Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade. O Borges, o Horácio e o Raminhos estão na Rádio Observador porque já são homens de uma certa idade.

Olá, bom dia, boa tarde ou boa noite, conforme o sítio, a hora, a latitude e a longitude em que nos estão a ouvir ou ver. Tudo é possível nesta era da aldeia global. Sejam bem-vindos a "Homens de Uma Certa Idade", o podcast mais extraordinário de todos os que são transmitidos na rádio à sexta-feira, a partir das 23h10, duas partes, na sintonia da Rádio Observador. Uma terceira parte, que é sempre exclusiva digital. O tema de hoje é, dentro daquela saga de temas leves que eu sempre trago quando é minha vez de estar aos comandos da emissão: o que vos faz chorar?

Olha esta introdução, por exemplo. A introdução faz-me chorar.

Portanto, hoje aqui a conduzir a emissão, Luís Filipe Borges, 48 anos, sem abrigo em formação.

Eu também, Marco Horácio, 51 anos, sou responsável pela cremação de cremes e chantilis.

António Raminhos, 45 anos e sou um bot do Instagram.

"Crème brûlée". E vamos a isto. Marco Horácio, o que te faz chorar?

Ainda bem que me faz essa pergunta. O que é que me faz chorar?

Daniela Oliveira faz-vos chorar? Vocês já foram, não é?

Não fez.

Não.

Quase que fez, mas eu acho que foi pelo cansaço.

Pois não. O que me faz chorar?

Porque eu vou te explicar.

É que sei tiro.

Porque aquilo são entrevistas, tu vês uma hora, mas são entrevistas de três horas.

Claro que ele está ali a descascar cebola.

Tu estás ali três horas. São conversas de três horas e tal e às tantas, tu começas a pensar: "Será que isto só vai acabar quando eu chorar?"

E ouves os Coldplay ao mesmo tempo ou aquilo só entra em pós?

Em pós-produção.

"I will try to fix you". Por acaso já chorei com essa música.

Já choraste com essa música?

Porque eles são uma mexas.

Ah, pois é.

Eu sempre choro com essas coisas. Já chorei neste podcast, inclusive.

Vou vos dizer uma coisa. Eu sou menino pra chorar, mas não admito, a ver um filmezinho da Fox Live. Aqueles filmezinhos que acaba sempre tudo bonitinho.

Fox Live. Mas tipo o quê?

São óperas.

Aqueles da jovem executiva que está em Nova York, mas tem que voltar à sua vida.

Aldeia. E depois choro.

Porque o pai está quase a morrer.

Quando estou com a Sara a ver esses filmes, quando chega essa parte, eu depois sou sempre o anti-romântico. Digo assim: "É pá, deve ser mesmo isto que está a acontecer".

Ela depois conhece aquele lenhador viúvo, que tem uma filha de cinco anos.

Exatamente. E quando ela chega à aldeia, ele está a cortar lenha de camisa aberta e a limpar o suor.

Odiavam-se no ciclo preparatório.

Exatamente. Ou então namoraram e deixaram namorar porque ela saiu para a grande cidade.

Traiu a sua identidade.

Estes filmes davam muito na TVI, quando não havia cabo.

Há mais originalidade em filmes porno do que nos filmes do Hallmark. Mas isso é muito bonito, assumires isso.

Isto era tipo filmes baseados em romances da Danielle Steel. Os livros da Danielle Steel, que são muito nesse registo, os títulos são sempre: "A Procurada", "A Abandonada", "A Violada". São sempre títulos deste género.

Ou seja, todos os filmes que têm um twist e que acabam assim uma coisa mais romântica e ele mexe sempre comigo, nunca admito.

Tomé, há um livro.

Mas não há dimensões das pessoas que te veem chorar?

Eu começo a ficar sensibilizado e a chorar e depois disfarço e mando uma piadola qualquer e estrago o momento.

Eu tenho uma pior, acho eu. O meu Tomé adora livros, histórias e tal. E há um livro que eu não consigo lembrar do título, porque acho que é o meu cérebro a acionar um mecanismo de defesa. Mas há um livro, os protagonistas são um urso e um rato, que são amigos. E no fim, um deles morre. E eu não consigo, eu já tentei duas vezes ler isso ao Tomé e o livro parte-me todo. Parte-me todo e depois eu tenho que fazer das tripas coração pra dar uma volta e pra ele não perceber, sempre da segunda vez ele já percebeu que o pai não estava muito bem. E tenho que inventar ali qualquer coisa, porque de repente, caraças, não tenho estaleca.

Mas aquilo é um livro infantil?

É um livro infantil e é um livro sobre a amizade e sobre a perda. É belíssimo. E parte-me todo. Eu não consigo ler o livro em voz alta sem ir às lágrimas.

Eu choro sempre.

Com animação.

Sempre.

A sério?

E o problema é que-

Nesse aspecto somos super diferentes, que eu sou super chorão e tu não, com esse detalhe da animação.

Eu choro. E quando eu digo que choro em filmes de animação, é em qualquer tipo de filmes de animação.

Até no Super Mario Brothers.

Eu vou te dizer onde é que eu chorei. Eu chorei agora num que está em voga, que é o K-pop Demons.

As Guerreiras do K-pop?

As Guerreiras do K-pop, que eu tive que me mamar esse filme.

Porra, Raminhos, estás a gozar comigo.

Não, as miúdas adoram.

Sim, eu chorei. E as minhas filhas tanto sabem que em qualquer filme de animação, porque geralmente os filmes de animação têm um clímax sempre também, uma personagem que morre, ou eles que se unem, ou fazem as pazes, ou whatever, sempre que chega este momento, as cabeças na sala viram-se todas pra onde eu estou sentado, que é pra verem se eu estou a chorar ou não. E já aconteceu, há um que não era de animação, mas era um filme infantil.

Rocky.

