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Vamos desfazer ideias feitas com o Alberto Gonçalves e hoje olhar para o episódio que aconteceu no Teatro São Luiz, em Lisboa, de um transexual que subiu ao palco do São Luiz. Olá, Alberto.

Olá, Vanessa. Sim, isto já foi há alguns dias, mas acho que merece a recuperação. O caso de uma peça que estava a ser encenada. Eu julgo que a peça "Tudo sobre a minha mãe" é uma adaptação de um filme do Almodóvar. Se estiver enganado, peço desculpa, mas julgo que é isso. Estava a ser exibida no Teatro São Luiz e a certa altura começam a se ouvir uns gritos de trans fake ou qualquer coisa do gênero, e um sujeito seminu com implantes mamários vai pela sala afora e sobe ao palco com um discurso em que se disse ser transexual, em que disse chamar-se Keyla Brasil, e que disse que anda na prostituição por causa do papel de um transexual na dita peça ser interpretado por um ator não transexual. Não percebo exatamente a relação entre a questão laboral do sujeito e a peça em causa, porque acho que além da prostituição e da interpretação de transexuais no São Luiz, é capaz de haver outros empregos, outras saídas profissionais. Mas ele entendeu que não havia e que só há uma coisa ou outra. Entretanto, soubemos que o encenador da peça já cedeu às reivindicações do transexual, que queria que o ator fosse afastado desse papel, o ator não transexual. O ator foi afastado, o encenador cedeu e trocou o ator em causa por um ator transgênero, que por acaso é aquele ator que fazia aquele anúncio famoso do Touché, em que ele interpretava um pastor. E suponho que o ator em causa não era pastor. E é disto que se faz a interpretação. E é disto também, de acontecimentos como este, que se fazem os equívocos. Ou seja, o conceito de interpretação, de representação, é as pessoas fazerem de conta que são aquilo que não são. Eu estive a pensar num filme para dar aqui exemplos, e não me ocorre nada, filmes muito recentes, peço desculpa por estar um bocado desligado do que se passa aí no cinema atualmente, mas um filme que mais ou menos toda gente tenha uma ideia de qual é, e lembrei-me do "Taxi Driver". Ora bem, o Robert De Niro não era taxista, a Jodie Foster não era prostituta, nem sequer heterossexual, o Harvey Keitel não era proxeneta, e por aí fora. A Cybill Shepherd também não era aquilo que desempenhava, o Albert Brooks, salvo erro, não era político. Ou seja, as pessoas faziam de conta que eram outras coisas. E é disso que se faz o teatro, é disso que se faz o cinema. Também suponho que para interpretar o Rei Lear não é preciso ser monárquico e muito menos rei. Pode ser um sujeito qualquer, pode ser um ator, normalmente é esse o ofício e é essa a sua função. Portanto, há desde logo aqui este equívoco. Mas depois temos alguma coisa de mais grave nisto. Além disso, tem um lado paródico, é verdade, mas depois há alguma coisa mais grave que é importada nitidamente dos Estados Unidos e também do Canadá, do Reino Unido, daquilo que está a acontecer lá fora. Também em Espanha, já tínhamos visto. Aqui estão a chegar os ecos deste movimento woke, destas políticas identitárias. E note, falando nisto vagamente a propósito da Iniciativa Liberal, mas estas coisas estão a chegar cá. As pessoas dizem: "Cá isto não acontece." Não acontecia, começa a acontecer. Começa a acontecer porque vemos o caso do ator que foi despedido do papel em que interpretava o tal transexual, já veio solidarizar-se com a causa. Veio dizer que acha importante e acha que os transexuais devem aproveitar este episódio para ganhar visibilidade e mais não sei o quê. Ora, se ele acha ou não acha, é bem possível nós determinarmos. Agora, a verdade é que ele disse aquilo que se sente obrigado a dizer. É aquilo que nós vemos em Hollywood, quando acontece qualquer coisa do gênero, as pessoas vêm todas. Ninguém ousa beliscar o status quo nestas matérias e quem ousa, normalmente