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Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade. O Borges, o Horácio e o Raminhos estão na Rádio Observador porque já são homens de uma certa idade.
É um comportamento expresso por opiniões e atitudes que rejeita e se opõe à igualdade de direitos entre gêneros, favorecendo o gênero masculino em detrimento do feminino. Hoje, a nossa pergunta é: já foste alguma vez machista? Machismo é uma opressão nas suas mais diversas formas, sofridas por mulheres e feita pelos homens. Comigo tenho:
António Raminhos, 44 anos, faxineiro de bancos de jardim.
Muito bem. E:
Luís Filipe Borges, 47 anos, provador oficial no teste de qualidade da farmacêutica que produz Brintellix 10mg.
E eu, Marco Horácio, 51 anos, massajador de vacas holandesas.
São os melhores.
Pensei que tu ias dizer massajador facial.
Podia ser, exato. Encosto a minha cara, atenção, à cara de outra pessoa e massajo. Isso se calhar podia ser uma atitude machista da minha parte.
Massajar como se não houvesse amanhã?
Sim.
Não, só se fosses à revelia da pessoa em questão.
Chegar lá e: . Muito bem.
E jogares-te na cara da outra pessoa.
Este tema. Vou começar.
Confesso que me assusta, porque acho que não tenho muito pra dizer.
Não tens muito pra dizer? Mas admiro a tua coragem.
Tema polêmico. Eu nunca fui machista. Obrigado e bom dia. Pronto, continuem vocês.
Vocês concordam com uma expressão que eu li na internet, que é: machismo é um comportamento hipermasculino?
Sim.
Sim. Mas eu acho que há mulheres machistas, no sentido em que há mulheres que, devido naturalmente ao contexto, à época em que viveram, ao contexto social em que estão envolvidas, à educação que tiveram, defendem coisas aberrantes.
Perpetuam o patriarcado.
"O papel da mulher é em casa, servir a família." Há até uma coisa chamada trad wives, trad de traditional, onde se veem miúdas novas que acham que devem se vestir modestamente e viver para as lides domésticas. Portanto, o machismo não é um exclusivo dos homens.
Agora, a minha questão é:
Tal como há homens feministas.
Sim. Agora, a minha questão é: até que ponto isso é mau para essas pessoas? No sentido em é pressão cultural.
Para as pessoas que queiram ser trad wives, por exemplo?
Sim. Até que ponto elas estão a ser condicionadas e estão a ser condicionadas pelo quê? Condicionadas pelos maridos ou pelos companheiros, condicionadas pela educação. E é um condicionamento do qual não têm perspectiva ou não têm uma ideia. Estás a perceber? Porque é como aquelas mulheres que, por questões religiosas, na fé islâmica, por exemplo, usam burcas e dizem que se sentem tranquilas em relação a isso e que pra elas faz sentido. Faz sentido por quê? Porque realmente faz sentido ou porque nunca lhes foi dada a perspectiva de ver a vida de outra maneira? Estás a perceber?
Estou a entender, sim.
Isto é, há aí muitas questões.
Isto é um tema muito delicado e tem se falado nos últimos meses, sobretudo por causa de alguns vídeos que têm aparecido no Instagram sobre. Eu acho que é assim.
Vídeos de otários, não é?
Sim, de otários, completamente otários. Eu acho que já todos fomos machistas. De uma forma consciente ou inconsciente, já fomos.
Eu acho até mais inconsciente.
Sim, eu vou te explicar por quê. Porque já todos nós, homens, olhamos pra uma mulher de uma forma:
Objetificante.
Exatamente. Mas isso, pra mim, é normal por quê? Porque as mulheres também olham assim para os homens. Quando tu entras num sítio qualquer e tu olhas à tua volta, tu não consegues definir a personalidade da pessoa que está do outro lado. Ou seja, a primeira coisa que te chama a atenção é a imagem da pessoa. Se é bonita, se não é bonita. Depois aquilo que a tua cabeça e imaginação faz.
Tu não controlas.
Não controlas. Ou precisas de ir ao psicólogo, ao psiquiatra. Agora, isso será que é machismo?
Não. Eu acho que é machismo a partir do momento em que tu vês essa mulher e ela passa por ti e tu dizes: "Olá, epa, olha o que eu te fazer".
"Não sabia que as flores andavam."
"Epa!"
"Ó estrela, queres comer?"
A partir daí. Tu não controlas os teus pensamentos.
"Ó bifana, anda cá que a grelha está em brasa."
Tu não controlas os teus pensamentos, isso é uma premissa mais do que natural na psicologia. E não controlas qualquer tipo de pensamento. E claro que nós somos seres biológicos.
Desculpa, estás bem?
Como?
Estás bem? Magoaste-te? Precisas de alguma coisa? Não estou a perceber. Porque caíste. Caí, eu não caí, caíste. És uma estrela e acabaste de cair do céu.
Pronto, acho que todo o programa vai ser pontuado com estas gemas.
Esquecendo do que estava a dizer.
É que também há piropos que podem ser mais elegantes.
Esquecendo do que estava a dizer.
Um amigo meu, desculpa, Raminhos, isto foi mesmo horrível, interrompi.
A falar em pensamentos.
Só vê se te consegues lembrar.
Não controlamos.
Um amigo meu uma vez fez isto num bar ou discoteca, e eu admirei imenso. Ele chegou ao pé de uma moça muito atraente e deu-lhe o seu copo de gin tónico, na altura do gins. Gin tónico. Água tónica, gin, gelo Gin clássico. E ele deu o seu copo, mas de forma muito premente: "Desculpa, segura, segura, segura este copo". E a Margarida instintivamente pega no copo e ele olha para ela e .
Começava a bater palmas.
Começava a bater. "Eu precisava das duas mãos para isto. Tu és a mulher mais bonita que eu já vi". E ela ficou boia e depois riu-se. Também ajuda o cabrão ser bonito. Pode-se dizer cabrão na rádio? Podes.
Podes.
E bonito.
Tu podes dizer tudo, que a gente tem medo de ti, podes dizer tudo.
Ramalho, lembraste entretanto daquilo que eu violentamente olvidei da tua cabeça? Não. O que eu estava a dizer?
Estávamos a falar dos pensamentos, ou seja, nós não controlamos os pensamentos.
Tu não controlas e somos seres biológicos, portanto, se eu olho para uma mulher, obviamente, e que acho jeitosa, a minha cabeça vai dizer: "Eh lá, jeitosa".
Sim, mas não diz em voz alta.
Mas se eu não disser em voz alta, nem como dizia a Margarida, nem é assediada. Acho que é perfeitamente natural.
Eu acho que há uma coisa que também se aprende com a idade. Nós, como é óbvio, quando somos mais novos, mas isto é homens e mulheres, nós entramos num sítio qualquer, olhamos, achamos bonito, as mulheres olham para o homem bonito também o desejam de certa forma, também conseguem apreciar.
Também desejo homens bonitos.
Sim, tu desejas tudo. Tu entras num canil e desejas-
Eu não sabia disto.
O quê? Vais falar da tua experiência em Madrid?
