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Ideias Feitas. Ideias Feitas com Alberto Gonçalves. Com o aproximar do final do ano, chega aqui esta altura de balanços e Alberto, queres olhar aqui para um balanço em específico do semanário Expresso, a figura nacional e a figura internacional do ano. Olá.

Olá, Vanessa. Quero, porque achei estranhas as escolhas do Expresso. Talvez se tiver em conta que são do Expresso, não sejam tão estranhas assim, mas são escolhas estranhas, tanto para figura internacional como para figura nacional. Vamos por partes. O Expresso escolheu, e como é normal nestas alturas de final de ano, fazer estes balanços, estas coisas, uma figura mundial, internacional, para 2024 e uma figura depois nacional. A figura internacional de 2024 é Gisèle Pelicot, aquela senhora francesa, eu julgo que 98% dos portugueses nunca ouviram falar. Não sei, não tenho esses dados. Mas é aquela senhora francesa que foi alvo de uma atrocidade, que era casada com um senhor que a drogava e que depois a fazia ser violada por dezenas de sujeitos, que foram condenados, ao que sei, ou que parece. Ou seja, esta senhora é uma vítima, uma vítima que denunciou e acho que é pela denúncia que o Expresso a elege como figura internacional do ano. Parece-me apenas um estratagema para não reconhecer que a figura internacional do ano, goste-se ou não, não é uma questão de gosto, não há um juízo de valor implícito nisso, mas a figura internacional do ano foi o senhor Donald Trump. Por tudo o que aconteceu e que culminou na sua reeleição, após muito regno para 47º presidente dos Estados Unidos. Esta senhora, nada a dizer sobre aquilo que aconteceu, a não ser repetir que é uma atrocidade sem precedentes, mas é uma atrocidade, lá está, sem precedentes ou quase sem precedentes. Não é sequer um assunto propriamente ou um episódio propriamente generalizável. Isto não é um símbolo da luta feminista ou da opressão do heteropatriarcado, ou coisa do gênero.

Mas foi de uma grande coragem sair do anonimato, Alberto.

Com certeza que sim, e não estou a pôr isso em causa, mas as vítimas do Ted Bundy ou de outros psicopatas também, com certeza, podendo, as vítimas, não os mortais, naturalmente, mas outras que escaparam, também podendo denunciar, também o denunciaram. E acho que é a reação natural de uma pessoa. A senhora fez aquilo que devia ter feito. Que isso a transforme na figura internacional do ano, acho um bocadinho peculiar. Isto não é diminuir nada a senhora, coitada, meu Deus, nem quero pensar no que terá sofrido e nas consequências psicológicas do que sofreu. Isso não tem nada a ver com o assunto. Agora, a vitimização ou o fato de sermos vítimas de alguma coisa, e de uma coisa assim tão poderosa, não faz necessariamente de nós uma figura de destaque, não nos transforma necessariamente uma figura de destaque ou não nos devia transformar numa figura de destaque. Senão, o Holocausto teria alguns milhares de sobreviventes, que seriam todos figuras internacionais dos anos subsequentes. E não foram, naturalmente que não, foram outras pessoas, outras individualidades, por outros feitos positivos ou negativos. Não está em causa aqui o senhor Trump, gostar-se ou não do senhor Trump, repito. Acho que o Expresso arranjou este subterfúgio para não reconhecer o Donald Trump como a figura internacional do ano, por muito que fosse pelos lados negativos do senhor Trump, que os tem, com certeza, e não são poucos. Quanto à figura nacional, eu acho que também o Expresso arranjou uma maneira de não reconhecer que a figura nacional do ano, aqui seria menos óbvia, mas acho que poderia ser mais simplesmente, mais naturalmente, o doutor Montenegro, que quebrou uma hegemonia do PS de oito anos e tal. Foi eleito, conseguiu ser eleito até de uma forma um bocadinho improvável, por aquilo que prometia uns tempos antes, ser primeiro-ministro. E o Expresso não o reconheceu como figura nacional do ano. Para reconhecer quem? Poderia haver outras pessoas, não me ocorre assim especialmente ninguém, mas poderia haver outras. Agora, nunca me ocorreria que a figura nacional do ano, para o Expresso, fosse um treinador de futebol chamado Rúben Amorim, que eu fui ver, foi campeão pelo Sporting. Alguém tinha que ser campeão por alguma coisa aqui em Portugal. Os treinadores acho que eram todos portugueses ou quase. Portanto, era natural que um português fosse campeão nacional por um clube do Campeonato de Portugal. E depois foi para a Inglaterra e em Inglaterra acho que tem batido recordes sucessivos negativos pelo Manchester United. E foi eleito figura nacional do ano. Não sei, podiam ter arranjado este treinador como um treinador qualquer, de outra coisa qualquer, outra figura qualquer, só para não eleger, só para não reconhecer que provavelmente talvez fosse o doutor Montenegro, eventualmente até o doutor Costa, que foi lá para a presidência do Conselho Europeu. Mas acho que o objetivo foi não reconhecer o doutor Montenegro. Isto mostra o quê? Isto não tem importância absolutamente nenhuma, são as escolhas de um jornal. Agora, mostra que o Expresso, como outros órgãos de comunicação, mas o Expresso até muito em particular, e também a SIC, que pertence ao mesmo grupo, vivem cada vez em meios mais fechados, mais virados para si mesmos. Cada vez estão menos atentos àquilo que existe, que se passa no mundo ou aquilo pelo qual as pessoas comuns se interessam. Vivem nas tais bolhas, já tenho falado isto aqui a propósito de outros assuntos, vivem cada vez mais enclausurados em si mesmos e isso depois leva a que, naturalmente, as pessoas comecem a desinteressar-se das notícias, da informação, da opinião, que vêm nesses órgãos de comunicação. É só um pequeno reparo, isto não tem realmente importância absolutamente nenhuma. Agora, é apenas uma escolha curiosa, que eu também não teria escolhido aqui para o Ideias Feitas, se houvesse outros temas a acontecer no dia a dia, mas como sabemos, nesta altura parece que para tudo, até a atualidade, sobretudo aqui a atualidade portuguesa, parece que fica toda meia em banho-maria. Portanto, uma pessoa tem que tentar catar temas aqui para o Ideias Feitas em coisas mais improváveis, em áreas mais improváveis. Esta do Expresso é só um pequeno reparo, um episodiozinho sem grande importância, mas que talvez tenha importância no grande quadro dos mídia internacionais gerais. Acho que há uma tendência para os mídia estarem voltados para o próprio umbigo e desprezarem um bocadinho o mundo que os rodeia.

E tu nunca desprezas, Alberto, a criatividade dos títulos no Ideias Feitas. As figuras do ano e a figura que faz o Expresso é o título de hoje, da crônica de hoje, sempre com a assinatura do Alberto Gonçalves. Alberto, até segunda. Bom fim de semana.

Até segunda, Vanessa. Bom fim de semana.

O Ideias Feitas conta com o apoio do Azeite de Alisman.