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"Ideias Feitas" com Alberto Gonçalves. Bem-vindo, Alberto. Hoje queres ir ao rescaldo da prestação do Bloco de Esquerda nestas eleições autárquicas.

É, e não só. Olá, Ricardo. O rescaldo das autárquicas em geral. Quem tenha ouvido os últimos "Ideias Feitas" deve ter percebido que eu não mostrei grande interesse por estas eleições. Até acho que nem lhes dediquei nenhum programa. Isso deve-se a diversos motivos. Eu não tenho um grande respeito pelas proezas do chamado poder local e também acho difícil comentar genericamente eleições que são particulares e que muitas vezes os candidatos em questão pesam mais do que os partidos pelos quais se candidatam. Mas hoje sinto alguma obrigação profissional de dizer duas ou três coisas sobre as autárquicas e por isso vou tentar generalizar aquilo que pode ser generalizável. Em primeiro lugar, o vencedor da noite eleitoral foi obviamente o PSD, não é difícil chegar lá. O PSD ultrapassou o PS em número de câmaras, ganhou as principais e as mais populosas autarquias do país, portanto, o partido ganhou. O presidente do partido, o doutor Montenegro, que acumula com o primeiro-ministro, também ganhou. Aqui não há dúvidas nenhumas. Depois há os partidos que se saíram assim assim, que não ganharam nem perderam, ou que ganharam e também perderam. Um deles é o PS, que apesar da derrocada nas legislativas, tudo isto que eu estou a dizer tem tudo muito a ver com as expectativas que estavam criadas face ao desempenho de cada partido, mas o PS apesar da derrocada e se calhar de umas expectativas muito baixas, lá resistiu como pôde. E seria interessante, além disso, poder notar que o radicalismo esquerdista do atual PS foi castigado, por exemplo, em Lisboa, e se calhar dar como referência comparativa a vitória de um PS mais moderado ou mais realista em Loures, para mostrar que os socialistas talvez precisem de repensar esta deriva esquerdista em que há 10 anos embarcaram. Mas depois há o caso de Coimbra, cuja câmara foi ganha por uma socialista mais para o radical, coligada com um partido mais para o comunista, ou leninista, ou trotskista, o que quiserem, e isso estraga-me a tese, portanto não vou por aí. Outro partido que se saiu também mais ou menos assim assim foi o CDS, de quem não se esperava praticamente nada e que, à parte as coligações, ganhou seis câmaras, o dobro das do Chega. Convém, porém, lembrar que nos conselhos em que concorreu sozinho, o CDS somou 1,1% dos votos. Não é grande coisa. Também acho excessivo dizer que o Chega perdeu assim cabalmente. O Chega conseguiu pela primeira vez ganhar uma autarquia, até ganhou três, e triplicou o número de votos e a percentagem de há quatro anos. Eu resolvi comparar este desempenho do Chega ao outro partido que ameaçou o bipartidarismo em Portugal, o PRD, que nas autárquicas de 85, quando estava em ascensão, o PRD teve mais ou menos os resultados do Chega em 2021. Nas autárquicas seguintes, em 89, o PRD praticamente desapareceu. E o Chega, repito, triplicou a votação. Não foi o sucesso que o doutor Ventura queria ou pedia, mas também não foi uma calamidade. E depois temos os derrotados e como é costume, o PCP continuou a encolher, tanto em votos como em mandatos. Porém, ao contrário do costume, o atual líder do PCP assumiu a derrota. Não sei se é a primeira vez que acontece, mas é de registar. A Iniciativa Liberal, por muito que reclame algum êxito em coligações, fica sem perceber, e nós ficamos também sem perceber, junto com a Iniciativa Liberal, se esses êxitos são graças à IL ou se são apesar da IL, porque no resto a IL teve 1%, 1,5% dos votos, coisa que o vai. Depois há o Livre também, que disfarçado nas coligações não chegou sozinho a 0,5% dos votos, e há o Bloco de Esquerda, que é aí sim queria falar só um bocadinho mais. O Bloco de Esquerda chegou ao 0,5% dos votos, mas por muito pouco, ultrapassou por muito pouco esse valor. O Bloco é um caso interessante, já que a sua líder, que coincide com o grupo parlamentar do partido, passou a campanha, como sabemos, a navegar pelo Mediterrâneo, a fingir que ajudava palestinianos. Não sei o que é que os palestinianos pensam da doutora Mortágua, mas é claro que os portugueses pensam: nada. Os portugueses já nem se lembram sequer que a doutora Mortágua e o seu partido existem. E de facto já praticamente não existem. O Bloco teve 30 mil votos, zero câmaras, como antes, e zero vereadores. Perderam os quatro que tinham, já nas eleições anteriores tinham perdido oito. Tinham 12, passaram para quatro, agora zero vereadores. E perante isto, a doutora Mortágua admitiu um resultado modesto, mas fez um balanço positivo das eleições. Não se pode, portanto, dizer que o Bloco morreu e não deu por isso. Eu acho que a própria doutora Mortágua já deu pela morte do Bloco de Esquerda.

Obrigado, Alberto. O "Ideias Feitas" regressa amanhã, a fechar esta hora das 18h aqui na Rádio Observador. Um abraço, Alberto. Até amanhã.

Um abraço. Peço desculpa. Um abraço, Ricardo.

O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.