Como é que diz o... Eu já vos contei isto.
Já.
Na rádio? Já. Ok.
Agora viste? Ficou trapalhada.
Eu aprecio. Claro que aprecias, eu também vejo gajos jeitosos e penso: "Sim, senhor". E fico naquele sentimento de-
Entre pensar, ir lá e-
E inveja. É completamente diferente. Eu também olho para um automóvel e aprecio esteticamente o automóvel. Não significa que hei de enfiar a pila no tubo de escape. São ótimas imagens que eu estou a dar na primeira página.
Não, estás a dar. Aliás, isto vai disparar este: "Extremamente desagradável, tu estás a ser".
E se calhar tu também não admitires que admiras homens, também não é por si só um comportamento machista? Mostra pelo menos, acho eu-
Uma insegurança sexual muito grande
...uma masculinidade um pouco frágil, aqueles amigos e conhecidos que ficam: "Olha aí, foda-se". Mas depois estão no balneário, todos nus a dar chapadas no cú uns dos outros. "Eu sou muito macho".
Não, eu acho que sim, tanto apreciar homens como mulheres, acho que nós temos toda essa noção de quando vês um homem bonito, diz: "É, aquele homem, de facto, é bonito".
O que é um homem bonito para vocês? Vamos falar disto. Um homem bonito.
O que é que é um homem bonito?
Top três homens bonitos. Fazemos isto em ronda.
Fazemos isto em ronda?
Cada um tem que dizer um nome até dar um total de três.
É?
Sim.
Homens bonitos.
Posso contar uma? Isto vai ser bom para o público feminino. Isto é a pura das verdades o que eu vou contar. E hoje conheço, temos amigos em comum, Paulo Pires. O Paulo, sim. Eu acho que já te contei esta. Eu vi o Paulo Pires pela primeira vez, como é que se chamava aquele maravilhoso cinema? O King, que dava filmes mais alternativos. Eu vi o Paulo Pires no King quando eu tinha 20 anos e é muito possível que eu tenha babado uma, duas gotas. Eu nunca tinha visto um homem tão bonito, achava impossível. Lembro de ficar embasbacado. Fomos ver um filme e lembro-me do embasbacamento geral das pessoas e Paulo Pires a tentar passar despercebido. E muito rapidamente passei da baba para um confronto entre mim e Deus. Eu falei, Deus não disse nada, sobre injustiça. Porque Deus também estava a olhar para o Paulo Pires. Provavelmente.
Estava embasbacado também a olhar para o Paulo Pires.
Estava assim a pensar: "Mas olha que obra-prima que eu fiz". Deus está em todo lado, Deus é omnipresente, para poder seguir o Paulo Pires onde quer que o Paulo Pires vá. Mas a minha discussão com Deus, até hoje por responder, foi: como é que isto é possível? Como é que alguém pode ter este aspeto e eu ter o meu? Portanto, vou dizer Paulo Pires. Vocês? Eu sou péssimo com nomes.
Mas Paulo Pires, por acaso eu também já trabalhei com o Paulo Pires, além de ser um homem muito bonito-
E é um tipo impecável
...impecável, e ele sabe envelhecer. Ele continua muito bonito, muito charmoso e carismático.
Não é que é maravilhoso? O Paulo Pires, porque eu te sabes? Ele tem 83 anos. O Paulo Pires tem um pacto com Satanás celebrado em 72, 73 e não envelhece.
Não.
Eu admiro mais corpos, invejo mais corpos, grandes abdominais. Eu fico assim: "Fuck, por que, meu?"
Para de falar de mim, Ramalho. Nós vamos falar dos outros.
Então eu digo Paulo Pires, tu? Não sei. Não consegues dizer o nome de um gajo?
Tens aqui dois à tua frente.
Mas um gajo que eu diga isso assim: "Foda-se". Paulo é muito bonito. Não sei. Vou acrescentar, é óbvio, mas vou acrescentar George Clooney. Não gosto. Grande charme.
Olha, o Ryan Reynolds.
O Brad Pitt acho que- E pronto, acho que já temos aqui. Meninas, divirtam-se ...o Brad Pitt acho que faz sentido. O Brad Pitt tem 62 anos. 60. O Beckham. O cabrão do Beckham. O Beckham. O Beckham. Como é que é possível? O Beckham eu olho e penso assim: grande estilo. O Beckham. Grande estilo. E tu? E penso: ele arranjava uma mulher melhor.
Mas sabes que eu digo assim: eu não ligo só ao corpo. Por mais que o corpo do Beckham mexa comigo.
A personalidade.
A personalidade dele também, porque ele é simples, é divertido.
É, parece que é um gajo divertido.
Com o avançar da idade, com a maturidade, é isso que eu estava a dizer há bocado, mesmo quando tu olhas para uma mulher e achas bonita, já pensas assim Como é que ela será? Como é que ela será de feitio? O que é que ela pensa?
Sim, quando és puto é mais o corpo.
É o corpo. Se é bonito, se é bem feito, na tua concepção de corpo bonito.
Se é jeitosa, se é boazona.
Ou seja, basicamente nós passaremos todos por uma fase de machismo, mesmo que involuntário.
Mas, por exemplo, eu nunca tive aquela-
Os putos hoje em dia são muito machistas, atenção.
Mas há aqui uma coisa que também tem muito a ver com o contexto em que tu és educado. Eu fui educado...
Sim.
Estás a falar nisso.
Sim.
Parecia o primeiro áudio, mas vou colocar agora porque tem tudo a ver com aquilo que tu estás a dizer.
Então vá.
Que é do meu grande amigo.
Paul Pitt.
Não, das pessoas que eu mais gosto e que conheci na minha vida.
António Raminhos.
É o Zé Gouveia. O Zé Gouveia é um-
O Zé Gouveia é um homem da noite.
Um homem da noite. Um homem da noite que não bebe álcool.
Um homem da noite que não bebe álcool.
Que tem um sentido de humor espetacular, que é um amigo, uma pessoa que se pode confiar.
Que é da CMTV.
Que está na CMTV agora no "Noite das Estrelas". Vamos ouvir.
"Olha, nunca fui machista porque sempre tive uma educação por parte do meu pai que não me permitiu, nem foi por parte da minha mãe. Tenho uma irmã também, mais velha, mas as pessoas normalmente associam sempre a educação que a mãe passa, mas não, realmente foi uma educação do meu pai e a forma como o meu pai se relacionava tanto com a minha mãe como com as mulheres. E isso contou muito para que eu efetivamente nunca tivesse um comportamento machista. Nem nunca tive, em todas as minhas relações, um papel dominante. Sempre achei que tudo o que se fazia em casa era em divisão de partes. Isto também porque morei sozinho inicialmente e portanto aprendi. Já em casa dos meus pais fazia, mas aprendi a fazer tudo. E então quando comecei a viver junto, transferi essas aptidões também para a vivência em comum. Mas não, nunca fui machista. Um grande abraço aos três e bom podcast."
Tem muito a ver com a educação, não é?