Não, mas já te digo outra: já chorei no Rambo. Eles choram em filmes que não têm nada a ver, tipo Rambo, Van Damme.

Por que eu estou a rir disto?

Lá foi o do Van Damme que tu choraste. Aquele que morre o irmão. Não, no Rambo é que eu chorei e eu só dizia: "Ele só queria voltar pra casa" .

Por quê?

O primeiro Kickboxer do Van Damme. Acho que é o Kickboxer. Depois teve não sei quantas edições. Mas o Van Damme é belga e estava a ter a sua primeira grande chance em Hollywood. E a premissa do filme é particularmente absurda, sendo que o cara é belga e fala muito mal inglês, porque a cena do filme é: o irmão dele, que é lutador, é morto no ringue.

Exatamente.

Com um golpe baixo de um adversário. E depois, claro, o Van Damme vai treinar pra vingar o irmão e enfrentar o tipo que matou o irmão. Além de fisicamente ele e o irmão não terem nada a ver, é que ao menos isso podia ter resolvido. O irmão é americano e ele também é americano. Só que ele diz assim: "Don't die, brother. Don't die, please. Don't die, brother" . Porque ele estava emigrado na Bélgica.

O americano perfeito.

Ele estava emigrado. Eu choro é nisso, é filmes de animação.

Então diz-me uma coisa, filmes de animação, tu no Kung Fu Panda, viste algum?

Por acaso eu acho que não vi o Kung Fu Panda.

Eu vi.

Tu fizeste o Kung Fu Panda.

Eu também.

Fizeste o quê?

Não fiz nada. Eu fui chamado para gravar pra um casting, isto já tem muitos anos. Esta história acaba bem porque um dos meus melhores amigos acabou a fazer, é o Marco Horácio. Mas eu fui chamado pra um casting e gostaram muito da minha voz e escolheram-me. E eu fui gravar o trailer do Kung Fu Panda, fazendo de panda. Fui gravar o trailer. O trailer que foi pros cinemas é a minha voz a fazer o panda. Originalmente feito pelo Jack Black. E depois o estúdio nunca mais me disse nada. E um belo dia o filme estreia e não era eu, claro.

Tu nem foste saber?

Eu fiquei lixado. Eu tinha a receber-

Pagaram 400 mil euros por filme

Eu tinha 175 € a receber pelo trailer, essa fortuna. Fiz muitos planos que envolviam a Tailândia. Mas fiquei tão ofendido, tão indignado que se lixe o dinheiro. Até que um dia, anos depois, na Carruagem, aquele barzinho onde a malta ia depois do Cinco à Meia-Noite. Um dia, ao balcão, está o dono do estúdio. Está lá ao balcão e a gente vai pagar. E eu estou com cara de poucos amigos. E o cara está meio que escops e tenta me cumprimentar.

E o Borges-

E eu: "Esquece". E ele fica: "Não queres cumprimentar, por quê?" "Não quero cumprimentar, por quê? Então vocês chamam pra gravar o trailer, depois não têm a decência de dar uma palavra, dizer alguma coisa". E a reação dele foi: "Eu é que estou ofendido contigo, que eu tenho lá dinheiro pra ti e nunca foste buscar".

Pois, estás a ver.

Olha, dá uma desculpa.

O estúdio é Honor.

É Honor. E foi o Raul?

Foi o Raul.

O Raul é um querido.

Já me disseram.

Tens que ver o Kung Fu Panda pra ver se choras.

Mas o filme é muito fixe e o Marco Horácio faz maravilhosamente.

Eu choro em quase todos, meu.

A razão parece que foi, isto é muito interessante, e as dobragens em Portugal são extraordinárias e os próprios americanos adoram.

Foi o lobby.

Não é lobby nenhum. A tua voz tem que ser aprovada nos Estados Unidos, o que é incrível.

Sim.

E basicamente o que os caras disseram foi: " Olha, gostamos muito. Precisamos é depois de ver o ensemble". E ainda não estava escolhido o Zé Raposo pra fazer o mestre.

Ok.

E depois eles acharam que a voz do Zé Raposo combinava melhor com a do Marco Horácio. Quem teve mau nome nisto tudo é o estúdio.

Devia ter dito alguma coisa, claro.

Devia ter dito qualquer coisa, claro. É só isso.

Pronto, está resolvido. Portanto, continuamos amigos, é isso, Borges?

Também fiz pro Gru maldisposto, mas fui péssimo. Fui miserável. Sabes aquela coisa que tu estás a fazer e estás: "Eu estou péssimo a fazer isto. Estou horrível, estou completamente ao lado". Ainda por cima aquilo chega.

Qual é o Gru?

O Gru é o que faz o Steve Carell. O Gru maldisposto, que tem um nariz muito comprido.

Mas tu fizeste o Gru?

Não, fiz casting, mas miserável. Não sei quem é que acabou fazendo o filme, mas não merecia ser eu, com certeza absoluta.

O que é que os faz chorar mais?

Tantas coisas.

O Benfica.

Eu já chorei muito com o Benfica.

Eu não chorei lágrimas, mesmo chorar, mas já estive muito perto disso acontecer. E ficar emocionalmente afetado, sim, mas chorar lágrimas, nunca.

E tu já choraste com o Benfica?

Eu já, montes de vezes, de alegria e de tristeza, mais as de tristeza. Nomeadamente, eu ainda tenho presente o Veloso a falhar o pênalti, o Veloso que eu tinha sido o nosso melhor jogador, na final da Taça dos Clubes Europeus com o PSV Eindhoven. Hans van Breukelen defendeu, até me lembro do nome do guarda-redes do PSV. Eu lembro-me, tenho presente o meu pai a levantar-se e a desligar a televisão, ainda a antiga. Não há comando, vai até lá e carrega no botão e eu estar em pranto absoluto. E o meu pai estava triste, mas tem uma maneira de reagir muito diferente. Uma coisa que me parte sempre, não interessa qual é o clube, não precisa ser futebol, um atleta que chegou ao seu último dia de carreira. Isso parte-me completamente. Roger Federer, Nadal, os jogadores da bola, claro.

