuela, de garantir a segurança das fronteiras e o controle das migrações, e também o combate ao narcotráfico.
Sim.
Portanto, aqui há a questão específica realmente do regime venezuelano, que é reconhecido como ilegítimo e tendo como base sucessivas eleições, cada vez mais fraudulentas pela generalidade dos países, mesmo muitos da região. Isso realmente é um dado. Há a questão também do combate ao narcotráfico, ao crime organizado, que é uma preocupação também muito generalizada, até mais nos países da América Latina do que nos Estados Unidos, inclusive, ou pelo menos tanto, ou mais. Depois a questão mais específica, de como é que isso se liga com esta concentração de meios, o que eles exatamente vão fazer, é que já começa a levantar muitas mais questões, porque literalmente ter o maior navio de guerra do mundo a caçar pequenas lanchas de traficantes de droga, que ainda por cima, no caso da Venezuela, na maior parte nem vão para os Estados Unidos, até vêm para a África e depois para a Europa, de facto não parece fazer muito sentido. Há aqui claramente uma intenção de fazer pressão militar sobre o regime, isso é já bastante evidente. Agora, se irá mais longe, se Donald Trump já decidiu o que mais fazer, se vai fazer ataques aéreos, como já fez, por exemplo, contra o Irã, contra bases militares do regime, se vai fazer algo mais em termos de uma intervenção terrestre, isso aí já levanta muito mais dúvidas, porque inclusive, mesmo com toda esta concentração de meios, a ideia de uma invasão terrestre da Venezuela já levanta mais dúvidas.
Mas há dúvida de que iriam vencer os Estados Unidos se quisessem invadir a Venezuela. Ou seja, e pondo de lado a questão legal, seria uma vitória fácil, Bruno?
Desde logo, também há aí questões legais bastante sérias. Mesmo em relação a estas lanchas narco, a ideia de que deveriam ser interceptadas, seria a prática mais normal. Depois esta questão de com que base legal é que os Estados Unidos interviriam na Venezuela. E tudo isso tem este problema, que eventualmente cria precedentes perigosos para outras grandes potências fazerem o mesmo tipo de ações armadas. Mas pondo isso de lado, acho que ninguém contesta muito que, não com os meios que estão exatamente aqui, mas com meios terrestres muito mais significativos, realmente seria possível uma invasão em larga escala da Venezuela. Agora, vamos ser claros, a Venezuela é um país muito grande, é 10 vezes o tamanho de Portugal. Tem muitos meios militares e, sobretudo, tem uma tradição de milícias armadas, que é muito o que, por exemplo, o próprio Saddam Hussein também criou no Iraque. Portanto, podemos ter aqui um cenário do gênero do que vimos no Iraque, que é uma invasão militar convencional, que rapidamente consegue tomar conta, ou com relativa rapidez, consegue tomar conta da capital, dos centros de poder e derrubar o regime. Mas outra coisa é o que é que se segue a seguir. Há aqui um cenário que pode ser bem os venezuelanos que estão muito insatisfeitos com o regime, abraçam esta invasão, mas também é um cenário que setores, mesmo que sejam minoritários, mas que apesar de tudo são importantes, que têm apoiado o regime, que têm muitas armas, podem criar aqui, por exemplo, uma guerrilha, que aliás, há uma grande tradição na América Latina. Veja-se, por exemplo, o caso da Colômbia, que há décadas tem vários movimentos de guerrilha armada. Portanto, termos aqui um cenário de os Estados Unidos serem forçados a combater uma guerra de guerrilha. Eu não estou a dizer que isso é inevitável, mas para deixar claro, vitória militar convencional parece relativamente seguro. O que é mais inseguro é o que é que se seguirá, e se houver aqui depois um conflito irregular, uma guerra de guerrilha, já vimos muitas vezes ao longo dos últimos anos que isso é bastante imprevisível e que não é seguro que o exército à partida mais forte consiga vencer uma guerra desse tipo.
Sobre a Ucrânia, as últimas acusações de corrupção de pessoas próximas de Zelensky são um grande golpe para o esforço de guerra e uma grande vantagem para a Rússia, não são, Bruno? Putin vai certamente aproveitar-se disto.
