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Olá, bem-vindos a mais um "Isto Não Passa na Rádio". Cá estamos nós de volta e trazemos conosco um tema que tem vindo a ser recorrente, pelo menos no final de todos os meses, porque nos debruçamos a acompanhar os lançamentos que mais gostamos e que ocorreram nos dias que passaram. Vamos começar com C. Tangana, em espanhol, que lançou o seu disco "El Madrileño", e vamos começar a ouvir a música "Comerte Entera", porque isto ainda não passa na rádio.
Sejam então bem-vindos a mais uma edição do "Isto Não Passa na Rádio". Eu sou o Nelson Ferreira, comigo está o Diogo Lopes. Diogo, olá.
Ora viva.
E também o Gonçalo Correia. Gonçalo, como vais?
Está tudo bem. E convosco?
Está tudo espetacular também.
Tudo joia.
Por estar em casa, está perfeito.
Eu como já estou encerrado há tanto tempo, que para mim, já está.
É mais um dia.
Siga a marinha. Exato, é só mais um dia.
Bem, estamos de regresso com o "Isto Não Passa na Rádio" e com os discos os nossos favoritos de fevereiro de 2021. O que é que no último mês as edições discográficas nos deram que valha a pena ouvir? Claramente para o Diogo Lopes, C. Tangana. Estou muito confuso com tudo isto que aconteceu aqui. Eu não consigo descrever que género é este ou que misturaria de géneros estão aqui, mas há, de facto, aqui uma brasileirada qualquer misturada com Caribe e um título demasiado explícito para o meu gosto. Mas Diogo, a escolha é tua. Quem é C. Tangana?
C. Tangana acho que nos traz um bocadinho àquele tema, que eu acho que nós já falámos aqui, que é o ser brega ou não, eis a questão, em relação a essas coisas mais latinas, muitas vezes associadas ao movimento do perreo ou do reggaeton. Este C. Tangana sempre foi para mim um nome que eu associava a este género, mais azeiteira até, diria, ou a parte mais azeiteira deste movimento. Mas, de facto, quando vi que ele tinha lançado este disco há pouco tempo, fui espreitar um bocado naquela de dizer: "Olha, deixa lá ver". Quando mais não seja, ficava com uma coisa com que gozar. Mas a verdade é que isto foi para mim uma grande surpresa, porque acho que até mesmo olhando para coisas mais antigas dele, que eu confesso não ser nenhum expert, antigamente não me chamava muito a atenção, mas de facto este "El Madrileño", que foi lançado dia 26, gostei muito. Para mim foi surpreendente, acho que não é uma obra-prima, mas ainda assim tem uma série de canções, como esta "Comerte Entera", que falavas bem de um registo assim meio abrasileirado. Chama-se "Comerte Entera".
Ah, ok.
Eu acho que os nossos ouvintes percebem o suficiente portunhol para perceberem o que é que isto quer dizer. Vou escusar a traduções. Mas esta canção é feita em parceria com o Toquinho.
Brasileiro.
Exatamente, que não deixa de ser inusitado ter aqui um dinossauro clássico incontornável a colaborar com esta vertente mais jovem. Também dizias, Nelson, que não sabes descrever muito bem que género é que isto é, mas eu vi ali alguém a descrever esta sonoridade como sadcore. Eu achei piada, acho engraçado.
Isto em Espanha está a fazer furor.
Sim, este rapaz é de Madrid, e este é o madrilenho, dizem as vozes espanholas do meio, que é uma espécie de um alter ego dele, daí se calhar também esta divergência estilística em relação àquela-
Mas espera que eu distraí-me aqui um bocadinho, se calhar já respondeste a isto. Ele é espanhol?
É.
Ok.
Ele é de Madrid e não é porto-riquenho ou colombiano, como normalmente estes nomes costumam ser. Este é mesmo espanhol.
Há aqui uma coisa que já percebemos, é que nem com fronteiras fechadas isto ficou daquele lado.