A mim o que me parte, de alguma maneira, é-

Porque é a primeira morte deles. Aquilo é uma morte. Nunca mais vais fazer a coisa que tu amas e que fizeste a vida inteira.

E que provavelmente te tornou conhecido. Há uma coisa que também me emociona. Eu, por exemplo, estava aqui a pensar, choro Olha, chorei baba e ranho quando a minha primeira filha nasceu.

Os filhos para mim é...

Mas as outras já não chorei. Ou melhor, a segunda, Maria Inês, não chorei porque o parto foi complicado e com o estresse, um gajo está é aliviado. A terceira, chorei, por outras razões. A primeira, por ser a primeira, mas eu lembro que chorei baba e ranho, parecia um bebê. E quando a minha mãe morreu, eu até ao velório estive sempre bem. Normal, brincar, eu não sou de inibir emoções. Não tenho problema nenhum em chorar, não tenho nenhum problema em falar sobre as coisas. Portanto, eu sei que não estava a inibir nada. Estava lá muito bem, e lembro-me que quando fecha o caixão, é aquela coisa que se fala mesmo, quando se fecha o caixão da minha mãe, parece que abriu a fonte. E desato. E parecia outra vez um bebê a chorar baba e ranho. E chorei muitas vezes pela minha mãe, quando ia para casa, ouvir uma música que eu associava muito à minha mãe. O mais curioso era que eu associava à minha mãe e nem sei se a minha mãe sequer gostava da música. Provavelmente, até poderia gostar. Eu chorava sempre porque associava muito a letra ao poder da minha mãe. Hoje é engraçado que eu já ouço a música e sorrio. E eu não chorava de tristeza, atenção, eu chorava pela importância do que a letra significava em relação à minha mãe. Então eu choro assim muito em momentos pontuais, tirando o fato de realmente sempre só em filmes de animação.

Eu estava aqui a pensar, eu acho que a primeira vez que chorei a sério na vida, tirando todas as vezes de bebê, criança, essas coisas normais, quando eu tinha 15 anos, o pai de um grande amigo meu, até hoje, o meu único amigo de infância, o Luís Açoriano, que ainda está cá no continente, o pai dele morreu. E nós, aquele grupo de amigos, nós estávamos todos inconsoláveis e o Luís estava estoico e firme, da mesma idade que nós, 15 anos. E depois, em retrospectiva, analisando isto, eu acho que nós estávamos todos a chorar, claro, pelo nosso amigo, mas estávamos também a chorar, a pensar: "Podia ter sido o nosso pai". Pronto. E não foi. Portanto, acho eu, deve haver algum sentimento de culpa, por que isto aconteceu ao Luís, podia ter acontecido a qualquer um de nós, aconteceu a ele, há um certo alívio nessas lágrimas também, suponho eu. Enfim, isto para dizer que foi horrendo, obviamente, foi o primeiro funeral da minha vida, lembro-me da mãe dele. Esse momento, horrível. A senhora, tiveram que a segurar. E o meu amigo Luís já tinha mais de 40 anos quando chorou a morte do pai. Isto contou-me a mulher dele, minha grande amiga, fui eu que os apresentei, até. Fui o cupido disto. O pai dele era do Pico. O Luís já era um tipo maduro para a idade quando era adolescente e depois da morte do pai tornou um líder natural do nosso grupo. Foi obrigado a crescer de uma forma que nós não tivemos que experimentar. Mas então, nunca chorou a morte do pai. Até que, há poucos anos, alguém ofereceu uma garrafa de vinho, um belíssimo vinho do Pico, e essa garrafa foi o clique. Era a ilha do pai.

Engraçado.

Essa garrafa foi o clique e ele chorou horas.

Vê lá.

Décadas ali acumuladas.

25 ou 30 anos depois.

Incrível. E bom, já estou quase a chorar. É uma ótima maneira de acabar a primeira parte, que não teve áudios. Vamos ter áudios na segunda parte. Porque eu sou uma pessoa que respeita o tempo. Craque Daniel. Pesquisem isto, Craque Daniel, isto é incrível. Eu já vos explico o que é. Até já. Bem-vindos à segunda parte de "Homens de Uma Certa Idade".

Vocês nem intervalar sem abrir?

Estou aqui a fremir para ir à casa de banho, não posso.

A pergunta de hoje é: o que vos faz chorar? Eu hoje fiz uma edição especial Açores, pedi a três amigos açorianos que respondessem a esta pergunta.

Porque as pessoas dos Açores choram muito por causa da humidade.

Exato, estão sempre a chorar.

Elas naturalmente já têm lágrimas sempre nos olhos, por causa da humidade.

E o primeiro é um extraordinário fotógrafo, o meu querido amigo Luís Godinho, que é uma pessoa muito emotiva e é uma pessoa que gosta muito de falar e por isso são dois minutos e meio, preparem-se.

