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Alberto Gonçalves. Ideias Feitas com o Alberto Gonçalves. O tema da última crônica foi o debate entre Donald Trump e Kamala Harris. E hoje, Alberto, queres voltar ainda ao debate porque ainda tens coisas a dizer. Olá.
Olá, Vanessa. A primeira coisa que tenho a dizer é que se as eleições americanas estivessem limitadas ao voto português, ou se incluíssem o voto português e estivessem limitadas a esse, a senhora Kamala Harris e os democratas já teriam ganhado as presidenciais com uma vantagem nunca vista. Nem o Reagan em 84. Porque ontem, eu costumo partilhar o Ideias Feitas no Twitter, e no Ideias Feitas eu defendi ou lembrei que além das mentiras do senhor Trump, também houve as mentiras da senhora Kamala Harris, e que estas não foram escrutinadas como foram as do senhor Trump, e apareceram centenas de pessoas absolutamente transtornadas com o fato de eu ter notado apenas que a senhora Kamala Harris tinha mentido e que essas mentiras não tinham sido devidamente tidas em conta, desde logo no início pelos moderadores do debate e depois pelas entidades dos mídia, sobretudo, que fazem o chamado fact checking. Por exemplo, a CNN americana, e atiraram-me com isso no Twitter dezenas de vezes, encontrou 34 mentiras ditas pelo senhor Trump durante o debate e uma mentira dita pela senhora Kamala Harris durante o debate. Ora bem, acho que não foi bem assim. Quer dizer, da parte do senhor Trump, não estive a contar se foram 34. Se calhar, até podem ter sido 57. Agora, eu sei de certeza absoluta que a senhora Kamala Harris disse mais do que uma mentira. E já agora, para que os fact checking checks não passem sem algum fact checking, eu gostaria de lembrar só aqui quatro ou cinco dessas mentiras. Ela acusou o senhor Trump de ter dito que se ele não ganhasse as eleições, haveria um banho de sangue na América. Não, o senhor Trump tinha dito que se os chineses continuassem a construir grandes fábricas automóveis no México para vender aos americanos, iria ser um banho de sangue pra indústria automóvel americana. Não é exatamente a mesma coisa. A senhora Kamala Harris também disse que o senhor Trump defendia a proibição do aborto em todo o país. O senhor Trump nunca foi apanhado a dizer isso. Pode até pensar, não faço ideia. E eu, já agora, faço aqui uma ressalva de que estas posições dele e dela, eu não estou a fazer qualquer juízo de valor da minha posição face a estas posições. Isto são apenas os fatos que se passaram no debate. Ou seja, quanto a este segundo ponto, o senhor Trump, não se sabe, não se conhece que ele tenha alguma vez defendido a proibição do aborto em todo o país. Isto ligado a uma tal Agenda 2025 ou Projeto 2025, que a senhora Kamala Harris acusou o senhor Trump de estar ligado, também não se conhece oficialmente ou formalmente nenhuma ligação dele a essa agenda, a esse projeto conservador, de umas instituições conservadoras americanas, que têm realmente uma posição com bastante reservas sobre o aborto. Ela até foi mais longe, a senhora Kamala Harris, e disse que o Trump, se ele ganhar, que vai haver, graças a essa Agenda 2025, que vai haver um monitor em cada mulher para vigiar as gravidezes e os eventuais abortos e tal. Não há nenhum indício de que isso alguma vez tenha sido proposto pelo senhor Trump. E, ao que parece, nem sequer essa Agenda 2025, por alucinada que eventualmente possa ser, não a conheço em pormenor, também acho que não defende isso. Mas isso não é com o senhor Trump, ao que parece. A senhora Kamala acusou o Trump de ter deixado o maior desemprego desde a Grande Depressão. Ora, esta é uma mentira óbvia e é fácil de desmontar. Houve um momento na presidência de Trump que, por causa das restrições à Covid, em que o senhor Trump, como grande parte dos líderes do Ocidente, alinharam, a meu ver, erradamente, graças aos confinamentos, aos lockdowns, àquelas coisas todas. Houve realmente um ponto alto do desemprego, como já não se via desde a Grande Depressão. Agora, nos primeiros anos da presidência Trump, que foram os anos quase todos até à Covid, o desemprego esteve particularmente baixo, comparativamente às décadas todas anteriores já depois da Grande Depressão. E quando o senhor Trump deixou a presidência, o desemprego estava em torno de 6%, que é mais ou menos o que costuma estar nos Estados Unidos, em situações normais. Repito que nos primeiros anos da presidência dele estava mesmo baixo. Portanto, é outra mentira. Ela negou também que alguma vez tenha defendido a redução de financiamento à polícia. Há entrevistas, há vídeos que provam isso, que ela defendeu a redução de financiamento à polícia, etc. Mas isto poderíamos ir mais longe, talvez até chegar às tais 34 mentiras que a CNN americana encontrou no senhor Trump, e já ultrapassei de certeza a única mentira que a CNN americana apanhou na dona Kamala. Agora, também faço notar que independentemente de quem ganhar em novembro, seja o senhor Trump, seja a senhora Kamala, os Estados Unidos serão presididos por alguém que não mostra grande competência para ser presidente dos Estados Unidos. Mas apesar disso, os Estados Unidos continuam a ser uma grande potência econômica, com dinamismo na economia, mesmo na sociedade, com tudo de bom e de mau acontece lá, mas acontece, os Estados Unidos continuarão a ser o país que são. E estes portugueses todos que estão agora empenhadíssimos na defesa da Kamala, também não perceberia que portugueses estivessem empenhadíssimos na defesa ardente do senhor Trump. Uma coisa ou outra me faz uma certa confusão ver isto com tanta paixão, porque essa paixão que eles dedicam aos Estados Unidos, pelos vistos, não a dedicam a Portugal. E por isso Portugal tem tido os estadistas que normalmente costuma ter, eleitos por estas pessoas que levam tão a sério as eleições americanas e pelos vistos, não levam muito a sério as eleições portuguesas. E Portugal vai continuar, de certeza, independentemente de quem vai entrar na Casa Branca em novembro, na sequência das eleições de novembro, independentemente disso, Portugal vai continuar a ser o país que infelizmente é. Um país mal remendado, mal remediado, um país pobre, um país periférico. Em termos geográficos também não há muito a fazer, mas noutras áreas talvez houvesse mais alguma coisa a fazer se os portugueses dedicassem a Portugal esta paixão que dedicam, pelos vistos, não é a Portugal, que se dedicassem ao sistema político português e se exigissem dos políticos portugueses, tivessem o mesmo grau de exigência que têm para com os políticos americanos. É verdade que apoiar a senhora Kamala também não mostra um grau de exigência por ela. Mas pelo menos mostra paixão, mostra interesse, mostra dedicação. Aqui, pelos vistos, para nós, para os portugueses que têm esta paixão face à América, mas quando se trata de Portugal, qualquer coisa serve e é mesmo qualquer coisa aquilo que normalmente temos tido.
O debate faltou fact checking aos fact checks, é o título escolhido pelo Alberto Gonçalves para este Ideias Feitas e resume bem aquilo que disseste aqui, Alberto. Amanhã, outro tema, logo se vê se é Estados Unidos ou outro tema mesmo. Até amanhã.
Até amanhã, Vanessa.
O Ideias Feitas conta com o apoio do azeite Talismã.