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Este podcast é da responsabilidade da Fundação GDA. O que sabem os artistas e o setor cultural sobre fundos europeus? Quais os truques e as dicas que podemos partilhar pra alcançar o tão desejado financiamento? Isto não é mais um podcast. São conversas inspiradoras sobre financiamentos europeus com o objetivo de quebrar mitos e passar à ação. O meu nome é Francisco Cipriano e sou o vosso anfitrião. Olá, bem-vindos ao Isto Não é Mais um Podcast, e já vão compreender por quê. Hoje tenho comigo o Luís Miguel Rodrigues, que vem da cooperativa Glocal Music, e que nos vai falar de um projeto que se chama Indifferent Journey, um projeto que foi financiado pelo Erasmus+ na sua ação-chave 2. Bem-vindo, Luís. Obrigado por teres aceitado o nosso convite.
Obrigado eu.
Olha, eu começaria justamente por aqui. A vossa entidade viu recentemente aprovado este projeto no programa Erasmus. Queres me explicar um pouco que projeto é que se trata?
Sim, o projeto Indifferent Journey é um projeto da ação-chave 2, educação de adultos, tem uma componente de aprendizagem nas áreas artísticas do teatro e também com uma nova valência de inovação, que é juntar o Makey Makey. O Makey Makey é uma ferramenta informática que permite gravar voz, sons, e utilizamos isso na construção desta aprendizagem, com pessoas com deficiência. A ideia geral do projeto é partilhar, aprender metodologias nestas áreas artísticas, teatro, dança e música, e com o objetivo final de construir um espetáculo inclusivo, chamemos assim, apesar de eu não gostar desta palavra, baseado num conto do José Saramago, "A Ilha Desconhecida". O projeto já tem cerca de um ano de existência, vai a meio. Pretende-se também construir depois, no final do projeto, um produto intelectual, um audiobook, que será editado nas redes sociais e será partilhado de forma gratuita online. Em termos gerais, digamos que é isto o projeto. Há uma sequência lógica neste projeto. Este projeto surge de um outro anterior, que é o So Far So Near, que foi um projeto também inclusivo, com participação de técnicos e pessoas com deficiência, onde houve uma grande partilha em termos de metodologias e de aprendizagens artísticas, e que pretendeu construir também um produto artístico no final, baseado nas aventuras do João Sem medo, do José Gomes Ferreira. Dizendo em termos gerais, são projetos de aprendizagem, onde há uma sequência lógica nos dois projetos. O So Far So Near, com um tipo de aprendizagem, sentimos a necessidade de construir a partir daí um outro projeto e aprofundá-lo nas suas aprendizagens. E então nasceu este projeto, o Indifferent Journey.
Muito bem. Fala-me um bocadinho das vossas responsabilidades enquanto instituição. Normalmente, estes projetos funcionam com working package. Pacotes de trabalho em que cada parceiro tem uma determinada atividade ou responsabilidade. Em particular, a vossa cooperativa, qual é que era a responsabilidade que tinha no projeto?
A nossa cooperativa é a entidade coordenadora do projeto, gere todas as questões, tem a responsabilidade final em todas as questões do projeto, sejam elas administrativas, financeiras, pedagógicas, de disseminação do projeto, o que é um grande desafio pra nossa entidade e que a fez crescer com este projeto. Resumindo, temos essa responsabilidade. Desde o início do projeto, o pré-projeto, no desenho do projeto, passando por todas as fases de implementação e passando por todas as fases de gestão do projeto, nestes aspectos que eu já referi.
Ok. E muitas das vezes, a pergunta mais frequente que me colocam é: como é que chegamos às parcerias, não é? E é por isso que eu há bocado brincava, dizer que isto não é só mais um podcast, é um podcast que queremos, de facto, ajudar as pessoas a encontrar caminhos e a estabelecer processos de aprendizagem. No vosso caso, ainda mais sendo o líder da candidatura, como é que chegaram às parcerias?