Sim, Putin vai certamente aproveitar-se disso com esta extraordinária ironia, que é nós podermos ter a certeza que não haverá ministros do governo Putin demitidos por corrupção, embora haja suspeitas de que todos eles estão altamente envolvidos nisso, que não haverá empresários próximos de Putin a terem fugido do país por estarem em risco de ser presos por corrupção, porque, mais uma vez, basicamente é assim que o sistema funciona na Rússia. É assim que funciona em muitos estados, digamos, se quisermos, herdeiros da União Soviética. Basicamente, também como resultado de uma experiência histórica em que a única forma da economia funcionar naquele sistema comunista completamente estatizado era através da ilegalidade. Portanto, toda a gente fazia traficâncias de todo o gênero e isso criou uma cultura péssima desse ponto de vista do combate à corrupção, ao tráfico de influências, etc. Mas realmente, no caso da Ucrânia, o momento é péssimo. Eu acho que, apesar de tudo, aquilo que se pode dizer é importante que passe esta mensagem que ninguém está acima da lei, que ministros ou mesmo empresários que no passado tinham sido próximos de Zelensky não estão acima da lei e que realmente continuará a haver este esforço para combater estas práticas, que realmente são péssimas do ponto de vista da imagem externa da Ucrânia e desta ideia, por exemplo, de continuar a apoiar a Ucrânia. Pelo que percebemos, aparentemente, no fundo, isto não afectava diretamente os programas de apoio à Ucrânia, mas realmente era um sistema para extrair recursos da economia ucraniana, que já precisa de os usar para se manter e para sustentar o esforço de guerra e não para sustentar aqui interesses privados ilegítimos.
Em Israel, o presidente parece ter agora um papel maior, condenou ataques de colonos israelitas armados contra uma fábrica palestiniana e também terá recebido uma carta de Donald Trump a pedir um perdão para os problemas judiciais de Netanyahu. Bruno, será mesmo assim?
Bem, é realmente interessante porque em Israel o presidente tem uma função, digamos, sobretudo simbólica. Não tem sequer os poderes que tem em Portugal. Portanto, é um regime basicamente parlamentar e é o primeiro-ministro que chefia o governo e que tem o essencial do poder. Agora, realmente estamos aqui também a caminhar pra eleições no próximo ano. Enfim, há problemas na própria coligação de Netanyahu e, portanto, o presidente Herzog representa aquilo que resta da velha esquerda israelita e, desse ponto de vista, ele parece realmente também pelas circunstâncias, ter aqui um papel maior. Ou seja, sabemos que Netanyahu tem, entre outras coisas, também problemas judiciais e, portanto, Donald Trump, numa linha que já seguiu noutros casos, está aqui muito activamente a tentar interferir a favor do seu amigo. Vamos ver se isso resulta ou não, e se cria problemas ou não ao presidente Herzog. E, por outro lado, também esta questão que eu tenho sublinhado, que é termos estado muito focados, por razões compreensíveis, em Gaza, mas a Cisjordânia é onde vive a maior parte dos palestinianos. Aí a situação está longe de estar estabilizada. Tem havido 2000 mortos ao longo do último ano, muitos incidentes violentos, colonos cada vez mais envolvidos em incidentes, em ataques violentos aos palestinianos e sem grande capacidade de resposta, digamos, quer da polícia, quer do exército israelita. Aparentemente, aqui o que aconteceu foi que realmente o exército israelita reagiu, tentou travar este ataque, portanto, isso parece ser um sinal positivo. O próprio comandante das tropas israelitas na Cisjordânia também veio condenar esse ataque. Mas realmente isto mostra bem como a situação é bastante grave, a ponto do próprio presidente de Israel também se vir pronunciar. Acho que infelizmente é um péssimo sinal o governo não ter feito isso também. E a suspeita é que há aqui também, pelo menos alguns ministros do governo, que estão muito claramente ao lado destas ações violentas ou que são de alguma forma cúmplices, tentam justificar e acabam por criar um pouco este clima de impunidade, que é bastante preocupante.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra. Bom final de semana.
Bom dia.
Obrigada.
Obrigado, igualmente.