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Um guia para o eclipse. Até quarta-feira, um programa diário dedicado ao raro fenômeno a que vamos poder assistir no dia 12. E vamos ter uma emissão especial da Rádio Observador, também em vídeo, para acompanhar esse momento. Vamos estar no terraço do Mate, em Belém. Vamos estar lá munidos, obviamente, de óculos para poder olhar pro sol e vamos acompanhar tudo numa emissão especial que vai arrancar às 17h, com especialistas, e vamos olhar com atenção para este eclipse. Hoje vamos falar das consequências na natureza, sempre que o sol se esconde a horas pouco comuns, e contamos com a ajuda do divulgador de ciência Rui Agostinho, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e do Instituto de Astrofísica. Professor Rui Agostinho, muito bem-vindo a este guia para o eclipse. Quando o sol se esconder ao final da tarde de quarta-feira, qual vai ser a reação dos animais? Por exemplo, os passarinhos vão regressar às árvores pra dormir ou não?
Muito boa tarde. É uma pergunta interessantíssima, mas para um astrofísico, nós ficamos a olhar pras estrelas.
Bem sei.
Literalmente.
Mas é um apaixonado por ciência e sei que nos consegue responder.
É assim: tipicamente, isso acontece mais pronunciadamente quando o eclipse acontece ao meio do dia. Ao meio do dia, notar-se-á mais, diria eu. Por quê? Porque imagine que está o sol da 13h, quando o sol está mais alto e de repente fica escuro. Nenhum dos animais está à espera que isso aconteça a essa hora. Naturalmente, a reação é, se for também um eclipse total, para que a luz se reduza drasticamente, pra sentirem que a noite vem aí. Portanto, ao meio do dia, no decorrer do eclipse total, efetivamente os animais aconchegam-se, porque vem aí a noite. Surpresa é que passado uns minutos, a luminosidade volta a aparecer. Portanto, essa reação, sim, está estudada, já foi observada inúmeras vezes e também acontecerá agora. Qual é a diferença agora? É que não acontece ao meio do dia, portanto, não existe o brilho no céu. O brilho do sol não é o brilho do meio-dia, é o brilho das 18h. A noite está a começar. Não está a começar, mas o brilho do céu, do sol já poente, que é quando acontecerá. Repare que no máximo do eclipse, teremos o sol a cerca de 10 graus de altura apenas do horizonte.
Exato, 19h30 mais ou menos.
18h30 é quando a Lua dá o primeiro toque. Portanto, aí o sol está a cerca de 20 graus de altura. Depois, o sol baixa, quando está a 10 graus, é quando é o máximo do eclipse, e depois o sol continua a baixar e a Lua vai destapando o sol. Mas repare, isto já é o final do dia, portanto, o impacto da luminosidade não é tão grande quanto a outra situação que eu mencionei, que é a do sol exatamente no ponto mais alto no céu. Mas o que é que se espera? E há pessoas que estudam isso. Obviamente, irão também ver o comportamento dos animais. O que é que os pássaros fazem? Animais que vão pro repouso, tipicamente o gado bovino, costuma reagir dessa maneira. Os pássaros, não sei qual é a vida dos pássaros, honestamente. Eu estar a rir.
Vão só te começar a dizer pra nos deitar mais cedo hoje.
Vamos deitar mais cedo, exatamente. Eu acho que depende da atividade que os pássaros têm. Não sei se há algumas espécies que sejam mais noturnas ou mais de final de tarde, não faço ideia. Mas sim, haverá isso, porque é que também será notado o abaixamento de temperatura. Quando a luz do sol desaparece, nota-se na atmosfera que a temperatura começa a baixar. O que será estranho aqui é que neste dia 12, o abaixamento da temperatura começará mais cedo do que foi no dia anterior.
E esse vamos sentir todos. Esse todos nós vamos sentir.
As pessoas sentem isso, exatamente. Há outros fenômenos interessantíssimos, agora mais para o ser humano e não tanto para os animais, que é olhar pras sombras e ver que as sombras ficam muito bem definidas. Isto é a transição entre a luz-
Explique-nos lá essa coisa da sombra, que isso é muito curioso.
É curiosíssimo. Eu vou lhe dizer porque eu nunca vi pessoalmente o eclipse total, mas vi fotografias e filmes e a minha reação foi estranha, que é o quê? O que acontece? Imagine que tem qualquer coisa ao sol e obviamente esse objeto faz sombra e no chão fica projetada a zona que está à sombra e depois a zona onde começa a luz. A linha que faz a transição entre a parte iluminada e a parte escura não é perfeitamente definida. Tem ali uma zona de penumbra em que a luz vai aumentando. Tecnicamente, equivale a um ângulo de abertura de meio grau. Por quê? Porque é o diâmetro angular do sol. O sol, entre o lado esquerdo e o lado direito, é meio grau. E os dois lados iluminam essa face do objeto que produz a sombra. E então, no chão, o cérebro está habituado a ver essa linha difusa que faz a transição entre o lado escuro e o lado iluminado. Agora, durante o eclipse, o sol fica tapado. E quando não está ainda totalmente tapado, os objetos também têm a sombra.