Isso foi um processo curioso, engraçado e motivador. Chegamos de duas formas, três formas. Eu sou coordenador do projeto e enquanto coordenador do projeto, trabalhei muitos anos na área da deficiência, em instituições que prestam apoio a pessoas com deficiência e suas famílias. E nesse contexto, tivemos algumas mobilidades, nessa altura, e um dos parceiros foi referenciados aí. É um parceiro de longa data, é o parceiro húngaro. Um outro parceiro também foi nos primeiros contatos com a Agência Nacional Erasmus, participamos numa ação na Romênia e identificamos um parceiro da Finlândia, que lhes chegou o projeto através deste contato direto. Um deles também é curioso, um outro parceiro, o parceiro italiano, foi um parceiro que fez muitas parcerias com entidades em Portugal, que eu já tinha referenciado, e que também veio pra parceria. Os outros foi por contato através destes parceiros, que chegamos a uma parceria alargada, com base nestes contatos mais pessoais. Se me perguntas de forma mais geral, como é que se chega às parcerias, penso que as pessoas têm interesse nisso. Há várias formas. Para além do contato pessoal, do conhecimento, há plataformas online, nas redes sociais, onde se pode chegar a parceiros e há muitos open calls, digamos que é isto. Não sei se respondi a todas.
Não, respondeste perfeitamente, é um pouco esta também a ideia que eu tinha e também é isso que eu normalmente tento passar às pessoas que me perguntam Normalmente começar sempre pelas nossas redes, que são as mais fortes, com as relações que já estabelecemos com algumas entidades e depois, se faltar um ou dois, fazer então essa pesquisa, vamos chamar a linha, e tentar encontrar aquele que de facto é o mais correto.
O que é um risco sempre, porque não se conhecem as pessoas, não se conhece o trabalho das organizações. Esse contacto, esse angariar de parceiros torna-se sempre um risco. Nós por acaso tivemos alguma sorte nestes contactos pessoais e como é que chegamos aos parceiros.
Fala-me um bocadinho do processo de elaboração da candidatura. Isto é, já vamos falar naquilo que foram os resultados e tudo isso, mas fala-me um bocadinho no processo de articulação de vontades entre os vários parceiros, porque eu sinto muito que um projeto só funciona se todos nós virmos qualquer coisa de útil nas atividades que vamos preconizar. Fala-me um bocadinho como é que foi montar isto tudo com uma rede de parceiros tão alargada em tantas partes diferentes da Europa.
Não foi difícil, também não foi fácil. Foi um processo, digamos, dinâmico e dialético, umas coisas chegavam às outras. Mas voltando um bocadinho atrás, à história destes dois projetos, porque eles estão interligados. O So Far So Near nasce de uma ideia nossa aqui em Portugal, a partir de um trabalho que já tínhamos feito anteriormente, interassociações numa produção teatral e com algum êxito e com alguma repercussão nacional. Passado um tempo, amadureceu a ideia, e pensamos: "Por que não tornar isto um processo e um projeto internacional?" Que era vontade nossa já há muito tempo, alargar estes horizontes. O projeto estava desenhado para Portugal, foi transformá-lo para um projeto internacional, com as várias sensibilidades, com as várias formas de fazer as coisas. Construir uma candidatura não é fácil. Há que responder a uma série de questões e há que ter muito presente aquilo que se quer e ser muito claro e objetivo. De qualquer forma, a partir da ideia que nós concebemos, foi um processo muito colaborativo em termos de construção do projeto, aproveitando também as experiências dos nossos parceiros. Um deles é o Museu do Teatro, que tem uma experiência pedagógica, uma valência pedagógica grande na área do ensino. Um outro parceiro é uma federação artística da Hungria, portanto também tem um grande know-how em termos de construção destas coisas. E um terceiro, é a Fundação Aida, de Itália, que trabalha com pessoas com deficiência e crianças nas áreas artísticas. E depois foi um processo colaborativo de construção nas suas várias fases, no desenho das mobilidades, no desenho de todos os produtos que saem do projeto, às vezes alguns desacordos em termos de opiniões sobre a forma de fazer as coisas, mas chegamos ao fim e foi todo um processo enriquecedor para todos. Enriquecedor tanto na perspectiva pessoal, como na perspectiva profissional e de sentirmos todos, no seio desta parceria, que tem funcionado muito bem há muitos anos, que estamos a fazer alguma coisa de útil. Chegamos ao ponto, hoje em dia, de olharmos uns para os outros enquanto parceiros, enquanto pessoas que participam deste projeto, quase como uma família, quase como uma entidade coletiva, digamos assim.
Sim.
O processo foi construído durante a pandemia, também. Muitas reuniões online, através do Zoom, muitos e-mails, muita troca de opiniões e desenhou-se o projeto.
Para ti, o que é que foi mais desafiante? De facto, o processo da candidatura ou agora esta fase de gestão e de implementação das ideias que desenharam?