Sim, sem dúvida nenhuma. Mas eu acho que ajudou muito as colaborações que este C. Tangana fez neste álbum, onde temos alguns nomes muito conhecidos, como este Toquinho, claro, mas temos também uma música com os Gipsy Kings, temos outra com o José Feliciano. Ou seja, há aqui muita surpresa pelo meio, quando mais não seja, coisas inusitadas. Porque de facto também tens uma vibe meio Rosalía, do tempo do "El Mal Querer", porque tens muitas sonoridades clássicas que normalmente associamos ao imaginário espanhol, aquele meio flamenco, uma música meio cigana, com guitarras, palmas e coisas assim. Esses elementos estão muito presentes no meio disto, mas tudo sempre com uma roupagem mais eletrónica e atual, que me deixou com a pulga atrás da orelha.
É um bocado aquela ideia de mistura de tradição.
Sim.
De ritmos e de percussões tradicionais.
Eu gostei muito da canção nominal também, que é feita em parceria com um senhor chamado George Drexler, que eu, confesso a minha ignorância, não sabia quem é, mas parece-me que é um tipo bastante conhecido.
É.
Lá da fronteira. Mas essa música também ficou na retina, como dizem os nossos colegas.
Eu acho que isto é reggaeton progressivo.
É, pode ser.
Não é?
Prog reggaeton.
Sim. Vamos avançar e deixar o C. Tangana para trás, a escolha do Diogo Lopes a abrir o Isto Não Passa na Rádio dedicado aos discos de fevereiro. Continuamos na Europa. Vou até à Bélgica. Os Balthazar têm um novo álbum, chama-se "Sand". De resto, a banda tem já este que é o quinto trabalho. Eu confesso que só me entraram no radar ali por volta de 2019, quando lançaram o "Fever", que foi um belo disco. Depois também acompanhei um disco a solo do vocalista dos Balthazar, "Warhouse". E agora só descobri mesmo recentemente, há bocado, que eles tinham um disco novo. Chama-se "Sand". Já estive a ouvir aqui algumas canções, ficou-me mais no ouvido esta que escolhi para vocês. "I Want You" é o mais recente single de "Sand", o novo disco dos Balthazar, eles que já passaram por Portugal e que acabam de anunciar novos espetáculos no nosso país, se a pandemia deixar. Já dou conta aí das datas dos Balthazar para Portugal ainda este ano. Eles estão a acreditar na vacinação. "I Want You", o novo single dos belgas Balthazar para o novo disco "Sand". "I Want You", o novo single dos Balthazar. Que tal? Gostaram?
É giro. Começamos este programa com a toada meio sexy slick.
Calma, já vamos mudar.
Já vamos todos adormecer aqui um bocadinho. Ponha aí uma sugestão do Gonçalo. Estou a brincar. Daqui a pouco, de facto, vamos olhar para Cassandra Jenkins, sugestão do Gonçalo Correia. Só dar conta ainda aqui dos concertos já anunciados pelos Balthazar, ainda para este ano. Halloween, 31 de outubro, Hard Club, no Porto, 1 de novembro, Aula Magna, em Lisboa. Eu estou a torcer para que estes concertos se realizem. Eu já vi o espetáculo deles, eu acho que foi no Super Bock em Stock que os vi. Eles já foram a Paredes de Coura também. E já estão a ter um certo hype de há alguns anos para cá em Portugal, num movimento mais alternativo, se quiserem.
Eu nunca os vi, mas tenho ideia de ver várias vezes o nome deles aparecer associado a cartazes, festivais e concertos.
