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"Ideias Feitas", na Rádio Observador, com Alberto Gonçalves e hoje, Alberto, boa tarde. Queres falar sobre as reações à prisão de Nicolás Maduro?

Olá, boa tarde, Ricardo. Quero, sim senhor. A propósito dessas reações, já perdi a conta à quantidade de pessoas que desde sábado vieram reconhecer que o senhor Maduro era um ditador, que a Venezuela era uma ditadura e que um regime assim não é defensável sob ponto de vista nenhum, mas que depois acrescentam um profundo e um solene "mas". Ora, como lembrava outro, tudo o que se diz antes do "mas" não conta, porque fica evidente que era um exercício de fingimento apenas para simular distância, isenção e essas coisas. Conta o que se diz depois do "mas". E depois do "mas", toda essa gente disse mais ou menos o mesmo, quando disse que Trump só está interessado no petróleo venezuelano, que a ação militar dos Estados Unidos violou o lendário direito internacional. Ora, por um lado, essa gente nunca mostrou preocupação pelo fato de o petróleo venezuelano estar sobretudo nas mãos da China. E também isso não explica em que medida a salvaguarda do direito internacional tem ajudado os venezuelanos propriamente ditos, porque os venezuelanos propriamente ditos têm vivido, sobretudo, na miséria e no medo. Isto os que estão lá dentro, sem contar com os sete, oito milhões que já fugiram. Vivem na miséria porque havia e ainda há, infelizmente, parcialmente pelo menos, um governo que empobreceu o país a ponto de mais de metade da população viver numa penúria extrema e vive no medo, porque os hipotéticos queixumes da população, justificáveis, esses queixumes, claro, mas terminam quase sempre em detenção ou em tortura e nos limites, em última instância, em morte. Isto porque, acho que não é novidade, a Venezuela tem vivido debaixo das garras de um governo ilegítimo, que usurpou eleições pela força, que mantém os cidadãos subjugados e tem alinhado, ainda por cima, o país em conformidade às mais brutais ditaduras da Terra, da China ao Irão, da Rússia a Cuba, e tem transformado o Estado num narcoestado, uma espécie de entreposto vital na rede de tráfico de droga internacional. E perante isto tudo, o que o direito internacional fez foi colocar líderes de nações democráticas a dizer que acompanhavam com preocupação a situação da Venezuela, o que é o mesmo que dizer que estavam a borrifar para o assunto. A gravíssima violação do direito internacional que foi cometida anteontem serviu para fazer aquilo que a ONU e o direito internacional nunca fizeram e, muito provavelmente, também nunca chegariam a fazer: remover um tirano que massacrou o seu povo. Embora ainda falte perceber muito, isto é importante, ainda falta perceber muito do que irá acontecer, mas deu-se um primeiro passo para o mais importante, que é que os venezuelanos possam viver em liberdade. E neste momento, acredito que todos os venezuelanos tenham dúvidas e receios acerca do futuro, mas também têm aquilo que há dois dias não tinham: têm esperança de que as coisas melhorem. Até há dois dias não havia essa esperança, era uma esperança muito remota. Agora, realmente, há uma possibilidade. E esta rapaziada do "mas" e do direito internacional e da ordem internacional não quer saber da esperança dos venezuelanos, para nada. Nem sequer quer saber dos venezuelanos propriamente ditos. E por motivos diferentes, querem mostrar, que é o que me parece, que estão contra a possibilidade de os venezuelanos terem uma vida melhor. Algumas dessas pessoas porque são comunistas e gostam que haja pessoas a viver sob regimes comunistas, com tudo o que isso implica. E outras porque o ódio a Trump, e não é só a Trump, é o ódio aos Estados Unidos, o antiamericanismo já antigo, esse ódio é muito superior a qualquer simpatia que pudessem ter pelo bem-estar das pessoas que podem vir a beneficiar desta ação dos Estados Unidos. O que se nota em qualquer dos casos é uma extraordinária incapacidade, e é isto que faz mais impressão, uma extraordinária incapacidade de empatia, um desprezo absoluto pelo sofrimento de seres humanos, isto em nome de princípios teóricos, sejam os marxistas ou seja a tal ordem internacional. Infelizmente, o marxismo deixou os venezuelanos no limiar do desespero e alguns para além desse limiar, e a ordem internacional ignorou completamente o desespero, e esse desespero de milhões de pessoas. E da esquerda à direita, eu estou a falar mais da esquerda, mas há alguma direita que também não destoa muito disto. Permitir que pessoas sofram apenas para preservar princípios que nos assombram as cabecinhas é uma atitude própria de fanáticos, de criaturas para quem a vida dos outros é meramente instrumental. O importante é que os venezuelanos, isso acho eu, que mesmo cheios das tais dúvidas e incertezas, estejam a festejar. E estão a festejar onde podem e ainda não podem festejar tanto quanto gostariam, certamente na própria Venezuela, por motivos óbvios. E se não estou em erro, os venezuelanos devem ter mais a decidir sobre o seu destino do que os fanáticos que os abandonaram ao degredo em que eles têm vivido. Os fanáticos gostam de ideias, mas não gostam de pessoas. Eu, por mim, não gosto de fanáticos.

Obrigado, Alberto.

E tenho dito.

E regressas amanhã para-

Com certeza

...novo episódio do "Ideias Feitas". Um abraço.

Com certeza que sim. Um grande abraço, Ricardo. Até amanhã. O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.