Talvez não te sei responder a isso de forma muito concreta. Ambos foram desafiantes e ambos foram gratificantes. No processo de candidatura, a idealização de tudo, o ter que abdicar muitas vezes de ideias que tínhamos em relação a coisas e concertar todas essas sensibilidades e opiniões. No processo de implementação, temos dois tipos de mobilidades, uma mobilidade só para técnicos e profissionais, outra com aprendizes. Aprendizes é o jargão que se dá a alunos no contexto Erasmus. E são mobilidades com 40 pessoas, o que é, de veras, não muito fácil. E depois atendendo às características das pessoas, que são pessoas com deficiência, cada uma com as suas particularidades, e há que responder a tudo isso. Isso é desafiante. Vamos ter um outro desafio pela frente, que se vai mostrar enriquecedor, mas também difícil, que é a construção do tal produto intelectual, que será um audiobook, digamos assim. Com várias interpretações, cada parceiro com várias propostas de metodologia para esse livro e estamos em processo agora de chegar a um acordo, como é que isso vai ser feito, qual vai ser a estratégia, qual é que vai ser o conteúdo e de que forma é que isso vai ser apresentado às pessoas. Isso está a ser extremamente desafiante. Isso revela-se, na minha perspectiva, digamos assim, entre aspas, o mais difícil. Não é difícil, mas o mais desafiante.
Ok. Olhando para os resultados, e já falaste de alguns, e muitos são verdadeiramente impactantes, até no contexto do público-alvo que estamos a falar. Internamente, para a vossa organização, já passaram por dois projetos, o So Far So Near e agora o In Different Journey, como é que vocês veem isso internamente? O que é que verdadeiramente ganham? Financeiramente, é claro, têm aqui uma ajuda substancial para implementar as vossas atividades, mas o que é que fica em termos de recursos humanos, de capacitação, participação em redes, como é que vês isso?
Vejo isso de várias formas, todas elas positivas E com várias dimensões, desde logo, como falaste, a financeira, que é uma grande ajuda para a nossa organização. Digamos que estes projetos alavancaram o crescimento da cooperativa nas suas mais diversas variantes, administrativa, pedagógica, de redes, de novos projetos que surgiram. Nós temos uma filosofia de atuação, tentamos sempre em todas as atividades ter um fio condutor e uma sequência lógica de atividades. O So Far So Near fez com que a instituição crescesse muito e que, a partir desse projeto, desenvolvêssemos outros, mesmo em termos nacionais. Deu origem a um projeto aprovado pela DG Artus, inclusivamente a Fundação GDA apoiou-nos no programa Artes sem Barreiras, tudo a partir deste projeto. A nossa rede de trabalho, seja nacional, seja internacional, cresceu imenso. E depois vai desembocar no Indifferent Journey. E o Indifferent Journey, em todo o seu processo, fez com que a cooperativa se desenvolvesse mais ainda. Criou-se uma companhia de teatro inclusiva, que é chamada Companhia Indiferente, com o próprio nome do Indiferente, que faz várias produções. Temos em perspectiva a abertura de uma escola inclusiva de artes. Tudo isto a partir dos programas internacionais, do programa Erasmus, que fez com que crescesse desta forma. Inclusivamente, deu origem também a um projeto Europa Criativa que temos agora. Somos parceiros de um projeto que, no fundo, é uma consequência também de todos estes dois projetos. Para nós foi extremamente positivo e gratificante por tudo aquilo que conseguimos em termos de rede de trabalho, de crescimento da organização, a todos os níveis.
Houve uma espécie de um processo de capacitação geral, não foi?
Capacitação geral na organização, sim.
Olha, isso por acaso conduz-me a uma questão que também é um pouco frequente nestas minhas conversas com os promotores, que é: às vezes as pessoas que ainda nunca participaram em projetos têm a tentação de pôr tudo no mesmo saco, isto é, fazem um projeto e querem resolver todos os problemas da instituição dentro daquele projeto. Querem resolver problemas de formação, de internacionalização, artísticos, tudo ao mesmo tempo. E pelo que foste falando, eu percebi que vocês têm aqui uma abordagem um bocadinho diferente. Que é ir olhando para o problema e para os diversos programas onde vão participando.
Sim.
Como é que veem isso? Até porque também falaste na questão da DG Artus, que também é relevante neste contexto. Como é que articulam estas duas vontades, por um lado, a vontade de financiamento e, por outro lado, um número de programas enormes que respondem a este financiamento?
A ver se eu entendi a tua pergunta.
No fundo, como é que fazem este trade off? "Ok, este vamos a um Erasmus, este vamos a um Europa Creative e aqui fazemos uma abordagem nacional DG Artes."