Eles andaram durante algum tempo a fazer primeiras partes na Europa dos Editors, mas eu acho que eles são melhores que os Editors. Desculpem os fãs dos Editors. Os Balthazar têm esta toada muito sexy, sempre muito bem vestidos, de camisas engomadas, blazers. Faz lembrar um pouco aquela linhagem de bandas, claro, inevitável, os Deus, mas depois aquele projeto também, os Zita Swoon. Malta, primeiro, que toca muito bem, e depois que tem também sempre muito bom aspeto. Não sei se são influências jacques brellianas nesta malta da Bélgica, mas tenho gostado pelo menos das três, quatro canções que consegui escutar hoje do novo disco dos Balthazar. Chama-se "Sand" e quem dera que eles consigam tocar lá para outubro, novembro, em Portugal, como foi anunciado há dias. Seguimos agora com a sugestão do Gonçalo Correia, Cassandra Jenkins. Cassandra foi a primeira novela da América Latina, para além de brasileiras, claro, a bombar aqui em Portugal. Lembro-me no início dos anos 90 de uma Cassandra. Era uma novela venezuelana. As coisas que eu me lembro.
Por acaso não me lembro disso. Não sabemos porquê, mas não tenho memória disso.
Porque o Gonçalo tem sempre na ponta da língua as referências a imensas telenovelas. Especialmente anos 80, 90.
E venezuelanas e mexicanas, particularmente.
Sim. Mas trouxe aqui a Cassandra Jenkins e a fazer essa graçola, que é: isto está tudo muito animado, muito dançante. Portanto, se calhar vamos acalmar um bocadinho isto.
Vamos matar a libido deste programa, não é?
É isso. Mas bom, uma coisa que eu queria dizer sobre este mês de fevereiro, em termos de edições, e liga-se um bocadinho à escolha da Cassandra Jenkins, é que se nós olharmos, parece-me um bocadinho notório que a produção feminina de qualidade, de compositoras mulheres, está cada vez mais forte em termos de quantidade. Começa a ouvir-se em cada vez maior quantidade, sobretudo se tirarmos da equação a parte só de interpretação e pensarmos mesmo em cantautoras, em cantoras compositoras, que escrevem sua própria música. Temos, por exemplo, a canadiana Weather Station, temos esta Cassandra Jenkins, que ouviremos, e a Julian Baker, temos a portuguesa Beatriz Pessoa, temos a americana Leigh O'Neal, temos a australiana Tash Sultana e temos uma neozelandesa que vive na Austrália chamada Sarah Mary-Chadwick. Portanto, há muitos discos dignos de nota de autoras femininas a solo.
Só em fevereiro.
Só em fevereiro. Mas este que eu vou destacar aqui é, de facto, a Cassandra Jenkins e chama-se "An Overview on Phenomenal Nature". É uma das minhas grandes surpresas do mês. A revista Pitchfork tem um texto interessante no seu site que tem como título: "A música folk hipnótica de Cassandra Jenkins transforma os momentos do dia a dia em monumentos". Explica um bocadinho quem é esta moça, como ela usa também conversas, posts de Instagram, reflexões quotidianas, conversas diárias, também para fazer canções. Ela licenciou-se, pelos vistos, numa faculdade de artes plásticas e design, teve empregos bastante normais, tocou muito em muitas bandas diferentes a tentar singrar. Aparentemente, já tinha discos anteriores, eu não fazia ideia de quem era, mas supostamente valeram-lhe comparações a George Harrison e Emmylou Harris, segundo a biografia oficial. Já tocou na banda da Eleanor Friedberger e chegou a ensaiar para ir em digressão com os Purple Mountains, mas uma digressão que acabou por não acontecer porque o David Berman morreu. Isto é folk, e a Pitchfork usou o termo folk no título, e é folk, de facto, mas não é folk pura, não é voz, guitarra acústica e cá vai disto. É uma espécie de ambient folk, se quisermos, porque é uma folk muito cheia de instrumentos e muito ambiental. Há uma toada meio jazzística, com saxofone, meio espacial. Ou há umas partes mais de narração, tipo spoken word. Há uns sons de rua, passos, ruídos de bicicletas a andar. Tem um bocadinho esse lado de rua misturado com canção folk. Mas esta canção que eu trouxe aqui, como é que se chama, Nelson? Recorda-me só.
