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Este programa tem o apoio da KPMG. Ora viva, sejam bem-vindos. A tecnologia entrou em cada canto das nossas vidas, sejam elas pessoais ou profissionais. Importa, por isso, entender as suas tendências mais relevantes. Por isso convidámos Luís Lopes, CEO da Vodafone Portugal, que se junta neste episódio a Diogo Eloi de Souza, partner de advisory para o setor das telecomunicações, mídia e tecnologia da KPMG Portugal, que vão obviamente falar das evoluções mais próximas do setor tecnológico. Eu sou o Paulo Ferreira e este é o "GPS: Gestão, Pessoas e Setores", um podcast d'O Observador em parceria com a KPMG. Sejam bem-vindos. É um gosto tê-los aqui neste GPS. Viva. Como sabem, este nosso podcast tem três segmentos que nos conduzem pela nossa conversa, neste caso, pelo setor das telecomunicações, através de um número relevante, de uma ideia presente ou de futuro e de um protagonista decisivo. Luís Lopes, começando por si, vamos começar pelo número. Qual é o número relevante que escolhe aqui para este pontapé de saída?

Começo também por agradecer o convite. É muito prazeroso estar aqui e participar neste podcast. O número que escolhi é um bilião. Um bilião de euros, que representa o investimento que a Vodafone fez nos últimos quatro anos em Portugal. E também, por coincidência, é um número próximo do investimento que o setor como um todo fez no último ano, em 2023.

Estamos a falar de um bilião à portuguesa, um milhão de milhões.

Mil milhões de euros de investimento feitos em telecomunicações em Portugal.

Certo. E por que isso é importante? É um setor que dá a ideia que vai funcionando, as redes estão a funcionar, mas o investimento é constante.

Escolhi este número para ilustrar que as telecomunicações não chegam sem um esforço muito grande de muitos profissionais e de recursos financeiros significativos na construção, desenvolvimento de infraestruturas, porque sem as quais não é possível prestarmos os serviços de telecomunicações que são prestados em Portugal. E aqui deixe-me dizer que também quando comparamos a qualidade das nossas infraestruturas com a infraestruturas, em particular na Europa, Portugal tem razões de se sentir bastante orgulhoso. Temos das melhores redes móveis, comparativamente com outros países na Europa, tanto em termos de cobertura como em termos da qualidade das próprias redes, e também fruto de muito investimento feito ao longo dos últimos anos. Temos das melhores percentagens de cobertura por redes de fibra ótica no país. Em particular, quando comparamos com outros países e alguns deles, até países como, por exemplo, a Alemanha, Portugal tem razões bastantes para se sentir orgulhoso.

Portanto, não é por falta de infraestrutura que nós não avançamos mais em termos de telecomunicações. Diogo Eloi de Souza, o grande investimento estrutural do setor terá sido nas redes 5G, a tal nova geração de redes móveis, que nos prometeu na altura, e quando se falava muito do 5G, de uma série de valências e de funcionalidades que iam levar os negócios e as nossas vidas a outro nível, se quiser. Já estamos em condições de tirar partido, ou já estamos a tirar partido dessas vantagens do 5G?

A resposta direta é sim, sem dúvida. Toda a introdução de nova tecnologia tem sempre um processo de evolução e maturidade. E, portanto, para além dos investimentos significativos que os operadores têm estado a fazer, e são realmente significativos, são massivos. E já agora, uma primeira provocação, há ainda muitas incógnitas de onde virá esse retorno. Esse retorno terá que vir dos próximos anos. E como virá esse retorno, ainda há algumas questões.

Não é seguro ainda.

Ainda não é seguro, mas já lá vamos. Pensando primeiro porque este é o momento em que eu acredito, nós acreditamos, a KPMG acredita também que vamos acelerar. Durante estes primeiros quatro anos, três, quatro, cinco anos de adoção da tecnologia, teve-se a trabalhar num conjunto de aspetos que são fundamentais para depois a sua adoção em escala. Um primeiro elemento é, obviamente, o investimento em infraestrutura, a parte de hardware, a parte de servidores, cabos, tudo isso já está aí.

Aderivaldas e por aí fora.

