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E a caminho do fim desta tarde política, está na hora de desfazermos ideias feitas com Alberto Gonçalves. Viva, Alberto. Hoje queres falar de um apelo dramático. O que se passa?

Olá, boa tarde. Ontem foi o dia em que André Ventura anunciou a candidatura à Presidência da República, vocês ainda agora estavam a falar disso, mas não vai ser sobre isso que vou falar hoje. Pelo menos não especialmente sobre isso. Digo apenas que me parece que, de uma forma estratégica ou do ponto de vista dele, do doutor Ventura, ele fez bem. Há uma forte possibilidade de passar à segunda volta e nessa segunda volta há uma forte possibilidade de obter um resultado talvez histórico, um resultado capaz de estabelecer uma nova referência, um patamar novo para o Chega nas legislativas. Talvez qualquer coisa à volta dos 30 ou dos 35%. Sei lá, não gosto de fazer previsões e as previsões a gente falha sempre ou quase sempre. Mas dito isto, e como é razoável pressupor que o doutor Ventura, ou melhor, eu estou a dizer isto porque estou a pressupor que o doutor Ventura perde na segunda volta. Se contra todas as estimativas e contra toda a razoabilidade o doutor Ventura ganhasse as eleições, ficar-se-ia sem perceber o que aconteceria com o Chega. Imagino que aconteceria mais ou menos o que aconteceu com o PRD e que teria o mesmo fim, embora por caminhos opostos. Mas não é esse o tema de hoje. Hoje queria falar de outro momento que aconteceu também ontem a propósito da coligação BLM, mas que passou bastante mais despercebido. Quero falar das declarações do doutor Pinto Balsemão, que naturalmente através do Expresso, veio fazer aquilo que o jornal chama um apelo dramático aos eleitores da AD. Diz o doutor Balsemão que é preciso cerrar fileiras à volta do doutor Marques Mendes para combater, volto a citar, interesses políticos obscenos. Eu suponho que o apelo dramático tenha tido um enorme impacto nos cerca de 14 eleitores que dão importância àquilo que o doutor Balsemão pensa e diz hoje em dia. No que respeita aos restantes mais de nove milhões, não tenho o número presente, mais de nove milhões de eleitores que sobram, acho que o apelo dramático é capaz de ter servido somente para fornecer mais uma razão para não votar no doutor Marques Mendes. Não é a primeira razão, de certeza não será a última, mas é uma razão de peso. O apoio cheio de dramatismo do doutor Balsemão, que ainda por cima é o presidente da comissão política da candidatura do doutor Marques Mendes, pode ser o suficiente para demolir as ambições do apoiado. Eu, por exemplo, se estivesse a pensar votar no doutor Marques Mendes, mudaria de ideias a partir deste momento. Mas também quero esclarecer que não estou a pensar votar, nem estava a pensar votar de maneira nenhuma no doutor Marques Mendes e até posso acrescentar, entre parêntesis, que não estou a pensar votar em ninguém. Só considero alterar esta posição numa circunstância muito específica, que daqui a pouco já esclareço. Mas mesmo sem o endossamento do doutor Balsemão, a ideia de ter como presidente o doutor Marques Mendes é pra mim tão apelativa, tão simpática quanto cair de cama com malária ou ser presidido, o que é mais ou menos equivalente à malária, ser presidido pelo professor Marcelo. Aliás, descontando o folclore do atual presidente, já que não deve ser fácil competir com ele em número de selfies e em mudas de roupa na praia. Mas descontando isso, uma presidência do doutor Marques Mendes seria a continuação natural da presidência do professor Marcelo na política externa e convém recordar que o presidente representa formalmente Portugal no mundo. O doutor Marques Mendes já provou que seria mais um a lançar remolques às ações de Israel, a partilhar alguma propaganda do Hamas, a venerar assassinos em massa como Fidel Castro, a prestar vassalagem a ditadores e a ditaduras diversas, etc. e um longo etc. Dentro do país, o doutor Marques Mendes seria a continuação para cúmulo em formato de cópia de alguém que após décadas no centro da vida política não deixou nada, já nem digo de notável. Tanto o professor Marcelo como o seu delfim, o seu putativo delfim, conseguiram dedicar ambas as existências à política e não legaram uma só marca positiva, uma ideia, um palpitezinho útil que fosse. Nada. Pelo contrário, num certo sentido, que é o sentido da vacuidade, da produção incessante de disparates, ambos representam o pior do meio político português e representam possivelmente os interesses mais obscenos de que o doutor Balsemão fala, e certo com conhecimento de causa. Se o país está como está, a eles, ao doutor Marques Mendes, ao professor Marcelo e a alguns como eles, não só a eles, evidentemente, mas a alguns como eles, o devemos. O doutor Marques Mendes é uma espécie de boneco de um ventríloquo sem virtudes públicas. Pensar nele como chefe de Estado é o único fator que me levaria a votar numa segunda volta. A votar contra ele, claro, nem que o adversário fosse uma torradeira, um candeeiro. E por acaso, agora que penso nisso e que penso nas possibilidades em geral ou nas alternativas, acho que um candeeiro até nem seria uma má escolha pra presidente.

E daí o título da tua crônica de hoje: "Marques Mendes, o boneco de um mau ventríloquo". Alberto Gonçalves, amanhã tens mais ideias feitas. Até amanhã. Boa tarde.

Até amanhã. O Ideias Feitas conta com o apoio do azeite Talismã.