Não sei. Deixa-me ver. Só consigo ler aqui o nome da senhora, mas New Bikini. Ok, está aqui.
Exato. Foi essa que eu tinha posto. É um tema interessante e vale a pena para conhecerem melhor esta Cassandra Jenkins.
No fecho da primeira parte do Isto Não Passa na Rádio, sugestão do Gonçalo Correia. Já voltamos com mais discos dos nossos favoritos de fevereiro.
After David passed away, my friends put me up for a few days off the coast of Norway and every morning they'd say, "Baby, go jump in the ocean. It's cold enough to get your blood moving. The water, it cures everything". My mom asked if I was okay, I said nothing to do about DNA. She worried at me, went out and bought me a new bikini. Said, "Baby, go to the ocean. The water, it cures everything. Yeah, the water, it cures everything". My friend Gray is sick again. The doctor shell out medicine and that there might be something in the mind-body connection. So I told him, "Baby, let's get you to the ocean". Everybody's saying it cures everything. The water, it cures everything.
E já estamos de regresso para a segunda parte do Isto Não Passa na Rádio. Eu sou o Nelson Ferreira, comigo está o Gonçalo Correia. Olá, Gonçalo.
Olá, Nelson.
Era só para confirmar que tinhas vindo na segunda parte. E o Diogo Lopes.
Oi.
Também não abandonou. Positivo, estamos os três.
Afirmativo.
Estamos esta semana aqui a mostrar alguns dos nossos discos favoritos do mês de fevereiro. As coisas andam assim um bocado paradas ou andaram, principalmente em 2020, no que toca a edições, mas eu acho que o início de 2021 já tem trazido um outro ritmo de lançamentos e é isso que estamos a olhar no programa de hoje. Ouça música nova, para não andarem sempre a ouvir aquelas coisas que têm 15 anos e cheiram a mofo. Por isso, nós estamos aqui a ajudar-vos. E a primeira sugestão desta segunda parte é do Diogo Lopes. Diogo, quem é que escolheste para abrir a segunda parte?
Isto agora vai ser um bocadinho vira disco teco mesmo, porque vou bater numa tecla que já ando a bater há uma data de tempo, tecla essa chamada Slowthai. Já foram várias as vezes que falei deste rapaz aqui, por isso não me quero estender muito. Basicamente, estamos a falar de um jovem rapper inglês, que lançou este mês de fevereiro o seu segundo disco, chamado TYRON, T-Y-R-O-N, tudo em letras minúsculas, que, como já se esperava, foi muito bem recebido pela crítica. Se bem que padece de um problema, que por acaso eu e o Gonçalo aqui há uns tempos tivemos a oportunidade de trocar umas bolas sobre isso, que é aquele fenómeno de serem lançados tantos singles em antecipação ao lançamento de um álbum, que depois, quando finalmente tens o álbum nas mãos para ouvir, pensas: "Já conhecia isto tudo, é só mais isto". Corta ali um bocadinho aquele efeito.
Um bocado como os King Gizzard. Também lançam sete discos por ano, não é?
Sim, então chega a ser um exemplo por absurdo. Mas este TYRON é o É o sucessor de "Nothing Great About Britain", de 2019, que foi um álbum de estreia também muito bem recebido. E este "Tyrone" mostra claramente um reforço de estatuto, se calhar uma afirmação, quando mais não seja pelas pessoas que nele acabam também por participar. Temos o Skepta, o A$AP Rocky, James Blake, Denzel Curry, ou seja, é só gente boa. Mas também sem grandes demoras, a música que eu escolhi foi uma que não foi nenhum dos singles. Muito procurei e consegui encontrar uma que não tinha sido single, que é esta canção que vamos ouvir, que se chama "I Tried", que pra mim tem a particularidade talvez de ser um pouquinho mais autobiográfica, ou mesmo que não seja totalmente autobiográfica, tem alguns pormenores mais pessoais sobre este tipo, que parece estar sempre muito chateado com o mundo. E nesta canção percebemos um pouquinho de onde é que vem toda essa revolta. Por isso, assim sem grandes demoras, vamos então ouvir o Slowthai com a canção "I Tried", do disco "Tyrone", lançado este mês de fevereiro. "I Tried", aqui a escolha de Diogo Lopes para este britânico que, de facto, está sempre assim um pouco zangado. Se bem que aqui está num registo um bocadinho mais simpático, diria. Sim, mais introspectivo, quanto mais não seja.