E a 200% de acordo com o Luís desse ponto de vista, Portugal é uma prática líder olhando para o contexto europeu, e até comparando com algumas outras regiões do mundo. E todo o ecossistema aqui do setor teve que se preparar estabilizando standards de interoperabilidade, colaboração. Quando se fala do 5G e os benefícios futuros, há um impacto muito grande no mundo empresarial. O mundo empresarial é um mundo complexo, é um mundo em que qualquer análise de uma cadeia de valor tem linhas e dimensões, umas por cima das outras, que vão ser impactadas pela introdução de tecnologia. E, portanto, algo que era essencial fazer era estabilizar esse standard. Hoje, há um conjunto de novos standards que vão continuar a evoluir, seguramente, mas já estão a um nível de maturidade bem interessante. As áreas regulatórias também, e eu vou acelerar aqui um pouquinho. As áreas regulatórias também, e hoje ao nível da privacidade de dados, a cibersegurança, resiliência de redes, há toda uma nova certeza, e pra mim o fator mais importante de todos, que é a literacia digital e do 5G.

Claro.

E nós hoje, quando interagimos com os nossos clientes, imagino eu, e o Luís poderá confirmar ou não, a primeira parte da reunião já não é o que é isto do 5G. A primeira parte da reunião: "Eu quero adotar o 5G fazendo isto, isto e aquilo". Depois falam com o engenheiro de produção.

Claro, já sabe para quê também.

Já sabe para quê.

Claro. Deixe-me só antes de passarmos ao nosso segmento seguinte, Luís Lopes, a questão do retorno deste investimento. Não é seguro ainda para as empresas que vai ter e quanto vai ter.

Há uma incógnita grande, e concordo com o Diogo, de como é que, em particular, estes novos investimentos que foram feitos poderão traduzir-se de forma rentável. Não é claro. Existe, no entanto, um dado importante, que é: nós acreditamos que, em particular o 5G, que foi aqui o tópico, é um elemento estruturante no processo de transformação, de digitalização das empresas, em particular, das indústrias, da economia, e que a competitividade de uma economia vai ser, em grande medida, fruto da capacidade de inovação e de transformação que essa mesma economia tenha. E, portanto, nesse sentido, esse processo de transformação poderá, eventualmente, ser uma das componentes importantes para tentar rentabilizar esse investimento.

Deixe-nos pegar nisso, precisamente. Isso leva-nos a uma das grandes mudanças, aliás, que é a ideia deste episódio, daqueles três segmentos, que é precisamente a transformação digital sustentável. Diogo Arroio de Sousa, o que isto significa na prática?

É difícil sempre definir, principalmente quando olhamos para três palavras que, por si só, cada uma delas já é complexa.

Já, e cada uma delas é um universo.

É um universo. Mas procurando simplificar, que é essencial neste mundo da tecnologia, eu diria que é sermos capazes de incorporar tecnologia nas cadeias de valor das unidades empresariais. Cadeias de valor, tanto ao nível da interação com o cliente, cadeias de produção, cadeias de distribuição e logística, todas essas cadeias de valor incorporando tecnologia de forma eficiente, portanto, ser capaz de fazer cada vez mais, com uma utilização mais otimizada de recursos, gerando cada vez outputs com mais valor agregado. E valor agregado, em 2025, é customização, são coisas específicas pra cada um de nós. Cada uma das cadeias de valor de produção ser capaz de endereçar as necessidades específicas de cada um dos seus clientes de forma muito atômica. E todos esses aspectos é essencial que sejam feitos de uma forma em que seja sustentável. Sustentável quer dizer respeitar princípios ambientais, princípios de equilíbrio social e também de boa governança, o famoso ESG.

Claro. Sustentabilidade financeira também.

E com isto, naturalmente, a sustentabilidade financeira virá. Deixe-me só colocar mais um número em cima da mesa, até porque eu levantei aqui um tema de incerteza, mas eu também acho importante dar aqui alguma segurança a todos nós. Nós estamos seguros que o valor agregado pela introdução de tecnologia vai ser materialmente relevante. Estudos nossos indicam que nos próximos cinco a oito anos, estamos a falar de oito a 10 mil milhões de euros de valor incremental gerado na economia. A incerteza vem em quem é que vai capturar. Com que modelo de negócios. Obviamente que os operadores estão muito bem colocados, estando ali no centro das atenções.

