Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta semana no Isto Não Passa na Rádio, o tema é: as canções dos candidatos às eleições legislativas. Sejam bem-vindos ao Isto Não Passa na Rádio. É já uma tradição, por alturas de eleições, associamo-nos também à editoria de política do Observador e, de alguma forma, entre aspas, cravamos candidatos às eleições para que nos enviem as suas canções favoritas. É por isso que comigo, Nelson Ferreira, prazer, olá, está o Tiago Pereira, como de costume. Olá, Tiago, bem-vindo.
Olá.
Mas também o Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador e que andou a chatear os diferentes candidatos, não só por causa deste assunto da música, mas por outros, seguramente, nos últimos dias.
Mas por causa do jornalismo.
Isso, essa coisa que dizem ser o jornalismo. Rui Pedro Antunes, bem-vindo, obrigado por estares conosco.
Prazer é meu.
Obrigado também por nos fazer chegar as playlists de candidatos, sendo que não temos todos os candidatos principais a estas eleições legislativas, mas temos já alguns. Vamos olhar para estas canções com mais ou menos significados que elas possam ter para cada um destes políticos e dos seus partidos. Eu confesso já que a minha abordagem às escolhas foi um bocado a estranheza, quais são as músicas mais estranhas para cada candidato, que são escolhas, o que me surpreendeu. E depois escolher algumas que eu acho que são realmente boas e que normalmente também não passam na rádio, outra das características do programa. Foi difícil, Rui, chegar a estas playlists ou eles colaboraram facilmente?
Isto é uma coisa aparentemente benigna para eles, mas de facto há aqui sempre um adiar, um empurrar com a barriga. Toda a gente diz que sim.
Não, porque pode ser sempre venenoso.
Pois pode. Imagina o que é haver aqui uma música enviada pelo líder do PAN que dizia, por exemplo, para terem animais ou do género lá para o meio.
Sem se perceber.
Aliás, fiquei logo surpreendido não ter as "Baleias" de Roberto Carlos. Podia ter.
Ah, cá está.
O "Atirei o Pau ao Gato" no PAN não se canta.
Não, deve ser outra letra.
"Atirei o Pau".
Mas só um pequeno resumo. Temos playlists de Rui Rio, Francisco Rodrigues dos Santos, Inês de Sousa Real, André Ventura, Rui Tavares e João Oliveira. É com estas que vamos partir para o Isto Não Passa na Rádio. Eu despacho já a minha parte. Abrimos o programa de hoje com Sophie Hunger, "Le Vent Nous Portera". É um original de uma banda que eu acho alguma piada, que são os Noir Désir, uma espécie de grande fenómeno pop rock francês. Essa canção tem a particularidade de ter sido reinterpretada aqui pela Sophie Hunger. Ela que já passou por Portugal, se bem me recordo, pelo menos por um Misty Fest aqui há uns anos. Apesar de ter nascido na Suíça, ao que parece, vive atualmente em Berlim. E uma outra particularidade é que esta canção faz parte de um filme que é o "Café de Fleurs", do Jean-Marc Vallée, que morreu em dezembro, um realizador canadiano que ficou mais conhecido pelo "Big Little Lies", a série Da HBO, acho eu.
É isso mesmo.
Que é bem boa. E ele depois chegou a dizer numa entrevista que o Café de Fleur não é inspirado no muito famoso com esse nome que existe em Paris, no Boulevard Saint-Germain, mas numa canção do Matthew Herbert, que se chama precisamente Café de Fleur. Para além dessa canção do Matthew Herbert, também na banda sonora desse filme do Jean-Marc Vallée, que é de 2011, está esta canção da Sophie Hunger, que eu estava aqui só a tentar perceber quem é que a escolheu. Exato, o João Oliveira, do PCP. É uma das que figura por lá. Também está lá a Carvalhesa.
Não esperava que ele escolhesse uma canção de uma suíça.
Sim, é verdade. Um neutro.
Neutralidade suíça.
Sim, mas associo ao PCP sempre uma coisa de mais atitude, não é?
Não, mas há aqui uma coisa, que é o João Oliveira costumava levar pessoas do Alentejo ao Parlamento a visitar. E era sempre uma confusão na zona de passar a segurança, por quê? Todos traziam sempre uma navalhinha. Alentejano que é alentejano, traz uma navalhinha. Então o que é que os polícias tinham que fazer? Colocar post-its em cada navalhinha com o nome da pessoa. Este é o Manuel. Então tinham que colocar isso e ele sempre que levava lá, queixava-se disto algumas vezes. Por que isso tem graça? Por que a navalha? Navalha, canivete, canivete suíço. Pronto.
