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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Vamos olhar muito em particular nesta edição para o conflito do leste da Europa e a nossa convidada, Madalena Mayer Resende, é especialista em Relações Internacionais. Boa tarde, bem-vinda. Obrigado pela disponibilidade. Neste dia em que a CBS indica que a Ucrânia já deu luz verde ao acordo proposto pelos Estados Unidos para pôr termo à guerra, o canal de televisão norte-americano sublinha que falta apenas acertar pequenos detalhes, sem adiantar que detalhes são esses. De resto, não se conhece esta proposta que terá sido aceite pelas autoridades ucranianas. Começava por lhe perguntar o que é aceitável para a Ucrânia, seu ponto de vista da perda de território e tendo por base aquele primeiro plano de 28 pontos que foi anunciado.

Boa tarde. Eu penso que como base podemos ter o acordo que em março Kiev acordou em relação ao cessar-fogo, Kiev acordou um cessar-fogo na atual fronteira, ou seja, onde os dois exércitos se encontram. Essa parece ser a base de negociação inicial da Ucrânia. Isto, obviamente, sendo que as anexações não serão reconhecidas internacionalmente. Isto é um ponto de diferença grande entre a Ucrânia e a Rússia.

É uma diferença insanável, porque ainda não se percebeu se a Ucrânia não aceita estas concessões, a Rússia não abdica de concessões. Qual é que é o meio-termo que pode eventualmente ser aceito pelas duas partes em confronto?

Estamos exatamente nesse processo de negociação, ou seja, o plano que foi apresentado agora por Marco Rubio é um plano que de certa maneira é um decalque das exigências maximalistas da Rússia e de Moscovo. Esse plano foi alterado durante o fim de semana por intervenção europeia. E agora houve esta reunião entre a Ucrânia e os Estados Unidos. Não sabemos o que é que saiu daí, mas de facto estamos no meio de uma negociação que com certeza vai durar ainda muito tempo e não sabemos exatamente quais serão os contornos dos desenvolvimentos destas negociações. Mas claramente não vai ser uma negociação curta. Há muitíssimos pontos de divergência irreconciliáveis entre a Ucrânia e a Rússia, e portanto isto será, com certeza, à volta, em primeiro lugar, da questão dos territórios que foram capturados pela Rússia, e também esta questão acerca dos territórios do Donetsk que a Rússia não conseguiu conquistar, aliás, inclui uma cintura de cidades-fortaleza que está a tentar conquistar há quatro anos e que quis, neste plano de 28 pontos, afirmar como uma das condições para acabar a guerra. Isso, obviamente, a Ucrânia não aceita, e portanto este será um dos pontos de maior contenção entre as duas partes.

Antecipa como possível que a Rússia, em relação a outro dos pontos desta negociação, aceite a integração da Ucrânia na NATO e na União Europeia, ou em sua opinião, essa vai ser a condição sine qua non para que Moscovo aceite este plano de paz? E pode a Ucrânia abdicar desse direito de integrar estas duas organizações internacionais.

Exato. Esse é um dos pontos que exatamente a Ucrânia declarou mais uma vez que não abdica, sendo uma das suas linhas vermelhas. É óbvio que esta posição é uma posição muitíssimo contenciosa. Eu acho que o que se tem vindo a desenvolver nos últimos meses e que será a estratégia europeia, e penso que também aceite na Ucrânia, é que a Ucrânia iria ser armada e ser-lhe-iam dadas garantias de segurança de tal maneira extensas que a Ucrânia se tornaria uma espécie de porco-espinho armado que a Rússia não teria possibilidade de atacar. Eu penso que essa é a estratégia mais passível de ter sucesso do ponto de vista ucraniano e europeu e que poderá ser a base de um entendimento entre a Rússia, a Ucrânia, os Estados Unidos e os parceiros europeus. Portanto, penso que é essa a estratégia que está em cima da mesa e é sobre essas questões que irão, com certeza, fazer-se os acordos, se eles conseguirem, de facto, avançar.

Está otimista quanto à possibilidade de chegarmos, de facto, a um entendimento num curto espaço de tempo?

Não, num curto espaço de tempo, não penso que seja possível.

