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Para já desfazemos ideias feitas. Conosco está o Alberto Gonçalves. Alberto, bem-vindo. Boa tarde.

Olá, Alberto.

Obrigado, boa tarde. Olá, Ricardo.

Olá, Alberto. Ainda queres falar de Otelo Saraiva de Carvalho? Achas que ainda vens a tempo de falar de Otelo?

É isso que eu pergunto, porque o Otelo Saraiva de Carvalho morreu logo a seguir eu ter entrado de férias e há uma ou duas coisas que eu gostaria de dizer. Não que isso tenha muita importância, mas eu conheci o Otelo. Ou melhor, o meu pai era amigo do Otelo e estiveram juntos em Angola, no exército. O meu pai era um alferes mandado para lá à força e o Otelo era um militar, era capitão na altura, militar de carreira. E de alguma maneira ficaram amigos e eu era garoto e lembro-me muito vagamente, mas antes do 25 de Abril e ainda nos primeiros tempos pós 25 de Abril, as famílias visitavam-se mutuamente na casa do Otelo em Oeiras, salvo erro, e na casa dos meus pais, em Montezinhos. E eu lembro-me do meu pai contar algumas coisas sobre o Otelo. Mais tarde, contou várias coisas sobre o Otelo. Uma delas é que o Otelo era uma figura simpática no trato. Outra, talvez mais surpreendente, segundo o que tenho lido, as pessoas não parecem aperceber-se muito disso, mas o Otelo era um militar empenhado na guerra colonial. O Otelo acusava muitas vezes o meu pai de não ser patriota o suficiente, porque o meu pai estava ali contraidiadíssimo, naturalmente. Naturalmente ou não, mas no caso estava. E o Otelo achava que a guerra colonial fazia sentido, pelo menos naquela altura em que estiveram juntos, foi entre 64 e 67, salvo erro, por aí. Mais coisa, menos coisa, foi por esses anos. E eu depois só estive com o Otelo em criança, várias vezes. Era eu criança e até o período do PREC, em que obviamente o meu pai e o Otelo divergiram nos caminhos. E depois voltei a encontrá-lo há coisa de uns 20 anos, 21 anos, num almoço em que também o meu pai estava presente. O meu pai depois morreu. E realmente confirmei que o Otelo é uma figura simpática. Agora também há outra coisa que o meu pai dizia: que o Otelo sendo uma figura simpática, não era uma pessoa especialmente esclarecida. E o meu pai dizia muitas vezes que o Otelo assimilava mais ou menos as ideias de quem estivesse à volta dele e independente das companhias, ele assimilava as ideias dos que o rodeavam, fossem essas ideias-

Assististe a isso?

Não, especialmente nesse almoço. Foi uma coisa de circunstância e contaram algumas histórias do tempo da tropa. Não testemunhei exatamente isso. Testemunhei, de facto, que era uma pessoa afável, sem dúvida, não vou dizer que não. Agora, essa pessoa afável e essa pessoa que era amigo do meu pai, que o meu pai ainda o chegou a visitar na prisão, embora tivesse a noção do que ele tinha feito. Lá está, o que ele tinha feito. É preciso ter em conta sobre tudo isso, e convém ter em conta enquanto figura pública. Para o caso, não nos interessa se ele era muito amigo do seu amigo ou coisa que o valha. A verdade é que o Otelo, antes do 25 de Abril, foi um ardente defensor da política colonialista do Estado Novo, goste-se ou não. Também cumpria o seu papel, era um militar, era a profissão que ele escolheu e não abdicou dela. E depois do 25 de Abril, quando assumiu a liderança do COPCON, toda a gente se lembra, ou quem quiser lembrar-se, lembra-se dos mandatos em branco que ele passou, e eu próprio lembro de ele falar nisso em entrevistas. Dos mandatos em branco que ele passou para deter pessoas. Chegavam perto dele e estendiam o papel, ele assinava e alguém aparecia preso algures no país. Isso as pessoas têm falado menos do que têm falado do que ele fez depois, que ainda foi, não digo mais grave, mas igualmente grave ou gravíssimo, ou absolutamente trágico, que foi o papel dele na liderança das FP-25, que para todos os efeitos era um movimento terrorista. E é um movimento terrorista que matou pessoas, e que matou pessoas, como todos os movimentos terroristas matam pessoas inocentes. É muito discutível se alguém merece ser morto, mas as pessoas que são mortas por movimentos terroristas, por norma, não mereciam ser mortas, como é evidente. E o Otelo esteve à frente disso e é isso que convém reter da figura do Otelo. Não é o facto de ele ter organizado militarmente a noite ou o dia do 25 de Abril. Isso é um pormenor relativamente irrelevante e muito contaminado ou muito manchado por aquilo que ele fez do 25 de Abril. Há aquele chavão que as pessoas-

Alberto, tu não achas que isso foi discutido agora durante este tempo e depois da morte de Otelo?

Foi. Não houve unanimidade na apreciação da coisa.

Mas corria o risco de haver uma certa unanimidade?

Ricardo, neste país não era de estranhar. Quer dizer, fazendo as enormidades que ele fez, seria muito pouco saudável, mas neste país já vi coisas muito estranhas, portanto não seria a primeira vez. No caso do Otelo, não houve essa unanimidade. O que houve foi um consenso, um certo núcleo político português ou uma certa área política portuguesa, um conjunto de áreas políticas em Portugal, que teimaram em elogiar o Otelo sem lembrar ou lembrando muito pouco daquilo que foi o papel dele nas FP-25. E ao fazer isso, estão a definir o Otelo. O Otelo definiu-se na sua vida, como é lógico E definiu-se, a meu ver, da pior maneira possível. Há aquele chavão que às vezes se dizia: "Não foi para isto que se fez o 25 de Abril." Ora, por muitas coisas positivas que o 25 de Abril possa ter trazido, aquilo que levou o Otelo a fazer o 25 de Abril, aparentemente não foi nada de positivo para o país. E estou a falar apenas do papel dele no COPCON, no pós-25 de Abril imediato e durante o PREC. O que depois vem com as FP-25 é uma outra coisa, e é essa coisa que foi, por muita gente agora, subvalorizada como mais ou menos quem organizou militarmente o 25 de Abril. É por isso que ele merece ser lembrado e não por umas minudências. Acho que foi o doutor Louçã que disse que uns erros grosseiros ou uns erros lamentáveis. Ora, liderar uma organização terrorista não é um erro lamentável, é um crime. É um crime e o Otelo pagou parcialmente por ele enquanto esteve na cadeia, até ser amnistiado. Mas é um crime. O tipo de pessoas que elogiaram Otelo Saraiva de Carvalho na morte dele, a sua ação pública, definem mais ou menos o que Otelo foi, porque dessas pessoas que o elogiaram inequivocamente, não vi nenhuma que fosse obviamente um democrata, evidentemente um defensor do Estado de Direito, que não fosse um defensor de Estados tendencialmente totalitários ou ditatoriais. Foram essas pessoas que elogiaram francamente e sem quaisquer reservas, Otelo Saraiva de Carvalho. E é esse o legado que ele deixa, é o louvor de pessoas que espero que quando eu morrer, nenhuma me vá louvar, porque seria muito mau sinal.

Acho que não corres esse risco, Alberto.

Julgo que não. Qualquer pessoa de bem espera não ser louvado por certo tipo de pessoas. E o Otelo foi louvado pelas pessoas exatamente erradas e que estiveram sempre do lado errado da história, ou quase sempre do lado errado da história, normalmente o pior lado da história.

Alberto Gonçalves, aqui a desfazer ideias feitas ao final da tarde na Rádio Observador.

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