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Alberto Gonçalves. Alberto, bem-vindo a este "Ideias Feitas" de terça-feira, 9 de junho. Hoje queres nos falar sobre a relação dos políticos com o Campeonato do Mundo de Futebol.

Quero sim, senhor Miguel. Boa tarde. Ontem o presidente da República, vocês ainda há pouco estavam a falar dele, o doutor António José Seguro, encontrou-se com a Seleção Nacional de Futebol e disse-lhes o seguinte, passo a citar: "O país acredita em vós, façam-nos sonhar e tragam para Portugal a taça que nos falta. Vamos todos torcer por vocês. Acredito que com o vosso entusiasmo, fibra, força, talento e trabalho, isso é possível. Entrego-vos simbolicamente a bandeira nacional para que todos a possam transportar no dia 19 de julho. Será o sinal que conseguimos e que o sonho se tornou realidade e são de novo os campeões, mas desta vez campeões do mundo." Muito bonito. E já há uns 15 dias, o primeiro-ministro, doutor Montenegro, tinha dito, não diretamente à seleção de futebol, mas ao país em peso, imagino, que, e passo a citar outra vez: "Assumimos sem rodeios que somos candidatos a poder ganhar o Campeonato do Mundo." Eu, entre parêntesis, informo que não sou candidato a nada. Continua o doutor Montenegro: "Temos muitos desportistas que são os melhores do mundo. Este é um alento à nossa capacidade, enquanto país, de podermos pensar que em todas as áreas de atividade, com espírito de equipa, superação e vitória, conseguimos fazer coisas que os outros ainda não fizeram." Eu gostava de poder dizer que estes momentos de intenso embaraço, quase de enxovalho, como se diz agora, não gosto muito do termo, mas vergonha alheia, só acontecem em Portugal, mas não posso. De certeza que há outros países cujas equipas de futebol também se encontram com os governantes ou os chefes de Estado e a conversa fiada deve ser mais ou menos parecida com esta. Talvez não seja tão fiada, mas não andará muito longe. Eu acho que na França também houve alguma cerimônia do gênero com o presidente lá, em Espanha com o rei, parece-me. Mas independentemente disso, eu reconheço que nem sequer consigo distinguir se os estadistas em causa têm noção do nível de intrujice e de impostura das coisas que dizem, ou se estão mesmo, que acho que ainda é pior, convictos daquilo que dizem. E para o caso não interessa, também não conseguimos apurar qual das hipóteses é verdadeira. O que interessa aqui, ou o que me interessa aqui, é o caráter recorrente destes momentos em que um representante político ou similar aparece a estabelecer, ou pelo menos insinuar, uma relação direta entre os sucessos da bola e os sucessos do país. No fundo, o que eles dizem é que se a coisa correr bem e Portugal acabar por ser campeão do mundo ou ficar perto disso, fica provado que Portugal, no resto, também é excepcional. Ou seja, caso a seleção nacional vá marcando mais gols que as equipes adversárias e chegue à final e marque mais gols que o adversário na final, então demonstra-se cabalmente e definitivamente, imagino, que somos melhores que os demais países em tudo. Infelizmente, as coisas não funcionam assim, isto não funciona por osmose. Os eventuais êxitos no desporto não traduzem, nem provocam de maneira nenhuma êxitos nos avanços tecnológicos e científicos, na economia, na educação, em lado nenhum. Hoje em dia não, mas o Brasil já dominou o futebol internacional durante décadas e nem assim o Brasil saiu da cepa torta noutros aspectos. O Quênia domina as corridas de fundo e de meio fundo no atletismo e não é por isso que o Quênia não está no fundo, peço desculpa pelo trocadilho, mas o Quênia continua no fundo nos critérios de desenvolvimento que importam. Portugal pode ganhar 10 a 0 a Alemanha na final e nós temos a certeza, quem não tiver enlouquecido, tem a certeza de que no dia seguinte a essa final continuaremos muito mais pobres que a Alemanha. Isto porque a realidade é chata, teima em ser o que é e não se deixa adaptar às imposturas de políticos que são capazes de dizer o que calha para cativar a simpatia das massas. Se ao menos tivéssemos políticos coerentes, eles diriam estas coisas, mas depois também seriam os primeiros a aparecer logo que, conforme aconteceu em todos os campeonatos do mundo até este, a seleção de todos nós fosse eliminada antes de sequer chegar à final. E aí os políticos coerentes diriam que como a seleção não ganhou o mundial, afinal isso prova que não somos os melhores nem no futebol, nem em coisa nenhuma, que somos um caso perdido em todos os setores de atividade e por aí fora. Mas Portugal, muito provavelmente, não ganhará o mundial. Portugal talvez seja eliminado antes da final e não haverá políticos a dizer estas coisas. Não teremos essa sorte. Nós temos é azar e com o nosso azar ainda vamos ver os nossos estadistas nos Estados Unidos a assistir aos jogos naquele corrupio de viagens para apanhar os oitavos de final e os quartos de final. E com muito azar, até somos capazes de ver estadistas depois dos jogos aparecer nas televisões, nas nossas televisões, claro, a comentar pormenores táticos. Não seria a primeira vez e se calhar não será a última.

Alberto Gonçalves, com a relação entre os políticos e o futebol e este campeonato do mundo em particular. Alberto, até quinta-feira no "Resgate do Miguel".

Até quinta, Miguel. Um abraço.

Até quinta.

Portugal-Nigéria. Em Leiria, na reabertura do Estádio Dr. Magalhães Pessoa, a Seleção Nacional faz o último teste antes do Mundial de Futebol. Esta quarta-feira, a partir das 8:00 da noite. Emissão especial com relato em direto do Portugal-Nigéria. A Seleção Nacional joga na Rádio Observador.

Reza a lenda que em 66 os jogadores comeram bacalhau antes de todos os jogos, menos antes do fatídico contra a Inglaterra. E em 2016, um jogador tinha a barriga cheia de bacalhau quando nos encheu de orgulho. Chegou o bacalhau da sorte, um bacalhau para todos comermos antes de Portugal jogar, para dar sorte e alimentar a fome de vencer. Disponível e pronto a comer na cozinha Continente. Continente, parceiro alimentar das nossas seleções.

A dor tem muitas formas, afeta muitas pessoas e todas merecem ser ouvidas. Na segunda temporada do projeto Dor continuamos a dar voz a quem vive, estuda e procura aliviar a dor crônica. Saiba mais em observador.pt. Uma iniciativa do Observador com o apoio da Ferraz Lins.

Talvez nunca tenha pensado em conduzir um elétrico até agora. O novo Kia EV2 reinventa a mobilidade elétrica com design compacto, espaço flexível e 453 km de autonomia. O novo Kia EV2. Chegou a sua vez. Desde €21.850. Kia, movement that inspires.

"Pop Up", o programa de cultura popular da Rádio Observador, magazine para todas as telefonias. Esta semana, os astros brilham mais uma vez. Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Bosch Mendes. Alinhamento cósmico. Às quintas-feiras, depois das 14:00, na Rádio Observador e sempre em podcast.

Este programa tem o apoio da FNAC. Cultive a diferença.

Rádio Observador, são 06:51