Claro. Luís Lopes, e de facto, o setor das telecomunicações, Vodafone também, estão um pouco na primeira linha do fornecimento destes serviços ou destas capacidades às empresas, às indústrias. Se bem que transformação digital também não é só uma questão da indústria, nem sequer das grandes empresas só. Mas com esse ponto de observação privilegiado, junto dos vossos clientes, como é que vocês definem o estádio em que estamos na transformação digital?

Começo por dizer que concordo 100%. Isto não é, de todo, um processo que vai só impactar as grandes empresas. É exatamente o oposto, até porque o tecido empresarial português não é composto principalmente por grandes empresas, é composto principalmente por pequenas e médias empresas. Este processo de transformação, que é algo que vai não ser só algo que vai ajudar as empresas e a competitividade, acho que vai ser algo absolutamente fundamental e quase existencial pras próprias empresas, porque nós todos vivemos num contexto concorrencial. Esse contexto concorrencial, por vezes, tem uma natureza doméstica, ou seja, é apenas o país, mas em muitas empresas, e cada vez mais até em pequenas e médias empresas, a necessidade de exportar, a necessidade de ser competitivo lá fora, também é um imperativo. Para conseguir-se fazer isso num contexto em que existem cada vez mais necessidade de haver regras ambientais, de termos atenção com o impacto ambiental que é criado, cada vez mais vemos as próprias indústrias alterarem a maneira como operam. Indústrias, setor público, e posso dar dois ou três exemplos de coisas que parecem muito futuristas, mas que já hoje acontecem. E são fundamentais a existência de redes como as de 5G a que referi. Por exemplo, em Dublin, temos um caso que eu acho especialmente interessante, que é: as pessoas, quando têm necessidade de um medicamento, podem solicitar um medicamento que é transportado por drone, portanto, elétrico.

Não é impacte. Boa pegada.

O que não precisam de se deslocar a uma farmácia e é um serviço que já é prestado em um elevado número de situações, em que basicamente um drone recorre a uma tecnologia 5G, vai autônomo, tem um ser humano que acompanha os vários drones pra controlar e permite fazer um modelo de negócio muito interessante, porque acaba por ser um serviço até melhor para os clientes, que muitas vezes estando doentes, nem têm capacidade de se deslocar a uma farmácia. Um exemplo só para ilustrar. Outro exemplo também na área da saúde, em que já começamos a ter, e Portugal é pioneiro em alguma medida, cirurgias a serem realizadas remotamente. Ou seja, o cirurgião não está na mesma sala de operações onde está o doente. E porque é que isso é possível? Porque estas redes de nova geração têm tempos de resposta entre o carregar no botão e a resposta do instrumento cirúrgico de um espaço de tempo muito reduzido, estamos a falar de milissegundos, e isso permite fazer esse tipo de cirurgias. A inteligência artificial também é outro elemento importante que está a ser transportado para este processo de transformação.

Deixe-me pegar nisso, precisamente nessa deixa, porque estamos a entrar no último segmento para falar do protagonista atual já e dos próximos tempos, que nós escolhemos para este episódio, que é precisamente a inteligência artificial ligada ao 5G. Já está aí.

Estava precisamente a dar esse exemplo. E depois quando juntamos mais ingredientes tecnológicos a esta, se assim me permitir a expressão, receita, de facto vemos que conseguimos ajudar, e a Vodafone aí tem um papel importante, porque não só fez a infraestrutura, mas traz estes ingredientes do 5G, da inteligência artificial e outras ferramentas para apoiar as empresas em compreender o modelo de negócio que têm e apoiar as empresas em alterar esse modelo de negócio, por forma a que possam ser mais competitivas, mais rentáveis, vender mais, concorrer não só no mercado doméstico, no mercado externo, porque têm mais capacidade para produzir o seu bem ou serviço de maneira mais eficiente.

Claro. Diogo, a inteligência artificial é incontornável hoje em qualquer área, qualquer setor, qualquer parte das nossas vidas, de alguma maneira. Já estamos a começar a sofrer e vamos sofrer mais impacto disso.

Sem dúvida. Em vez do termo sofrer, se calhar diria vamos beneficiar do impacto.

Certo. Não é o verbo que importa aí.