Era isso que eu estava a dizer, mas curiosamente o meu caso é um bocadinho diferente, porque eu fui educado por mulheres, pela minha mãe, pela minha avó, pela minha irmã. O meu pai era uma pessoa mais ausente, trabalhava muito. Eu nunca entendi bem a relação do meu pai e da minha mãe em relação a este tratamento. Agora, os meus pais discutiam muito e era aquelas relações, lá está, típicas dos anos 80. E o meu irmão já estava praticamente fora de casa. Portanto, eu acho que de alguma maneira, por exemplo, a minha mãe era costureira, eu aprendi a fazer crochê. Eu arrumava o meu quarto, eu limpava o pó, eu lavava a loiça, eu fazia essas coisas todas. Eu lembro da minha irmã ter o período e ficar fechada no quarto e eu vê-la a sofrer. Portanto, eu acho que há aqui uma data de pormenores que me permitiram que eu também, se calhar, de alguma maneira-
Olhasses para as mulheres sempre de outra forma
Olhasse de outra maneira. Agora, eu acho que tive atitudes machistas e objetificantes da mulher, como infelizmente, se calhar, muitos de nós tivemos, mais por até nem sequer pensar nisso. Como nos primórdios da internet, receber fotos e vídeos de porno, de cenas às vezes que eram amadoras, que eram sem consentimento, que nem sequer tinha noção disso, o que é estúpido, mas não há outra maneira de dizer, acho que não estou a dizer mentira nenhuma. Hoje, obviamente, eu não pertenço a nada desses grupos, nem a essas coisas. E já nem recebo, nem tenho grupos disso. Faço questão de não estar e se surgir alguém que mande isso, eu digo: "Ei, olha aí".
Já me aconteceu. Já te testemunhei a fazer isso mesmo.
Mas já pertenci, possivelmente há anos, quando éramos mais putos, pertencemos a estas coisas, porque infelizmente nem sequer tínhamos bem essa noção e não te sei explicar porque é que não tínhamos essa noção. E isso também terá alguma coisa a ver com a educação.
Eu, por acaso, pá, mesmo, calhou. Nunca gostei, até já falámos disto aqui noutro tema, pelo menos. Nunca gostei de amadoras, por razões muito práticas.
Gostas de uma coisa profissional.
Gosto de uma coisa profissional, mas também por essa cena do: "Eu sei lá como é que isto foi captado e se a pessoa sabe, e se ela autorizou que isto estivesse na net". Portanto, mesmo quando vou à procura desse tipo de conteúdo, nunca é o chamado amadores que me atrai. Mas acho que sim, acho que nós todos, mesmo que involuntariamente, já teremos tido atitudes machistas. E por falar em involuntariamente, eu lembro-me, já me aconteceu isto, quer com uma senhora da minha idade, talvez um pouco mais velha, quer há muitos anos. Lembro-me agora com uma colega minha da faculdade, portanto, rapariga da minha idade naquela época, claro, novos ambos, a quem eu ajudei com os sacos.
Também tenho uma parecida.
E ela ficou ofendida comigo
Achas que eu não consigo? "Não, eu estou só a ser cavalheiro." E ela: "Ser cavalheiro é ser machista."
Eu acho que não.
Eu acho que não.
Não tem nada a ver.
Eu acho que não.
Eu acho que tem a ver.
Tem nada a ver, mas vamos falar disso na segunda parte.
Vamos. Vou escrever aqui tudo. Ser cavalheiro é machista?
É machista.
É machista?
Vamos fazer só um pequeno intervalo para compromissos publicitários. Voltamos já para mais um "Homens de uma Certa Idade". O tema hoje é, ou a pergunta: já foste machista?
Já foste machista?
Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade.
E cá estamos de volta para a segunda parte, depois deste intervalo de quase quatro dias, para voltar à nossa pergunta: já foste machista? Estávamos a falar de ser cavalheiro.
Olha, uma vez o Borges estava a contar na primeira parte que tinha ajudado com uns sacos. A mim uma vez no shopping, no Olival Shopping, vêm duas raparigas e eu abro a porta, eu ia entrar, elas iam a sair, e eu abro a porta e faço sinal para passarem primeiro.
Oh my God, cringe!
Não, isto já foi há muitos anos. Passaram e ignoraram-me completamente. E eu fiquei ofendido, não era por ter sido cavalheiro, é por não terem sido simpáticas. E terem dito "obrigado", um simples obrigado. Eu acho que entras no extremo de não se distinguir as coisas e, sobretudo, tal como no humor, tu assumires que tudo à partida é uma agressão. Ou que a outra pessoa está a fazer algo.
É tudo branco ou é tudo preto, não há nenhuma camada cinzenta.
Branco ou preto, ou tu estás a fazer algo com uma segunda intenção. Ainda ontem contei isto ao Borges. Houve uma vez numa situação, porque depois nós como trabalhamos o humor, acho que entramos aqui ainda noutra perspectiva que pode ser complicada, que é: até que ponto fazer piadas machistas é machismo, perpetua o machismo, ou é simplesmente provocares as pessoas de alguma maneira?
De certa forma, até criticas o machismo, não é?
É, mas tu entras aqui numa zona complicada e às vezes nem sequer estás a pensar nisso nesse sentido. Vou-te dar um exemplo. Há muitos anos, eu estava num trabalho e estava uma rapariga que eu conhecia há pouco tempo. Mas eu sempre fui palhaço e continuo a ser, mas eu conhecia a rapariga há pouco tempo no trabalho. E a rapariga estava a dizer que ia ao ginásio, não sei mais o quê. E eu fiz uma referência do gênero: "Vais ao ginásio, mas tens que trabalhar mais os glúteos."
Ui, que foste dizer.
Mas disse aquilo.
Era brincadeira, claro.
Sim, já nem me lembro se foi assim. Eu lembro que na altura teve mais piada do que isto pra eu dizer. Mas eu fiz qualquer referência, ela estava a dizer qualquer coisa e eu a dar a entender que ela tinha que treinar mais. E ri-me.
Mas disseste glúteos porque ela precisava.
Sim, e disse com o objetivo de a provocar, de gozar com ela, porque ela estava a dizer: "Faço isto e faço aquilo" e não sei o quê, já não me lembro. E ela olhou pra mim, riu-se e fez aquele: "Ah!" tipo ganda urso, mas numa cena tranquila. E aquilo, por outras mulheres que estavam lá, foi levado: "Isto é assédio sexual, isto é não sei o quê." De tal maneira, que eu fui falar com a rapariga a seguir e disse mesmo: "Olha, eu não disse isso com essa intenção, tu levaste a mal. Sê sincera, porque eu preciso mesmo de entender isto." E a rapariga disse que não, que estava tudo bem, que se tinha rido e que tinha percebido o enquadramento da coisa e que não houve estresse nenhum. E eu acho que é aqui, depois, que se começa a, não é a limitar, mas que é uma zona muito cinzenta.
Eu acho que esta conversa...
Olha, por exemplo, a nossa querida Rita Camarneiro.
Sim.
Uhum.
Que é aqui da Rádio Observador, que estava aqui, que eu conheço há muitos anos.