Olha, boa associação.
Nada é por acaso.
Não é boa.
Nada acontece por acaso.
Seguimos agora com a primeira escolha do Tiago Pereira, alguma coisa que te tenha surpreendido nestas escolhas dos candidatos às legislativas?
Uma coisa que me surpreendeu foi logo aqui na primeira escolha que eu fiz. Eu escolhi uma canção da playlist de Rui Rio. E o Rui Rio escolheu uma canção do senhor Albert Hammond, que é um senhor que para muita gente é conhecido por ser pai do Albert Hammond Jr, que é guitarrista dos Strokes, mas que é um senhor de 77 anos, portanto, logo por aí, é um senhor com experiência. É um senhor que anda nisto há muito tempo e que já viu muita coisa e que já trabalhou com muita gente. Só para vocês perceberem, Albert Hammond já escreveu canções que foram cantadas pela Whitney Houston ou pelos Ace of Base.
Uou!
É assim que estamos.
Como é que vamos de um sítio ao outro?
E eu não estava à espera que ele escolhesse Albert Hammond. Preconceitos, tudo bem, mas quem não os tem? Albert Hammond, sobretudo esta canção, é uma canção de 72, tem muito a ver com folclore. Ele é britânico, nasceu em Inglaterra.
Gibraltar, não é?
Exato, tem origens em Gibraltar, portanto não é americano. E esta canção é sobre a conquista da vida na Califórnia.
Ok.
Portanto, esse lado de...
Se há sítio para conquistar a vida, a Califórnia será um dos melhores.
Mas lembrando que até na Califórnia chove, portanto, é uma figura de estilo.
Ok.
Que ele está a aproveitar isso para fazer uma espécie de metáfora da vida, mas atenção, o europeu a olhar para a América. Eu achei que havia aqui alguma relação, pode ser também um bocadinho forçada, mas parece-me que fica muito bem. E depois há este lado de experiência, idade, anda nisto há muito tempo e acho que fica bem.
Albert Hammond, "It Never Rains in Southern California". Escolha de Tiago Pereira no olhar à playlist de Rui Rio. É uma bela cantiga.
É uma bela cantiga e acima de tudo, eu gostava de ver Rui Rio numa espécie de chá dançante para pessoas engravatadas a dançar isto.
Sabes que Rui Rio-
Estou a imaginá-lo
...teve uma banda no Porto em que ele era o baterista. Ainda agora usa esses dotes. A última vez que o vi a praticar foi na Quinta da Malafaia, que é um arraial minhoto.
A praticar.
A praticar.
Às portas de Viana do Castelo.
A praticar o baterista.
Ele é uma espécie de Dave Lombardo. Não, ele é mais tugal, é um Kalú da Boa Vista. E ele toca bateria e não há aqui nestas escolhas umas grandes músicas de bateria. O Nelson estava ali a assessorar-me a dizer que o "Black Magic Woman" podia ter alguma
Tem muita percussão.
Muit percussão, não propriamente bateria.
Mas podia dar ali o toque.
Sim, mais pulgas.
Reparem que ele só repete duas músicas da mesma pessoa. E chama-se Santana.
Pois é, tem duas músicas de Santana.
Não vamos agora aqui comparar Carlos Santana com Pete Santana Lopes.
Nelson, nestas análises políticas, nós vamos ficar sempre a perder face ao Rui.
Por isso é que o recrutamos para esta emissão.
Acho que o outro Santana é mais consensual.
Tem Suzy quarto também, já não me lembrava, na playlist de Rui.
Ainda no outro dia ouvi uma coisa maravilhosa de Suzy quarto.
Ora bem, vamos à escolha do Rui Pedro Antunes, que também nos ajudou com estas playlists. Primeiro a arranjá-las para o programa e depois também a escolher algumas. E eu estava a tentar perceber porque tu vais à playlist da Inês Sousa Real, do PAN.
É verdade. E para começar logo a desrespeitar, há muitas músicas nessa playlist que passam na rádio e a que eu escolhi também passa na rádio. Que é a canção do engate de António Variações.
Essa canção devia estar na playlist de todos os candidatos.
Exato.
Mas está naquela que me parece ser o mais disponível para coligações até agora.
É o engate.