O que me faz chorar? Olhe, picar cebola faz-me chorar e muito, mas isso deve ser inerente a muitas pessoas. Isto era papavuismo. Na verdade, sou uma pessoa bastante sensível e muitas coisas, infelizmente ou felizmente, fazem-me chorar. Já dizia o meu avô: "Quem não se sente não é filho de boa gente". Histórias de amor, resiliência. Eu que trabalho muito em África, acontece muito despedidas, desde a guerra da Ucrânia, para mim passaram a ter um significado diferente e emociona-me sempre muito e faz-me chorar, na verdade. Belezas invisíveis, histórias de humildade, de amor, resiliência que já disse. Na verdade, às vezes há coisas demasiado banais. Sei lá, dou um exemplo: às vezes estou a ver no YouTube o America's Got Talent. Aqueles programas que são lindos, não é? Em que aparece alguém que nós olhamos e, às vezes, o ser humano julga. E depois, por trás, há uma história inspiradora e alguém que canta fora do normal ou que tem um dom qualquer e a gente: "Uou!" E aquilo faz-me transbordar lágrimas, na verdade. E muitas vezes são essas coisas assim simples, gestos de amor, de simplicidade. Às vezes vou pra África trabalhar e uma criança que não tem sapatos e está com a roupa rota é a primeira pessoa a dizer: "Olha, cuidado. Olha, toma." Se calhar, tem um gesto de carinho e de amor pra contigo quando dá-te uma flor. Eu lembro perfeitamente um dia em São Tomé e Príncipe que tinha chovido torrencialmente e uma criança que estava descalça, com os pés na lama, e eu ia passar e ela me disse: "Olha, cuidado para não te sujares os pés". Eu olhei pra aquilo e claro que fez-me logo chorar. E é isso.

É um chorão. Mas também passa por situações...

Luís Godinho, premiadíssimo, sigam no seu site luisgodinho.com ou no Instagram @luisgodinhophoto. Como se vê neste áudio, o Luís já esteve em sítios: Senegal, República Centro-Africana, Cabo Delgado, em Moçambique, Ucrânia.

Isso se calhar faz-te chorar. O fato de tu chorares nesses sítios e entenderes essa dor, se calhar também te torna, não imune, mas menos sensível a outras coisas que possam acontecer aqui. Será? Não estou a desvalorizar coisas que continuam a ter importância, mas como tu já viste coisas piores ou mais difíceis, será que perdem importância?

Não sei. Quer dizer, deve ajudar a relativizar, não é? Com certeza.

Sim, de alguma maneira. Mas eu também sou como ele, tipo cenas do Got Talent. Às vezes ponho-me a ver o America's Got Talent. De vez em quando aparece lá, eles têm mesmo essas histórias, o miúdo que é cego, autista, hiperneto.

E o Simon Cowell olha sempre para esse lado e depois, de repente, o cara canta.

Sim, não canta porque é mudo também, mas toca muito bem piano com o único dedo que tem.

E faz um brilharete.

Não, estou a brincar com o Elvis, mas estas histórias, sim, são incríveis. E realmente uma vez vi lá um miúdo que estava no espectro do autismo e cego. O puto tocava e cantava, que era uma cena que era impossível tu não te sentires emocionado por aquele talento. Ou então, este tipo de surpresas. Há um vídeo que me arrepia sempre, que eu tenho que vos mostrar, que se calhar vocês vão ver aquilo e vão dizer: "Ah, tá giro". Que é uma surpresa: há uma equipa de basquete da Turquia que se chama o Anadolu Efes, que é uma das melhores equipas da Turquia, da liga turca e da Liga dos Campeões Europeus de basquete. E os fãs ou o clube, combinado com o clube, fizeram um apanhado em flash mob num concerto de música clássica, em que os jogadores vão apanhar uma seca do caraças num concerto de música clássica, e tu vês as caras dos caras completamente que se cador, e de repente aquilo ganha uma dimensão porque a orquestra começa a tocar uma música que utilizam muito nos jogos. A própria música é épica. E depois aquilo tudo transforma-se ali. Eu vou mostrar-vos pra vocês verem. Tal como, por exemplo, no Gladiador, a música do Gladiador e a cena do Gladiador quando o cara morre no fim, e o cara a ir a voar pelo campo de seara, por aquela seara, acho eu, ou de trigo, a pairar, está incrível.

Incrível.

Muito bem. Camada de chorões.

My name is Maximus Decimus Meridius.

No Xixolina.

Claro, tinha que vir.

Chocolate preto.

Estás a ver?

Loyal servant to the true emperor, Marcus Aurelius.

Marco Aurélio.

Commander of the legions of the North, father to a slaughtered son, husband to a murdered wife. And I will have my vengeance, this life or the next.

Epa!

E já viste o dois? Gladiador 2?

Tive uma namorada que adorava.

Que ela fez isso enquanto tiravas a roupa.

Tentei mais recentemente com outra pessoa e não. Ai, não. Ela disse: "Vem ver sim". Não.

Não, e ela pegou no comando e tentou mudar de canal.

Pôr Newton, Mega Newton.

Vi o dois e não tem comparação. O dois é o Washington vale o bilhete, mas não tem comparação. Não tem mesmo. Já pra não dizer que há uma cena absurda. Há um combate no Coliseu

Dos recreios?

Há uma cena de gladiadores no Coliseu em que aquilo é tipo estás a subir de nível cada vez que os gladiadores vão.

Água, não é?

É. Exato. De repente, o Coliseu está uma piscina e tem tubarões.

O quê?

Eles estão nuns barcos a imitar piratas. E o chão do Coliseu uma piscina.

Uma piscina e os tubarões a atacar.

Eu adorava ver um combate de gladiadores no Coliseu dos recreios entre La Feria e João Baião.

Imagina.

La Feria já tem 80 anos, acho que não tem hipóteses. O Baião continua incrível.

Já tem 60, não?

Tirou um caldeirão de cocaína quando era pequenino.

Não, em grande forma, grande energia sempre.

Impressionante. Vamos ouvir o segundo áudio. O segundo áudio é de um amigo recente.

Deixo-te adivinhar, açoriano.

Eu disse: "Eu quero ouvir este em especial." João Mendes Coelho é um extraordinário psiquiatra e tem escrito crónicas incríveis no Açoriano Oriental, que ganham merecidamente muita tração online. É também uma das pessoas que está na frente da luta contra o flagelo das drogas sintéticas, que tem afetado terrivelmente os Açores e a Madeira também. E o João deixou esta mensagem.

