Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

"Ideias Feitas" com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto.

Olá, Vanessa.

Hoje vais falar da confissão do apresentador José Carlos Malato, que se diz não binário.

Sim, e vou começar por falar do fato de ontem, tanto eu como tu, nos termos apressado a concluir que já não existia a silly season. Tivemos aquela dança do doutor António Costa em Moçambique e, um bocadinho depois da dança, tivemos a confissão do apresentador José Carlos Malato a dizer-se não binário. Antigamente, as pessoas quando queriam ser notícia, e não é um antigamente muito remoto, usavam os casamentos ou os divórcios. Quando pessoas minimamente famosas, ou que se achavam no direito de ser famosas, ou que achavam que era interessante ser famosas, queriam chegar às pequenas manchetes, usavam os casamentos, os divórcios, os filhos, o nascimento de um filho, coisas desse gênero, as mais corriqueiras. Depois, houve um período em que se passou a usar as doenças. A pessoa, se tinha uma doença, fazia alarde dela nas capas das revistas ditas sociais. Se tinha uma doença ou se pensava que podia ter uma doença, ou especulava à volta disso, era outra forma de ser notícia. Hoje, uma forma que é mais inócua é usar esta inclinação para se afirmar do gênero X ou Y, ou de gênero nenhum, ou para afirmar preferências sexuais, normalmente são homossexuais, raramente as pessoas vêm se afirmar heterossexuais, mas é uma forma realmente menos comprometida, mais inócua de tentar ser notícia e às vezes conseguir. Isso não é uma especificidade portuguesa, longe disso. Vemos na Inglaterra, nos Estados Unidos, noutros países, pessoas usarem isso constantemente. Aqui há uns tempos foi aquela que acho que é cantora, Demi Lovato, que tem ascendência portuguesa, me disseram, que também de seis em seis meses muda qualquer coisa nas suas preferências sexuais ou nas suas inclinações de gênero. E agora temos a adaptação nacional, lusitana, desse processo de ser notícia, quando as pessoas acham que estão a cair no esquecimento e não gostam. Tivemos o apresentador Malato a dizer-se não binário. Alguém lhe perguntou? É essa a dúvida que eu tenho. Alguém quer saber? Alguém está interessado em saber as inclinações de gênero do apresentador José Carlos Malato? De pessoas que eu conheça ou de pessoas que eu possa imaginar, acho que não. Acho que ninguém está minimamente interessado no assunto, mas é o que é. O homem faz o que pode e realmente conseguiu ser, pelo menos por meia hora, uma vaga, ter um bocadinho de atenção mediática e está a ter agora, neste modesto "Ideias Feitas", está a ser falado por isso e portanto, o homem com certeza estará contente, porque o método dele ou a técnica dele acabou por resultar. Agora, tudo isto parece mais um sinal de regressão, como outros sinais de regressão que estão a haver na nossa sociedade atual. Porque se repararmos, a história da humanidade é uma história que vai no sentido de se conseguir, e estou a falar desta matéria específica, de se conseguir cada vez maior privacidade. As pessoas antigamente não partilhavam casas, ou melhor, partilhavam casas, mas no mesmo quarto, estavam no mesmo espaço. As pessoas não tinham uma área própria, não tinham direito à sua reserva de privacidade, minimamente. Ao longo do tempo, ao longo dos séculos, esta privacidade foi-se construindo. Isto foi um ganho da história da humanidade, ganho através de ajudas tecnológicas, inclusivamente nas construções e na forma de conceber as casas, as ruas, as cidades, etc. As pessoas foram ganhando privacidade. Essa privacidade era um bem que era estimável até há pouco tempo. Hoje em dia é o contrário. As pessoas, tal como noutras áreas, estamos a fazer tudo para abandonar os automóveis ou para voltar a comer insetos ou coisas desse gênero. A privacidade também parece que é um bem que já não interessa preservar. Pelo contrário, as pessoas gostam de se expor das formas mais estranhas possível. Aqui há uns tempos saiu um estudo, eu vou mesmo terminar, porque sei que hoje há futebol, Vanessa. Saiu aqui há uns tempos um estudo, ou o resultado de um inquérito, que dizia que uma percentagem significativa, que era a maioria dos alunos homossexuais nos liceus portugueses, tinham receio ou por algum motivo, por receio ou outro motivo qualquer, não confessavam aos professores que eram homossexuais. A que propósito os alunos vão confessar aos professores, vão conversar sequer com os professores sobre as suas preferências sexuais? Eu não consigo conceber, no meu tempo, que já vai há uns anos, mas não foi exatamente no século XIX, não consigo conceber um contexto em que um aluno fale com o professor das suas preferências sexuais, sejam elas quais forem. Portanto, não vejo porque é que isto é um assunto, mas ao que parece é. Hoje, a tendência é as pessoas revelarem tudo. É bom assumir, o verbo utilizado muitas vezes é assumir. É bom assumir em público, porque se dá o exemplo. O exemplo de quê? O que é que o senhor Malato ao declarar-se não binário, seja lá o que isso quer dizer e seja lá o entendimento que ele tem da palavra ou da expressão, o que é que isto significa para os outros? Ele pretende dar um exemplo? É um líder espiritual ou coisa do gênero, que acha que a sua posição perante estas matérias é relevante para alguém? Eu presumo que não é. Ele, por vistos, presume que é. Ou o mais certo, voltando ao início, é realmente apenas querer aparecer em duas ou três noticiazinhas vagas para fugir ao tal esquecimento, que esta gente parece que foge como se foge da peste. Hoje, tal como a privacidade não deve ser preservada, pior que a privacidade é a obscuridade ainda. A pessoa detesta não ser falada, ou pelo menos este tipo de pessoas, ou um certo tipo de pessoas. E talvez seja apenas isso que o tenha movido e não vale a pena estar a especular muito mais sobre o assunto. Agora, mesmo para fechar, era importante que as pessoas tivessem alguma noção não só da privacidade ou do benefício que a privacidade constitui, do privilégio que ela constitui, mas tivessem alguma noção, ponto final, tivessem alguma noção das coisas e que evitassem cair nestas figuras. Mas enfim, como estas figuras, em geral, hoje não são penalizadas, pelo menos através de uma certa galhofa que as pessoas deviam dedicar a isto, como não são penalizadas, as figuras tristes continuam a repetir-se recorrentemente nestas questões e noutras.

José Carlos Malato assumiu esta semana nas redes sociais que não se identifica nem com o gênero feminino nem com o masculino. Quer dar visibilidade à comunidade não binária. Foi o tema de hoje do "Ideias Feitas" com Alberto Gonçalves, que vai ficar disponível já daqui a poucos minutos em podcast. Alberto, bom fim de semana, encontramo-nos na segunda-feira.

Bom fim de semana, Vanessa.