É que está-se a infundir um bocadinho a ideia de que o cessar-fogo está já ali ao virar da esquina. Não será exatamente assim

Não parece. Penso que os Estados Unidos, mais uma vez, ou parte da administração Trump, tentou dar essa impressão com a apresentação do plano dos 28 pontos, dizendo que este era um dado adquirido na sua relação com Moscovo e dizendo que iria tentar impor à Ucrânia este plano. Acontece que desde o verão os Estados Unidos não apoiam a Ucrânia e, portanto, têm sido os europeus a fazê-lo e os europeus, por essa razão também, puderam intervir durante o fim de semana e alterar o termo dessas negociações com sucesso.

Foi decisiva essa intervenção da União Europeia, dos países europeus, para este desfecho e para a alteração daquela proposta de 28 pontos que veio a público. Faço esta pergunta e isto numa altura em que se questiona muito o papel que a União Europeia e a Europa têm tido em todo este processo de negociação.

Os europeus conseguiram impor-se como parceiros, com dificuldade, mas conseguiram impor-se como parceiros essenciais da negociação durante o fim de semana em Genebra, exatamente pelo papel que, entretanto, têm não só no fornecimento de armas à Ucrânia, armas essas que em larga medida compram aos Estados Unidos a preço de mercado e que servem o exército ucraniano. E, portanto, pela sua contribuição e também pela contribuição que fazem à indústria de defesa americana, os europeus têm, pela sua qualidade diplomática, intervindo como parte interessada nas negociações e é obviamente esse o caminho que os europeus têm que avançar, obviamente em colaboração estreita com o Zelensky e com Kiev, para o apoiar exatamente no momento em que ele próprio está muito enfraquecido pelo escândalo de corrupção que veio a público relativo ao seu governo.

Ainda sobre o apoio da Europa, o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, manifestou hoje disponibilidade para integrar a força multinacional a enviar para a Ucrânia após o cessar-fogo. Que utilidade uma força com estas características e pergunto-lhe também, ao mesmo tempo, se antecipa qualquer resistência por parte da Rússia ao envio desta força multinacional?

Exatamente, esta força multinacional é um elemento essencial de qualquer acordo de cessar-fogo e eventualmente acordo de paz que se faça na Ucrânia. Neste momento, a questão está exatamente até que ponto é que os europeus estão dispostos a pôr botas no terreno. E esta afirmação de Starmer é importante no sentido não só do seu próprio compromisso para com a paz na Ucrânia, mas também da sua própria capacidade de talvez mobilizar os outros líderes europeus nesse sentido. Portanto, esta força multilateral de paz é um elemento fundamental para que se possa declarar um cessar-fogo e uma força que esteja não só a monitorizar esse cessar-fogo, como também a servir da chamada tripwire, de impedir que os russos permaneçam numa agressão, eventualmente de baixo nível, permanente, e que dê segurança aos ucranianos para acordarem a dar este passo.

E a Europa tem capacidade para apoiar qualquer que venha a ser a decisão de Volodymyr Zelensky e da Ucrânia relativamente a esta proposta que tem pela frente ou a margem de Volodymyr Zelensky é estreita para rejeitar o plano de paz proposto com a chancela dos Estados Unidos?

Eu penso que Zelensky está muitíssimo dependente dos europeus e do apoio dos europeus. E felizmente os europeus, e nomeadamente a Alemanha, têm-se demonstrado um parceiro fiável e realmente tem posto parte do seu orçamento de defesa, que cresceu enormemente, na defesa e no apoio ao exército ucraniano. E, portanto, por essa razão, de certa maneira, Zelensky tem alguma capacidade de resistir a estas investidas norte-americanas, que aparecem, de certa maneira, muito amadoras e muito pouco sólidas da forma como são conduzidas. E, portanto, penso que, por essa razão, numa situação claramente desastrosa, com os Estados Unidos a servirem de apoio aos interesses russos mais maximalistas, Zelensky tem conseguido resistir e esperemos que consiga negociar um acordo que não seja um acordo de capitulação, como era este apresentado pelos Estados Unidos na semana passada.

Será preciso esperar para conhecermos então os detalhes deste novo acordo que está em cima da mesa e que, segundo fontes da administração norte-americana, a Ucrânia já deu luz verde, pese embora também se sublinhe que há pequenos detalhes ainda para acertar. Madalena Meyer Resende, obrigado por ter estado conosco na edição desta tarde de Gabinete de Guerra, em que olhámos para os últimos capítulos desta negociação, tendo em vista um cessar-fogo no leste da Europa.