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E abrimos aqui o Gabinete de Guerra para analisar os últimos desenvolvimentos do conflito na Ucrânia com a especialista em Relações Internacionais, Daniela Nunes. Tem estudado também a Rússia em pormenor e também com a ajuda do professor catedrático de História na Academia Militar, António José Telo. Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz, o presidente da Ucrânia marcou presença em Bruxelas para um encontro da NATO.
E a guerra entre Israel e o Hamas acabou por entrar no discurso de Volodymyr Zelensky, que comparou Vladimir Putin ao Hamas. "Terroristas que querem manter nações livres e democráticas reféns", são estas as palavras de Zelensky. Daniela Nunes, começando por si, é o receio de que o foco mediático se transfira, como se está de resto a transferir um pouco da Ucrânia para Israel, que leva o presidente ucraniano a adotar esta estratégia de comparar as duas guerras?
É claro que sim. Esta visita foi, na realidade, uma visita surpresa do presidente Zelensky à reunião dos ministros da Defesa da NATO em Bruxelas e isto para mim só tem uma leitura, que não sei se estará certa, que é: Zelensky quer aparecer ou na realidade precisa de aparecer. Mais do que ninguém, ele compreende como este desvio das atenções para o conflito israelo-palestiniano pode comprometer o foco na guerra da Ucrânia e, sobretudo, pode comprometer a lógica que tem vindo a ser adotada, que é a lógica do apoio incessante da Europa e do Ocidente à causa ucraniana. De repente, o Ocidente vê-se aqui na necessidade de se desdobrar, de se dividir entre o problema na Ucrânia e o problema em Israel e isso, obviamente, não augura nenhum aumento da intensidade ou da velocidade com que a ajuda chega e com que as decisões são tomadas. Aliás, pelo contrário. Tudo isto só vem complicar ainda mais a tarefa ocidental de encontrar metodologias consensuais no que concerne ao apoio à Ucrânia. E Zelensky compreende isto perfeitamente. Portanto, o seu papel neste momento é o de recordar, entre aspas, a guerra na Ucrânia, porque é impossível esquecê-la. Lembrar que esta guerra não acabou e que está longe disso e pelo meio criar algumas pontes entre aqueles que são os interesses, as reivindicações e as dores ucranianas e os interesses e as reivindicações israelitas. Um dos exercícios mais eficazes para o estabelecimento dessas pontes é justamente aquele que Zelensky está a fazer, que é encontrar um inimigo em comum, que neste caso concreto não é a mesma pessoa nem é o mesmo grupo, mas é a mesma índole e é a índole terrorista a que Zelensky faz referência. A meu ver, foi a partir deste gatilho terrorista, chamemos-lhe assim, que Zelensky encontrou uma forma, algo emotiva até, de unir o Ocidente, neste caso em Bruxelas hoje mesmo, em torno de uma necessidade que para ele é premente e que é o apoio à Ucrânia não pode cessar, até porque também a Ucrânia, recorda ele, é vítima de um terrorista, referindo-se obviamente a Vladimir Putin.
Professor António José Telo, ao lado de Zelensky, o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, enfatizou que quanto mais forte for a Ucrânia no campo de batalha, mais forte será na mesa de negociações. Está na altura de voltar a colocar essas conversações de paz em cima da mesa e pedir-lhe também uma análise a este encontro de hoje em Bruxelas.
Primeiro, as negociações de paz, os contactos, pelo menos, nunca pararam. Quando digo ultimamente, estou a dizer nas últimas semanas tem havido e em alguns casos até anunciado publicamente, movimentações da China, nomeadamente, que por vezes envia delegações a Kiev e também sem dúvida mantém os contactos em Moscovo. Portanto, há aqui uma continuação da consulta de opiniões e da procura de um eventual consenso, por mais difícil que ele seja e que ele pareça distante neste momento. Já agora, esta guerra em Israel e o ataque terrorista de que Israel foi vítima, tem um aspecto que é favorável à Ucrânia, que normalmente não se fala, que é a situação na Câmara Baixa dos Estados Unidos, onde existe uma maioria republicana. O que é que acontece? A direita republicana do Partido Republicano dos Estados Unidos é 200% pró Israel e não tem a mais pequena hesitação em termos de dar todo o apoio a Israel. Eles são talvez o apoiante mais extremo em termos dos representantes do Congresso americano. E sendo assim, é relativamente fácil para o Partido Democrático negociar em conjunto o apoio a Israel e à Ucrânia. E possivelmente é isso que iremos ver, obviamente, assim que o Partido Republicano consiga um speaker, consiga nomear um novo coordenador para a Câmara. Mas portanto, isto abre e facilita um pouco a situação em termos do Partido Democrático, porque a verdade é que a maioria do Congresso apoia, ou antes defende a continuação do apoio à Ucrânia, inclusive uma parte defende o aumento desse apoio à Ucrânia. A dificuldade estava, de facto, nessa minoria, que é uma parte somente do Partido Republicano. Em relação à tática diplomática da Ucrânia. É extremamente importante que agora, neste momento, a Ucrânia faça sentir, não só junto da NATO, mas também junto da União Europeia, e recordo que antes de ir à NATO, o presidente Zelensky foi justamente a organizações da União Europeia e até de uma Europa alargada, faça sentir o que é uma verdade, é que embora a guerra de Israel seja uma guerra que necessita do apoio também, a verdade é que Israel não está na mesma situação da Ucrânia. Israel tem meios para se defender relativamente substanciais e, portanto, o nível de ajuda é diferente. E a verdade também, é isso que o presidente Zelensky procura salientar, a verdade também é que a guerra que interessa ou que mais interessa ao Ocidente, a guerra que mais pode prejudicar o Ocidente se acabar com uma vitória estrondosa da Rússia, é a guerra da Ucrânia. É isso que o presidente Zelensky procura salientar. Na minha opinião, com toda a razão. A guerra da Ucrânia é onde estão em jogo os interesses vitais do Ocidente e, em particular, da Europa. E quando digo interesses vitais, é mesmo interesses vitais, ou seja, a Europa mudava radicalmente se a Ucrânia sofresse uma derrota estrondosa nesta guerra que está a decorrer. E o presidente Zelensky procura salientar isso e é uma tática adaptada às circunstâncias. Portanto, vamos assistir à evolução, mas até é possível que os acontecimentos em Israel venham facilitar a obtenção de um consenso no Congresso americano.
Professor António José Telo, Daniela Nunes, obrigada aos dois pela análise aqui no Gabinete de Guerra. Rádio Observador