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O Ideias Feitas. Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo. Obrigado.

E hoje a previsão do ministro Gonçalo Matias, em entrevista aqui no Observador, disse que acredita que a AD vai ganhar com maioria absoluta as eleições de 2029. Alinhas na previsão ou estás mais desconfiado?

Se calhar é possível e, de qualquer maneira, não tenho razões para duvidar do senhor ministro. Ele até diz: "Não tenho a mais pequena dúvida de que essas eleições de 2029 serão ganhas pela AD com maioria." Isto foi em entrevista aqui à Rádio Observador. Ele é o ministro da Reforma do Estado, o doutor Gonçalo Matias, e afirmou estas coisas e explica por que isso acontecerá. Ele não se riu enquanto dizia isto: graças ao espírito reformista do governo. Ele explicou que a AD e o primeiro-ministro alcançarão a maioria absoluta à medida que os resultados das reformas do Estado, das medidas fiscais e da eficiência econômica começarem a ser sentidos na vida dos cidadãos. Há aqui alguns pontos que me levantaram a curiosidade ou que me suscitam algumas reflexões. Para começar, a questão das reformas do Estado. Se calhar consegue-se arranjar, mas é um bocado difícil imaginar um governo com menos propensão para reformar seja o que for do que este, exceto se nos limitarmos a comparar com os governos do doutor Costa, claro. A nuance aqui é que em Portugal a popularidade de um executivo não aumenta em relação direta com a sua aptidão para levar a cabo verdadeiras mudanças, mudanças estruturais, e muito pelo contrário. Acho que se nota, já temos 50 anos de regime, 50 e picos, que há uma quantidade talvez suficiente do eleitorado que está sempre pronta a castigar qualquer mudança. Diz-se que se vai reformar isto ou aquilo, porque fica bem, mas o mais importante ainda é assegurar que não se reforma nada de relevante. O ministro da Reforma do Estado tem, com certeza, a noção de que um governo que reformasse, de facto, metade ou um terço, se calhar, daquilo em que o Estado precisa de ser reformado, não chegaria nem a 2029, nem chegaria provavelmente a dezembro deste ano. Nem se calhar aguentava mais de uma semana. Logo, esta conversa das reformas é uma conversa fiada e para um governo cujo objetivo já se percebeu que é a própria sobrevivência, precisa ser uma conversa fiada. E, em suma, se o julgássemos apenas por este critério, o governo estaria no bom caminho para chegar a 2029. O problema para o governo é outro, ou parece-nos ser outro, porque o principal nas declarações do senhor ministro prende-se com a profecia da vitória em 2029, que é uma maneira de dizer que o governo aguentará uma legislatura inteira. Isto tem a sua graça, na medida em que o próprio governo, o PSD e o CDS parecem menos confiantes em vitórias eleitorais do que o ministro Gonçalo Matias, já que os senhores que estão no poder têm andado, sobretudo nos últimos dias, ainda mais, a amanhar um discurso para efeitos de negociação orçamental assente na ideia de estabilidade e, sobretudo, na ideia de estabilidade enquanto um bem em si mesmo. Ou seja, isto é mais ou menos recorrente. O governo está a tentar criar condições para que se culpe a oposição pelo advento de uma terrível instabilidade em caso de queda do governo. E aqui o governo já não parece estar no bom caminho, como aliás as sondagens comprovam e como a atenção diária que o PS e o Chega dedicam às sondagens também acho que comprova. Porque uma coisa é fingir que fazem reformas enquanto se pisca o olho a um eleitorado que maioritariamente não gosta de reformas e não as toleraria, outra coisa é vender a ideia de que a instabilidade é positiva a um eleitorado que não vê grande coisa de positivo em mantermo-nos tão estáveis como estamos. Eles dizem, e isto são afirmações de hoje, fresquinhas, que o país não precisa de crise ou de entrar em crise, a um país que obviamente está em crise, ou que entrou em crise. E por muito que o doutor Montenegro e os seus adjuntos tentem espalhar a alucinação de um país que vive alheio, imune às perturbações da Europa e do mundo, uma espécie de oásis, as pessoas sentem na pele a inflação, os preços dos combustíveis, o sufoco fiscal, que nunca alivia o suficiente, nem perto disso, as sucessivas subidas dos juros, a impossibilidade em comprar casa ou alugar casa, ou quase impossibilidade para a grande maioria das pessoas, a dependência do turismo, a brutal ineficiência econômica, ao contrário da tal eficiência que, segundo o senhor ministro, estaria em franco crescimento. Agora, claro que boa parte das pessoas não repara que uma parcela destas maçadas, destes contratempos, se deve, ou pelo menos é agravada, justamente à falta das reformas que o governo finge que faz e não faz. Mas as pessoas todas ou quase todas sentem as dificuldades crescentes de se viver em Portugal e essas dificuldades tendem a agravar-se até chegarem a um ponto insustentável. Esta crescente penúria do dia a dia não se disfarça com a tal conversa fiada, não se disfarça com ilusões. Daí que a grande dúvida é saber quem ganhará não as eleições de 2029, mas as de 2027, porque o resto já sabemos. Sabemos que quem ganhar as reformas continuará míticas, sabemos que o nível de vida continuará a afundar e como não temos motivos para duvidar do senhor ministro, sabemos que a AD ganhará com maioria absoluta as eleições de 2029, só que também não sabemos qual AD será essa e desconfio que este senhor ministro Gonçalo Matias até nem estará por lá.

Obrigado, Alberto, e até amanhã.

Até amanhã, Ricardo.

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