Vamos beneficiar. Isto tem um pouco a ver com a forma como nós olhamos para o tema da inteligência artificial. Há sempre uma tendência nos dias que correm, por vezes, de extremar posições. E, portanto, o ponto de partida é essencial. Nós olhamos para o tema da inteligência artificial sempre com a oportunidade de fazer o bem. Há imensas ameaças.

Sempre que há uma disrupção tecnológica, provavelmente há 100 anos, quando o automóvel se vulgarizou, havia não sei quantas ameaças sobre isto.

Exatamente. E depois a pergunta é: quem é que sobreviveu? Sobreviveram todos. E no final do dia, todos vamos sobreviver. Isso é certo. Agora, uns vão apanhar a oportunidade, e pode até ser fator de gerar maiores diferenças na sociedade de amanhã, a adoção rápida ou mais lenta da inteligência artificial, mas certamente todos vamos sobreviver à adoção da inteligência artificial. Felizmente, os casos de uso são cada vez mais, mesmo os próprios operadores. Nós não temos noção no dia a dia, mas a otimização dos rádios, quando se fala do rádio, a forma como está a ser propagado o sinal pelos vários locais, cada vez mais isto é feito de forma automática, sem envolvimento de qualquer humano. Já não há aqueles centros de operação e comando como havia antigamente, e os robôs, que são robôs em software, estão a salvaguardar que, se de repente há um evento catastrófico, há formas de salvaguardar que temos ali qualidade de sinal o mais rápido possível ou manter ou repor. Tudo isto já está a acontecer. E portanto, olhando para a inteligência artificial, que é prevalente já nos dias que correm, nós brincamos um pouco, ou a reunião que não se fale sobre isso é uma reunião que não foi completa. Tem que se falar isso. Desde o tema da inteligência artificial nas reuniões internas, reuniões com clientes, tem que estar a acontecer, porque efetivamente o impacto associado e o potencial de depois desbloquear o retorno do investimento que tem sido feito estes últimos anos é gigante. Portanto, a tal pergunta com que eu comecei, como é que a Vodafone, este um BI destes últimos quatro anos, como é que vamos ter retornos próximos quatro, cinco, seis anos? A inteligência artificial vai, de certeza, fazer parte dessa resposta. Tenhamos capacidade de ser ágeis e curiosos a explorar o potencial dessa tecnologia, termos alguma apetência a risco, porque há muitos incertos e, portanto, temos que ir para esse lado de risco. E depois o tema dos capitais. Quando eu digo capitais, é a disponibilidade de capital para permitir ciclos de investimento, será essencial. Para finalizar o tema da inteligência artificial, eu gostaria de referir o papel que os operadores têm tido na literacia digital das PMEs. E isto é algo que nós também acreditamos que será muito importante para o futuro de Portugal, a capacidade que as nossas PMEs, que é um tecido gigante dentro do nosso tecido empresarial, terá que ter de se reinventar. E dentro de um BI de investimento que o Luís referiu, e já agora fica a pergunta, eu acho que não está toda a literacia digital, a formação, capacitação que a Vodafone e outros operadores têm estado a dar a essas PMEs, explicar-lhes o potencial.

Fica a pergunta que eu endereço ao Luís Lopes.

Eu sei que estamos a terminar, queria só salientar que, obviamente, para além deste investimento e do retorno direto que esse investimento possa vir a ter, o importante é o retorno indireto que este investimento tem, em particular num contexto de competitividade de um país. E portanto, não queria deixar de salientar o quão importante é um setor de telecomunicações saudável, robusto, capaz de investir, capaz de garantir que este aspeto, esta camada, este ingrediente base, que são as redes, as infraestruturas de telecomunicações, estão presentes, são competitivas face às que existem noutros países e, além disso, que os operadores têm a saúde para poderem ajudar as entidades, sejam públicas como privadas, empresas, neste processo que aqui descrevemos.

Muito bem, um longo caminho sempre a percorrer, com a tecnologia sempre a surpreender-nos. Luís Lopes, Diogo Eloit de Sousa, obrigado ambos pela presença em mais este "GPS", onde nos fizeram aqui um breve, rápido ponto de situação do estado da arte na tecnologia. Este episódio do "GPS" fica por aqui. Voltaremos brevemente. Obrigado.