Sim, esta canção, o disco está dividido em duas partes. A primeira parte, as primeiras sete canções, é um bocado o Slowthai sempre a rasgar, meio trap, mas com muita energia. E depois esta "I Tried", começa a segunda parte, que é uma parte um bocadinho mais introspectiva, mais os seus problemas e tal. Sim, um bocado isso. Aliás, a canção com o James Blake faz parte desta segunda metade e é um belíssimo tema também.
E todos sabemos que músicas com o James Blake nunca podem ser grande excitação.
Sim.
Não, se não ele desmaia. É uma condição dele.
Mas olha que é uma canção bem boa.
Sem dúvida.
Muito bem, vamos avançar. De resto, Gonçalo, já tínhamos aqui comentado também alguns discos portugueses que saíram entretanto. Estava-me a lembrar do "Luta Livre", do Varatójo. É de fevereiro também, não é?
É de fevereiro, exatamente.
Tem aquela canção do sushi no Japão, que eu gosto.
E a política também é engraçada.
Gostei deste disco, o "Luta Livre".
É um disco interessante e é um disco com vontade de intervir sobre uma série de coisas sérias e relevantes, e fazendo boa música a propósito delas. É interessante. Mas também tinha visto aqui o Dada Garback, que na verdade é o projeto de um rapaz de Guimarães, de um tipo de Guimarães chamado Rui Sousa. É um disco meio jazzístico, meio pop, para fãs de Bruno Pernadas, por exemplo.
Sim, edição da Revolve, acho eu, que é também uma editora de Guimarães.
Exatamente. E há outras coisas. Falei da Beatriz Pessoa há bocadinho. Há o Luís Figueiredo no jazz.
Estou em pulgas para que saia a mixtape dos Orelha Negra, aquela que eles costumam fazer sempre um disco e depois passado um ano ou dois sai uma mixtape com vocalistas convidados. Já saíram por aí três ou quatro singles, ainda não saiu propriamente a mixtape, mas nos últimos dias, semanas, saiu uma participação com a Garota Não, "Ready, Mulher Batida", um hino feminista que eu gostei muito e que tem um belo vídeo também. Aliás, o vídeo é uma pintora a fazer um quadro e esse quadro está agora, precisamente nesta altura, em leilão para ajudar a União Audiovisual, que tem dado apoio a trabalhadores do setor que estão nesta altura sem trabalho. Mas por falar em música de intervenção, diria que o novo disco de Lu Cargelle é um caso desse gênero. "Samba de Guerrilha", logo aqui o nome diz mais ou menos ao que vem. Eu gosto muito do Lu Cargelle, é um brasileiro que se radicou no Porto já há alguns anos. Ele tem andado aqui entre Porto e Lisboa, não sei muito bem onde estará a morar nesta altura, mas está em Portugal e isto é produção nacional, podemos dizê-lo. Já tinha gostado muito do Bandeira, mas principalmente do Conversa de Fila, que tinham sido os registos anteriores, assim se calhar bem mais suaves. E ele aqui decidiu fazer uma coisa bem mais ambiciosa. E a coisa ambiciosa que ele fez foi um disco de samba ópera, um bocado inspirado naquela coisa da ópera rock. E ele decidiu fazer um samba ópera.
Arriscado.