Claro.
Só que a sombra é extremamente bem definida. Quanto mais o sol é tapado, mais Fino é o risco que faz a transição entre o claro e o escuro. A minha reação quando vi isso pela primeira vez nos filmes e nas fotografias foi: o cérebro achou estranho aquilo que vi antes.
Claro, isso é fascinante.
Era estranho estar a ver. Pareciam sombras desenhadas a lápis por alguém que faz o desenho e traduz a transição do claro-escuro.
E as sombras são direitinhas?
São as sombras do objeto, que são mais nítidas na transição entre a zona clara e as zonas escuras. Por outro lado, também acontece que a tonalidade da luz muda, como a quantidade de luz a entrar pela atmosfera é menor. E aqui também há diferença entre ser um eclipse solar quando o sol está alto no céu ou quando está mais no horizonte. No horizonte, o sol vai ficando mais avermelhado, vai perdendo a tonalidade mais branca quando está no cimo. Por quê? Porque a quantidade de atmosfera que a luz tem que atravessar vai de um fator de um pra mil, basicamente. Se o sol tivesse mesmo por cima da cabeça, coisa que nós temos no nosso território nacional, a cor do sol é uma, porque tem que atravessar uma quantidade de atmosfera, vamos dizer que vale um, é o tamanho que a atmosfera tem. Quando o sol está no horizonte, a luz tem que atravessar a atmosfera rasante em relação ao horizonte da pessoa. Isso é mil vezes mais. Faz com que a perda da cor azul seja mil vezes mais forte.
Então que tonalidade é que vamos ter? Mais laranja?
Teremos um sol mais avermelhado, mais laranja, exatamente. Nessa altura, o sol já estará mais alaranjado e ao reduzir a quantidade de luz azul e verde, fica ele mais alaranjado. E o que se perde é isso. É diferente da cor do céu após o pôr do sol. É diferente por quê? Porque no pôr do sol vem exatamente a quantidade toda de luz que é habitual. Portanto, notar-se-á também essa diferença. Prestem atenção que será visível.
Não sei se é comparável, e infelizmente, quem já teve essa oportunidade de vivenciar isso, será uma luz semelhante àquele laranja que se instala, por exemplo, quando temos os grandes incêndios e há uma nuvem de fumo a tapar o sol e fica uma tonalidade laranja no ambiente. Será próximo disso?
É, isso acontece. É exatamente nesse sentido. Não tão forte quanto a fuligem faz, porque também depende da quantidade, da densidade que existe de partículas. Mas iremos nesse sentido.
E o que é o vento do eclipse?
O vento do eclipse é produzido exatamente pelo abaixamento local da temperatura. Portanto, a atmosfera está, dizendo erradamente, em equilíbrio de temperatura. Não é exatamente isotérmica, mas a temperatura numa certa zona está mais ou menos homogênea. Não é exatamente matematicamente igual estar na serra de Sintra ou estar no meio do Cais do Sodré. Portanto, depois há o fenômeno das cidades. Mas se imaginar uma zona à superfície da Terra com 100 km de diâmetro, essa zona estará mais fria do que aquilo que é a atmosfera ao lado. E a alteração de pressão atmosférica naquele local provoca um vento extra, que é induzido pelo abaixamento de temperatura. Portanto, altera a pressão atmosférica e surge esse efeito.
Portanto, é natural que possamos vir a sentir esse vento.
Eu diria que sim. Porém, estamos no final de tarde e eu não sei fazer essa previsão. Aí teria que falar com o senhor. Desculpa, mas só me faz perguntas fora da minha área, então eu fico aflito tentando responder a isso.
Mas eu sei que o professor Rui Agostinho tem unhas pra esta guitarra, isso não tenho dúvidas. E já sabemos que vamos ter temperaturas muito quentes agora esta semana, vamos andar aqui perto dos 40 graus, e quarta-feira vai ser um dia quente. Vou lhe fazer mais uma daquelas perguntas difíceis no seguimento dos passarinhos: as plantas também vão ficar confusas ou não?
Não faço ideia. Essa aí não consigo te imaginar. Mas é assim, se ficarem, nós não temos maneira de saber também. Visivelmente, não há hipótese.
Então, deixa eu fazer-lhe aqui uma-
Quer dizer, estou agora a me lembrar do girassol, mas o girassol já está virado pro sol
Já, e essa hora também já deve estar é ir dormir. Professor, tenho aqui uma questão que acho que muita gente está a fazer aqui alguma confusão. Está sendo muito difícil encontrar óculos para observar o fenômeno em segurança. E devemos aqui recordar, e mais uma vez pôr bem a tônica nisto: não se deve olhar diretamente pro sol sem os óculos de proteção e aí 10 segundos, se calhar, é o tempo ideal e depois baixar e voltar a tentar. Ora, os óculos escuros não fornecem essa proteção, também não convém improvisar com radiografias, mas há aqui uma pergunta que está a ser feita: como é que eu vou andar na rua sem óculos? Ora, os óculos só servem mesmo para olhar para o sol. Não devemos andar todos com aqueles óculos do eclipse pra guiar ou pra andar na rua.