Eu sou o Júlio Isidro de Rita Camarneiro.
Tu és o Júlio Isidro, e eu gosto muito da Rita e já lhe disse isto.
Também, gostamos todos.
E dei-lhe um abracinho e dei-lhe um beijo na cabeça. E agora fico a pensar: isto será considerado por outros visto como assédio? Percebes?
Já falei com os recursos humanos e sim.
Eu acho que o primeiro erro aqui é nós pensarmos o que é que os outros vão pensar. Se a própria pessoa a quem nos dirigimos ou abraço ou a brincadeira não fica ofendida, por que as outras pessoas à volta têm que ficar?
Exato. Esta coisa de calçarem os sapatos das alegadas vítimas e serem mais papistas que o Papa é para lá do absurdo.
Mas é uma forma de sinalizar a sua própria virtude.
Mas também há aqui outra. Sim, por um lado, tens razão, sinalizar a própria virtude. Por outro lado, sendo tu um comunicador, não podes estar tu a perpetuar o machismo em certas piadas ou atitudes?
Depende a forma como tu vês as coisas.
É como o bullying, por exemplo, quando tu fazes piadas das gordas ou das feias ou não sei o quê.
Lá está, é isso mesmo.
E dos ricos e dos pobres, não sei, não podes estar a perpetuar aqui a diferença das coisas?
Eu acho que sim, se fores, e felizmente há pouquíssimos casos, penso, goste-se ou não do humor dessas pessoas, e não há nada tão subjetivo, obviamente, como o humor, mas eu acho que tu perpetuas esse tipo de estereótipos quando és absolutamente incapaz de te ter como alvo da tua própria comédia. Ou seja, de fazer as pessoas perceberem que se tu próprio és uma vítima, passa a expressão, do teu humor.
Estás a validar.
Nenhum tema é tabu.
Claro.
E depois, obviamente, espera-se, tu bates, em itálico e aspas, numas coisas como bates noutras. Se tiveres um espetáculo inteiro sobre violência doméstica, se calhar tens qualquer coisa que devias ir resolver com o terapeuta.
Ou então, eu nisso sou muito pragmático. É a mesma coisa que tu dizeres: nós estamos a perpetuar violência ou machismo. Então e os políticos que ao aumentar os impostos estão a perpetuar o quê? A pobreza? A desigualdade social? Portanto, os políticos deviam ser os primeiros a ser crucificados. O humor é uma arte, ponto final. As pessoas podem ou não gostar e não gostar. Tu falares de pessoas mais gordas, mais magras, isto ou aquilo Depende da pessoa que está do outro lado a ouvir. Pode gostar, pode achar graça e não achar graça. Tem que respeitar. Agora, o humorista também tem a sua bitola moral, ou seja, eu não faço humor com temas que a mim, pessoalmente, eu não sou humorista e sai da minha personagem. Não sai da minha pessoa. Há certos temas que eu não gosto de falar porque a mim, como pessoa, me chocam. Agora, o meu tipo de humor é o humor que eu gosto, não vai agradar a todos. Eu nunca faço com a ideia de: "Vou perpetuar isto". É sempre para divertir e para opicar uma situação ou inflamar uma situação que eu acho que é ridícula, nunca é no sentido de magoar as pessoas diretamente, mas isso sou eu que faço humor, que tenho a minha consciência pessoal sempre envolvida naquilo que faço e que escrevo.
Sim, mas por exemplo, é a interpretação que também fazem das coisas. Eu já fui cancelado no Twitter por uma piada que eu nunca tive problema nenhum, o espetáculo deu na SIC, fiz 60 datas disto, nunca tive estresse nenhum e as pessoas riam-se imenso desta piada que eu fazia. E há um dia que eu próprio, exatamente por achar que naquilo não tinha problema nenhum, peguei nesse texto, nesse vídeo, fiz um videozinho e pus na net e começaram a dizer que eu estava a sexualizar as minhas filhas e que era pedófilo. Tudo e mais alguma coisa.
Explica só, contextualiza só o clipe.
A piada tinha a ver com a forma como nós damos banho às crianças e que os miúdos a tomar banho mexem muito nas partes íntimas. E que havia alturas que eu nem sequer queria olhar para aquilo, porque só me fazia lembrar filmes pornô. E foi isso que eu pensei. É idiota. Claro que a piada tem muito mais piada porque é mais gráfica e é levada a um exagero. Tu não estás bem a ver. E aquilo nunca me passou pela cabeça, sequer. E há aqui um pronote também curioso, e que a minha mulher diz, e que eu acho que faz sentido, ainda ontem as minhas filhas também estávamos a falar disso, que há uma própria falange das mulheres que perpetua a objetificação das mulheres. Porque cada vez que a gente abre as redes sociais é só mamas aos saltos. Mamas aos saltos e vídeos. Eu mostrei no outro dia ao Borges.
Linda Brasa máximo!
Há pornô no Instagram. Há mulheres a simular sexo no Instagram.
Mulheres? Calculo que homens também.
Sim, também já apanhei, mas apanhas muito mais mulheres porque obviamente o público homem é mais atraído para estas coisas. E a minha mulher diz muitas vezes assim: "Quer dizer, andaram as mulheres a lutar por direitos, a morrer por direitos e andam estas gajas a fingir que andam a montar tipos". E agora, também não é a liberdade delas fazerem isso. Isto é uma grande confusão.
Sabes que para mim, este machismo-
Não me venham com moralismos e virgens ofendidas. Isto é absurdo. Tu disseste: "Fui cancelado no Twitter". Fui cancelado no Twitter. Essa fossa séptica a céu aberto. E já era muito antes do Elon Musk a comprar e a tornar ainda pior. Mas efetivamente foste cancelado como? Perdeste espetáculos? Perdeste espetáculos, deixaste de fazer alguma coisa. Mas estes social justice warriors acham que têm o poder de cancelar uma pessoa que está a fazer o seu trabalho com o coração no sítio certo. Não completa esta frase porque não estamos na terceira parte.
Na terceira parte podes completar.
Completava com três peneirinhas que rimam com rio.
Acho que tem muito a ver com a tua estrutura familiar. Por exemplo, a minha família é igual a muitas outras. O meu pai chegava à casa do trabalho, sentava-se à mesa para jantar, não fazia mais nada. Tinham que pôr o prato à frente, tinham que pôr a comida à frente. Depois o meu pai tinha uma frase, hoje muito engraçada, que se eu falasse disso, fizesse um sketch, ele sentava-se à mesa e dizia assim: "Então não há pão?" E alguém trazia-lhe o pão. "Então hoje não há não sei o quê?" E alguém trazia-lhe o vinho. E eu cresci nesta, isto é puro machismo ou não, porque culturalmente era isto.
Mas se calhar tu fazes isso em casa a gozar com a tua mulher, com a Sara.
Hoje brinco com isso.
Se calhar sentas-te tu à mesa e dizes para a Sara: "Então não há pão?"
É mais ela que se quer sentar à mesa e diz: "Então e nós?"
Levas logo um pau na boca dos dois.
