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Feitas. Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo, boa tarde.
Hoje queres ir aos jihadistas entre os imigrantes de Ceuta.
É, parece que há alguns. Mas a propósito do que aconteceu em Ceuta e está a acontecer, e segundo consta, há por aí uns grupos do WhatsApp a conspirar para que volte a acontecer em breve. O que não falta também por aí são comentadores mais ou menos profissionais que torcem a realidade de maneira a condicionar a conversa e, no limite, a suprimir a própria realidade. E sobre isto eu hoje gostaria de, desavergonhada e longamente, citar um vídeo publicado por um senhor inglês de origem russa, o Konstantin Kisin. Ele escreve em publicações como a Spectator e tem um programa no YouTube muito recomendável chamado Triggernometry. É um trocadilho com trigonometria. E no vídeo que citei, que é realizado naquele tom de paródia das proclamações oficiais dos regimes comunistas, o Konstantin Kisin enumera uma série de factos que é proibido notar sobre os eventos de Ceuta. Eu vou apenas citar alguns com a sugestão de que vejam realmente o vídeo na íntegra no Instagram do Kisin. Ambos os nomes dele começam por K, para ser mais fácil de encontrar. O vídeo vale mesmo a pena ser visto. Ele começa por lembrar, e sem caricaturar muito, que a BBC de início noticiou a história como sendo a entrada em Ceuta de apenas algumas centenas de médicos e engenheiros para efeitos de enriquecimento cultural. E que depois se constatou que afinal eram 60 mil pessoas, não eram algumas centenas, o que também não constitui um problema, já que a diversidade é a nossa maior força, como se costuma dizer. Infelizmente, isto tudo permitiu à extrema direita aproveitar-se da situação para contestar a imigração, como é seu timbre. E depois o Konstantin Kisin passa aos factos que é proibido constatar. Um dos factos é a invasão, que foi o que aquilo foi, mas não se pode dizer que foi, porque é ofensivo. Também não se pode dizer que a Espanha foi agraciada com a entrada de 60 mil pessoas, já que Ceuta fica em África e como toda a gente com uma educação progressista sabe, um território só pertence a um país se estiver ligado por terra a esse mesmo país. Logo, Ceuta não é a Espanha e, acrescento eu, as Berlengas também não são portuguesas. E também não se pode dizer que se trata de gente que quer os benefícios dos Estados Sociais Europeus. Tem de se dizer que são, por exemplo, refugiados das alterações climáticas e que por isso se mudaram do norte de África para o norte de África, onde o clima é muito melhor. Também não se pode dizer que tudo isto resulta, ou pelo menos foi impulsionado pela anistia concedida recentemente pelo senhor Sánchez a um milhão de imigrantes ilegais, porque é ofensivo, porque é errado presumir um nexo causal entre as ações do poder político e o comportamento das pessoas. E vou só fazer mais uma citação do Konstantin Kisin para explicar que também não se pode dizer que estes imigrantes tinham como objetivo chegar a diversos países europeus, pois também toda a gente sabe que é impossível chegar à Europa a partir de África em barcos. A prova disso é que na última década, somente três milhões de pessoas, mais coisa menos coisa, o fizeram. E por aí fora, eu volto a recomendar fortemente o vídeo. Mas há um pormenor que não está no vídeo, talvez por ser uma notícia mais recente, a notícia de que já foram identificados pelo menos 10 jihadistas entre as 60 mil pessoas que invadiram ou que entraram, peço desculpa pelo verbo, que entraram em Ceuta a partir de Marrocos e que os especialistas antiterrorismo do Ministério do Interior espanhol suspeitam que haja bastantes mais jihadistas com ligações prévias à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico, e que se calhar, digo eu, são capazes de não estar interessados em vir para a Europa para abrir startups ou aderir a associações humanitárias ou trabalhar num restaurante. Mas também é evidente que não podemos falar disso. Uma coisa engraçada no mundo contemporâneo, eu já vou terminar, Ricardo, é que não podemos falar de nada que seja real ou quase nada que seja real. Tudo o que podemos dizer, tudo o que é permitido ser dito, tudo o que é incentivado a ser dito, parte de pressupostos ideológicos e é raro ter qualquer relação com o que sucede na realidade. Antigamente, e não há muitos anos, não há um antigamente assim muito remoto, esta discrepância entre a realidade e o que vai nalgumas cabeças tinha um nome, mas também é um nome que não se pode dizer porque é feio. Ou hoje em dia é feio, hoje em dia é quase tudo feio. E dito isto, Ricardo, um grande abraço e até amanhã.
Um grande abraço, Alberto. Até amanhã.
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