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Está conosco Alberto Gonçalves. Alberto, bem-vindo. Boa tarde.
Obrigado. Boa tarde.
Ora viva, Alberto Gonçalves. Hoje no "Ideias Feitas", o Alberto Gonçalves quer falar sobre o Serviço Nacional de Saúde, sobre o melhor SNS do mundo. Será que é mesmo o melhor do mundo, Alberto Gonçalves?
Pois se calhar não é. E os factos começam a apontar para isso, não só para o fato de não ser o melhor do mundo, como que estará muito longe disso. Embora pareça esquisito, eu gostava só de começar por lembrar ou por informar as pessoas, para quem não sabe, que hoje o professor Marcelo Rebelo de Sousa, senhor Presidente da República, foi se despedir de um contingente militar português que foi prestar uma missão qualquer na República Centro-Africana, salvo erro, e que inquirido a propósito daquele escândalo do tráfico de diamantes, pode parecer que não tem nada a ver, mas eu já chego lá. Inquirido a propósito daquele caso do tráfico de diamantes, se isso mancharia o prestígio das Forças Armadas portuguesas, o professor Marcelo declarou que não é um caso, nem 10 casos, que mancharia o prestígio das Forças Armadas. Não especificou a partir de que número esse prestígio ficaria afetado. Não sei se seriam precisos 15 casos, 138, não sei, não há um número. E ficou a um pequeno passo de declarar as nossas Forças Armadas as melhores do mundo. Disse que são o orgulho de Portugal, mas também não precisava ter dito que são as melhores do mundo, porque ele em ocasiões anteriores já fez o favor de o dizer. Ou seja, quanto às melhores Forças Armadas do mundo, eu não tenho conhecimento particular sobre as Forças Armadas e sobre o seu prestígio ou a falta dele. Sei, como qualquer pessoa sabe, que dizer que algo, como uma instituição, uma pessoa, uma coisa, é a melhor do mundo, não faz dela necessariamente a melhor do mundo. Isso serve para as Forças Armadas e serve também para o Serviço Nacional de Saúde. O nosso Serviço Nacional de Saúde, segundo o professor Marcelo e segundo uma imensa quantidade de gente, é o melhor serviço de saúde do mundo, o melhor serviço público de saúde do mundo. Muito bem, eles são livres de dizer isso. Agora, isso em si é uma coisa que se diz, nós podemos elogiar absolutamente o que quisermos. O nosso elogio não faz dessa coisa aquilo que nós gostaríamos que essa coisa fosse ou aquilo que queremos dizer, queremos que essa coisa aparente ser. Não basta dizer que uma coisa é a melhor do mundo pra ela de fato ser. O nosso serviço de saúde não é o melhor do mundo e não é o melhor do mundo porque há fatos que contrariam essa alucinação. E esses fatos, alguns têm sido notórios nos últimos tempos. O menos grave até, mas é indicativo, são estas demissões sucessivas de direções médicas e de direções hospitalares por médicos das direções hospitalares, melhor dizendo, por reclamar falta de condições, falta de meios, por uma série de motivos. Esse é o lado até, apesar de tudo, menos grave, embora traduza uma situação que de certeza que não é boa dentro dos hospitais públicos. Um dado muito mais grave e tão factual quanto o anterior, tão digno de quantificação quanto o anterior, é aquilo que aconteceu no último ano ou nos últimos dois anos, ano e meio, já caminha há dois anos. Já falei aqui várias vezes disso, mas vale a pena falar porque são vidas humanas que estavam em jogo e que estão em jogo. As cirurgias interrompidas, adiadas ou canceladas, consultas canceladas, diagnósticos por fazer, etc. E isso tudo provocou danos na saúde dos portugueses. Agora, uma justificação que se dava para explicar isto tudo e passar um pano por cima disso tudo, era o fato de Portugal atravessou a pandemia, como os outros países atravessaram a pandemia, em todo lado foi assim. Havia ali uma comparação feita no vazio, digamos, de que o que aconteceu aqui, aconteceu mais ou menos em toda parte. Ora, entretanto, saiu um relatório da OCDE que analisa a resposta dos serviços de saúde dos países da OCDE. Deve-se dizer que não de todos, mas de dois terços, mais um bocadinho, talvez, dos países da OCDE. E esse relatório é absolutamente demolidor para o nosso SNS. O relatório prende-se com o ano 2020 e mostra que em Portugal, ou que a saúde pública em Portugal, ou saúde em geral em Portugal, melhor dizendo, que é esse o âmbito do relatório, a saúde em Portugal deixou de responder às necessidades de saúde de mais de um terço dos seus habitantes. Portugal é o pior país da OCDE, dos que foram incluídos neste relatório, a par da Hungria, ou