Mas isso é o que eu digo às vezes à Catarina, chego a casa e digo isto no gozo para as provocar. Digo assim: "Quatro mulheres em casa e não está o jantar feito, por quê?" Elas mandam-me todas à merda e querem-me todas bater.
Mas o teu objetivo está cumprido.
Mas o meu objetivo está cumprido, que é chatear. Agora, isto é machismo ou é bom ambiente?
Eu acho que hoje em dia a coisa mais sexy que os homens podem ter é pôr um avental e estar a cozinhar ou pôr uma mesa ou pôr uma máquina de loiça a fazer ou lavar a roupa. Eu faço isso tudo e nunca me sinto menos homem por causa disso, pelo contrário. Eu acho que me dá uma independência.
Tu ainda ontem deste um blefe para cá e estavas a contar do arrozinho, porque a tua bebé estava mais doentia e tu fizeste-lhe um arrozinho branco com um franguinho grelhado. E eu estava a admirar isso e a pensar: "Quem me dera ter essa skill", que eu cozinho miseravelmente.
O meu desafio com a minha mulher muitas vezes é ver quem cozinha melhor. Só há uma coisa que eu não consigo fazer. Mas depois há aqui uma cena, obviamente.
Iscas
Não é de comida, é pôr a roupa na máquina.
Eu gosto.
Da roupa.
A branca e a escura.
E a quantidade de detergente.
E o programa.
E o programa. Mas isso é só porque eu nunca tive tempo de estar a olhar para a máquina.
Eu gravei o ficheiro, eu tenho sempre que ir. Sempre.
É aqui: 800, a centrifugação.
Ok.
E a temperatura é aqui: 60. Agora há aqui cenas para as quais os homens são mais habilitados e outras para as quais as mulheres teoricamente serão mais habilitadas. Isso não invalida que haja uma percentagem de mulheres que goste de ser mecânica ou engenheira, ou trabalhar na construção civil, ou o que quer que seja. Mas eu acho que é natural que haja, não sei se são razões biológicas ou culturais.
Uma diferença.
Ou culturais, sociais, mas acho que é normal, tal como, por exemplo, a Catarina, quando há problemas na internet ou o que quer que seja de cabos, ela nem sequer se preocupa em ir arranjar aquilo. Ela diz-me e eu vou tratar disso.
Em nossa casa é o contrário. Ou seja, é a Sara que faz os buracos na parede, é ela que trata da parte tecnológica toda. E mais uma vez, isso não tem nada a ver com feminismo, não tem a ver com machismo. É: as skills que cada um de nós tem diferentes para fazer a harmonia entre o casal. Isto do machismo pode ser interpretado de várias maneiras e se as pessoas quiserem encontrar machismo, podem encontrar em qualquer lado. Numa relação, mesmo quando é físico, a parte física, o sexo, há sempre uma das partes que é mais dominante. Não quer dizer que hoje não seja eu, amanhã não seja ela. Isso não quer dizer que eu seja machista. Não, isto é para no final proporcionar o prazer à outra pessoa e de estarem bem as duas pessoas.
É normal que tu faças coisas melhores e a tua mulher faça coisas melhores em determinadas áreas. Provavelmente, digo eu, era aquilo que eu estava a dizer, provavelmente haverá, por razões culturais, sociais, etc, e históricas já, certas atividades que os homens façam mais, certos papéis que desempenham mais e certos papéis que as mulheres desempenham mais. Não invalida que se possam trocar os papéis. Agora é isso, eu acho é que as pessoas têm que estar confortáveis em qualquer papel e não ser porque é imposto ou pela sociedade. A Catarina não cozinha ou não faz determinadas coisas porque é imposto pela sociedade, é porque gosta e porque sabe.
E porque sabe.
E também eu a mesma coisa.
Naquele dia tem mais tempo do que tu e é mais uma questão de organização até familiar.
Eu coso botões, eu passo melhor a ferro que a Catarina.
Eu não sei passar a ferro. Tens que me ensinar. Mesmo, é sério.
Eu ensino a fazer arroz branco e tu a passar a ferro.
Arroz branco. Não tens uma Bimby.
Tem que arranjar.
Vais ter que arranjar.
A velha Bimby avariou. Tem que arranjar.
Vamos oferecer uma Bimby ao Borges. Está quase a fazer anos.
Pois é.
Vamos oferecer uma Bimby. Faz daqui a dois meses.
Dois meses está é quase.
Fónix. Porra!
Olha, quem faz anos hoje? Por que esqueceste?
Não, vou fazer 48. Achava que faltavam cinco ou seis meses.
Estás acabado.
Olha, falei em acabar. Segunda parte.
Segunda parte já está?
Uhum.
Então vamos.
Vamos ouvir o áudio?
Vamos ouvir o áudio, pois é. De um amigo nosso em comum, que é um homem que percebe disto, que é o André Maravilha.
Maravilha, Maravilha.
É o Maravilha.
É o André. Enfermeiro.
Meus caros amigos, Marco Horácio, Luís Filipe Borges e Antônio Raminhos, daqui vos fala este grande ouvinte, André Maravilha, que vos acompanha com um pouco menos de idade, os vossos assuntos e as vossas reflexões atentamente. Portanto, desde já um grande abraço e parabéns por este grande podcast. Hoje desafiaram-me a falar aqui um pouco sobre as questões do machismo e até que ponto, se eu alguma vez tive um comportamento ou uma atitude machista. Mais do que encontrar um exemplo concreto, porque certamente já resvalei nesse mundo em algum momento, é perceber até que ponto é que a outra pessoa, e neste caso, a mulher confrontada com qualquer tipo de comportamento, interpretou esse mesmo comportamento ou essa mesma atitude como machista. E assim sendo, e interpretando como tal, cabe-nos a nós, homens maduros, conscientes e de alguma maneira com uma grande maturidade, perceber que temos impacto no outro e sermos capazes de dar uma volta a esse tipo de comportamento, de reformular esse tipo de comportamento, redignificar esse comportamento e respeitar quem está ao nosso lado, a mulher, independentemente do tipo de relação que se possa ter, para que no futuro consigamos cultivar gerações e uma humanidade muito mais adepta da igualdade, do respeito e acima de tudo, do amor, que vai para lá de qualquer tipo de gênero. Portanto, fica esta minha reflexão, fica esta reflexão mais como marido, como pai de uma pequena miúda de seis anos e todos os dias tento transmitir os melhores valores possíveis e esses valores certamente não passam por qualquer tipo de comportamento machista. Um bem-haja e boa continuação de grande podcast e de boas reflexões. Um abraço, meus amigos.
Um abraço.
É giro porque ele tirou o peso do machismo e realmente se as pessoas se tratarem com respeito.
Com empatia e compaixão.
Compaixão, o machismo deixa de existir, à partida.
Sim, à partida deixa de existir.
O Borges já me está a apontar para o tempo. Vamos já acabar aqui então esta segunda parte, Borges, não quero que tu te enerves.
Não, é só por causa do tempo.
É isso.
Que assim o observador não consegue promover no intervalo o "ai".