E há outra coisa aqui, eu vi que há uma música de GNR na lista, que é sub 16, podia ser uma coisa mais mainstream, tipo o "Efetivamente" que até tem: "Gosto das pulgas dos cães".
Pois é.
"De todos os bichos do mato". O que para o PAN era bastante adequado. Mas a minha escolha é a canção do engate, porque de facto o líder do PAN está disponível para se coligar ora com PS, ora com PSD. Não diz se é de esquerda, nem se é de direita, diz apenas que está livre.
"Tu tás só e eu mais só estou".
Aliás, o PAN ficou sozinho ao lado do PS a votar o último Orçamento de Estado.
Verdade.
E está livre. E António Costa também está.
Só uma curiosidade, a propósito ainda da playlist de Inês Sousa Real, há aqui uma canção que está repetida com a playlist de André Ventura. Ambos têm nas suas escolhas o "Purple Rain", do Prince. Não sei o que isto pode dizer, mas se calhar há esperanças até para estes entendimentos mais extremados. Achei curioso que tenham escolhido duas pessoas completamente diferentes, de ideologias completamente diferentes à partida, mas que podem ouvir a mesma canção contradiano o que cantava Rui Veloso.
Mas acho que é porque é uma canção gloriosa. É assim uma coisa de glória. Eu estou a imaginar um comício a acabar ao som.
Ou aquele concerto em Wembley.
Pronto.
"This song for my father".
Tens aquele solo fantástico do Prince no fim.
É hipotético.
Em falsete. Imagina o último comício da campanha a acabar com o Purple Rain e caem confetes púrpura. Não sei se numa próxima campanha isso vai acontecer.
Ia ver esse concerto, na boa. Bem, mas fechamos esta primeira parte com a canção do engate, António Variações, escolha do Rui Pedro Antunes, faz parte da playlist de Inês Sousa Real.
Tu estás livre eu estou livre. É uma noite para passar. Porque não vamos mudos. Porque não vamos tirar a aventura dos sentidos. Tu estás só e eu mais só estou. Tu tens o meu olhar. Tens a minha mão aberta. À espera de se fechar nessa tua mão deserta. Bem que o amor não é o tempo, nem é o tempo que o faz. Bem que o amor é o momento em que eu me dou, em que te dás. Tu que buscas companhia. Eu que busco quem quiser. Ser o fim desta energia. Ser o começo Tu continuas à espera do melhor que já não vem. E a esperança foi encontrada antes de ti por alguém. E eu sou melhor que nada. Bem que o amor não é o tempo, nem é o tempo que o faz. Bem que o amor é o momento em que eu me dou, em que te dás. Que o amor não é o tempo, nem é o tempo que o faz. Bem que o amor é o momento em que eu me dou, em que te dás. Que o amor não é o tempo, nem é o tempo que o faz. Bem que o amor é o momento em que eu me dou, em que te dás.
Está com o Isto Não Passa na Rádio. Esta semana andamos às voltas com as playlists que nos enviaram os candidatos às legislativas. Não temos, por exemplo, a escolha de António Costa, nem de João Cotrim Figueiredo, mas este trabalho de recolha também foi feito pela editoria de política do Observador. E é por isso que estamos com o Rui Pedro Antunes esta semana como elemento convidado do painel. Esta segunda parte inicia com uma escolha em português. Encontrei aqui uma que me surpreendeu. Tenho que ir ver quem é que a escolheu, que agora também já me estava a passar de cabeça, mas acho que é de Rui Tavares. "À Sombra desta Pirâmide" é uma canção dos Melery Fdadá. Primeiro, eu gosto muito dos Melery Fdadá, já tinha saudades deles. Acho que são das bandas mais interessantes da pop ali do final dos anos 80. Também muito por culpa de Nuno Rebelo e Anabela Duarte, os dois Melery Fdadá principais. A banda teve muitas transformações nos seus elementos, mas em 1987 também lançam este disco Melery Fdadá e as coisas que fascinam. "À Sombra desta Pirâmide" é uma dessas canções do disco que ficou mais conhecido pela Zuzi Zavanovi, mas vamos a esta, que é uma escolha de Rui Tavares. Música dos Melery Fdadá, uma das escolhas de Rui Tavares para esta playlist que enviou ao Observador. De resto, Rui Pedro Antunes vai dar também um artigo no site do Observador, ou já saiu até, com uma análise mais aprofundada a estas escolhas?
É verdade. Isso tudo estará disponível no site do Observador.
Ótimo. Melery Fdadá.
