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"Um Guia para o Eclipse", este é o último episódio. Nesta quarta-feira vamos ter uma emissão especial de rádio e em vídeo para acompanhar o momento. Vai ser no terraço do Mate, em Belém. Vamos estar lá munidos, obviamente, de filtros, de óculos especiais para olhar para o sol. Hoje é o derradeiro episódio desta série. Vamos ter um fenômeno equivalente mais ou menos daqui a 118 anos. Vai ser em 2144, em outubro, mas nessa altura eu já tenho férias marcadas, portanto não vou conseguir estar presente. É a nossa convidada, Ana Mourão, é professora associada do Instituto Superior Técnico, é doutorada em Física pela Universidade de Moscovo, é especialista em supernovas e cosmologia e coautora de mais de 50 publicações científicas sobre esta área. Muito bem-vinda, professora Ana Mourão. Obrigado.
Obrigada também pela atenção que vocês estão a dar a este fenômeno.
Exatamente, porque o próximo só em 2144. O próximo deste nível. Para o ano vamos ter um, mas será parcial, não é?
Sim.
E para começar pelo essencial e relembrar: a que horas começa o eclipse de amanhã e quando é que vai ser aquele momento-chave, aqueles 26 segundos que estamos todos à espera?
O eclipse começa por volta das 18h30 e peço às pessoas para verificarem no local onde estão, a hora exata onde começa. Se não quiserem olhar para o telemóvel para ver a hora exata, podem olhar para o sol com os óculos e vão aperceber-se da hora exata em que a lua começa a tapar o sol e é o primeiro contacto. É por volta das 18h30. Depois, o máximo será cerca de uma hora depois e depois teremos na zona do norte de Portugal, alguns segundos em que a lua tapará completamente o sol.
Os 100%.
Teremos a totalidade. É um evento único para o qual todas as pessoas se estão a preparar e depois a lua vai afastar-se e vai mostrar outra vez o sol. Temos na zona de Montesinho, na zona norte um bocadinho de Bragança, este fenômeno a acontecer e há uma mobilização muito grande das pessoas para irem para lá e também um esforço de todas as pessoas que podem e devem apoiar e que estão a movimentar-se para que tudo corra bem com a segurança.
Somos testemunhas disso, porque na tentativa de organizar a nossa emissão especial de amanhã, foi um sarilho conseguir encontrar alguém que esteja em Lisboa, porque a maior parte dos professores e especialistas vai estar no nordeste ou em Espanha para assistir. E há vários pormenores muito curiosos, mas, por exemplo, os tais 26 segundos do momento "uau", se lhe podemos chamar assim, acontecem em minutos um pouco diferentes, ou seja, por exemplo, corrija-me se isto não é assim, mas Bragança será por volta das 19h31 e em Lisboa será mais perto das 19h35? É possível este desfasamento?
Sim, é possível, porque a sombra está a deslocar-se. O eclipse começa na Rússia, passa para a Gronelândia, depois vem pela Islândia, vem para aí abaixo e depois entra pelo norte de Espanha e continua, atravessa a Espanha e vai para as Baleares. Termina aí.
Portanto, a sombra não acontece ao mesmo tempo em todo lado. É um corpo celeste em movimento.
São dois corpos celestes em movimento, a Terra e a Lua. E portanto, é preciso tomar isso em consideração. Isso está previsto, portanto, os instantes do eclipse máximo em Bragança serão uns minutos diferentes de outras zonas do país e as pessoas poderão confirmar, porque neste momento já há vários sites onde essa informação está disponível. E portanto, sim, as diferenças são de minutos, mas nós estamos interessados em segundos. Também há uma questão que é importante. Não olhem tanto para o que estão à espera, olhem para a natureza, porque a natureza sabe perfeitamente qual é o espetáculo que lhe quer dar. E portanto, estejam de olhos bem abertos, bem protegidos e onde quer que estejam, tentem olhar para o sol protegidos.
Sempre protegido com os óculos.
Sempre. E muita atenção às crianças, porque podemos distrair-nos encantados com o que estamos a ver. Demos uns óculos a uma criança e o tamanho dos óculos normais, que até tenho aqui, a distância entre os filtros ou os óculos, pode ser diferente para crianças e nós temos que garantir que a criança não afasta os óculos para ver.
E temos que pensar em 10, 15 segundos.
10, 15 segundos. E temos que tomar atenção que as crianças, conseguimos ver que a criança não desvia os óculos enquanto está a olhar. Muita atenção a isso.
E a neblina que se espera ali no litoral norte pode ser um problema, não é?
Olhe, há um ponto que eu sou muito pragmática e os astrónomos são muito pragmáticos, que é: não se anulam observações astronómicas, a menos que esteja tempestade forte. E mesmo assim vamos para o telescópio e vamos ver, porque às vezes na hora exata As nuvens afastam-se. Isso aconteceu em Paris há uns tempos e aconteceu em 1919, no Príncipe, quando quiseram demonstrar a teoria da relatividade, em que só nos instantes exatos-
Em 2012?
1919.