Como é que fazemos isso? Tentamos seguir um percurso lógico, e responder a necessidades do momento. E prende-se também com os objetivos que nós temos em termos de crescimento. Nós temos uma aposta muito grande na área da inclusão, que serve como pano de fundo para tudo aquilo que fazemos. Digamos que aqui há uma escolha, mas não se pode falar em escolha propriamente dita. São sequências lógicas de todo o trabalho. A que necessidades é que respondem? Respondem a necessidades de crescimento, em termos organizacionais, e crescimento a vários níveis, seja pedagógico, seja de intervenção, seja administrativo, seja financeiro. E com uma vontade muito grande também de intervir neste silo que é a inclusão. Temos várias pessoas que trabalharam e que vêm dessa área. E definindo isso como pano de fundo e como base de todo o trabalho, tentamos que os projetos não sejam desgarrados uns dos outros. Que tenham uma sequência lógica em termos de aprofundamento das áreas artísticas com estas pessoas. Não sei se estou a responder à tua pergunta.
Sim, estás.
Mas digamos, resumindo, é tendo como base o trabalho inclusivo com pessoas com necessidades especiais, pessoas com deficiência, desenvolver o trabalho artístico, pedagógico e de intervenção. Tendo como pano de fundo, e isto às vezes pode ser um chavão, o exercício da cidadania por estas pessoas. E crescermos todos juntos. Que é isso.
Pelo que me é dado a conhecer, percebo que têm muitos projetos em simultâneo.
Sim.
Isso deve trazer também para a organização uma carga administrativa substancial, que é também um bocadinho o papão de muitas entidades artísticas. Ficarem com a sensação que em vez de produzirem cultura, em vez de produzirem arte ou atividades artísticas, ficam embrenhadas nestas lógicas de gestão. Como é que vocês se organizam?
Digamos que, nós temos uma contabilista e temos uma pessoa que também é artista, música, e que faz o trabalho de tesouraria e o trabalho administrativo, porque há muito em termos cooperativos, como tu deves saber, há uma exigência grande em termos administrativos, certificados, uma série de coisas. Não é fácil. Muitas vezes lutamos contra o tempo e às vezes discutimos uns com os outros por causa disso, os tempos que já passaram, deixamos passar este prazo, isto em termos administrativos. Mas tentamos da melhor forma. Não te consigo dar uma receita, nem te consigo dizer que é assim ou que é de outra maneira. Vamos fazendo com a perspectiva também de especialização de pessoas nessa área. Temos em vista contratar uma pessoa para essa área em termos administrativos e que vá tratando das coisas, para além da contabilista. Como sabes, estes projetos envolvem, parece muito dinheiro, parece um grande budget, eu costumo dizer que as organizações coordenadoras deste projeto, digamos, são interpostos de budget. Recebem o budget e têm que enviar para os parceiros e tudo mais. Isso somos nós que fazemos neste momento ainda.
Como é que está a ser a experiência de liderar um projeto internacional nessas questões?
É desafiante, não é fácil. Mas em termos de projeto, nós estruturamos as coisas. Fizemos um acordo de parceria, e esse acordo de parceria baliza todas as responsabilidades e aquilo que é preciso no projeto. Esse acordo foi escrito por todos, aprovado por todos, e digamos que é a nossa cartilha, a nossa bíblia de funcionamento, é aquele acordo de parceria que prevê desde o budget, conflitos que possam surgir, problemas.
É o chamado partnership agreement, não é?
Sim. E que baliza isso. Às vezes há que resolver problemas, no momento, e às vezes não são fáceis de resolver, porque fala-se em inglês ou em francês. Nós temos um parceiro francês que tem alguma dificuldade no inglês. Eu falo as duas línguas e muitas vezes estou a falar com as pessoas e nem sequer percebo a questão que elas me estão a colocar. Não é não perceber o que elas estão a dizer.
Sim, mas é ler ali as entrelinhas, qual é o problema, afinal.
Qual é a questão.
Até porque são organizações diferentes, com países diferentes.
E culturas diferentes, e formas de dizer as coisas diferentes.
Com impactos diferentes nas legislações internas. Às vezes há realidades que nós nem sequer compreendemos.