Deixa só eu dizer que imagino mais o Rui Tavares a dançar isto do que o Rui Rio a dançar Albert Hammond.
Lembras-te do-
E com mais ginga
... Rui Tavares a dançar com os Já Fui à Lua?
Pois, essa imagem.
Fado Bicha.
Exato. Fado Bicha. Foi tal e qual.
Que estão agora também entre os selecionados para o próximo Festival da Canção. Olha, em propósito dos Melery Fdadá, estava a recordar agora como é que esta canção tem este lado arábico, "À Sombra desta Pirâmide". E depois estava a lembrar que no final dos anos 80, de facto, havia aqui uma imagética árabe que entrou um bocado no pop rock, por exemplo. Lembrei-me assim de repente do rock da Casbah, dos Clash, mas também dos 40 graus à sombra dos portugueses Radar Kadafi, que também é uma canção de 1987, assim como esta.
Mas faz sentido. O Rui Tavares, se não me engano, está Quase a fazer 50 anos, no final dos anos 80. Início de 70, 80, portanto estava na adolescência. Devia estar a absorver toda essa nova pop portuguesa.
Também tenho sempre essa ideia de que a política e os acontecimentos na política a nível mundial, às vezes geram umas vagas que depois chegam à música. Não sei o que aconteceu durante esta altura ou se se falava bastante do Médio Oriente. Estaria, se calhar, muito nas notícias nessa altura.
Houve a guerra no Iraque, depois a Guerra do Golfo, anos 80 e 90. Não sei se é dessa época que estão a falar.
Houve o Rambo.
Se bem que aqui não ia tanto por aí. Acho que os Melery e Fada é que sempre tiveram muito essa coisa de aspirar tudo o que era referência e que pudesse ser influência e depois transformavam aquilo nas suas canções.
Os Popdelarte também têm esse rótulo, mas eu acho que os Melery e Fada ainda são uma banda mais arty que os Popdelarte nesse aspeto.
Sim, mas havia muito isso. E falavas também do Nuno Rebelo e da Anabela, mas depois o Pedro Dorez, a voz também teve um papel fundamental nisso.
E os TURP, em 2019. Estados únicos de representação parlamentar.
Qual é esse?
Estava só a tentar aqui equilibrar.
Não.
A tentar utilizar a terminologia parlamentar para ver se equilibrava as coisas.
Comentem lá esta agora.
Sim. E nós perdemos, obviamente.
Viste o silêncio?
Deixamos Rui Tavares e a próxima escolha é do Tiago Pereira, que olhou para a playlist ou saltou-lhe alguma coisa à vista da playlist de Francisco Rodrigues dos Santos, AKA Chicão.
Sim, Francisco Rodrigues dos Santos escolheu uma canção de Samuel Úria. Podemos fazer imensas teorias para justificar tudo isto. Podemos dizer: "Sim, Samuel Úria, temo-lo como um artista assumidamente de direita". E especificamente esta canção chama-se "Império". Todas as estrofes acabam com a expressão: "Vou marchar pelo império". Ora bem, primeiro acho que temos que ter em conta que Samuel Úria é um verdadeiro artista a trabalhar a palavra, a ironia e a metáfora. Portanto, é preciso ter calma. Não sei até que ponto o Francisco Rodrigues dos Santos levou isto à letra, mas eu acho que tem graça ele escolher esta canção. E tem graça esta canção, porque a canção tem versos como: "Acredito que depois de morto serei solto, para isso não tenho que ser bom, tenho que ser sério. O caminho é estreito demais para o meu ego." Coisas destas. "Ser imperialista é coisa tida do passado", por aí fora. "Faço o bem que quero e o mal que não quero, não faço." Portanto, há aqui muitos versos que estão associados a uma moral ou uma necessidade de moral, que eu acredito que no caso do Samuel Úria, do autor, esteja ele a brincar com essa ironia e com essa metáfora, que é uma coisa que ele faz muito bem. E depois há outra coisa engraçada, que é esta canção faz parte do álbum "Nem Lhe Tocava", que não sei se podemos associar ao resultado das eleições, eventualmente, de domingo. E a segunda canção chama-se "Não Arrastes o Meu Caixão", que é deste álbum também. E não sei até que ponto Francisco Rodrigues dos Santos não podia ter escolhido essa.
Para a sobrevivência do CDS, de facto.
Isto é a minha fraca análise política, atenção.
Eu acho que pode estar aí.
Assumo os meus erros.