1919, ok. Sim, tem razão. 2012 foi o outro que foi visível cá em Portugal.
Isto foi no Príncipe, quando foi possível confirmar a teoria geral da relatividade de Einstein. O céu estava completamente encoberto, o sol estava completamente encoberto e as nuvens afastaram-se no momento exato em que Eddington pôde e queria tirar as fotografias. Portanto, sim, é possível que mesmo com uma neblina não seja necessário cancelar. Agora, eu não vou cancelar. E depois também há uma questão que é: a luz do sol é tão intensa que mesmo que haja alguma neblina, é possível que se consiga ver através das nuvens e que o eclipse seja visível através das nuvens. Mas mesmo com nuvens, por favor, mantenham os óculos e não olhem pro sol mais do que 30 segundos ou mesmo melhor 15 segundos.
Que é perigoso.
É perigoso.
Professora Ana Mourão, essa história da Ilha do Príncipe é irresistível. Consegue contar-nos aqui rapidamente e de uma forma acessível para todos?
Os eclipses fascinam as pessoas há muito tempo. Mas Einstein, na teoria da relatividade, tinha dado uma explicação diferente para a gravitação. E então o que ele tinha dito é: os corpos com massa deformam o espaço-tempo e então a luz, em vez de seguir na tradicional linha reta, desvia-se. Ora bem, então nós sabemos a posição de determinadas estrelas no céu. Podemos medir seis meses antes, por exemplo, quando estão visíveis. E essas estrelas, três meses depois, vão estar escondidas pelo sol. Ora bem, na fase total do eclipse, as estrelas aparecem e amanhã as estrelas vão aparecer e vamos ver planetas de repente, quando estiver a escuridão total. E mediu-se a posição dessas estrelas. E a posição dessas estrelas estava desviada um bocadinho em relação ao normal, chamemos-lhe assim, porque a luz das estrelas até nós curvou por ter passado perto do sol. Isso foi a confirmação da teoria geral da relatividade de Einstein, feita no Príncipe, no Brasil também, houve duas equipes no Brasil e na Ilha do Príncipe, na Roça Sundy, foi feita a confirmação da teoria geral da relatividade de Einstein com o eclipse total.
Que é muito perto da linha do Equador, que passa na Ilha das Rolas.
Exatamente. A Ilha do Príncipe é perto, porque aquilo é um arquipélago.
É um estado. É pequenino.
Sim, mas o Eddington e a sua equipe foram para a Ilha do Príncipe e houve lá celebrações, e foi muito interessante verificar como a população toda da ilha, em 2019, celebrou.
Esse momento.
Os 100 anos.
Que é realmente incrível. A professora Ana Mourão já falou de estar atento também ao que está à volta. Quais são os efeitos mais visíveis, além da penumbra, uma luz alaranjada?
Um dos efeitos interessantes visíveis é a reação das pessoas. E, portanto, as pessoas que têm tradição de ver os eclipses totais dizem: "Tomem atenção às pessoas, porque as fotografias mais interessantes, às vezes, é das reações das pessoas".
Já tivemos essa discussão aqui.
Exatamente. Agora, o que acontece? As pessoas que não estão na totalidade, pra ficarem também contentes, nós vamos ter cerca de 90% do sol tapado, 94% na zona de Lisboa e mais ou menos em Portugal continental e 70% nos Açores e na Madeira.
Nas ilhas, sim.
Portanto, seja como for, é visível em todo o território nacional. A nível de 90%, a luminosidade vai baixar drasticamente, nós vamos ter um pôr do sol antecipado e os nossos olhos são naturalmente fotossensíveis e portanto se adaptam à intensidade de maneira diferente e as cores vão ficar alteradas. É expectável que quando estivermos com o sol coberto a cerca de 90%, as pessoas dizem que as cores ficam metalizadas. Amanhã logo veremos o que é que nos vai acontecer. Quem está mais próximo da totalidade ou mesmo na totalidade, aí já vai ver vários fenômenos. Por exemplo, a lua começa a tapar o sol e depois já está quase tudo tapado. Mas o "quase tudo" e o "tudo" é diferente. A certa altura, já só resta um bocadinho de sol e a lua ainda deixa ver um anelzinho de luz à volta. Aí é o efeito chamado diamante, que é um brilho muito forte vindo de uma ponta que são os últimos raios de sol que ainda conseguem chegar até nós.
Conseguem passar.
Depois a lua continua a deslocar-se, aí o efeito diamante aparece, mas conseguem ver saindo uns raiosinhos de sol à volta da lua, que são luz que consegue passar através dos vales da lua.
Isso é incrível.
Eu tenho vontade de não querer dizer mais, porque acho que é tão giro as pessoas depois, a posteriori, comentarem aqui. Mas uma antevisão do possível fascínio. Depois, no meio disto, a coroa, a parte exterior da atmosfera solar que se propaga por milhões de quilômetros, começa a ser visível. Nós agora não podemos visualizar, porque A parte central do Sol emite imensa radiação e a camada externa do Sol tem temperaturas de milhões de graus. Aliás, não se percebe este fenómeno de aquecimento, e há muitas teorias, é um fenómeno que está ainda por explicar. Como é que a temperatura da coroa solar atinge os milhões de graus? Mas torna-se visível e é muito menos densa.
