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Ideias Feitas. Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo, obrigado.
E quero vir à notícia do dia, da privatização da TAP.
É, não há outros remédios.
Oi? Já estava aqui a disparar o feixe.
A pessoa é genérica outra vez.
Já estava a disparar o feixe, mas ainda tens tempo para falar.
Era assim? Tão rápido hoje?
Hoje foi rápido.
É a minha opinião sobre a TAP, portanto não dou opinião nenhuma.
É uma versão micro do Ideias Feitas.
Deixa-me recuar um bocadinho e, se não estou em erro, recuar uns anos, não muitos, o governo de António Costa, na altura com o ministro Pedro Nuno Santos, resgatou a TAP, salvou a TAP, como alguns disseram, à custa de no mínimo 3,2 ou 3,3 mil milhões de euros do nosso dinheiro, naturalmente. Agora este governo vende quase metade da TAP à Lufthansa por 1,2 mil milhões, fazendo com que a avaliação implícita da empresa, isto se eu percebi bem, para posterior e eventual venda do resto lá para 2028, se Deus quiser, fique pelos 2,5 mil milhões. O governo atual também refere que com os dividendos da participação na Lufthansa e uma hipotética valorização das respetivas ações da Lufthansa, lá para 2040 chega-se mais ou menos ao valor investido pelo governo PS na TAP ou de facto pelos contribuintes. Isto na melhor e mais remota das possibilidades. Para já, o certo é que faltam quase 2 mil milhões para recuperar o dito investimento e o mais provável é que, contas feitas, no final de contas, haja um prejuízo de 780 milhões, que tenho a impressão que não serão devolvidos pelo doutor Costa e pelo doutor Pedro Nuno. Mesmo assim, é evidente que por uma vez o governo atual merece um elogio. É preferível perder alguma coisa a perder tudo, parece-me de elementar bom senso. E além disso, a plausível consumação, vou considerar plausível, estou a ser otimista, a consumação da privatização total da TAP, a confirmar se garantiria que mais nenhum cêntimo dos portugueses voltasse a ser espatifado nesta célebre companhia de bandeira. Há que esperar por 2028, 2029 ou 2030 e fazer figas. E por falar nisso, em companhias de bandeira e não nas figas, ainda há por aí muita gente conhecida, gente anônima, que vai passar os próximos dias, de certeza absoluta, a repetir aquela cantilena que já foi repetida muitas vezes, de que a TAP nunca deveria ser vendida sob pena de tragédias extremas e diversas. Infelizmente para essa gente, nenhuma das tragédias que alegam sobrevive ao escrutínio, e não é preciso um escrutínio muito rigoroso e muito profundo. Em geral, os defensores de uma TAP que deva permanecer 100% nas mãos do Estado e nos bolsos do contribuinte, oscilam nos seus argumentos entre o épico e o lírico e em qualquer dos casos aquilo é puro sentimentalismo. Não há nenhuma razão, nenhum argumento racional que justifique a conversa sobre a soberania, a identidade nacional, a lusofonia, a diáspora e a bandeira, claro. Tudo espremido, isto resume-se a pouco e é relativamente simples. Se houver procura que justifique os voos entre Portugal e determinados destinos, haverá sempre companhias disponíveis para os fazer. Imagino eu. Se não houver procura suficiente, ou seja, se determinados destinos derem prejuízo, é evidente que uma empresa privada não os fará. E principalmente, também acho eu, é muito desejável que uma empresa pública também não os faça, já que nós sabemos, em última instância, quem é que acaba a arcar com o prejuízo. Enquanto pagador de impostos, não me apetece especialmente financiar direta ou indiretamente um voo, acho que não há, mas um voo regular entre Lisboa e a diáspora portuguesa, por exemplo, na Serra Leoa. Eu também não sei se há uma comunidade portuguesa na Serra Leoa, parto do princípio que sim. Não é isso que importa aqui. O que importa aqui é notar que esta ideia de encher o peito com patriotismo ou com nacionalismo para defender a existência de uma companhia aérea estatal é ridícula no modo e é ridícula no tempo, porque se virmos bem, hoje em dia quase nenhum país tem companhias aéreas estatais. Eu não fui procurar pelo mundo todo, mas procurei pelo Ocidente. A Alemanha não tem companhia aérea estatal, a Áustria também não. Está aqui uma lista: a Bélgica, a Dinamarca, Espanha, França, Grécia, Hungria, Irlanda, Noruega, Israel, Holanda, Reino Unido, Suécia, Suíça, Austrália, Canadá, Estados Unidos e em breve a Itália também não têm companhias aéreas estatais. Em todo o Ocidente, os países que ainda as têm são apenas a Croácia, a Finlândia, o Luxemburgo, a Polónia e a Roménia. E ainda Portugal, agora parcialmente, mas continua a ter, e que se tudo correr bem e um governo patriota e nacionalista não voltar a reverter a decisão um dia destes, o governo ou este governo ou outro no seu lugar há de despachar a TAP de vez. Isto não resolve os problemas do país, claro, mas resolveria pelo menos um problema do país. E é um problema que, mais uma vez, feitas as contas, nos tem custado muito caro.
Obrigado, Alberto. E até amanhã.
Até amanhã, Ricardo.
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