Mas o Rui também esteve a olhar com atenção para a letra do Império e também encontrou lá coisas.
E tirou as suas conclusões.
Tirou as suas conclusões, sim, também.
Sim, há ali uma parte que diz: "E ao queimarem uma bandeira, segura o faixo com orgulho inflamado, vou marchar pelo império". Não sei se há aqui alguma ligação, mas como dizia o Tiago, há aqui múltiplas interpretações. Não vou arriscar a descodificar Samuel Úria.
Eu acho que é muito mais interessante alertar as pessoas para elas próprias fazerem essa associação entre Francisco Rodrigues dos Santos e esta canção. Acho que é um exercício divertido.
Estamos a dar a cana, agora as pessoas pesquem. Estamos a ensinar a pescar.
É isso que se chama evangelizar.
"Império" de Samuel Úria, escolha do Tiago Pereira. Esta é uma canção que faz parte da playlist de Francisco Rodrigues dos Santos. Acredito que depois de morto eu serei solto. Para isso não tenho que ser bom, eu tenho que ser sério. Não contabilizo as boas ações, palavra de escuteiro. Sem contas de cabeça eu vou marchar pelo império. As leis da historicidade ligam a sirene. Pedem que abande o riso, eu tenho que ser sério. Ao mandarem-me encostar, não tiram a mão do coldre. Deixo o carro e vou marchar pelo império.
É estreito demais pra o meu ego. Mas pra me tornar numa criança, eu tenho que ser sério. Não é a estrada que se alarga, sou eu que me apequeno. A passo de bebê eu vou marchar pelo império. Ser imperialista é coisa tida do passado. Pra me mostrar tão certamente errado, tenho que ser sério. Ao queimarem-me a bandeira, eu seguro o facho. Com orgulho inflamado eu vou marchar pelo império.
Chama-se "Império", é de Samuel Úria, faz parte da playlist de Francisco Rodrigues dos Santos e foi uma escolha do Tiago Pereira para este Isto Não Passa Na Rádio, que está aqui a pseudoanalisar as escolhas feitas para "O Observador" por alguns dos candidatos às legislativas deste fim de semana.
Desculpa, Nelson. Neste caso, não imagino Rodrigues dos Santos a dançar isto, mas imagino de olhos fechados, camisa aberta e a gravata atada na cabeça, na testa, como no fim de um casamento.
Sim, ele tem sempre um bom cordão ao pescoço. Às vezes, camisa aberta e tem sempre um cordão.
Faz sentido.
Já reparei nesse pormenor de Francisco Rodrigues dos Santos. Se calhar, daqui a pouco fechamos com uma escolha do Rui Pedro Antunes, que me parece foi uma das escolhas de André Ventura. De resto, Rui Tavares, pedimos 10 canções, ele enviou 25.
É verdade, é essa a referência.
Tem piada, porque ele não conseguiu só escolher 10. Parece-me também dos mais ecléticos e também o mais atento à música mais recente.
Se calhar, ele enviou-nos mesmo uma playlist que tem no Spotify.
Sim, é provável. Tem Bruno Pernadas, de quem gostamos muito também. Tem Stromae, o tal belga que ainda há pouco tempo passou aqui pelo programa. Tem Andrew Bird, era também uma das tuas escolhas.
Era.
"Tables and Chairs".
Tem Elsa Soares, que morreu durante a campanha.
Tem Elsa Soares, é verdade.
Eu escolhi só o Andrew Bird, porque o Andrew Bird muitas vezes quando faz os concertos e em estúdio, faz quase tudo sozinho.
É como a Voice Over.
Exato. E achei que fazia sentido, tinha a ver com ele.
E tinha aqui também Linda Martini, não era, Rui? Tu estavas a referir a Linda Martini que estava na playlist de Rui Tavares, muita música nacional.
Sim, é uma canção que é quase antifascista. Ainda há pouco comentava isso com o Gonçalo Correia, que não está aqui porque está na estrada em campanha.
Mas estamos todos nós. Alguém tem que estar.
E em que há uma parte da música que diz: "Preto, negro, de cor escura, branco ou cor-de-rosa, como cal em pedra dura, chinês made in Taiwan, amarelo, olhos em bico, um cigano, um do leste e um zuca, entrou num bar com ar aflito".
É de quem essa canção?
Linda Martini.
Ai, é de Linda Martini. Desculpa, não percebi.
