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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Como foi, Alberto? Passaste a madrugada acordado para seguir a cerimónia dos Oscars?
Olá, Ricardo. Não, já não faço isso e já explico porquê. Primeiro, queria só lembrar uma coisa sobre os Oscars em geral, agora que estão quase a fazer 100 anos, eu acho que é 1928 ou 1929, foi o primeiro ano em que foram atribuídos os Oscars. E nesses 100 anos, vou recordar só um ou dois pormenores. O Hitchcock nunca ganhou um Oscar, tirando aqueles Oscars honorários que se dá em final de carreira, esses não contam. Mas o Hitchcock nunca ganhou um Oscar para melhor realizador, o Howard Hawks nunca ganhou um Oscar, o David Lynch nunca ganhou um Oscar. Estou só a falar de realizadores de que gosto muito. Se falasse de atores, o Cary Grant também nunca ganhou um Oscar, por exemplo. E isto acho que já diz alguma coisa sobre a relevância do prêmio em questão. É moderado, ou deve ser moderado, mesmo contando com os Oscars ao longo de todos os tempos, desde que eles existem. Mas apesar disso, dantes, de facto, eu costumava ver a cerimónia e fazia aquelas noitadas. Havia sempre meia dúzia de filmes decentes a concurso e uma pessoa ficava ali a seguir. Era uma espécie de campeonato. Depois lamentavam-se umas escolhas, discordavam-se de outras, concordavam-se com outras. Nada de especialmente importante, mas uma pessoa distraía-se com aquilo. E deixei de me distrair e deixei de ver os Oscars já há vários anos. E o motivo principal nem é a cerimónia em si, são os filmes. A verdade é que, aos poucos, antes de deixar de ver a cerimónia, deixei de ver os filmes que se fazem por aí e que vão parar, muitos deles, à cerimónia como nomeados, naturalmente. Por um lado, porque os filmes foram ficando, isto é a minha opinião, claro, é sempre a minha opinião, mas foram ficando cada vez mais fraquinhos. Desde o início deste século, eu acho que não consigo citar 10 filmes excelentes. Há o "Zodiac", o "Este País Não é para Velhos", o "Mulholland Drive". Há um filme chamado "Prisoners", com o Jake Gyllenhaal e o Hugh Jackman, acho eu. Não tenho a certeza. E poucos mais. Eu não tenho a menor paciência para esses filmes que andavam por aí da Marvel, super-heróis, ou esses épicos, tipo "O Senhor dos Anéis", cheios de efeitos especiais, o CGI ou lá o que é. E também não tenho, ainda tenho menos paciência para filmes com mensagem política ou social, principalmente quando a mensagem sai das cabeças de uma elite economicamente privilegiada, mas infelizmente profundamente ignorante e evidentemente cobarde, que repete os disparates que está autorizada a repetir, sob pena se não repetir esses disparates, conforme acontece com os poucos que estão desalinhados em Hollywood, verem a carreira destruída. E ainda nesta noite que passou, durante esta cerimónia, este é um mero exemplo, um sujeito qualquer aproveitou a vitória numa categoria qualquer, agora há umas 150 categorias, e esse sujeito aproveitou essa vitória para notar o silêncio cúmplice dos que assistem calados quando um governo assassina pessoas nas ruas das suas próprias cidades. Isto apareceu nas redes sociais, apareceu um vídeo com estas afirmações. Num contexto normal, seria expectável que o tal sujeito, até pelas circunstâncias que estamos a viver, estivesse a falar dos massacres recentemente ocorridos no Irão. Agora, como se trata dos Oscars, o contexto não é normal e o sujeito estava a falar dos Estados Unidos, pelos vistos os Estados Unidos são um país em que o governo assassina as pessoas nas ruas a torto e a direito. E sobre o Irão, aliás, os massacres no Irão e o regime do Irão não mereceram, que eu saiba, a mais vaga alusão na cerimónia, a não ser pela via mais inesperada, ou nem tanto, a não ser para pedir o fim imediato da guerra e a manutenção dos teocratas, no fundo, é isso que se está a pedir, dos teocratas sanguinários no poder. E quem diz os teocratas, diz o Hamas, o banco terrorista com ligações aos teocratas, que também foi defendido por aqueles que vieram recordar a questão de Gaza. Defender as democracias é que não se vê ali ninguém que defenda. E é evidente que, por princípio, ninguém pode levar a sério uma organização como a famosa academia, que desde há uns anos impõe cotas raciais e sexuais em determinadas categorias para que um filme possa sequer ir a concurso. Ou seja, se o filme não preencher 30% de atores negros ou esquimós ou homossexuais ou qualquer coisa, o filme nem conta sequer para os Oscars. E é claro, esta história das cotas também não pode ser separada de todo o resto desta retórica infantil, desta retórica hipócrita que é produzida por aquela gente. Aquele espetáculo é todo tão ridículo, tão caricato, que aquilo dá a volta e acaba por equivaler inadvertidamente ao tipo de espetáculo que dantes assumidamente era ou proporcionava. Proporcionava um serão divertido, com frequentes momentos como as piadas, uns momentos de galhofa, uma pessoa ria-se a ver aquilo, uma pessoa distraía-se a ver aquilo. Agora, acontece isso, mas por perversão. À medida que aquelas figuras que não têm importância nenhuma, no fundo, começaram a julgar-se mais importantes do que aquilo que são, ou muito mais importantes do que aquilo que são, os Oscars tornaram-se uma espécie de comédia involuntária, protagonizada por uns indivíduos com ar muito solene e sem nenhuma intenção de dizer qualquer graça. Isso até poderia, lá está, ser uma razão para se ver aquilo. Mas pelos vistos também não é, porque as audiências são uma fração do que eram na época em que as pessoas que faziam filmes, além de os fazerem bem, não pretendiam educar as massas. Hoje os filmes são péssimos, mas a educação das massas está em grande.
Obrigado, Alberto. E para o ano os Oscars já vão ser transmitidos no YouTube.
Vão sair do exclusivo televisivo, é isso?
Sim.
Pois, por algum motivo há de ser.
Será um exclusivo YouTube. Até amanhã.
Exclusivo YouTube. OK, não sabia, Ricardo. Obrigado pela informação e até amanhã. Um abraço.
Até amanhã, Alberto.