Olá a todos, espero que estejam bem. Aqui o meu amigo Luís Filipe Borges lançou-me um desafio para partilhar publicamente aquilo que me faz chorar. E eu estive a pensar ao longo do dia sobre isso e gostava de destacar duas coisas que me perturbam, que me incomodam e que me podem fazer chorar. A primeira é por algum tipo de estigma, preconceito, medo, vergonha ou qualquer outro motivo, pessoas que estão a passar por grandes dificuldades, ou pelo menos que as sentem como grandes dificuldades, não recorrerem à ajuda, não pedirem ajuda, isolarem-se, perderem-se um pouco nesses seus caminhos e nessas dificuldades e com isso acabarem por tomar decisões muito erradas. E acho que isso é uma enorme pena, porque em muitos casos poderiam facilmente, ou talvez não facilmente, mas poderiam ser certamente ajudadas. E esse era o meu primeiro ponto. O segundo ponto sobre algo que me faz chorar, e vem muito também da minha profissão, eu apoio a Unidade de Cuidados Paliativos do hospital onde trabalho, e é falar com algumas pessoas que estão próximos do fim da sua vida e eles, ou elas, terem a noção de que a vida não lhes fez sentido e, portanto, que esta passagem por aqui não foi proveitosa e geralmente acontece com pessoas que estão em conflitos com outros familiares ou com pessoas próximas e que não os conseguiram resolver. E isso é algo que me deixa profundamente triste, é não encontrar esse sentido ou não ver esse propósito de ter passado por aqui. Um grande abraço.

João Mendes Coelho, que a este propósito pediu-me muito bem que eu falasse da linha 1411.

A nova linha de apoio à prevenção do suicídio. Uma linha que funciona 24 horas.

Integrada no SNS 24.

1411.

1411, assegurada por psicólogos e enfermeiros especialistas em saúde mental e excelente iniciativa, não é?

Claro que sim.

Nada a dizer.

E tem sempre também o SOS Voz Amiga, que não é uma linha de prevenção, é uma linha de conversa, de desabafo, também de prevenção, obviamente, do suicídio e de outras condições em que nos sentimos muitas vezes não compreendidos e sozinhos. E se quiserem, no podcast Somos Todos Malucos, tem lá a entrevista quer sobre os dois temas, sobre esta linha de prevenção do suicídio, quer da SOS Voz Amiga, e são duas conversas muito interessantes e onde mostram a importância destes dois trabalhos.

Um grande podcast, o Somos Todos Malucos. E agora estou a sentir horrível, como é que a gente não se lembrou antes de falar aqui do Somos Todos Malucos?

Por que havíamos de falar?

Porque é teu, é possível.

Eu não estou aqui para promover coisas.

Para dar dinheiro aos outros.

Para estar aqui a encher o cu ao Raminhos de euros.

Mas que fortuna que nós ganhamos para dizer isto. Custa-nos muito dar zero de zero. Músicos, nunca choraram com a morte de um músico?

Com a morte de um músico?

O Kurt Cobain, não?

Eu acho que não tinha muito bem-- o Kurt Cobain morreu em 94, não foi? 93 ou 94.

Penso que 93.

Eu tinha 13, 14 anos.

Pois.

Eu fiquei chocado, porque eu gostava de Nirvana e tinha o meu casaquinho branco de malha, muito inspirado em Kurt Cobain e que a minha mãe odiava, porque o casaco já vinha do meu irmão, que é 19 anos mais velho do que eu. Houve uma vez que eu deixei de ver o casaco e não sei, pronto, olha, perdi o casaco. E só anos mais tarde é que a minha mulher me contou que a minha mãe deitou-me o casaco fora e não me disse.

Caralho.

Acontece.

Eu chorei com a morte do Leonard Cohen, que morreu bem velhote. Mas eu lembro-me de ter, a única panca do meu pai são gadgets. Eu tinha oito ou nove anos e, portanto, as únicas coisas que eu sabia dizer em inglês era: "Yes, no, stop". E o meu pai tinha acabado de comprar uma aparelhagem Estava a testar. Eu adorava, estava a mexer nos níveis daquilo. Estava sintonizado numa rádio, só ouvia a Antena 1. Isto é no tempo em que a rádio de vez em quando dava concertos inteiros. E a Antena 1 transmite "Live from London, Leonard Cohen". E eu estava no sofá, e aquela voz, eu não percebia o que o homem estava a dizer, mas aquela voz grave, cavernosa, teve um efeito qualquer em mim. O meu pai, a certa altura, muda de sintonia e eu: "Pai, podemos voltar a ouvir o senhor da voz grossa?" "Está bem". E eu lembro-me de ouvir aquilo até ao fim. Tornei-me um grande fã. Depois quando aprendi a língua, o Cohen foi o que era, um poeta extraordinário. E apesar de ele ter falecido bem velhinho, mexeu comigo, até porque tive a felicidade de o ver ao vivo duas vezes. Uma felicidade que só aconteceu porque o Leonard Cohen foi roubado pela sua contabilista, os milhões.

Que o obrigou a fazer mais concertos.

E ele teve que voltar pra estrada com 70 e tal anos, e eu ainda o vi duas vezes. E um dos concertos no Altice Arena, ele tinha uma banda grande e ele tinha um senhor que tocava bandolim. Nunca me tinha acontecido emocionar-me com o talento-

De uma pessoa específica.

De uma pessoa específica. O rasgo individual de um virtuoso. Este homem que tocava bandolim e era um senhor gordinho, também velhote, e a certa altura ele tem um solo. Aquilo levou-me às lágrimas. Um solo de bandolim, que tu obviamente consegues ver a expressão, a expressão dele era impressionante de concentração e de dor.