Tem o sugestivo título de "E não sobrou ninguém". Parece quase aquele célebre verso, não é verso, aquele texto do Brecht, de primeiro levar os comunistas, etc. Neste caso, e não sobrou ninguém. E estas questões raciais estão à volta da campanha sempre.
Muito bem. Rui, estava aqui também a olhar para algumas curiosidades. Francisco Rodrigues dos Santos tem o "Lado Lunar", de Rui Veloso, enquanto André Ventura escolhe "Porto Sentido" de Rui Veloso. E esta "Porto Sentido" de Rui Veloso pode ter algumas interpretações aqui na playlist do André Ventura. De resto, Rui, fizeste um exercício que foi olhar a playlist que ele também já nos tinha enviado para as presidenciais. Há muitas diferenças.
Deixa-me só dizer que o lado lunar de Francisco Rodrigues dos Santos é Nuno Melo. Dito isto, na playlist que nós pedimos na altura, pedimos 15 músicas, agora pedimos 10. Só há uma música que André Ventura repete. Todas as outras ele colocou de parte e deu músicas novas. A instabilidade de André Ventura, que é um muda de opinião muitas vezes, está bem plasmada aqui nestas alterações, porque ele só manteve, de facto, uma única música. Retirou, por exemplo, uma música dos Madredeus, que era "As Ilhas dos Açores", porque na altura era uma conquista triunfante fazer parte de uma coligação de direita nos Açores, em que ele acabou por ser aquele sapo que incha muito e depois foi obrigado a segurar um governo, mesmo perdendo um deputado. Enfim, correu-lhe tudo mal nos Açores, ele próprio admite isso. Portanto, já retirou isso da lista. Mantém o "Porto Sentido" do Rui Veloso, porque o Porto resiste a André Ventura, é uma espécie de distrito Aldeia Galesa.
Achas que também não foi porque a música começa a dizer: "Quem vem e atravessa o rio"?
Pode ser isso.
Nelson, tu estás a fazer-te a um lugar na seção de política.
É verdade.
Pode ser por causa desse primeiro verso da canção.
Mas o Rio é que já tem André Ventura um bocadinho atravessado e vai dizendo que não faz coligações com o Chega. Vamos ver se é isso que se passa depois das eleições e como é que é essa travessia ali da ponte Árabe do Porto, também é local muito querido a Rui Rio, só que também, tirando o Tiago Pereira, editor de cultura, que escolheu a playlist de Rui Rio pra falar aqui, não estou a ver mais ninguém. Agente cultural que se deu muito bem com Rui Rio, também não estou a dizer que o Tiago dá. Estou a fazer aqui uma ponte da Arrábida.
Eu esforcei-me, mas de facto não é fácil. Não é uma relação fácil.
Não, de facto, não.
O Porto não tem sentido muito a tal onda que André Ventura acha que consegue chegar a todo o país. E há um Porto que resiste a André Ventura, mas ele insiste O Porto resiste e ele insiste com o Porto Sentido e a escolha, a única que ele repete de uma playlist de Janeiro a Ano.
Ele que fale com o Napoleão.
Exato. Ficava aqui mais tempo, até porque há ainda músicas muito interessantes que estão nestas playlists, mas leiam também no site "O Observador" esse artigo que olha com mais pormenor para estas escolhas dos candidatos às legislativas. Foi o mote para o programa de hoje, que fecha com Rui Veloso, "Porto Sentido". Agradecer ao Rui Pedro Antunes, que esteve conosco hoje. Obrigado pela chegada das músicas e também pela tua participação. Tiago, voltamos para a semana. Esperamos que já com Gonçalo Correia, de quem temos muitas saudades. Um abraço. Até para a semana.
Até para a semana.
Quem vem e atravessa o rio junto à Serra do Pilar vê um velho casario que se estende até ao mar. Quem te vê ao vir da ponte, és cascata sanjoanina erigida sobre um monte no meio da neblina. Por ruelas e calçadas, da ribeira até à foz, por pedras sujas e gastas e lampiões tristes e sós. Esse teu ar grave e sério num rosto de cantaria que nos oculta o mistério dessa luz bela e sombria. Ver-te assim abandonado nesse timbre pardacento, nesse teu jeito fechado de quem mói um sentimento. E é sempre a primeira vez, em cada regresso a casa, rever-te nessa altivez de milhafre ferido na asa. Ver-te assim abandonado nesse timbre pardacento, nesse teu jeito fechado de quem mói um sentimento. E é sempre a primeira vez, em cada regresso a casa, rever-te nessa altivez de milhafre ferido na asa.