Ai cruz, não.
Senão vamos ter acidentes.
Exatamente. Primeiro, é assim, durante um dia normal, ninguém anda com aqueles óculos do eclipse Deixe-me fazer uma correção. Chamar óculos do eclipse induz as pessoas em erro. Por quê? Porque pensam que são o mesmo óculos como os habituais que nós pomos na cara. Não são.
Proteções.
A terminologia correta devia ser filtros solares. É isso que eles são. Isto é, não corrigem nenhum defeito da visão? Não corrigem nada. Apenas são espelhos autênticos. O que é aquela película de plástico? É um espelho quase perfeito. Quase perfeito, por quê? Reflete, e agora presta atenção aos números que eu vou dizer, 99,9995% da luz incidente é refletida, vai de volta. Portanto, não entra, não passa para trás. São filtros, mais nada. A quantidade que deixa passar é essa que permite ao olho, depois, com a sua estrutura toda, a córnea, o cristalino e depois a retina, poder ver aquele disco solar com proteção. Por quê? Porque este filtro é especializado da seguinte maneira: em vez de cortar apenas a banda do visível, que é essa que o olho vê, que os sensores que temos, os cones e os bastonetes respondem à luz visível, mas o filtro corta também os ultravioletas todos e corta também os infravermelhos todos. Por quê? Porque são nocivos ao nosso olho. Em particular, o ultravioleta afeta logo a primeira parte da córnea e do cristalino. O infravermelho é também nocivo, porque penetra pelo humor aquoso, vai até a retina. A retina não apanha tanto o infravermelho, mas a camada epitelial que está por baixo, absorve o infravermelho, aquece e vai cozendo. E a pessoa não sente. O que esse filtro faz, chamam só óculos por causa da estrutura, tens que prendê-los nos olhos. Prender atrás da orelha.
É mais fácil.
Na realidade, são filtros. Agora, respondendo diretamente à sua pergunta, o que é que se faz? Durante o dia, a vida normal, nós fazemo-la. Por quê? Porque ninguém está a olhar para o sol diretamente, porque aí queima também a vista, não há confusões. Só que nós, na vida diária, o que fazemos? Estamos na rua, olhamos para a esquerda, para a direita, para cima e para baixo. O sol entra também pela retina, mas está sempre a saltar para a esquerda e para a direita e não está focado num ponto, que é o que acontece quando a pessoa fixa a visão no disco solar. Esse é que é o grande problema. Portanto, deve-se fazer a vida normal. O problema é: "Ah, mas eu quero ver o sol." Aí é que causa o problema. E agora é a segunda parte, é que como o eclipse vai desde as 18h30 até às 20h30, quase, depois às 20h30 o sol já está no horizonte. É muito tempo em que a pessoa diz: "Eu quero ver." E isso causa um problema.
Claro.
Contrariamente ao dia a dia, que a gente olha de esquerda para direita.
É que não ligamos nenhuma.
Exatamente, não ligamos nenhuma. Mas neste caso, sim. E a minha, uma das grandes preocupações, repare, quem é que tem o horizonte perfeito para ver o sol até mesmo a tocar quando ele se põe, é quem está na praia.
Exato.
Na costa atlântica, toda a gente está no meio do banho e diz: "Olha que sol. Olha, está a perder o brilho, deixa-me lá ver." "Vai lá, está a toalha, nada para trás e vai lá buscar." Qualquer pulsa, ninguém quer fazer isso, quer aproveitar o momento. E são minutos, 10 minutos, 20, 30, 40 da pessoa tentar proteger os olhos.
Mesmo muito cuidado com isso. Professor Rui Agostinho.
Muito cuidado. Deixe-me só acrescentar, há grupos de risco. As crianças são um perigo maior do que os adultos.
Claro.
Por quê? Porque o cristalino é extremamente mais transparente, portanto, a entrada da radiação é maior em quantidade.
E podem ser mais indisciplinados também. Se calhar, não.
É preciso tomar cuidado. Assumir isso tudo e tomar muito cuidado com as crianças.
Professor Rui Agostinho, muito obrigado. Não vai poder estar conosco na emissão especial, porque sei que vai estar em um local muito melhor para ver os 100% do eclipse. Muito obrigado por ter estado aqui neste guia para o eclipse da Rádio Observador.
Foi um grande gosto e obrigadíssimo pelo vosso convite.
Obrigado. Até quarta-feira, ou seja, só amanhã, terça, às 17h15 e também sempre disponível em podcast. Neste episódio de terça-feira, vamos dar conselhos práticos para observar o eclipse em segurança.