É engraçado, porque o que te faz chorar, desculpa interromper, mas estava aqui a pensar sobre isso, o que te faz chorar muitas vezes não é o talento da pessoa, não é a música. A música também, mas não é o talento, é tudo aquilo que está a acontecer naquele momento, é uma conjugação de factores. É a música, é o talento, a perfeição com que o toca, nesse caso.

A oportunidade de estar aqui.

A oportunidade de estares lá, o que aquilo te traz e te faz pensar, e muitas vezes tu captares a própria emoção da pessoa que o está a fazer. Portanto, se fosse a música isolada, o que te faz chorar nunca é a música por si só. Ela tem que ecoar, tem que ressoar em algo.

E tem que às vezes até trazer-te algumas memórias. E que tudo junto, tudo misturado, emociona-te.

Na terceira parte, exclusivo digital, Marco Horácio vai dizer-nos o que é que o faz chorar além de filmes do Al Mark.

Ele ainda não disse nada.

E teremos também, não sei bem como, mas chegaremos à pornografia de alguma maneira, porque é uma assinatura dos homens de uma certa idade. Muito obrigado ao auditório radiofónico do Observador.

Muito obrigado.

Continuamos na net. Até já.

Até já.

Homens de uma certa idade.

Estou a espreguiçar e a chorar ao mesmo tempo.

Então, Horácio, o que é que te faz chorar a sério?

Os meus filhos.

Pronto. Diz lá uma cena ordinária.

O que tu queres que eu te diga?

Nunca choraste na cama?

Nunca chorei na cama.

Com uma mulher? Tipo: "Desculpa".

Isto nunca me aconteceu. Isto é a primeira vez que me está a acontecer.

Este mês.

Não, por acaso. Este programa está a ser muito emocional.

E é bom.

É bom. Quando a minha mãe faleceu, eu estava dentro do meu carro à porta de casa, quando a minha irmã me ligou.

Mas recorda-me só uma coisa, tua mãe já estava doente, não estava?

Tinha tido um AVC e depois tinham descoberto um cancro no estômago. E ela, até me já disse isto, eu acho que ela foi tão bondosa durante a vida dela e tinha tanta fé, que Deus deu a oportunidade de ela escolher ir embora e não ser operada, porque ela ia ser operada dois dias depois, ao tumor. E ela decidiu não ficar cá, e ele fez essa benesse, ou seja, deixou-a ir embora. Eu recebi a notícia da morte da minha mãe, estava no carro, a minha irmã ligou-me e eu fiquei um bocado atordoado, como é óbvio, mas não chorei. Só chorei quando cheguei lá acima e tive que contar ao meu filho, ao Guilherme, que a avó dele tinha falecido. É um pranto. Mas depois, durante o velório e durante o funeral, não chorei. Chorei tudo o que tinha a chorar ali com meu filho. E depois também a girar, porque voltei a chorar com o meu filho, ao pé do meu filho, já ele tinha 17 anos. Quando eu lhe contei pela primeira vez.

Que ias ser pai?

Não. Quando eu lhe contei porque é que me separei da mãe dele. E como é que tinha sido a minha vida com a mãe dele.

Isso é importante.

Sim, porque eu achava que ele já tinha maturidade pra ouvir, e aí chorei eu e chorou ele também, e choramos agarrados um ao outro. E depois, óbvio, quando a Maria Leonor nasceu, também, de alegria, que é sempre bom.

Eu também chorei com os meus pais quando lhes disse, a minha mãe ia entrar nos cuidados paliativos. Portanto, já toda a gente sabia onde é que aquilo ia terminar. Porque depois a minha mãe começou também, foi num processo também oncológico, mas depois como já tinha algumas metástases também no cérebro, havia momentos em que não dizia coisa com coisa.

E então eu aproveitei aquele momento em que ainda está lúcida para lhe dizer: "Sentei o meu pai e a minha mãe e aproveitei. Olha, vou aproveitar os dois, mato dois coelhos de uma cajadada só." E estive a falar com eles, a dizer que eu gostei muito de os ter como pais e que não os culpabilizava por nada, que sempre faziam o melhor que sabiam e que os amava muito. E foi muito importante poder fazer isso.

Para eles e para ti.

Por isso, há aqui duas questões. O Borges está a chorar daqui a um bocado.

Sim, mesmo.

Eu acho muito importante uma coisa: digam às pessoas que as amam. Como é que eu hei de explicar? Às vezes, por exemplo, eu gostava do meu pai, mas eu não tenho problema nenhum em dizer que gostava mais da minha mãe que do meu pai. E tive problemas com o meu pai, mas eu amava o meu pai, se calhar não da mesma maneira, mas foi importante para mim dizer-lhe a importância que ele teve na minha vida, porque é sempre assim. Portanto, digam às pessoas o importante que elas são na vossa vida. Mas uma coisa que eu acho também superimportante, que é: mesmo que elas já cá não estejam, digam na mesma.

Sim.

Isto não se trata de acreditar que: "Eu estou a falar e ele está a ouvir." Se acreditarem nisso, como eu acredito-- o meu pai, por exemplo, fez ontem anos e eu dei-lhe os parabéns. O meu pai morreu há três anos, acho eu. Eu dei-lhe os parabéns e falei um bocadinho com ele e dei-lhe uma prenda. Imaginei dar-lhe uma prenda. Isto é tão simples como: se vocês acreditam na vida para além da morte, isto vai chegar lá. Se vocês são ateus e não acreditam, isto em termos psicológicos, em termos de saúde mental, é bom. Estão a apaziguar-se, estão a manter conexões. Portanto, se puderem dizer às pessoas que gostam delas ou a importância que tiveram ou resolver coisas de maneira pacífica, façam-no.