Sim, os diversos tipos de legislação financeira, digamos, e burocrática, por exemplo, em termos de viagens, é diferente de país para país, e há que conciliar isso tudo. E como disseste, e com toda a razão, que é gerir também as formas de ser e as culturas das pessoas. Nós em Portugal podemos dizer as coisas de determinada maneira, e tens que perceber se uma pessoa turca não diz daquela maneira. E tens que ter um jogo de cintura grande para perceber o que estão a dizer ou o que querem nas entrelinhas. Nós temos alguma facilidade nisso, dado o conhecimento já ao longo do tempo. Já nos rimos muitas vezes de determinadas questões. Outras que são complicadas de resolver, mas que se resolvem.
Exato. Imagino agora que com estes dois projetos internacionais e com toda a envolvência que estão a criar, devem receber um convite de parceiros por dia, em termos internacionais, não?
Sim, na altura das calls recebemos, sim. Muitos e-mails, muita solicitação.
Porque acabam por ficar também muito expostos a estas redes internacionais de parceria.
Mas tentamos fazer uma triagem de tudo aquilo que nos aparece. Temos alguns parceiros fixos noutros projetos, em termos de parceria, e parceiros muito interessantes, com um trabalho muito interessante nesta área da inclusão e da cidadania, que nós preferimos.
Queres nos contar uma história que tenha sido mais caricata neste processo da construção dos projetos, ou do "So Far So Near", ou do "In Different Journeys"?
Agora o que me veio à cabeça, de repente, foi uma história não da construção, mas durante o processo, numa mobilidade em França, que estavam 40 pessoas. Nós dormíamos, comíamos no mesmo sítio e tínhamos as atividades no mesmo sítio, numa sala grande. E foi uma mobilidade de sete dias. No fim do quinto dia, a gerência desse hotel veio ter conosco dizer que não havia mais sala, que só tinham pedido a sala para três dias. Isso foi um problema terrível.
Imagino.
Mas que foi resolvido, houve um erro, mas enquanto se percebia se havia um erro ou não havia, foi complicado. Eu tive que me chatear depois com a administração desse hotel, juntamente com uma pessoa francesa, a coordenadora do projeto em França, e passamos uma manhã sem atividade, com a sala fechada, porque a gerência do hotel dizia que não tínhamos a sala, que não tinha sido pedida quando tinha sido pedida. Isto tudo em francês, o que é difícil. Depois os franceses são pessoas, como sabes, muito teimosas, digamos.
Pouco flexíveis, talvez.
Pouco flexíveis, sim. E não foi fácil aquilo, para os diretores de organização. Depois há outras histórias, que incluo mais pessoais. No conhecimento das pessoas, sei lá, por exemplo, essa parceira francesa é muito rica nesse tipo de coisas. É uma pessoa que é animadora sociocultural e educadora social. Teve uma filha durante o projeto, durante o decorrer do projeto, agora há pouco tempo, e estava a nos explicar em francês, a maior parte das pessoas não falam francês.
É geracional.
É. E contava que o marido era assim, era assado, o pai da criança, e "Mas o que o teu marido faz?", ela não conseguia explicar. "O meu marido é o Super Mário". Pegas numa espada, fazes tudo.
Acabam por ser umas experiências muito enriquecedoras.
Muito enriquecedoras do ponto de vista pessoal.
E levar esses grupos, com pessoas com essas ações.
Eu reforçava isso, estes projetos Erasmus são muito enriquecedores em termos pessoais, em termos de vivência E ao mesmo tempo enriquecedores e propiciadores de crescimento em termos profissionais, em termos de metodologias, de partilha de experiências e de know-how, em termos de fazer as coisas e do trabalho. Portanto, abre-te imensos horizontes. Eu recomendo vivamente a toda a gente que tenha uma experiência deste género.
Pego nas tuas palavras justamente porque uma das razões destas nossas conversas é sermos inspiradores e motivadores para que mais entidades artísticas e culturais possam concorrer a projetos, porque as oportunidades estão cá. E justamente cabe-nos a nós dar esta informação para que elas não sejam desperdiçadas. E por isso, se calhar, o que eu te perguntava a terminar era: com base nessa experiência, o que é que dirias a uma entidade artística ou cultural que queira começar nestas andanças?
O que é que eu diria?
Qual era a sugestão?