ligeiramente ali um bocadinho a cair da Hungria, a Hungria ainda está um bocadinho pior, mas está muito próxima de Portugal e Portugal é o pior país. Foi o país que deixou mais gente ao abandono por causa da Covid. Ora, a Covid só aconteceu em Portugal? Evidentemente que não. A Covid aconteceu em todos os países da OCDE e fora da OCDE. E os outros países, os respectivos serviços de saúde, ou pela forma como estão organizados e como estão articulados, por exemplo, os serviços públicos com os serviços privados, as PPPs, que é o que em Portugal está com as quais estamos a acabar, em nome do socialismo e dos amanhãs que cantam, os países, sobretudo, que têm o sistema de saúde misto, como por exemplo a Dinamarca e a Alemanha, a Suécia, a temível Suécia de que nem se fala a propósito da Covid, porque é um péssimo exemplo. Esses países foram os países em que, mesmo durante a pandemia, a resposta do sistema de saúde às necessidades de saúde em geral dos seus habitantes foi mais eficaz. Ou seja, nesses países muito poucos doentes ficaram por atender ou por ser tratados devidamente, apesar de estar a decorrer uma pandemia. Em Portugal, mais de 33% dos portugueses que necessitavam de cuidados de saúde, e estamos a falar de certeza de cuidados de saúde com alguma gravidade, não estamos a falar de uma unha encravada, estamos a falar de coisas sérias, não tiveram esses cuidados de saúde porque o nosso sistema não permitiu. Não o permitiu, ponto. O facto de o nosso sistema não ter aguentado a pandemia, que foi mais ou menos equiparável em todos os países, mostra que o nosso Serviço Nacional de Saúde, tal como está, não funciona. Nós podemos continuar a dizer que é o melhor do mundo, que é o segundo melhor do mundo, que é o que está ali quase, o que está em terceiro, ou medalha de bronze, ou de prata, ou de ouro. A verdade é que neste relatório da OCDE, o nosso sistema de saúde é o segundo pior de toda a OCDE. E isto são dados quantitativos, comparáveis, mensuráveis. Não adianta depois cobrir estes dados ou esconder, pior, esconder estes dados com esta conversa bonita do melhor do mundo, ou do quase melhor do mundo, ou dos melhores entre os melhores, aquelas coisas que o professor Marcelo e que pessoas que gostam do professor Marcelo ou gostam do estilo, gostam de reproduzir. Isto não resolve nada. O nosso serviço de saúde não é bom. Nunca terá sido o melhor do mundo, de certeza absoluta. E agora está num estado que, pasme-se, neste mesmo relatório da OCDE está, por exemplo, bastante abaixo dos Estados Unidos, onde a saúde pública é bastante reduzida no quadro geral. Existe, mas é bastante reduzida, evidentemente que sim. E, no entanto, conseguiram, através do sistema privado e com alguma saúde pública, mas mínima, conseguiram atender mais às necessidades de saúde das pessoas do que o nosso Serviço Nacional de Saúde. Ora, um serviço nacional de saúde não serve para se dizer coisas bonitas ou para nos vangloriarmos dele. Serve para atender as necessidades de saúde das pessoas. Se não aguentou a Covid, é porque não tinha condições para aguentar a Covid. Os outros países aguentaram a Covid e na América, nos Estados Unidos, a Covid, mesmo proporcionalmente, tem sido até agora pior do que aqui. E, no entanto, conseguiram aguentá-la melhor que nós. Isso é que conta, são estes factos que devem ser discutidos e devem estar em cima da mesa, a expressão é horrível, mas que devem fazer parte dos argumentos quando se discute a saúde em Portugal e a prestação de cuidados de saúde. Estar a falar com base em adjetivos e em juízos de valor vagos, que não têm qualquer ligação com a realidade, continuarmos a convencer-nos de que somos excelentes, enquanto a realidade de que estamos a falar está muito longe da excelência. Isso vale para a saúde e vale para o resto.
Ainda assim, é sempre melhor que os argumentos estejam em cima da mesa do que debaixo da mesma. Alberto Gonçalves, hoje com a crônica à boleia das limitações do melhor SNS do mundo, crônica também a propósito desse relatório da OCDE, que indica que Portugal está entre os países desta organização onde, por exemplo, as consultas presenciais e urgências mais caíram da pandemia. Olhando para vários indicadores de assistência médica, Portugal foi mesmo dos países que mais sofreu os impactos da Covid-19 em 2020. Em 2021 já começou a verificar-se um pouco de recuperação. Entretanto, o Alberto Gonçalves está de regresso amanhã à mesma hora com ideias feitas e um novo tema.
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