Claro. Eu tenho um pequeno altar com a foto da minha mãe e fotos de algumas pessoas, e acendo sempre uma vela quando tenho um fim de semana com muito trabalho ou qualquer coisa importante na minha vida e falo sempre com ela, e falo sempre como se ela estivesse presente, tipo: "Olá, mãe, está tudo bem? Olha, tenho saudades tuas, devias ver a tua neta, ias adorar a tua neta." E eu imagino muitas vezes a minha mãe brincar com a Leonor, porque a minha mãe era muito barraqueira no sentido de dançar e cantar. Ela fez isso com o Guilherme, então com a Leonor ainda fazia mais. E digo muitas vezes que tenho muitas saudades dela e, de facto, tenho. Não choro, mas ela para mim está sempre presente. E eu preciso de sentir que ela está presente, porque ela sempre foi uma figura-

Um farol.

Sim, e um amor incondicional.

Tenho pena de não ter conhecido a tua mãe.

E tranquilidade.

Conhecemos o senhor...

Gonzaga.

O Gonzaga.

O Gonzaga e a Graciosa, sim.

E uma coisa: no outro dia encontrei uma foto quando nós fomos almoçar a casa do senhor Gonzaga. Nós os quatro.

Também me lembro muitas vezes dele e da sabedoria dele.

Era muito castiço. Morreu com o quê? Duzentos anos, não foi?

Foi quase.

Morreu com o quê? Noventa e quê?

E quatro.

E sempre impecável, só mesmo no fim.

Como uma tartaruga olava e dizia: "A sério, meu?"

Não, e ele muito agarrado à vida, sempre muito agarrado à vida, com muita vontade de viver e com aquele castigo que eu acho horrível quando uma pessoa é mais velha, que é a cabeça dele estar a uma velocidade-

Que o corpo já não acompanha.

O corpo já não acompanha. Isso deve ser uma prisão.

Isso já não vai acontecer conosco, porque com a inteligência artificial vão nos dar corpos cibernéticos daqui a 30 anos. O Borges vai ser um angolano de 1,92 m daqui a 20 anos.

Não consegue dizer que ganha competições desportivas porque estás sempre a ser interrompido por anúncios. É o preso.

Isso é do "Black Mirror".

É, é mesmo.

Isso é de um episódio do "Black Mirror".

Viste? Olha, eu sei que tu tens mais um voice, mas eu perguntei também ao ChatGPT o principal motivo das pessoas chorarem.

Isso é a versão grátis ou tu estás a assinar?

É grátis. A Sara é que está a pagar.

É que a resposta de há bocado parecia boa demais para ser o grátis.

Pronto, esta é a pagar. Sabes que eu também, para os meus amigos, é o melhor.

Eu subscrevi.

É que se tu fores no grátis, tu perguntas isso e ele diz assim: "Não sei. O que eu tenho a ver com isso?" Vai ler, levanta o cu e vai à biblioteca.

Estudasses, coirão. Então, qual é o principal motivo das pessoas chorarem? O principal motivo para o choro é sobrecarga emocional.

Sim.

Estudos mostram que a maioria das pessoas chora não por um evento específico, mas por acumulação de tensão, frustração ou tristeza prolongada. O choro serve como válvula de escape neurobiológica, acalmando o sistema nervoso.

Eu já chorei a meditar.

Fogo.

Mais do que uma vez. E todas as vezes não foi de tristeza, não sei explicar o que foi, sendo que uma das vezes eu ia pra casa e pensei: "Tenho que ir meditar", e eu só pensava: "Tenho que ir meditar". E foram 20 minutos que eu estive a chorar.

Nossa.

Caramba.

E fiquei fixe depois. É engraçado, porque eu sou da geração de 80, vocês são um pouquinho mais atrás, mas mais ou menos da mesma geração. E ainda assim, eu acho que estão aqui três homens que não têm problemas em lidar com as suas emoções.

Não.

Isso é muito curioso. E os nossos pais, neste caso, pai, figura paterna mesmo, eram exatamente o oposto.

Eu acabei há dias um workshop extraordinário.

De choro?

De certa forma.

Kundalini.

O magnífico Manuel Pureza levou a cabo um workshop de interpretação e eu achei que era fixe. Pois é, eu gosto de fazer coisas Diferentes. Acho que eu ainda gosto de me desafiar. Portanto, com 48 anos eu sabia duas coisas: vou estar no meio de atores, e eu não sou, e vou ser a pessoa mais velha. O que é estranho, um cara habituar-se a ser a pessoa mais velha nos sítios, inclusivamente mais velho que o Manuel, que só tem 41 anos. E ele fez aquilo tão bem. Uma das coisas que ele tinha no alinhamento, isto foram cinco dias seguidos, três horas e meia cada dia, nós levávamos sempre uma pergunta em que tínhamos que pensar para responder no dia seguinte. Uma parte interessante do workshop foi uma experiência de partilha. E uma das perguntas que ele fez foi: por que a sociedade dá tanta importância à relação que temos com os nossos pais e aos traumas que isso pode ou não deixar? Isto tinha a ver com construção de personagens. As personagens, nos seus perfis, estão sempre marcadas, de alguma maneira, pela relação com o pai, com a mãe ou com ambos. Mas depois as pessoas chegam e caramba. Logo no dia a seguir, a primeira rapariga que falou.

Começou a chorar.

Incrível. E portanto, basicamente, eu chorei todos os dias.

Por isso é que eu odeio workshops.

Do pureza.

Do pureza. Só odeio workshops, mas só do pureza.

E fez-me muito bem.

Mentira. Mas eu odeio. Por exemplo, já fiz retiros espirituais, fiz um ou dois, mas já fiz workshops muito ligados sempre mais à área da saúde mental ou da espiritualidade, e não gosto. Não gosto porque há muita gente que está ali a resolver coisas.

Sim, e tu apanhas com essa energia.

E apanhas com isso tudo. Então não estou para isso.

Eu acho que aqui o bom é também as pessoas perceberem que chorar também é uma libertação.

Por quê?

Estás a libertar vapor.

E tensão.

Tensão.

Libertar vapor.