É uma espécie de juba? Não.
Sim.
Ou uma névoa, como se fosse uma juba.
Exato. A forma pode variar e mesmo em diferentes zonas, em diferentes fases do eclipse, em diferentes partes da manhã das pessoas que observarem, podem ter formas diferentes, porque depende muito do campo magnético do Sol. E como varia, podemos ter aspetos diferentes. Seja como for, é um fenómeno muito bonito. No momento da totalidade, quando está a visualizar-se a coroa, é possível tirar os óculos nesses segundos, verem bem, tirarem uma fotografia que nessa fase não estraga o telemóvel.
Nós temos aqui no site instruções para ensinar a tirar fotografia para não estragar o telemóvel.
Para não estragar o telemóvel. Fantástico. É preciso mesmo pôr óculos de sol ou telemóvel para não o estragar, mas é sempre melhor estragar o telemóvel do que os olhos.
Exato.
Mas tentamos nem um nem outro. Portanto, é possível nesses pequenos segundos.
Professora, o seu entusiasmo é contagiante. E pergunto-lhe: como é que a professora lida e mantém este entusiasmo perante um fenómeno que está muito estudado e que vamos podendo observar, de onde é que vem esse entusiasmo todo?
Se calhar de olhar para o Sol.
Exato.
Protegido. Fascinam-me. Das primeiras coisas que eu fiz em astrofísica foi tentar perceber o Sol usando partículas chamadas neutrinos. Ou seja, é uma maneira muito estranha de tentar perceber. Mas se quiser que eu lhe diga, eu lembro-me que o meu entusiasmo com o Sol vem já dos tempos do ensino secundário, quando eu vi um programa da NASA a dizer que o diâmetro do Sol era variável, e que o traumatizou-me para o resto da vida e visivelmente até hoje.
Enxave e desencave.
O Sol tem oscilações que conseguem já ser medidas. Os cientistas conseguem estudar o Sol com uma precisão, conseguem ter imagens à precisão de 70 km. Está a ver a distância que nós estamos, 150.000 milhões de anos. De quilómetros. A luz demora oito minutos a chegar até nós. É fantástico. E agora a conjugação de a Lua passar em frente ao Sol e termos a sorte de a razão entre os diâmetros, o tamanho do Sol e o tamanho da Lua, os raios deles, ser a mesma que as distâncias, é isso que nos permite ter os eclipses. Porque, por exemplo, se formos e estarmos-
Mas a Lua está-se a afastar, não é?
Sim, mas uns centimetrozinhos por ano.
Pronto, ok. Não se vai assim embora.
Não se vai assim embora tão depressa. Não vai. O sistema solar está em evolução, os corpos aproximam-se, afastam-se, isso é o normal. E de vez em quando temos cometas a passar e amanhã, quando for a totalidade, podem ver se-
Temos as Perseidas também, não temos?
Mas isso é mais para a noite.
A chuva de estrelas.
A chuva de estrelas, mas primeiro vamos aproveitar o eclipse. Durante a fase do eclipse, os planetas e as estrelas vão aparecer. E as pessoas poderão ver alguns planetas, Júpiter, Marte. Saturno não, está mais abaixo. Vão aparecer uns pontinhos muito brilhantes, que são os nossos planetas, que vão dar sinal de si, depois desaparecem e voltarão à noite. As Perseidas é mais por volta da meia-noite. Aí já se aconselha uma preparação diferente. Quem vai para o eclipse, eu agora, se fosse possível, gostava de chamar muita atenção para isto, porque nós vamos estar amanhã com 38° na zona de Bragança às 18h. Risco fortíssimo de incêndio.
Muito elevado.
Portanto, muitíssimo cuidado com o transporte de crianças e pessoas idosas. Água, litro e meio de água por pessoa dentro do carro. Depósito de gasolina cheio, porque depois se houver engarrafamentos, ficam sem gasolina ou da guarda.
Até porque são zonas que não estão habituadas a grandes enchentes, não é?
Não, Trás-os-Montes é uma zona muito calma, onde eu passei muitas férias e conheço as cerejeiras e as pedras da calçada. É uma zona fantástica. É preciso o cuidado máximo com as pessoas, cumprir as ordens da Proteção Civil, de todas as entidades que estão a preparar muito intensamente este acontecimento para esperar e receber os milhares de pessoas.
Adorava ficar aqui consigo mais meia hora, uma hora a falar de neutrinos e do diâmetro do Sol, mas infelizmente o tempo aqui não é muito relativo, é dita a relógio que temos que acabar a conversa. Muito obrigado, professora Ana Mourão-
Muito obrigada
...por ter estado neste guia para o eclipse, um podcast que fizemos em contagem decrescente para o grande evento desta quarta-feira. Amanhã, na quarta, estaremos em direto a partir do Mate, ali junto ao rio Tejo, em Belém. E claro, quem quiser pode juntar-se a nós para olhar para o sol em segurança.