Muito arriscado, porque de facto nota-se que há ali Um lado mais roqueiro, diria, mais pesado nas canções, em termos dos instrumentos que usa e das toadas que lhe imprime. Mas toda a inspiração é sambista. As letras, algumas das canções são sambas antigos. Ele até revelou há dias um lyric video, acho eu, de uma nova canção que era uma homenagem a um desses antigos do samba. Ele tem canções dele e também outras que são aqueles clássicos, aquelas músicas populares que às vezes até é difícil perceber quem é o autor, porque aquilo anda já há 80 anos de boca em boca. Tem por lá canções muito giras e uma delas é esta "Pesadelo". Mostra-nos aqui o lado mais pesadão do "Samba de Guerrilha" do Lu Cargel. É um disco muito ambicioso na carreira do músico e que o leva para um patamar muito diferente daquelas canções que ele nos apresentava, que era muito ele e guitarra, muito mais despidos. Aqui há uma parede sônica, quase, em várias das canções, e há um narrador. Histórias de luta, histórias de glória, histórias de desventuras e de aventuras que ele vai contando. Parece uma espécie de epopeia também. E aqui fica um desses exemplos: "Pesadelo", para o disco "Samba de Guerrilha" do luso-brasileiro Lu Cargel. Esta é apenas uma das canções de "Samba de Guerrilha", também um disco longo, com muitos temas. Gonçalo, não sei se sabes de cabeça uma das canções que escolheste para a tua playlist de fevereiro que tens no Spotify, para além da "Pesadelo". Qualquer coisa de direito.
"Direito de Sambar".
Essa canção é espetacular. Ouçam essa, "Direito de Sambar", Lu Cargel.
Eu estive na dúvida entre pôr. O Nelson está a falar de uma playlist que, quem estiver a ouvir, procurar pelo perfil do Observador no Spotify, encontrará uma playlist relativa a canções de discos de fevereiro. É uma coisa, aliás, que a ideia é ir fazendo regularmente, mensalmente, uma espécie de best of da música que saiu a cada mês e dos discos que saíram a cada mês. Mas eu estava em dúvida entre essa, "Direito de Sambar", que está lá, e esta "Pesadelo", que é outra das minhas canções preferidas do disco Lu Cargel.
Muito bem. E agora, Gonçalo, és tu, não é? Há aqui Black Country com regresso aos discos.
Sim, neste caso é até um primeiro álbum completo, "Black Country, New Road". Uns rapazes britânicos de muita tenra idade, têm 20 e poucos anos. Eles têm andado nas bocas do mundo, pelo menos nas bocas da imprensa, talvez não do mundo, porque isso não é propriamente música pop acessível, mas a imprensa de um bocadinho de todo o lado. Não há praticamente meio musical que não tenha escrito sobre eles e que não os tenha elogiado por causa deste álbum que eles lançaram, o "For the First Time", que tem aliás esse título inaugural e que mostra esse vigor fresco da juventude. Já lhes puseram muitos rótulos, já lhes chamaram rock experimental, pós-punk, rock jazz, porque há ali uma espécie de tentativa de desconstrução do rock usando os instrumentos obviamente elétricos, mas também pondo ali saxofones, violinos e uma série de coisas meio estranhas, bastante freaks, se quiséssemos ir por aí. Mas eu acho que um bom termo para descrever a música deles seria free rock Usando a coisa do free jazz, o que isso significa para o jazz? Aqui é mais ou menos nesse patamar que estão os Black Country, New Road para o rock. Eles vêm a Portugal, têm concerto marcado para novembro, para a Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. Esse concerto, apesar das dúvidas e das incertezas sobre a Covid-19, já está esgotado. E eu só troco o meu bilhete comprado pelo fim antecipado da Covid, se alguém tiver o poder de decretar isso.
Abdicas do concerto para o fim da Covid.
Sim, abdico. É a minha condição. Se for possível, obviamente.
Tudo bem.