A amiga faz parte. Aquilo de promova aí bué.
Ó amiga, faz parte.
Amiga, faz parte. Portanto, vamos terminar aqui na rádio, mas vamos continuar pra terceira parte em podcast, que é uma parte muito, como é que vocês dizem?
Tudo pode acontecer.
É a parte mais machista.
É a parte mais machista.
Esta terceira parte.
Supermachista.
Super. O que é ser supermachista? Vamos falar nisso na terceira parte. Um bem-haja a todos. Boa continuação. Foi mais um "Homens de Uma Certa Idade" aqui na rádio e até pra semana, vasto auditório.
Adeus. Até pra semana.
Diz adeus às pessoas, Borges.
Adeus. Estou a dizer adeus pro microfone.
Homens de uma certa idade.
E estas fotos destas gajas que eu vos mostrei todas. Tipo: "Olha aqui, mesmo homem. Fazia isto e fazia aquilo". Sabes o que eu fazia? Nada.
Nada.
Um amigo meu, grande amigo, o Diogo, contou-me, eu partilho isto com o auditório, sobretudo o auditório masculino, que é o método perfeito para lidar com o Instagram. E então, eu até pra quem nos acompanha através destas webcams, uso o meu telefone. Imaginem, isto partilhado comigo: vais ao Instagram.
Sim.
Fazes scroll. Vês uma rapariga, uma mulher que achas muito bonita, ficas a olhar, teces comentários pra ti mesmo de diverso calibre, que podem passar por um simples: "Sim, senhor". Se quiseres até maximizas, perdes ali o tempo que quiseres. E depois sabes o que fazes? Nada. Nada. Não carregas em lado nenhum.
Não deixas comentários.
Não deixas comentários.
Não mandas mensagens privadas.
Não mandas DMs.
Não metes coraçõezinhos.
E prossegues o scroll.
Olha, estás a ver? Isto ia ser um teaser brilhante aqui pra ele olhar pra câmera. Estaria assustador. Ora, meus amigos.
Mas faz sentido.
Hoje estamos a falar-
Mais uma bolachinha da veia.
Mais uma. A pergunta de hoje é:
Triste com a pachacha, como antes bolacha.
Se já foste machista. Aquele machismo que se vê hoje em dia no Instagram, as raparigas andam assim vestidas, eu acho isso só ridículo e triste. Quem propaga esse tipo de machismo é só-
Ou que não podem ter Instagram.
Sim. É uma tristeza.
Mas lá está.
O Chami era quem disse, e muito bem, este tipo de masculinidade tóxica resolvia-se com belo par de chapadas da masculinidade antiga.
É, pois. Mas isso é-
Mas, por exemplo, uma rapariga, uma mulher.
Acho que foi o Henrique Dias.
Uma rapariga que anda com um rapaz destes e a rapariga diz que não tem Instagram. Porque no outro dia eu vi uma mulher dizer assim: "Se o meu marido disser que não gosta que eu meta determinadas fotos, eu não vou pôr. Se o meu marido diz que eu não devo ir a determinados sítios, eu não vou".
Mas vale ao contrário? Ele faz o mesmo se ela lhe pedir?
É isso que importa perceber, porque lá está, se ela disser, porque o que ela dizia era: "Se eu percebo que isso o incomoda, por uma questão de respeito, eu não o faço". Isso, OK, eu até encontro alguma lógica nisso. Imagina que eu até gosto de pôr determinados comentários ou fazer determinadas piadas, mas se a minha mulher me disser assim: "Não gosto que faças isso". Mesmo que eu ache piada, eu se calhar vou pensar: "Ok, está bem, eu não vou deixar".
Pra não magoares.
Sim, e é desnecessário. Agora é preciso perceber isso, até que ponto isto parte de uma situação de liberdade e não de condicionamento. E isto que o Borges está a dizer também, que é: até que ponto o tipo diz: "Tu não vais aqui, mas eu agora vou a uma casa de strip". E ela diz: "Mas eu não gosto que vás a uma casa de strip". E ele: "Tá bem, mas eu vou na mesma". Aí já é outra questão.
Olha, eu vivi sempre as minhas relações na premissa de que eu não sou dono de ninguém. Eu não sou dono da pessoa que está ao meu lado. Mesmo casando com ela, eu não sou dono dessa pessoa. A Sara, por exemplo, tem menos 20 anos que eu, não sei se já disse. A Sara é uma mulher lindíssima.
Tu não és dono da Sara, tu és encarregado de educação.
É por isso que tu és bloqueado no Twitter, por estas piadas de mau gosto. Ordinário. Olha, e a Sara é incrivelmente uma mulher insegura. E às vezes ela pergunta: "Achas que eu vou assim, vou assim vestida, não sei o quê, se calhar está muito revelador". Eu digo: "Mulher, és bonita. Vai como tu queres ir".
Que é bom é pra se ver.
Mas é quase isso que eu respondo a brincar. Não tens que estar condicionada com aquilo que os outros vão pensar. Eu, pra mim, o fato de tu ires assim vestida, como tu gostas, no verão, como é óbvio, não vais com cachecol, vais como tu tens que ir. Aliás, a mim torna-se também atrativo.
Eu ia dizer, eu até sou exagero.
Tira a roupa, dizes. Leva menos.
Eu, é sério. Não, vai. Acho muito.
Estás com roupa a mais?
Essa mini saia acho que está pra demasiado. Se calhar vai sem ela. Se quiseres, claro. Vai sem cuecas, vai nua. Sim, mas se fores nua, eu também vou. Como é que aquele otário do fogo, como é que um homem tão talentoso musicalmente, o Kanye West, se transforma num repugnante?
É doença, provavelmente é doença mental.
Esta coisa interessante é o pedido de divórcio. Fez ela muito bem, mas num evento qualquer, os Grammys, onde ele aparece. Ele está vestido de-
De cima a baixo preto
...porteiro do Urban que estava de folga e teve que ser chamado à última. E ela com aquela coisa transparente, e depois ele parece que está a exibi-la.
Sim.
Ele afasta-se e tipo: "Fiquem a ver aqui a minha obra". Coisa mais pá!
Lá está. Por exemplo, há pessoas que dizem, e eu acho que faz sentido, que a própria pornografia perpetua o machismo e a objetificação da mulher. Concordo.
É verdade.
Mas, por exemplo, isso nunca influenciou, e eu vi muita pornografia, já não vejo há muitos anos, mas vi muita pornografia.
Anos.
É verdade.
O Borges é a hora.
Olha, esses mitos que eu estava a ouvir do telemóvel era um gatinho a mamar. Não vejo. Mas, por exemplo, não foi por causa da pornografia, eu nunca tive uma atitude: "Anda cá, sua badalhoca, vou fazer isto e aquilo". Nunca tive essa atitude, nem o Borges me parece.
Mas até podias ter e a outra pessoa que está contigo-
Pois, é possível ter essa atitude, desde que os dois curtam.
Claro.
Mas eu não estou a dizer.
E não é machismo.