Tem que ter uma vontade e uma motivação grande para participar nestes projetos. O desenho do projeto não é fácil, os formulários não são fáceis, exigem uma série de questões que não são fáceis. Mas em termos de crescimento pessoal e em termos de crescimento profissional, é extremamente enriquecedor este tipo de projeto. E em termos de experiência internacional e de maneiras de fazer as coisas em termos internacionais, é extremamente enriquecedor. E são projetos que propiciam o crescimento das organizações artísticas e culturais. Se bem que o Erasmus não financia projetos artisticamente, como sabes. O Erasmus financia projetos educacionais. Neste caso, estamos a falar de metodologia de educação de adultos, o que permite, e que é uma mais-valia, para uma aprendizagem artística digamos, pedagógica. Aprendizagens artísticas que se podem partilhar, que se podem aprender, que propiciam o crescimento em conjunto de várias organizações internacionais. Permite o alargamento da network, da rede de trabalho, tanto individual como organizacional. E eu recomendo. São candidaturas trabalhosas, mas recomendo que as organizações enveredem por este caminho.
Obrigado, mas houve aqui na nossa conversa uma parte e agora isso despertou-me aqui o sentido para outra pergunta, afinal ainda não é a última, ainda tenho mais uma. Na nossa conversa, tu disseste que "foi por isso que já nos convidaram também para entrar no Europa Criativa". E às vezes também há um pouquinho esta ideia de qual é o caminho melhor. Se é o caminho Europa Criativa, numa lógica mais artística, ou se é o caminho Erasmus, numa lógica mais parceria para boas práticas. Como é que surgiu essa ideia Europa Criativa e como é que ela encaixa neste percurso? Já agora fiquei curioso.
O convite da Europa Criativa partiu de uma organização italiana, que é a coordenadora do projeto, que nos referenciou, ainda hoje não sei como, mas deve ter-nos referenciado em termos de redes, e que eles tiveram conhecimento de nós, em termos do nosso trabalho. Posso falar um pouquinho desse projeto também?
Sim, com certeza, estamos cá para isso.
Esse projeto chama-se PANG: Doomsday, o fim do mundo. Digamos assim, e a ideia é construir de forma inclusiva um festival internacional das artes performativas. São poucos parceiros, são quatro parceiros com os italianos a coordenarem. Na perspetiva da Glocal Music, nós não temos muita experiência no Europa Criativa, temos muita experiência, posso dizê-lo, no Erasmus, no Europa Criativa é o primeiro projeto. Se me perguntares o que é que eu aconselho às entidades artísticas, o Europa Criativa é mais vocacionado para atividades artísticas, mas, de qualquer forma, penso que tem nuances mais complicadas em termos administrativos do que o programa Erasmus. Eu sugiro, aconselho, para começar, que se comece com o Erasmus.
E como parceiro, se calhar.
E como parceiro, se calhar, sim. Mas isto é a minha perspetiva. Que não foi a nossa experiência, nós começámos logo como coordenadores, fomos logo lançados para a fogueira.
Valentes!
De forma. E correu bem, também com o grande apoio da Agência Nacional.
Esse também é um elemento muito importante. Ainda bem que referes isso. Às vezes ficamos com a sensação, por se tratarem de programas em gestão direta, que estamos sozinhos e não estamos.
Não, não estamos.
Quer do lado da Europa Criativa, quer do lado do Erasmus, temos a Agência Nacional que nos ajuda.
São pessoas fantásticas que estão sempre disponíveis e sempre presentes para esclarecer qualquer questão e dar todo o apoio necessário. Tanto da Agência Nacional Erasmus como da Agência Europa Criativa. São fantásticos, não posso dizer outra coisa. E que nos apoiaram muito no início deste processo, enquanto coordenadores no Erasmus e agora enquanto parceiros do Europa Criativa. Temos todo o apoio também da Agência Europa Criativa, qualquer questão que surja, sentimo-nos à vontade para colocar.
Essa mensagem é muito importante.
Reforçando isso, tu disse: "Estas organizações que começam agora não estão sozinhas neste processo, têm o apoio e eles estão lá para isso". Das agências, em todos os níveis, seja administrativo, seja pedagógico, também posso dizer que sim. Em termos de desenho das atividades, dos objetivos.
Até encontrar um projeto, um parceiro que seja necessário.
Sim, claro.
Luís, muito obrigado pela tua ajuda. Acho que deste aqui o sentido ao nome do nosso podcast, isto é, não é mais um podcast, tem, de facto, muita informação útil para todos que querem participar. E é isto. Muito obrigado.
Obrigado eu, obrigado nós, pelo convite e pela oportunidade. E bem-hajam.
Obrigado. Obrigado por estarem desse lado e até uma próxima conversa. Prometemos continuar a dar informações sobre financiamentos europeus para arte, cultura e criatividade e a partilhar convosco mais projetos inspiradores. Este podcast é uma iniciativa da Fundação GDA, no âmbito da Formação e Desenvolvimento. Estamos juntos, no mesmo palco.