Até porque se for assim, talvez se fores à porta da sala no próprio dia, pode ser que tenhas sorte.
Sim, pode ser.
Win-win.
Eu trouxe aqui a "Athens, France", uma canção deste primeiro disco de afirmação dos Black Country New Road na música mundial e no panorama indie.
Já vamos ouvi-la até para fechar o programa de hoje. Queria ir aqui só um pouquinho ao Diogo Lopes, porque tinhas aqui a "Winter in America", que é de quem? Esta é uma versão de Gil Scott-Heron.
Exatamente, esta "Winter in America" foi uma coisa que eu descobri totalmente por acaso.
Vou vir aqui um pouquinho em fundo. Mas explica-me o que é isto.
Esta música é cantada pelo Freddie Gibbs, um rapper americano que nós já falamos dele aqui, e faz parte de uma espécie de coletânea que saiu também neste mês de fevereiro, que se chama "Black History Always: Music for the Movement", que basicamente é tal e qual aquilo que o nome diz, e é uma série de músicas, de versões, acima de tudo, protagonizadas por artistas negros, que dão uma nova roupagem a vários clássicos. E esta versão da "Winter in America" achei particularmente interessante, quanto mais não seja porque vemos Freddie Gibbs num registo diferente, ou seja, não está a rappar, mas está quase a cantar.
Gosto.
Aconselhava a ir dar uma vista de olhos.
Estou a gostar muito disto. Vou ter que escutar isto melhor. Queria vos dizer também que há um tipo que eu gosto muito, que lançou um disco em fevereiro, que me passou ao lado, só descobri há dias também. Há dias, como quem diz, há bocado. O Femi Kuti. Ele é filho do Fela Kuti, eu já tinha gostado de um disco anterior que ele lançou. E ele agora lançou uma coisa um pouco confusa, porque são dois discos, um chamado "Legacy Plus", em que ele colabora com o seu filho, Made Kuti, e depois um outro disco que se chama "Stop the Hate". O que é facto é que nos dois discos, pelo Spotify, percebe-se que algumas canções estão repetidas, surgem nos dois trabalhos. Uma delas é, por exemplo, esta "Pa Pa Pa". O Femi Kuti, filho da lenda do afrobeat Fela Kuti, tem sempre esta toada mais étnica, que eu gosto muito. Muitos sopros, sempre. Muito afrobeat. Mas depois também muitas letras de intervenção. Aliás, o disco chama-se "Stop the Hate". Acho que não é preciso explicar mais nada. E vamos fechar o Isto Não Passa na Rádio.
Deixa-me só dizer muito rapidamente, que não referimos, mas ainda teremos tempo mais para ouvir, porque também saiu há pouco tempo, o novo disco do Nick Cave, com o Warren Ellis, o "Carnage", que também saiu. E há outros discos que vale a pena descobrirem, dos Altin Gun, do Archie Shepp e do Jason Moran, da Weather Station, que já tinha falado aqui. Há muita coisa para ir ouvir nova.
Em fevereiro. Ouçam música nova. O Isto Não Passa na Rádio desta semana foi precisamente dedicado aos discos que saíram no último mês. Black Country, New Road, escolha de Gonçalo Correia para as despedidas. Gonçalo, um abraço. Até para a semana.
Um abraço.
Diogo, aquele abraço.
Força, um abraço.
Tchau.
"Why don't you sing with an English accent? Well, I guess it's too late to change it now. In the rural American town fairground, I go around and I go around. It's a great wide gulf between intentions and what ground met me. I check my phone and make the sound like theme from failure performed for just you. Like a new road built out of black country ground. I have learned so little from all I lost in 2018. I think she's still waiting there for us, somewhere underneath what we built to keep the waters clean. It's a one-size-fits-all hardcore cyber fetish early noughties zine. She sells matcha shots to pay for printing costs and a PR team. She's recently enlightened and for some reason that phases me. Won't give up, too soft to touch and how hard could it really be?"