Sim, mas eu estou a dizer quando tu tens especialistas que falam que a pornografia perpetua a objetificação da mulher. Eu concordo, mas eu acho que mais do que isso, é o bom senso e a tua educação, o que tu tiveste como educação. Porque eu vi muita pornografia e nunca objetifiquei nem uma namorada, nem a minha mulher.
Aposto que jogaste imenso "Grand Theft Auto" e nunca atropelaste polícias e prostitutas. Mas vontade não lhe faltou.
Sim, verdade.
Voltando a este tema, para mim o machismo básico acho só ridículo. E quando digo básico é aquele que estávamos a falar do: "Não vais assim vestida, não falas com esta pessoa, não tens Instagram". Isto para mim é o machismo básico, que é só ridículo e também tem muito a ver com os homens que são estúpidos e as mulheres que se deixam dominar por este tipo de homens, que só estão a perder tempo e a perder anos de vida e confiança, e podiam estar com uma pessoa que as valorizasse de outra maneira. Faz mais confusão o machismo empresarial, cultural, institucional. Esse machismo faz mais confusão.
Mas eu vou-te falar disso.
Que é a disparidade de salários que ainda existe hoje em dia, dos lugares de liderança. Isso para mim, sim, é uma forma de machismo que tem que ser-
Erradicado.
De vez, porque isso é só estúpido. Como é que tu avalias a capacidade de uma pessoa de trabalho pelo sexo? Se é homem, se é mulher.
É impossível de compreender. O único fator, acho eu, como ocorre minimamente objetivo, é a questão fundamental para a nossa existência, que é a maternidade. Mas eu até acho que deveria ser ao contrário, devia haver até um estímulo. Eu acho que uma CEO até devia, passa a expressão, ter um bónus.
Por ser mãe.
Por ser mãe. Por exemplo, o Japão, uma CEO, e isto vai da CEO ao escalão mais baixo da hierarquia, uma colaboradora, como se diz hoje em dia, que é patético. São trabalhadores. Fez-se abril para alguma coisa. Uma colaboradora não pode ser prejudicada porque: "Ela vai entrar em licença de parto, como é que vamos fazer para correr com esta pessoa?"
O Japão, por exemplo, é uma sociedade completamente machista, ao ponto de as mulheres no Japão, quando têm uma determinada idade e não são casadas, nem têm filhos, há uma expressão para estas mulheres. Como nós, as encalhadas, existe a expressão encalhadas. No Japão existe uma expressão altamente pejorativa para as mulheres que não estão casadas nem são mães. Mas, por outro lado, quando estão a trabalhar e engravidam, são marginalizadas pelas chefias. Isto não faz qualquer sentido.
Portanto, não têm lugar em lado nenhum.
A Sara está numa empresa que ela, durante a gravidez, até foi aumentada.
Uma empresa que podia ser patrocinadora deste podcast.
É verdade.
Por acaso podia ser.
Os colchões Emma.
A Emma podia ser a patrocinadora.
E nós fazemos: "Emma, Emma, Emma, Emma".
Olha umas almofadinhas da Emma aqui.
Nós temos o Marco as diretor comercial d'O Observador. E ela foi aumentada, mas ela trabalhou uma semana antes de dar à luz, estava a trabalhar. A Sara também gosta muito daquilo que faz e, portanto, mereceu esse bónus.
Grande exemplo da Emma. Venham mais.
Sim. E eles têm uma coisa que é quinta-feira.
Machista.
Não.
Casual machism friday. Todas as empresas terem uma quinta.
Para o homem desestressar.
Quinta-feira machista, tal como há sexta-feira casual, quinta-feira machista, mas depois também tínhamos de ter a segunda-feira feminista e por aí fora. Mas quinta-feira machista, onde toda a gente ia assim: "Oh, tu, vai-me tirar um café!"
E terças-feiras feministas, vamos começar a instaurar isto nas empresas, para as pessoas se divertirem, para as pessoas aligeirarem o tema e não pensarem tanto nisto.
Isso era altamente. Vou sugerir aqui ao Observador uma segunda-feira feminista e uma quinta-feira machista.
Eu, como sou obcecado com números, como já falámos noutros episódios, obcecado com números e talvez a desenvolver um certo Asperger, porque estou neste momento a balançar-me para a frente e para trás, não sei porquê, na cadeira de estúdio, mas essa minha obsessão por números, eu cheguei a ter isto escrito em papel e tudo
Eu tenho imenso orgulho, agora já não lembro dos números, mas eu tenho imenso orgulho. Os meus seis, quase sete anos, de 17h à 00h. Nesse período, ninguém teve tantas convidadas como eu. E já agora, ninguém teve tantas pessoas de nacionalidades diferentes como eu tive de convidados e convidadas.
O Borges nunca teve tantas convidadas porque queria comê-las a todas.
Não, era muito importante pra mim.
Agora estragaste aqui o momento. Estás a ver? Por isso é que tu és cancelado no Twitter. Tu devias ser cancelado na vida. Devias ser cancelado na vida.
Quando a única pessoa que foi das 17h à 00h com quem eu dormi, infelizmente apenas três vezes, foi o Paulo Pires.
Foram raminhos.
Ofende-me.
E raminhos.
Ai, ai, claro. Era e é importante pra mim ter diversidade. Diversidade, transversalidade. Olhem, e puxei agora a brasa minha sardinha, sem necessidade nenhuma.
Qual necessidade?
Desculpa lá. Está com a mania que é um realizador de sucesso. Agora está aqui outra vez. Desculpa aí, ele está aqui usar isto pra se promover. Peço desculpa, vou pôr aqui o Nilton, vamos ouvir o áudio do Nilton sobre o machismo.
Nilton é altamente machista.
É muito, todo ele.
Olá, jovens. Vamos lá ver. Agora fiquei na dúvida se é pra responder a sério ou se é pra marmar. Se é pra marmar, digo já que não, nunca fui machista, sou o maior. Se é pra responder a sério, todos nós a dada altura, porque a sociedade nos empurra pra isso e temos que estar em constante alerta, constante autovigilância. Já fomos machistas, nem que seja porque foste almoçar à casa da tua mãe ao domingo e ela no final do almoço começou a levantar os pratos e tu estás aí na conversa com o teu pai e com os teus irmãos e porque a tua mulher e a tua cunhada que estão em casa da sogra e querem fazer boa figura, já se levantaram e estão a ajudar e tu ficas comodamente naquela velha máxima de: "Elas já estão a tratar". Ou porque a tua mulher à meia-noite já foi duas vezes ao bebê e tu não vais porque estás muito cansado. Como se ela também não estivesse cansada, porque além de fazer tudo que tu fazes, ainda tem que dar de mamar. Portanto, a dada altura a sociedade empurra-nos pra isso e nós temos que estar nessa vigilância constante. E eu tento fazer isso. Tento, obviamente, ser um bom exemplo pros meus e de alguma forma-- o quê? Não, vai lavar a louça. Desculpa lá, agora lavas a louça e depois a seguir as camas. Vá, desculpem. Pronto, temos que estar em constante vigilância e ser o mais corretos possível. Um abraço pra vocês e bom programa de rádio, porque não sei se alguém vos avisou, vocês chamam isso de um podcast, mas é um programa de rádio. "Ah, mas dá na internet também." Está bem, é um programa de rádio que passa na internet. "Ah, não, é um podcast." Está bem, se vocês quiserem. Abraços.
