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Hoje vamos falar aqui de um tema que me toca particularmente, porque sou uma pessoa sensível e além disso, sou escritor e fico sempre preocupado quando ouço falar em queimar livros.
Que, diga-se de passagem, é uma tradição bastante antiga, Bruno.
É verdade, Nelson. A descoberta do fogo é ainda mais antiga e mais benigna, porque os homens das cavernas usavam-no para se aquecerem, para assar uma costeleta de mamute e como não havia livros na altura, talvez mandassem para a fogueira os maus contadores de histórias. Depois, com a invenção dos livros, alguém se lembrou de juntar as duas coisas. E se pegássemos fogo a estes livros de que eu não gosto?
Sim, foi isso que terá pensado o imperador Qin Shi Huang, o primeiro imperador da dinastia Qin, que no ano 210 a.C. terá mandado enterrar vivos 460 académicos confucianos, daqueles que estavam sempre a arranjar confusão e ao mesmo tempo mandou queimar os seus livros.
Já no século XX, os nazis comandados por Joseph Goebbels, o homem que sacava da pistola quando ouvia falar de cultura e que sacava do isqueiro e da gasolina quando ouvia falar de livros de judeus, ou como eles diziam, anti-alemães, organizaram várias queimas de livros, que eram uma espécie de queima das fitas para os nazis, uma festarola.
Sim, outros livros foram salvos do fogo, por exemplo, os livros de Franz Kafka, que o autor checo pediu ao amigo Max Brod que queimasse após a sua morte.
Felizmente, Brod se calhar não tinha isqueiro, não sei, mas não cumpriu a última vontade do amigo. Caso contrário, hoje não teríamos acesso a obras-primas como "O Processo".
Mas olha, ainda hoje há quem não resista a fazer fogueiras com livros de que não gosta e as razões, na maior parte dos casos, são religiosas.
É, parece que há uma tendência no cristianismo para incendiar livros, algum cristianismo. Foi o caso do pastor evangélico de Nashville, Greg Locke, que incentiva os fiéis a queimar livros, como por exemplo, os livros das sagas Harry Potter e o Crepúsculo. E diz ele, por causa das influências demoníacas destas obras.
Uma pessoa começa a ler os livros do Harry Potter e quando dá por si, tem a sala cheia de espíritos a jogar Quidditch e a proferirem expressões que acordam os demónios com Wingardium Leviosa.
É, aquelas expressões mágicas do Harry Potter. Isto já para não falar dos livros do Crepúsculo, que, como toda a gente sabe, trazem lobisomens e a vampiragem toda para dentro das casas dos fiéis.
O que é aborrecido quando não se está à espera. A casa desarrumada, entram por ali adentro os lobisomens, os vampiros, não ligam à desarrumação, mas não se importam de deixar os sapatos à entrada para não sujar ainda mais, ok?
Quanto à cerimónia da queima dos livros, foi transmitida em direto no Facebook e pode-se ver os fiéis muito entusiasmados com a fogueira. Primeiro mandam paletes de madeira, que é para aquilo pegar, e depois passam aos livros, que também é um bom combustível.
Sim, cristianismo e piromania. Tínhamos aqui material para um belo ensaio.