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Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo, boa tarde.
E o título de hoje é, e passo a ler: "Marques Mendes, fã de Fidel e da democracia." Por quê, Alberto?
Eu já passo a explicar . O doutor Marques Mendes, candidato presidencial, como se sabe, confrontado com a extração, como se tem dito, do senhor Maduro, lá da Venezuela, para os Estados Unidos, disse algumas coisas que também passo a citar. Uma delas disse que há uma violação do direito internacional, isso não oferece nenhuma dúvida, com certeza que há, não vale a pena estarmos a ser hipócritas. Disse também: "Já que cai um ditador, e esta é a grande notícia no meio disto tudo, um ditador dos piores que o mundo teve, agora então que se concretize um processo democrático." E disse ainda que: "Donald Trump parece estar mais interessado no petróleo do que na democracia. Eu, Marques Mendes, estou mais interessado na democracia do que no petróleo." Ora bem, tudo isto contrasta, ou pelo menos parece contrastar com um episódio antigo, mas certamente relevante da vida do doutor Marques Mendes, porque em 2001, durante uma viagem parlamentar oficial a Cuba, o doutor Marques Mendes encontrou-se com Fidel Castro nessa viagem. Na altura, a delegação era presidida pelo Almeida Santos, que era o presidente da Assembleia da República, incluía deputados de vários partidos, incluía o doutor Marques Mendes. Eu já acho esquisito, isto em termos genéricos, que uma delegação de deputados portugueses visite uma ditadura sanguinária, ainda por cima uma ditadura sanguinária de um país que, que eu saiba, não há uma comunidade de portugueses significativa, nem grandes interesses comerciais ou estratégicos em comum. Enfim. Mas mais esquisito ainda é que um desses deputados, o doutor Marques Mendes, insisto, se tenha encontrado com Fidel Castro, e há uma fotografia desse encontro. Encontrou-se com Fidel Castro no gabinete do ditador de então e tenha sido fotografado às gargalhadas junto da criatura em causa, cujo cognome também era o Carniceiro da Havana, era um cognome que também era aplicado ao Che Guevara, mas também se estendeu a Fidel Castro, e julgo que com motivos mais do que razoáveis. Havia motivos para isso. Agora, também é verdade que há gente a conversar com serial killers para fins de investigação criminal e psicologia forense, aquelas coisas que a gente vê nas séries da Netflix ou da HBO, mas não me parece que seja essa a função de um deputado. E de resto, o doutor Marques Mendes esclareceu anos mais tarde que não esteve na galhofa com Fidel Castro para efeitos de profiling, como se via naquela série do "Mindhunter". O doutor Marques Mendes esteve a babar-se de admiração. Em entrevista ao Observador em 2016, 15 anos depois desse encontro com o Fidel, o doutor Marques Mendes confessou que Fidel foi "das personalidades", estou a citá-lo outra vez, "das personalidades que exerceu sobre mim maior fascínio e das mais charmosas e talentosas que conheci." E é pena, digo eu, que o doutor Marques Mendes não tenha tido a hipótese de conhecer o Pol Pot, ou o Mao Tsé-Tung, ou o Stalin. De certeza que também os teria achado fascinantes, e charmosos, e talentosos, e estaria no seu direito, com certeza. Agora, o doutor Marques Mendes só não tem direito é a tomar-nos por parvos, ou pelo menos nós temos o dever de não nos deixarmos tomar por parvos por parte do doutor Marques Mendes, porque é evidente que o doutor Marques Mendes não está particularmente interessado em democracia nenhuma, ao contrário do que ele disse agora a propósito da questão venezuelana. É evidente que o ditador Maduro nunca incomodou o doutor Marques Mendes. E é evidente que o doutor Marques Mendes nunca criticou, pelo menos fartei-me de procurar e não encontrei, o regime chavista, o regime do senhor Maduro, até vir agora fingir que o critica, enquanto, na verdade, está a condenar a ação militar americana, invocando lá o tal famoso direito internacional que tem sido tão invocado nos últimos dias. O doutor Marques Mendes também disse, e citei há pouco, que não vale a pena estarmos a ser hipócritas. E, por acaso, hipócrita é justamente o que ele está a ser. Não sei se é o que ele é em tudo na vida, mas neste caso particular, a hipocrisia está a ser particularmente evidente. E também está no seu direito, quer dizer, não viria mal ao mundo que o homem seja hipócrita, há muitos hipócritas por aí. Agora, este hipócrita em particular arrisca-se, ou nós arriscamos, que ele possa vir a ser o próximo presidente da República. E aí a questão já é mais complicada. Eu sei que a concorrência dele não é famosa, mas sinceramente preferia que o próximo chefe de Estado não voltasse a ser alguém que prestou vassalagem a Fidel Castro. Já tivemos um assim, era escusado vir um segundo, ainda por cima um segundo que acha o Fidel Castro charmoso. Ou seja, acha que um psicopata pode ter um charme muito particular. Havia umas senhoras que diziam isso do Ted Bundy, mas também são gostos. Agora, o doutor Marques Mendes descobriu o direito internacional no sábado passado e arriscamo-nos a que daqui a poucas semanas, ou não digo a um sábado, mas a um domingo, ele possa vir a ser o nosso chefe de Estado. Eu preferia que assim não fosse. Já basta o que basta.
Obrigado, Alberto. Alberto Gonçalves e as Ideias Feitas, a fechar a hora das 18h aqui na Rádio Observador. Até amanhã, Alberto.
Um abraço, Ricardo. Até amanhã.
O Ideias Feitas conta com o apoio do azeite Talismã.