Belíssimo contributo, está tudo certo.
Sim.
Olha, isto é verdade, eu não me lembrava desse pormenor.
Menos a terceira parte que está na hora de arrancar e que é um exclusivo online.
Exatamente.
Está a arrancar? Não, já arrancou.
Não, a gente já arrancou, Borges.
Já arrancou.
Já estamos na terceira parte.
Como assim estamos na terceira parte?
Claro. Meu Deus do céu, como eles está.
Ai, meu Deus!
Eu arranjei.
Mas esta questão é verdade.
Já arrancou há uns 14 minutos.
Já me aconteceu estar num
Num almoço.
Num almoço e eu levantar-me para ajudar a tirar as coisas e dizerem-me assim: "Não, elas tratam disto".
Sim. Já todos ouvimos essa frase.
Muitas vezes.
E eu fiquei superincômodo com aquilo.
Outra coisa que eu noto, e o Nilton fez-me lembrar isto na ótima observação que fez sobre a divisão de tarefas entre mães e pais. Eu noto quando estou sozinho com os meus filhos e estou num sítio público, sei lá, vais ao supermercado com eles.
Ou ao campo de tiro.
Ou estás a brincar num parque público.
As pessoas olham com surpresa.
Reparo que há uma coisa: "Não, muito fofinha". Até muitas mulheres. O pai tal com-
Como se fosse uma coisa estranha, não é?
Sim, estás a fazer a coisa mais natural do mundo.
Sim, o que dizia na-
E isso não acontece
Quando tu vês uma mulher.
Ninguém olha pra mãe com: "Olha, vai ao Mercadona com as crianças". Mas o pai: "Ah, o pai vai ao Mercadona com as crianças". É a mesma coisa.
Pois é.
É a mesma coisa.
Sim, mas isso acontece sempre. Sim, acontece porque lá está, porque não é a norma.
E é.
Sim.
Não é a norma. Mas sim, a mim também me acontece isso.
Olha, como é que vocês hoje em dia-- pronto, já percebemos que aqui não há machistas, mas o que vocês diriam pra elogiar uma mulher hoje em dia?
Eu acho que há machistas. Eu acho que nós continuamos a ser machistas.
Sim, machistas, mas no sentido positivo. Também tem que haver um lado positivo do machismo que é.
Lado positivo?
Sim, temos orgulho
De seres homem?
Ser homem.
Claro que sim.
Aliás, de ser homem e de não ser homem machista.
Sim.
Ou seja, homem que eu acho como deve ser, a dividir tarefas, a parentalidade tem que ser uma coisa a dois.
O lugar da mulher é onde ela quiser, seja em casa, seja no trabalho, seja a viajar pelo mundo, seja onde for.
E eu só lamento ter, no meu caso pessoal, ter demorado imenso tempo a aprender a fazer várias das coisas que vocês aqui mencionaram.
Porque a tua mãe protegeu também muito isso.
A culpa é da tua mãe.
Mas lá está, também provavelmente foi o que ela viu em casa dela.
Sou machista numa coisa. Desculpem, sou machista numa coisa, lembrei-me agora, e tenho que assumir aqui na rádio, porque a Sara trabalha na EMA e o meu sonho, eu estou sempre a incentivá-la pra subir de lugar e não sei o quê. Cada vez que ela sobe, aumenta o ordenado, porque o meu objetivo, ela sabe disto.
Ela ganha mais do que tu.
Sou machista, mas sou sincero. Digo assim: "Quando tu chegares a este valor por mês, eu deixo de trabalhar". Faço as tarefas domésticas que já faço.
É.
E cuido dos miúdos, mas não faço mais nada. Eu trabalho à tua conta.
E tens uma supermama, 20 anos mais nova, o que é particularmente brilhante.
Pois é. Eu sou machista sempre no gozo da provocação em casa, porque eu vivo com três mulheres. Com três, não, com quatro mulheres. Eu vivo com quatro mulheres e eu gosto de provocar.
Estás sempre em minoria, não é?
Estou sempre em minoria. Então eu estou sempre a provocar, estou sempre a gozar. Eu muitas vezes estou com a Catarina e digo: "Catarina, se não fosse eu a ganhar o que eu ganho, quem eras tu hoje? Não tinhas nada disto". E em quantos meses ela ganha muito mais do que eu.
Isso não tem nada a ver hoje em dia.
Eu acho que principalmente é este pormenor. Como é que tu fazes esta separação do que é humor? Eu tinha uma piada que fazia num espetáculo, que eu acho que é a objetificação da mulher, mas toda a gente se ria disto, porque é uma piada, não é um sentimento. E a piada era qualquer coisa do gênero: toda a gente fala das mulheres e do papel delas enquanto mães. As minhas filhas sempre acordaram de duas em duas horas para mamar. Sempre. Ou não era assim? Espera aí, como é que é? Já não me lembro da piada, isto para essas anedotas. Não, era: a minha mulher acordava sempre de duas em duas horas para dar-me a mamar. Sempre acordava de duas em duas horas para dar de mamar às minhas filhas. Nunca fez isso por mim.
Ai, Catarina, és uma santa!
Que música é que escolheste?
"Calma".
Vamos com 57 minutos.
Deixa lá isso.
Só dizer mais-
A Maria J. não sabe.
Está bem. Relaxa. Toma um... A minha participação de hoje foi patrocinada por Brintelix.
Toma Brintelix, toma uma caixa. Toma uma caixa, João Félix.
Vou só terminar com este pensamento para todas as mulheres que estão a ouvir isto, que são para aí quatro: abrir a porta a uma mulher, elogiar uma mulher com gosto, com inteligência, carregar as compras do supermercado, não é machismo. Nunca confundam machismo com gentileza, porque ainda há homens gentis e acho que também não podemos acabar com a gentileza no mundo. Pronto, era isto que eu queria dizer. Se quiseres, posso acabar?
Lindo.
Pronto. E agora escolhi a música mais macha.
"Macho, macho man".
Exatamente. Para todos os machistas que nos estão a ouvir neste momento, devem ser alguns: dancem esta música como se não houvesse amanhã e continuem machistas, quero ver.
Perfeito.
Every man ought to be a macho, macho man. Live life with freedom. Macho make a stand. Have your own lifestyle and ideals. Persistence with confidence, like a steal. You can best believe that he's a macho man. He's a special person in anybody's land. Macho, macho man. Macho man, yeah. I've got to be a macho man. I've got to be a macho, macho, macho man. I've got to be a macho. Macho, macho man. I've got to be a macho man. Macho, macho man. I've got to be a macho. Macho, macho man. I've got to be a macho man. Macho, macho man. I've got to be a macho. Macho, macho man. I've got to be a macho man.
Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade. O Borges, o Horácio e o Raminhos estão na Rádio Observador, porque já são homens de uma certa idade.