É steam.

Eu estou a lembrar de ir com a minha ex-mulher ver o "Hacksaw Ridge", que é um filme de já uns anos bons, realizado pelo Mel Gibson, sobre a história verídica de um objetor de consciência, um rapaz que é obrigado a ir para o Vietname, mas ele é objetor de consciência. Portanto, o cara está na guerra e não usa armas, e é obviamente alvo de bullying na recruta, na tropa, na guerra. E depois, no desfiladeiro de Hacksaw, ele salvou acho que 70 companheiros.

Mas é história verídica?

Verídica, sim. Eles estavam encurralados pelos japoneses, pelos vietnamitas. Já não sei se é vietnamita, se é japonês. Pode ser japonês.

Japoneses, Segunda Guerra.

Pode ser Segunda Guerra Mundial, sim. O que interessa é que é a história verídica deste tipo, que sem uma arma, estava na guerra e salvou 70 caras de morrer. Porque ele sobe aquele desfiladeiro e traz uns com cordas, e sobe outra vez e traz mais um, e sobe outra vez e traz mais um, até que cai de cansaço.

Não morreu?

Não morreu, mas há uma cena em que ele está a desfalecer, está numa maca, está a ser levado dali para fora, e ele era religioso, e está a dizer: "Oh, Lord, help me get one more, help me get one more". E eu estou a chorar. Babo e ranho.

No cinema?

No cinema. E a Sara dá-me uma cotovelada e: "Estás a chorar, seu maricas?" Isto é tão bonito, isto é real, ele queria salvar mais um. Salvar mais um.

Olha, uma coisa, uma pergunta muito pertinente, que estamos a terminar.

Ainda tenho um áudio.

Ainda tens um áudio para tocar.

Como é que nós vamos meter pornografia aqui agora?

Não vamos conseguir.

Não vamos conseguir nesse áudio.

Isso é muito bonito.

Isso vai me fazer chorar de alegria.

Vamos ouvir a minha querida amiga Sara Miguel, uma portuense que se apaixonou pelos Açores, cantora jazz e professora, com dois projetos fantásticos, os Mar e Ilha.

E os Ilha e Mar.

Os Mar e Ilha, que é um coletivo que promove a viola da terra, um instrumento típico dos Açores. Acabaram de ganhar um prêmio da Fundação Inatel, que lhes vai permitir tocar muitas vezes no continente e trazer a magia da viola da terra a outros públicos. E também integra as Línguas de Fogo, uma banda exclusivamente feminina que canta Natalia Correia. Vamos ouvir Sara Miguel. O que a faz chorar?

O que me faz chorar? A injustiça. Desde que sou miúda, sempre houve uma fibra cardíaca aqui dentro que se revolta muito, que vibra muito, sempre que vejo ou sinto injustiças. Sempre que alguém tenta exercer o seu poder sobre alguém, sempre que alguém fala de outra pessoa sem verdade, sempre que alguém trata outra pessoa injustamente, fico tão revoltada, tão sem saber como é que as pessoas conseguem ser assim, tão pouco humanas umas com as outras. E isso faz-me ter vontade de gritar, de chorar e de atirar com tudo pelo ar. E depois também há o choro bom. Aquele choro de emoção profunda. Por exemplo, quando se alia a música perfeita às imagens perfeitas nos filmes, quando temos uma imagem tão única, tão forte e quando o som perfeito se alia àquela imagem, parece que todas as células de humanidade que estão em todos os lugares, todos os objetos, se elevam no ar e parece que tudo aquilo que nós temos de mais profundo e de mais verdadeiro vem ao de cima com as lágrimas. Eu emociono-me muito facilmente quando essas artes se ligam assim e quando se conectam profundamente comigo.

Bonito.

Fala tão bem a Sara.

Sim. Bonito. Vamos terminar sem pornografia.

Graças a Deus.

Fantástico.

Graças a Deus.

Vamos acabar com uma música que eu sempre Preciso, porque às vezes a gente precisa de chorar.

Sim.

E eu sei, há um interruptor pra mim que é Nick Cave. Nick Cave and the Bad Seeds são a prova de que o português pode ser uma língua muito bonita, mas não é cool como o inglês.

Eu pensava que era o Toy.

Eu duvido que Nick Cave and the Bad Seeds tivessem tanto sucesso se fossem Nick Gruta e as Más Sementes. Mas Nick Cave, uma das músicas que dá cabo de mim, no bom sentido do termo, é Into My Arms.

Claro.

E pronto, é assim que nos vamos despedir, carpindo.

E chore. Chore sempre que quiser e que puder. Chore pro bem e pro mal. Raminhos, ias dizer qualquer coisa agora. Raminhos? Estás aí, Raminhos?

I don't believe in an interventionist God. But I know, darling, that you do. But if I did, I would kneel down and ask him. Not to intervene when it came to you. Oh, not to touch a hair in your head. Leave you as you are. If he felt he had to direct you. Then direct you into my arms. Into my arms, Oh, Lord. Into my arms, Oh, Lord. Into my arms, Oh, Lord. Into my arms. And I don't believe in the existence of angels. But looking at you, I wonder if that's true. But if I did, I would summon them together. And ask them to watch over you. Oh, to each burn a candle for you. To make bright and clear your path. And to walk like Christ in grace and love. And guide you into my arms. Into my arms, Oh, Lord. Into my arms, Oh, Lord. Into my arms, Oh, Lord. Into my arms. But I believe in love. And I know that you do too. And I believe in some kind of path. That we can walk down, me and you. So keep your candles burning. Make a journey bright and pure. That you'll keep returning. Always and ever more. Into my arms, Oh, Lord. Into my arms, Oh, Lord. Into my arms, Oh, Lord. Into my arms.

Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade. O Borges, o Horácio e o Raminhos estão na Rádio Observador, porque já são homens de uma certa idade.