acaba por ver a carreira comprometida nos tempos seguintes. Isto passa-se porque as pessoas têm medo. Têm medo de dizer que nada disto faz sentido nenhum, que era uma peça. Haviam os atores contratados para a peça e os atores desempenham as personagens que lhes apetece, independentemente das características de sexo, de etnia, de gênero. Só aqui uma ressalva, a única coisa que normalmente é exigível no papel ou no ator que desempenha o papel é a verossimilhança. Quer dizer, não faz sentido pôr uma rapariguinha de 15 anos interpretar o Churchill, por exemplo, num filme qualquer. Isso tudo bem, quando se trata de personagens reais, identificáveis, históricos. Agora, quando se trata de uma peça de ficção, acho que não há nenhum problema, ainda por cima numa questão como esta, que é óbvio que um ator homossexual pode fazer de heterossexual, um ator heterossexual pode fazer de homossexual e por aí fora. Não há diferença nenhuma e até julgo que será um desafio para o ator e não traz mal nenhum ao mundo. Agora, mal ao mundo vem deste medo que se sente, desta necessidade que as pessoas sentem de se submeter a estas ideologias ditas de gênero. Isto também se aplica noutras questões identitárias, como a raça e tudo mais. Ou seja, o que falta nisto é o bom senso e o que há em excesso é um péssimo senso, porque no palco e na vida não faz sentido nenhum agitar bandeiras relativas a certas características dos indivíduos, características que não têm qualquer relevância na sua vida pública. O problema é esse. Quando se pega nessas características e as torna relevantes, determinantes, praticamente únicas, ou seja, um indivíduo é definido por Pelo seu sexo ou gênero, como quiserem chamar, ou pela orientação sexual, ou pela sua etnia. Quando isso acontece, mesmo que a intenção seja positiva, seja uma discriminação positiva, é discriminação. E a discriminação positiva é tão grave quanto a negativa. É exatamente a mesma coisa. E é isso que estas políticas identitárias procuram fazer. Isto é uma espécie de continuação ou substituição, melhor dizendo, da luta de classes por outras vias, já que a oposição, a divisão da sociedade entre patrões e operários não deu muito resultado, porque infiltraram os funcionários dos serviços e confundiram um bocado Marx, as teorias de Marx. Agora, tenta-se substituir isso com estas múltiplas divisões por etnia, por sexo, por orientação sexual, por religião ou ausência dela, e por aí fora. E tenta-se privilegiar certas características dos indivíduos que não fazem sentido merecerem qualquer privilégio. Ninguém é absolutamente mais do que ninguém por ter uma orientação X ou Y, como é evidente ou como devia ser evidente. No entanto, chamar a atenção para isto, hoje sujeitamo-nos a acusações abomináveis, conservador será a melhor delas, mas normalmente chega a fascista e coisas assim. E racista, e por aí fora. Esperemos que haja um... só mesmo para terminar, Vanessa, temos visto que em Hollywood, e Hollywood é de onde vêm estas coisas normalmente em termos de projeção mediática, temos visto que os filmes e as séries que tentam privilegiar esta mentalidade dita woke, que tem merecido falhanço nas bilheteiras e nas audiências. Esperemos que isso seja um bom sinal e que revele que as pessoas, ou que uma grande maioria das pessoas, fora destas bolhas de fanáticos e de pessoas, porque os profissionais têm medo dos fanáticos, que fora disso ainda haja uma espécie de massa mais ou menos difusa de bom senso por aí, que permita que as pessoas possam olhar para si e esperar ser tratadas como pessoas e não como uma espécie de mostruários de características que não interessam a mais ninguém, a não ser, com certeza, ao próprio.

Hoje foste aqui a um tema que também foi tema do Contracorrente esta manhã. O título que o Alberto Gonçalves escolheu para o Ideias Feitas é este: "Um transexual entra num teatro". Alberto, até amanhã.

Até amanhã, Vanessa.